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terça-feira, 21 de junho de 2016

Entre o património e a natureza, o fascínio da música ibérica.


A redescoberta dos compositores portugueses activos em Espanha no século XVII pelo maestro Albert Recasens e um passeio pelas ribeiras de Terges e Cobres no vale do Guadiana no encerramento do Festival Terras sem Sombra.
A estreia em Portugal do agrupamento La Grande Chapelle, dirigido pelo maestro e musicólogo Albert Recasens, com o programa “Inesperado Resgate: Compositores Portugueses na Espanha do Siglo de Oro”, levou no passado sábado um amplo público à Sé de Beja, sugestivo cenário barroco para a audição da música de Manuel Machado (ca. 1590-1646), Fr. Manuel Correa (ca. 1600-1653), Fr. Filipe da Madre de Deus (ca. 1630- ca. 1687) e Juan Hidalgo (1614-1685) em interpretações que combinaram rigor histórico e impacto expressivo. Este foi o último concerto da 12.ª edição do Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo – Terras sem Sombra (FTSS), este ano sob o tema Torna-Viagem: o Brasil, a África e a Europa – Da Idade Média ao Século XX  (ver PÚBLICO de 19 de Novembro de 2015).
Organizado pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, o FTSS assenta em três pilares que articulam a divulgação do património arquitectónico religioso com concertos e acções no âmbito da biodiversidade. Assim, antes do concerto de sábado foi assinalado o fim das obras de restauro da Igreja de Nossa Senhora ao Pé da Cruz, com o apoio da associação Portas do Território, a qual constituiu também uma importante parceria nas recentes obras de requalificação da Sé de Beja.
Esta foi a segunda edição programada pelo crítico musical Juan Ángel Vela del Campo —  o terceiro director artístico, depois de Filipe Faria (2003-2010) e Paolo Pinamonti (2011-2014) — pelo que os intercâmbios ibéricos estiveram em destaque, com um exemplo emblemático no programa de La Grande Chapelle, dedicado à música do tempo da monarquia dual (1580-1640). Com uma importante discografia composta por programas temáticos em torno da música ibérica dos séculos XVI a XVIII, este agrupamento dispõe de uma etiqueta própria (Lauda) criada em 2005.
O seu último CD, Música para el Rey Planeta, é dedicado a Juan Hidalgo, mestre da câmara real de Felipe IV e Carlos II de Espanha e um dos protagonistas do concerto de Beja, juntamente com os portugueses Manuel Machado (harpista e compositor ao serviço de Filipe IV em Madrid), Fr. Manuel Correa (carmelita calçado em Madrid e mestre de capela das catedrais de Sigüenza e Saragoça) e Fr. Felipe da Madre de Deus, activo em Sevilha e nas cortes de D. João IV e Afonso VI, já depois da Restauração. Vilancicos e tonos humanos e a lo divino, ou seja, de carácter profano ou sacro, foram criteriosamente encadeados, tendo em conta contrastes de carácter, variedade de texturas (mais contrapontísticas ou mais concertantes) e escolhas tímbricas. Quatro cantores com fortes afinidades com este repertório (ainda que o tenor tenha optado por uma abordagem mais lírica), entre os quais se destacou a soprano Eugenia Boix, pelo timbre cintilante e clareza na transmissão do texto, apoiados por instrumentistas experientes nos códigos da música renascentista e barroca proporcionaram interpretações depuradas de grande expressividade e eloquência retórica. Obras mais contemplativas como Ojos mios qué teneis? e Y las sombras de la noche, de Correa — uma revelação face aos mais conhecidos Machado e Hidalgo —, contrastaram com a graciosidade rítmica e a teatralidade das páginas de Hidalgo e Madre de Deus. Recasens dirigiu com precisão, elegância e sentido de estilo, deixando os seus músicos expressar-se de forma autónoma nas peças mais camarísticas e nas versões instrumentais.
Passeios em Terras sem Sombra

No domingo, sob um sol abrasador, mais de 50 pessoas realizaram o percurso que conduziu às ribeiras de Terges e Cobres, cujos cursos de água contribuem para criar verdadeiros “oásis” de biodiversidade. O passeio foi orientado pelo biólogo Pedro Rocha e terminou na unidade de agroturismo Xistos, onde foi realizada uma homenagem a Armando Sevinate Pinto (1946-2015), primeiro presidente do conselho de curadores do FTSS, e a Manuel de Castro e Brito (1950-1916), outro amigo do festival. “Um dos aspectos primordiais é o convívio entre músicos, espectadores e convidados, a experiência não se esgota na ida ao concerto”, disse ao PÚBLICO o director-geral, José António Falcão. “O público tem vindo a crescer, temos mais jovens e cada vez mais estrangeiros”, conta. Refere também que está a ser realizado um estudo sobre o festival ligado ao turismo ambiental. (Jornal Público – 21 Jun 2016)

terça-feira, 12 de abril de 2016

Morreu o ator Francisco Nicholson.


O ator, dramaturgo e argumentista Francisco Nicholson morreu hoje, aos 77 anos, em casa.
Francisco António de Vasconcelos Nicholson começou a fazer teatro aos 14 anos, no antigo Liceu Camões, sob a direcção do encenador e poeta António Manuel Couto Viana, a convite do qual veio a pertencer ao Grupo da Mocidade, que integrou com Rui Mendes, Morais e Castro, Catarina Avelar e Mário Pereira, entre outros.
Foi autor e ator da primeira telenovela portuguesa Vila Faia, na qual contracenou ao lado de atores como Nicolau Breyner, recentemente falecido, Margarida Carpinteiro e Manuela Marle, entre outros.
Estudou em Paris, frequentando a Academia Charles Dullin, do Théatre Nacional Populaire, privando com grandes nomes do teatro francês, como Jean Vilar, Georges Wilson, Gerard Philipe.
"Ficará na história como um grande autor"
O humorista e ator Herman José manifestou hoje uma "profunda admiração" pelo trabalho realizado pelo seu "grande amigo" Francisco Nicholson.
"Era uma pessoa de quem gostava especialmente, tivemos um encontro mágico em 1978, numa peça dele com a Ivone Silva, e ficámos muito, muito amigos", lembrou à agência Lusa Herman José, contando que eram vizinhos em Azeitão.
"Há uma grande tristeza, mas ao mesmo tempo uma profunda admiração por ter conseguido tanto em quase oito décadas de vida", disse, convicto de que Francisco Nicholson "ficará na história como um grande autor, muito mais do que ator".
O humorista recordou também o "ótimo letrista de cantigas", que escreveu "imensos êxitos musicais ligeiros", que ainda permanecem na memória dos portugueses.
Uma das melhores memórias que guarda do seu amigo é quando fez recentemente o programa "Há tarde". "Já muito doente e com uma grande dificuldade de locomoção nunca disse que não a um convite. Esteve sempre presente quase como rindo-se das suas próprias incapacidades", lembrou.
Por outro lado, foi "um sobrevivente" na doença: "Como é que um duplo transplantado de fígado consegue viver até aos 77 anos? É uma coisa histórica".
"Um enorme lutador"
A direção da Casa do Artista lamentou hoje a morte do ator Francisco Nicholson, considerando que além de um grande homem do teatro, da televisão e das novelas era "um grande ser humano e um enorme lutador".
A assessora da direção da Casa do Artista lembrou que Francisco Nicholson foi um "dos fundadores" da instituição, juntamente com Armando Cortez, Manuela Maria, Raul Solnado.
Consternado pela morte do amigo "de há muitos anos", Conceição Carvalho lembrou que Francisco Nicholson foi "um enorme lutador e um homem de causas".
"O Francisco era um grande homem de teatro, de telenovelas, de televisão. Era um grande homem de cena", frisou.
Francisco Nicholson encontrava-se doente devido a complicações resultantes de um transplante hepático a que fora submetido há uns anos, referiu.
"Falei com ele há duas semanas e ele encontrava-se bastante cansado. Estava a entregar os pontos", disse.
O autor de Vila Faia
O ator e argumentista Tozé Martinho lembra que este "foi uma pessoa muito importante na história das telenovelas" em Portugal.
"Foi o autor da primeira novela (portuguesa) de grande impacto", disse à agência Lusa Tozé Martinho, aludindo à telenovela "Vila Faia", em que Francisco Nicholson, além de autor, desempenhou o papel de polícia, ao lado de atores como Nicolau Breyner, recentemente falecido, Margarida Carpinteiro e Manuela Marle, entre outros.
Tozé Martinho disse ser "com desgosto e pena" que vê partir Francisco Nicholson, "um grande amigo" e uma pessoa que "prezava muito".
"Um tipo fascinante"
O jornalista e escritor Mário Zambujal considera que se perdeu um homem do teatro que tinha uma capacidade "insubstituível".
"Era uma pessoa rara, de uma grande educação, de um talento enorme, com muito sentido de humor e muita graça", disse à Lusa Mário Zambujal.
Lamentando a morte do ator e argumentista de quem era amigo, Mário Zambujal lembrou que Francisco Nicholson era um homem "cheio de talento", que fez coisas "muito interessantes também no teatro musical" e que era "muito respeitado" por todos com quem trabalhou.
"Um homem multifacetado e de muitos talentos"
O ator e encenador Rui Mendes mostrou-se hoje consternado com a morte de Francisco Nicholson, um homem "multifacetado, com muitos talentos" e seu "grande amigo e companheiro de teatro" desde os bancos do Liceu Camões, em Lisboa.
"Era um homem multifacetado e tinha muitos talentos. Era um grande amigo, foi o meu companheiro de teatro, desde sempre, desde os bancos do liceu. Andamos no Liceu Camões, fomos companheiros de turma e foi aí que começamos a fazer teatro", disse Rui Mendes, à agência Lusa, acrescentando que ambos se estrearam no teatro profissional nos anos 50.
O ator explicou que Francisco Nicholson estava doente há "bastantes anos", mas que o seu estado de saúde se agravou nos últimos tempos.
"Considero que o Francisco Nicholson deve ter sido das pessoas que melhores telenovelas escreveram neste país durante uma certa época, pelo menos, as primeiras novelas", sublinhou Rui Mendes.
"Grande ator e escritor"
O cantor António Calvário lamentou hoje a morte de Francisco Nicholson, considerando-o um "grande ator e escritor" que se completava em tudo o que fazia.
"Por toda a convivência que tivemos, por tudo aquilo que foi como grande ator e escritor, quase que não tenho palavras para descrever uma pessoa tão completa", disse à agência Lusa o cantor, acrescentando que Francisco Nicholson era "um grande amigo" e "um belíssimo companheiro".
O cantor destacou também que Francisco Nicholson foi o autor da canção Oração que interpretou no primeiro festival da canção de 1964 e que obteve o primeiro lugar.
"Uma canção que atravessa todos estes tempos como um símbolo da primeira representação de Portugal na Eurovisão", afirmou. (DN – 12.Abr.2016)

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Casa Manoel de Oliveira vai ser a sede da Fundação Sindika Dokolo na Europa.


A Casa Manoel de Oliveira, no Porto, vai ser a sede na Europa da Fundação Sindika Dokolo. O edifício construído por Eduardo Souto de Moura para o cineasta, mas que nunca foi usado, foi vendido esta segunda-feira por 1,58 milhões de euros a uma empresa denominada Supreme Treasures, Ld.ª, ligada à empresária angolana Isabel dos Santos, casada com Sindika Dokolo. Em comunicado, o empresário diz que o edifício será “um espaço de reflexão e aprendizagem para jovens artistas”
No ano passado, a Fundação Sindika Dokolo apresentou no Porto a exposiçãoYou love me, you love me not, e no momento do balanço foi revelado que a fundação pretendia instalar na cidade a sua nova “antena mundial”. Na altura, a Casa Manoel de Oliveira era apontada como uma das possibilidades para a instalação desse braço da estrutura cultural de Sindika Dokolo, a par com o Palacete Pinto Leite ou o Palácio das Artes da Fundação da Juventude. Agora, o empresário confirma que a escolha recaiu sobre a casa que Manoel de Oliveira nunca usou.
“Ao estabelecermo-nos num edifício como a Casa Manoel de Oliveira, em plena Foz portuense, estamos a afirmar a nossa intenção em contribuir para tornar o Porto ainda mais cosmopolita e mais cultural. Neste espaço vamos promover redes de reflexão artística e fortalecer laços entre Portugal e Angola, a Europa e África, numa ode à Arte enquanto elemento unificador de povos e países”, referiu Sindika Dokolo, num comunicado enviado ao PÚBLICO.
Na hasta pública, que decorreu na manhã desta segunda-feira nos Paços do Concelho, a Supreme Treasures esteve representada pelo advogado Diogo Duarte Campos, que, segundo a Lusa, não quis prestar quaisquer esclarecimentos sobre os rostos por trás da empresa, invocando o “dever de sigilo profissional”. Contudo, de acordo com os registos oficiais, a empresa, constituída em Setembro do ano passado, com o curto capital de mil euros, tem como gerente Mário Filipe Moreira Leite da Silva, que representa os interesses de Isabel dos Santos nos negócios europeus.
Ao longo do dia, a Câmara do Porto garantiu sempre desconhecer quem comprara a casa e qual o uso que lhe seria dado e, depois da confirmação de Sindika Dokolo de que o edifício seria a sede da sua fundação na Europa, o presidente Rui Moreira não esteve disponível para comentar, por se encontrar numa reunião de trabalho sobre o futuro da STCP. Contudo, de manhã, questionado pelos jornalistas à saída dos Paços do Concelho, Rui Moreira disse que gostaria que a casa tivesse uma “componente cultural”, mostrando-se aliviado por se resolver o problema do “abandono” do edifício.
"É uma casa da autoria de Souto de Moura, portanto tem desde logo um impacto relevante na cidade do ponto de vista arquitectónico e era um activo que estava perdido porque o uso para que foi concebido nunca foi concretizado e não foi com certeza por culpa da câmara municipal", disse.
A Casa Manoel de Oliveira, composta por duas fracções, foi construída há quase duas décadas com o objectivo de ser a casa do cineasta e também um espaço de exposição do seu espólio. Contudo, o projecto avançou sem um acordo prévio entre a autarquia e o realizador de Aniki-Bóbó, quanto às condições de uso do imóvel, e desde a sua conclusão, em 2003, que o edifício permanece devoluto.
Em 2007, Manoel de Oliveira acusou o executivo de Rui Rio do fracasso da constituição da casa-museu e já em 2013, a Fundação de Serralves e a sua família assinaram um protocolo para instalar o espólio do cineasta num edifício que será idealizado pelo arquitecto Álvaro Siza para o Parque de Serralves. Em 2014, a Câmara do Porto, já sob a presidência de Rui Moreira, tentou vender o imóvel pela primeira vez, mas a hasta pública ficaria deserta.
Agora, o edifício irá receber a sede da fundação criada em 2003 na capital angolana, Luanda, com o objectivo de promover a arte. Com um espólio de cerca de três mil obras, da autoria de 90 artistas de 25 países, a fundação foca-se, sobretudo, na arte contemporânea e já esteve presente em certames como a ARCO (Madrid), a Bienal de Veneza (Itália) ou o Espaço OCA, em S. Paulo (Brasil).

Em Março de 2015, antes de apresentar no Porto a exposição You love me, you love me not, Sindika Dokolo recebeu da câmara a medalha municipal de Mérito, Grau Ouro. (Jornal Público – 19.Jan.2016)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

The end” para mais um cinema em Lisboa: o Fonte Nova.


Ao fim de 20 anos, a Medeia Filmes deixa de explorar as salas de um dos últimos centros comerciais de bairro em Lisboa. Futuro do espaço ainda é incerto.
The end, fin, fine. A última sessão dos cinemas Fonte Nova, na freguesia lisboeta de Benfica, já tem data marcada: 21 de maio. É nesse dia que termina o contrato que, até aqui, unia a administração do centro comercial com o mesmo nome à Medeia Filmes, responsável pela exploração das três salas nos últimos 20 anos.
O futuro do espaço que as salas ocupam no centro comercial ainda é incerto. Ao Observador, uma responsável da administração do centro preferiu não fazer comentários para já, remetendo para mais tarde um anúncio do que vai ali existir. Já Paulo Branco, da Medeia, desconfia que os projetores não venham a ser mais ligados no Fonte Nova. “Querem aproveitar aquele espaço para outras valências”, diz o programador, explicando que não houve conflito entre as partes na tomada desta decisão.
“As frequências [de espectadores] já eram muito reduzidas”, afirma Paulo Branco, para quem “já nem se justificava a existência daquelas salas ali”, sobretudo porque a não muita distância se situa o centro comercial Colombo, também com exibição cinematográfica, em nove salas comerciais e modernas. É lá, aliás, que se situa a única sala com tecnologia Imax do país.
A Medeia Filmes explora as três salas do cinema Fonte Nova desde 1995, quando o centro comercial estava a completar dez anos de existência. Apesar de ser um espaço frequentado da freguesia de Benfica, o Fonte Nova ressentiu-se com a inauguração do Colombo, e o cinema foi-se tornando cada vez mais frequentado por cinéfilos em busca de uma programação alternativa e periférica.

“Sempre mantivemos as salas para não prejudicar o centro comercial”, admite Paulo Branco, cuja exibidora fica agora com apenas dois espaços em Lisboa: o Monumental, com programação regular, e o Espaço Nimas, mais vocacionado para ciclos temáticos. O cinema King, também da Medeia, encerrou em novembro de 2013. Os quatro funcionários do Fonte Nova vão ser transferidos para as outras duas salas. (Observador.pt)

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Português.


Este texto é da autoria de Teolinda Gersão.
Escritora, Professora Catedrática aposentada da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
(escreveu-o depois de ajudar os netos a estudar Português, e colocou-o no Facebook)
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete”: “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados; almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa. No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo visto, no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer, dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Cottinelli Telmo: um piano no ateliê.


Uma exposição no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, patente até 6 de Abril, exibe todo o génio e versatilidade do realizador de "A Canção de Lisboa". A entrada é livre.
A grande rosa-dos-ventos no chão e o luminoso panorama da beira-rio não deixam perceber facilmente a verdadeira lufada de ar fresco que — por paradoxal que possa parecer — sobrevém da cave do Padrão da Descoberta (sua designação inicial, mais renascentista) onde está patente uma pequena mas surpreendente exposição “Os arquitectos são poetas também”, dedicada a José Ângelo Cottinelli Telmo (1897-1948) — co-criador do próprio edifício, na sua versão efémera e ligeiramente menor, só madeira e estuque.
O apreço dos responsáveis do Padrão dos Descobrimentos pela figura do seu arquitecto vai ao ponto de exibir no seu auditório, em sessões contínuas, o recente documentário de António-Pedro Vasconcelos e Leandro Ferreira (Uma Vida Interrompida, 2013, 55′) sobre o realizador de A Canção de Lisboa, no qual intervém amiúde o arquitecto João Paulo Martins, o comissário desta exposição que dedicou em 1995 a sua tese de mestrado a Cottinelli (ainda inédita), beneficiando do acesso ao seu espólio, actualmente conservado no forte de Sacavém, onde aguarda inquirições. Vários documentos expostos vieram de lá.
Arquitecto-chefe da Exposição do Mundo Português, Cottinelli pode e deve ser colocado, sem favor, ao nível de Almada Negreiros (de quem se revelam desenhos ainda inéditos na Fundação EDP, ali perto) pela sua excepcional e precoce criatividade multimédia, ou de Leitão de Barros e Carlos Botelho, dois outros enormes, polifacetados e prolixos talentos artísticos — aliás muito subestimados —, e com quem mais fez o seu caminho, desde que frequentaram juntos o Liceu Pedro Nunes e a Escola de Belas-Artes na década de 1910.
Em Fevereiro de 1917, meses antes de a companhia de Bailados Russos de Diaghliev ter aberto uma fina e breve brecha civilizacional na pasmaceira lisboeta — um desenho inédito sobre esses bailados é, precisamente, uma das surpresas da exposição —, Leitão de Barros publicou na efémera e esquecida revistaSphinx (Esfinge) um elogio de José Telmo, chamando-lhe “grande Fenómeno de Arte”, “desenhador, poeta, actor, diseur e músico”, “em tudo original, em tudo interessante e profundo, em tudo um grande esteta da Cor, do Som e da Vida. […] Fixem-lhe o nome, esperem-no impacientemente”.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Como o Palácio do “Monteiro dos milhões” deslumbrou Taylor Moore.


Taylor Moore esteve no Palácio da Regaleira e ficou deslumbrado com aquilo que viu. Fotógrafo canadiano, registou o edifício e, também, a respetiva quinta. Vale a pena ver o resultado.
“Um lugar de magia divina e de mistério”. É desta forma que Taylor Moore, cuja página na rede social Facebook pode ser visitada aqui, caracteriza o Palácio da Regaleira e a respetiva quinta, em Sintra. O fotógrafo canadiano visitou o lugar, com as suas grutas, pequenos lagos, um poço iniciático, torres e jardins e ficou deslumbrado. Afirma que se trata se um daqueles sítios que convida a ser fotografado “de noite ou de dia”.
Palácio da Regaleira foi mandado construir por António Monteiro, nascido no Rio de Janeiro em 1850 e falecido em Sintra em 1920, que ganhou a alcunha de “Monteiro dos milhões” pela fortuna que herdou e que fez crescer através de negócios no café e pedras preciosas. A propriedade foi adquirida por Monteiro em 1892, as obras começaram em 1904 e terminaram seis anos depois. O projeto foi desenhado pelo arquiteto italiano Luigi Manini (1848-1936), que conjugou diversos estilos como o gótico, renascentista e manuelino, a expressão portuguesa do gótico.

(observador.pt)








domingo, 18 de janeiro de 2015

Numa década, cinco milhões de espectadores desapareceram dos cinemas portugueses.


O fosso entre os portugueses e as salas de cinema é cada vez maior – se 2013 já fora o pior da década em termos de idas ao cinema, os dados relativos a 2014 mostram que num ano se perderam mais 400 mil espectadores. E recuando até 2004, quando os cinemas venderam 17,1 milhões de entradas nas salas, constata-se que desapareceram cinco milhões desses espectadores. No ano passado venderam-se apenas 12,1 milhões de bilhetes.
O ano passado tornou-se assim no pior dos últimos 11 anos com receitas de 62,7 milhões de euros – mais uma quebra, desta feita no valor de 2,8 milhões de euros que já não entraram nas bilheteiras em comparação com 2013. A alteração dos hábitos de consumo audiovisual, as novas tecnologias, a pirataria, os preços dos bilhetes e a distribuição geográfica das salas têm sido factores apontados para explicar este declínio.
O Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) revelou esta sexta-feira os dados provisórios da distribuição e exibição cinematográfica em Portugal sobre o ano em que o filme mais visto foi The Hunger Games: A Revolta – Parte 1 (mais de 344 mil espectadores, 1,8 milhões de euros de receitas brutas de bilheteira), com Lucy em segundo lugar e a quebrar o domínio juvenil ou de sequelas do top 5, seguido de Os Pinguins de Madagáscar, O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos e Rio 2.
Com Os Maias – Cenas da Vida Romântica a confirmar-se como o filme português mais visto (114.817 espectadores e cerca de 568 mil euros de receita de bilheteira), seguido por Virados do Avesso e Os Gatos não Têm Vertigens, em 2014 produziram-se 27 filmes (13 longas e 14 curtas) com o apoio do ICA, informa o organismo, que assinala “um ligeiro aumento em relação às obras produzidas face ao ano anterior”. Mas que é parco em comparação com números que ao longo dos últimos dez anos nunca desceram de uma média de 49 produções e que já em 2013 resvalaram para as 23, na esteira do chamadoano zero do cinema português, assim apelidado por não terem sido abertos concursos de apoio à produção.

2014 foi também o ano em que a NOS (antiga ZON) continuou intocável na sua liderança no mercado – embora tenha também perdido receitas (menos 7% para os 7,2 milhões de euros), é o maior exibidor português com uma quota de mercado de 61,6% contra os 63,2% de 2013. A britânica UCI é o segundo maior exibidor, reforçando a sua posição com 12,3% do mercado contra 12,9% em 2014. A brasileira Cineplace, que entrou no mercado português depois da insolvência da Socorama ocupando muitos dos espaçosexplorados pela empresa portuguesa (como as salas em muitos shoppings da Sonae), tem agora o terceiro lugar em Portugal com 8,7% de quota. (Jornal Público)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Artista retrata a sociedade com ilustrações que estão a dar polémica. Veja porquê.

Chama-se Luis Quiles, é um artista espanhol, e sem medo utiliza a paixão pela arte para criticar a sociedade. No fundo, "desenha para denunciar".



Com nome artistítico de Gunsmithcat, Luis Quiles, marca a diferença pela forma como retrata a sociedade contemporânea nos seus trabalhos. Com sarcasmo, frieza e sem rodeios, Gunsmithcat, denuncia temas como aprostituição, a homofobia, a exploração, a fome, as drogas e as redes sociais.
Numa entrevista ao jornal italiano Il Fatto Quotidiano, o artista diz que "a tecnologia mudou a forma como comunicamos. Não quer isto dizer que seja pior do que no passado. É simplesmente diferente. Por um lado, com a Internet, é mais simples. Por outro, é também mais fácil de nos isolarmos da realidade".
Quanto às críticas, Luis Quiles diz que apesar de haver pessoas que agradeçam e que valorizem o trabalho que faz, e como o faz, há também "quem não concorde e que o escreva publicamente". Contudo, "é difícil silenciarem-me".

Para o futuro, o artista espanhol está a pensar recorrer ao crowdfunding (angariar fundos para o projecto através da Internet) para publicar um artbook com todo o seu trabalho. Até lá, vai continuar a "desenhar e denunciar". (DN – 16.Dez.2014)










domingo, 30 de novembro de 2014

O dia em que o cante saltou do Alentejo para a eternidade.


Há 21 meses que trabalhavam na candidatura e ontem foi o dia de ouvir o "sim". Com lágrimas, nervosismo e louvores
"A minha senhora ligou-me logo a dizer que já tinham rebentado os foguetes", diz Carlos Paraíba, ensaiador do grupo coral da Casa do Povo de Serpa, ao telefone, de Paris, horas depois de saber que o cante alentejano já faz parte da lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade. A mulher estava em Serpa, cidade que promoveu a candidatura do género musical. A confirmação chegou ontem, pouco passava das 10.00 (mais uma hora em França). À emoção do momento juntaram-se as lágrimas dos 22 homens que se apresentaram ao Comité Intergovernamental da UNESCO e cantaram Alentejo Alentejopara mais de 100 delegações internacionais. "Estava tudo muito comovido, nas era a chorar de alegria", explica.
Carlos Arruda, 28 anos, lançou a moda, na qualidade de ponto do grupo coral da Casa do Povo de Serpa. "Foi um misto de sentimentos", conta." Orgulho, alegria, sentido de responsabilidade, um pouco de nervosismo...". É um dos mais jovens elementos, e já canta desde os 13 anos, caso raro entre os cantadores.

Ele e a comitiva deveriam voltar a Portugal da mesma maneira que chegaram a Paris na segunda-feira: de autocarro. No entanto, já depois de terem recebido a confirmação da Unesco, a TAP ofereceu a passagem de regresso aos membros do grupo e responsáveis da candidatura. E a primeira atuação aconteceu em Orly antes de embarcar no Voo do Cante, nome dado à viagem. (Diário de Notícias)

domingo, 23 de novembro de 2014

Volta à História de Portugal com Fernando Rosas.


O século XX português, entre o Regicídio (1908) e o 25 de Abril de 1974, visto a partir da Rua do Arsenal, é o tema do episódio inaugural da série televisiva História a História, que este domingo começa a ser exibido na RTP Internacional. O autor é Fernando Rosas, que nesta sua volta a Portugal diz sentir-se bem mais confortável do que quando correu o país em campanhas políticas e eleitorais.
Uma camisa (verde, nesse dia) debaixo dos tradicionais suspensórios (que também vão variando de cor), o gesto largo e expressivo, a palavra fácil e clara de professor, o à-vontade bem conhecido de tantas presenças televisivas… É com esta imagem que, a partir deste domingo, o historiador Fernando Rosas (n. Lisboa, 1946) vai entrar nas nossas casas com a série História a História. Numa primeira fase, o conjunto de 13 episódios vai ser exibido, semanalmente, no horário nobre da RTP Internacional, e na RTP África (30 de Novembro); em Janeiro entrará também na grelha da RTP nacional.
“Em cada episódio vamos contar uma história a partir de um lugar, de uma actividade, de uma personagem ou de um conjunto delas”, explica Fernando Rosas na apresentação que faz ao PÚBLICO, no meio de mais um dia de filmagens, em Ílhavo, desta sua experiência nova no formato documental televisivo.
O primeiro episódio tem por título Rua do Arsenal, uma História Política do Século XX. Com base nesta rua da Baixa de Lisboa nascida da reconstrução pombalina, Fernando Rosas conta a história do século XX português, desde o Regicídio de 1908 até ao 25 de Abril de 1974, passando pela implantação da República, pelas revoltas, revoluções e episódios mais ou menos sangrentos das primeiras décadas do século, e também pela consolidação do Estado Novo e pelos discursos de Salazar na Sala do Risco do Arsenal. “É impressionante como uma simples rua foi palco de tantos acontecimentos, e tão marcantes, da nossa história contemporânea”, realça.
História a História resulta de um convite da RTP, a que o historiador “não podia dizer que não”. Elencou 13 temas, 13 histórias da História de Portugal, com a “preocupação de a aproximar do grande público”.
A meio da última semana, Fernando Rosas e a sua pequena equipa de sete pessoas – dirigida pelo jovem produtor (GardenFilms) e realizador Bruno Morais Cabral – percorriam numa autocaravana as margens da Ria de Aveiro a registar imagens e testemunhos sobre a pesca do bacalhau. O PÚBLICO acompanhou o segundo de dois dias de rodagem das imagens actuais que farão o nono episódio da série, Faina Maior, a pesca do bacalhau. Primeiro, no interior do arrastão “Santo André” (construído na Holanda, em 1948), que no antigo Forte da Barra (agora Jardim Oudinot) perpetua a memória dessa faina mítica como uma extensão do Museu Marítimo de Ílhavo; depois, já dentro do museu, frente ao aquário de bacalhaus – “um dos peixes mais estúpidos que há, por isso fácil de pescar”, comentava –, Fernando Rosas evoca, explica e desmonta o processo e o imaginário associado a esta faina que ocupa um lugar à parte na história do país. “Deixando de parte a questão de saber quem é que chegou primeiro à Terra Nova, a verdade é que Portugal estava lá já no século XVI, com os seus barcos de pesca”, diz o apresentador percorrendo o velho barco, agora “envernizado” a azul-e-branco para objecto de museu.
Na véspera, o cenário para esta viagem às memórias da faina tinha sido o belíssimo lugre “Santa Manuela”, no interior do museu de Ílhavo. “Havia uma mística ideológica criada pelo Estado Novo em volta da pesca do bacalhau, que incluía, por exemplo, um Bispo do Mar que benzia os barcos à partida para a Terra Nova” – explica-nos o historiador –, “e que era apresentada como a continuação da gesta dos Descobrimentos”. As razões que tornaram o “projecto do bacalhau" totalmente anacrónico ainda durante o governo de Salazar, e as mudanças que a liberalização das pescas, nos anos 60, e depois o 25 de Abril trouxeram ao sector são também elucidados pelo cicerone deHistória a História – que para este episódio teve como consultor Álvaro Garrido, director do Museu Marítimo de Ílhavo e um grande especialista do tema.
 Filmar com drones
Além de entrevistas e testemunhos, cada episódio da série é feito com filmes de arquivo, fotografias e outros documentos, além das imagens filmadas agora nos cenários relacionados com cada tema – com recurso, inclusive, adrones, como se poderá verificar nas vistas aéreas da Rua do Arsenal, no primeiro episódio. “Mesmo se falamos de História, o nosso desafio é produzir um conteúdo contemporâneo, dinâmico, que capte a atenção dos espectadores”, diz Bruno Morais Cabral. O documentarista formado na Escola de Teatro e Cinema de Lisboa e autor de Praxis (melhor curta-metragem do DocLisboa de 2011) assume, no entanto, que a presença de Fernando Rosas é o principal trunfo do programa.

É, de facto, notório o à-vontade com que o político e ex-deputado do Bloco de Esquerda enfrenta a câmara. O desafio maior, nas filmagens na Ria de Aveiro, era mesmo manter-se penteado perante o vento forte que soprava nessa manhã de sol. Recorrendo às tradicionais fichas de professor, que a anotadora Raquel Bagulho lhe ia passando sempre que necessário, Fernando Rosas assume a câmara de televisão como uma extensão da sua profissão. “Sou professor, gosto de comunicar”, diz. Essa facilidade faz lembrar a presença televisiva de um José Hermano Saraiva. Uma associação que Fernando Rosas aceita, de resto. “O Hermano Saraiva era um magnífico comunicador, um homem com uma telegenia invulgar”, diz, assumindo que visionou vários dos seus programas, e outros do género, para “aprender, e para perceber como é que se tem feito História na televisão”.  (Jornal Público)

domingo, 16 de novembro de 2014

Senhoras e senhores, apresentamo-vos o "padeiro dos livros".


Nove mil livros e 30 anos depois, Alberto Casiraghi, poeta, pintor, músico, construtor de violinos e impressor, tem a sua primeira exposição em Portugal. Chama-se "9000 Formas da Felicidade: as edições Pulcinoelefante".

Uma gravura baseada no famoso quadro de Goya, "Três de Maio de 1808 em Madrid", assinada por Luciano Ragozzino. Fotografias de Marylin Monroe coladas sobre uma mão de papel e uma fotografia também da atriz, provavelmente recortada de um jornal ou revista, com números pintados sobre o papel. Um poema de Rainer Maria Rilke, o poeta alemão, escrito em italiano. Três fotografias de Alda Merini (1931-2009), a escritora italiana que teve a admiração de artistas como Pasolini, Salvatore Quasimodo e Giorgio Manganelli, e foi vencedora em 2003 do Premio Librex Montale, que reconhece poetas italianos contemporâneos. É ela, aliás, que assina alguns dos livros expostos (mas já lá vamos).
Mais à frente, entra-se no chamado "Núcleo: Alberto em Portugal". Uma fotografia a preto e branco de Manuel Alegre, vestido de fato. E um desenho de um homem deitado com uma monumental letra "M" junto à sua cabeça, parecendo decapitá-lo, e que segundo o programa da exposição é do livro de Alberto Pimenta, o escritor português, feito e escrito por ele. Miguel Martins, Luís Manuel Gaspar, Manuel de Freitas. Outros nomes da poesia portuguesa contemporânea que aparecem destacados. O 91 da exposição é de Vasco Graça Moura, é de 2013, e tem uma dedicatória sua na capa que diz assim: "Na verdade, o poema é um ruído modelado de gente".
Chama-se "9000 Formas de Felicidade: as edições Pulcinoelefante", é dedicada a Alberto Casiraghi, poeta, pintor, músico, construtor de violinos e impressor, e inaugurou no final de outubro na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, onde fica até 31 de janeiro.
É a primeira exposição em Portugal dedicada a Alberto, que prefere, no entanto, ser conhecido como o "padeiro de livros", e o "único padeiro que trabalha durante o dia". Há uma boa razão para isto: desde 1992, tem feito, em média, mais de um livro por dia. Atualmente, são mais de nove mil.
Os livros "belos e simples" do mestre Alberto
Em 1982, depois de ter sido despedido da tipografia onde trabalhava, uma grande casa em Milão que imprimia jornais, Alberto Casiraghi decidiu construir a sua própria oficina, a que deu o nome de Pulcinoelefante. Fê-lo em casa, na cidade de Osnago, em Itália, onde nasceu. Fala-se muito dessa tarde ventosa e de um primeiro livro dado à estampa nesse dia: "Una Lirica. Una Immagine", de um escritor chamado Marco Carnà. No ano seguinte, 1983, foram lançados mais quatro livros, três com textos do próprio Casiraghi (assinados, não sabemos, se por ele, se por um dos seus três pseudónimos) e o outro da autoria de Gaetano Neri, também ilustrados por Carnà, em conjunto com Pierluigi Puliti e Gianni Maura. Em 1984, sete, e no ano seguinte, nove. Ao fim dos primeiros dez anos, estavam feitos 236 livros, ou 236 "pulcinos", nome por que são chamados.
Mas o que são, afinal, os "pulcinos"? A descrição oficial diz assim: são quatro ou seis folhas de papel Hahnemühle, tamanho A4, dobradas em A5. Contêm um aforismo ou um pequeno poema impresso em carateres móveis, e uma ilustração, que tanto pode ser uma impressão digital dos desenhos de Alberto, uma xilografia, águas-fortes, litografias, fotografias, colagens, desenhos e pinturas com todas as técnicas, ready-made, esculturas, entre outras intervenções. As tiragens vão de 15 exemplares a 30 ou 35, numerados sequencialmente.
A descrição não-oficial é esta que nos traz Catarina Figueiredo Cardoso, comissária da exposição, e responsável por outros projectos anteriores na área da edição independente e livros de artista. Distingue nos "pulcinos" a "beleza e a aparente simplicidade". Do ponto de vista tipográfico, assegura que são "impecavelmente bem feitos". "O que torna o Alberto diferente é a consistência da sua prática e a mestria com que a utiliza. Há muitos problemas na utilização dos tipos móveis: gastam-se, partem-se, as máquinas desafinam e avariam, todo o material envolvido é caro e a sua utilização é difícil e implica muita prática. Ora o Alberto tem tudo: foi tipógrafo de tarimba, tem imensos tipos, tem a máquina e sabe concertá-la se for preciso. É por isso que ele se distingue dos restantes impressores".

A técnica que nasceu na China antes de Cristo
O primeiro sistema de impressão a partir de tipos móveis (letras, símbolos e sinais de pontuação individuais), feito em porcelana chinesa, é atribuído a Bi Sheng (990-1051 AD), e terá sido criado por volta de 1040 A.D., na China. Quando, cerca de 200 anos depois, a técnica começou a ser usada na Coreia, os tipos móveis passaram a ser feitos em metal. "Jikji" (1377), ou "Antologia de ensinamentos zen pelos grandes sacerdotes budistas", documento budista coreano, é o mais antigo livro imprimido com o uso desta técnica, título que a UNESCO confirmou em 2001, tendo incluído o livro no programa "Memory of the World", destinado a preservar documentos e arquivos de grande valor histórico.
Por volta de 1450, os tipos móveis voltariam à mó de cima (eram caros e exigiam muita mão-de-obra e isso teve consequências), com a impressão da Bíblia por Johannes Gutenberg, na Europa, a partir de um sistema que o próprio inventou, e que superava em larga medida os antigos modelos. Como se passou para a impressão em línguas europeias (número mais limitado de carateres), a técnica tornou-se rentável e foi, dito de uma forma abreviada, um sucesso. Mais tarde, já no século XIX, com a invenção da composição mecânica e seus sucessores, acabaria por entrar em declínio.

Cabras, coelhas e galinhas, e máquinas grandalhonas
Numa das fotografias dos livros em exposição, Alberto surge acompanhado de uma cabra. Ao vê-la, lembramo-nos das imagens do editor e tipógrafo, arrumadas em vídeos (no youtube), que nos trazem essa outra realidade de um quintal cheio de cabras e coelhos e galinhas, e uma casa aparentemente pequena cheia de máquinas grandalhonas que já ninguém parece saber ao certo para que servem, e livros, muitos livros, atrás das portas de vidro dos armários altos ou ali mesmo à mão de semear.
É nessa casa que Alberto continua a receber visitas, artistas, poetas e ilustradores, que ali vão "para lhe ditarem os textos e ajudarem a fazer os livros, cortar o papel e coser as páginas", explica Catarina. E foi também nessa casa que recebeu a escritora italiana de que falávamos, Alda Merini, amiga e colaboradora. Catorze dos 110 livros expostos são dela. Parece pouco, mas há outra história por detrás disto, que podemos arriscar, embora com palavras que não são nossas, contar assim: "A amizade e consequente colaboração com Alda Merini conduziram ao aumento alucinante no número de livros produzidos, e à enorme projeção de Alberto e da sua editora em Itália, nos Estados Unidos e no Japão". A escritora deu, ainda segundo essas páginas que acompanham a exposição, "uma dimensão inesperada à Pulcinoelefante".
O mestre Alberto em Portugal
Em 2013, Alberto vinha pela primeira vez a Portugal, a convite de Catarina. "Achei importante dar a conhecer aos meus amigos portugueses que se dedicam à edição a obra de um dos expoentes da arte da composição tipográfica com tipos móveis".
Nesse ano, fez um workshop no Homem do Saco, um dos ateliers que, segundo Catarina, continua a dedicar-se à técnica de impressão em tipos móveis. A outra é a Oficina do Cego, também em Lisboa. Desse workshop resultaram quatro "pulcinos" sob a supervisão direta de Alberto, que deram aos tipógrafos e artistas portugueses envolvidos (alguns têm agora expostos os livros que fizeram) a motivação necessária para, a partir daí, dedicarem-se à "criação de edições artísticas inovadores e imaginativas que os singularizam no panorama da edição independente."
Mas a ligação de Alberto a Portugal é bem mais antiga. Em 1993, fazia o primeiro livro de um escritor português. É lançar um palpite e acertar, senão à primeira, pelo menos à segunda. Sim, foi mesmo de Fernando Pessoa, mas esse não está entre os que viajaram de Itália para Portugal. Vai ter de ficar para a próxima.

sábado, 30 de agosto de 2014

Centenário de Julio Cortázar celebrado em todo o mundo.


A grande exposição Los Otros Cielos, que se inaugura nesta terça-feira no Museu Nacional de Belas Artes de Buenos Aires, é a mais ambiciosa das muitas iniciativas que estão a assinalar, um pouco por todo o mundo, o centenário do escritor argentino Julio Cortázar, autor de Histórias de Cronópios e de Famas (1962) e do romance experimental Rayuela (1963).
Ponto alto do Ano Cortázar 2014, o programa de comemorações que o Estado argentino está a promover para celebrar o centenário de Julio Cortázar, a exposição Los Otros Cielos – cujo nome ecoa o título de um dos contos do livro Todos os Fogos o Fogo (1966) – atravessa toda a vida de Cortázar através dos arquivos pessoais que o autor deixou, e que incluem documentação vária, correspondência, fotografias, e mesmo filmes domésticos, rodados em super-8 e nunca antes mostrados no país, ou os móveis que o autor possuía na sua casa de Saignon, no Sul de França.
Organizada em 12 núcleos temáticos, a exposição que se inaugura nesta terça-feira no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) de Buenos Aires –  no dia em que se cumprem exactamente cem anos sobre o nascimento do escritor em Ixelles, nos arredores  de Bruxelas – está organizada de modo a tanto poder ser vista por uma ordem preestabelecida como de forma aleatória. Opção que decerto agradaria ao autor de Rayuela – o monumental romance experimental de Cortázar (edição portuguesa da Cavalo de Ferro, com o títuloO Jogo do Mundo – Rayuela), que também pode ser percorrido de vários modos, cada um deles correspondendo a uma obra diferente. Se se começar na primeira página, há um livro que acaba no capítulo 56, mas também é possível iniciar-se a leitura no capítulo 73 e, a partir daí, seguir-se as indicações deixadas no final de cada capítulo para se saber o que se deve ler a seguir.
O curador de Los Otros Cielos, Juan Becerra, explica que a exposição pretendeu corresponder à versatilidade do próprio Cortázar. “Foi um contista, um romancista, um viajante, um agitador político, um crítico de arte, um poeta”, disse Becerra à agência EFE, explicando que tentou “reconstruir essa figura cheia de matizes e que continua a cativar as novas gerações de leitores”.
Becerra vê em Cortázar “um escritor que se move como um aventureiro, que tem algo de Che Guevara e de Tintin”, e tentou que a exposição reflectisse essa sua característica: “Se há uma ideia geral que possa reunir numa só órbita os planetas que compõem Los Otros Cielos, é a ideia de inquietude.”
Complementando esta exposição, o MNBA inaugura também nesta terça-feira uma segunda mostra, intitulada Los Fotógrafos: Ventanas [janelas] a Julio Cortázar, que dá a ver o escritor através do olhar de fotógrafos profissionais, como o espanhol Antonio Gálvez ou as argentinas Sara Facio e Alicia D’Amico.
O programa de comemorações do centenário daquele a quem o ficcionista mexicano Carlos Fuentes, sublinhando o carácter revolucionário da sua obra, chamou “o Simón Bolívar do romance” incluirá um congresso internacional na Biblioteca Nacional argentina, Lecturas y Relecturas de Julio Cortázar, com núcleos temáticos que não esquecerão as muitas paixões de Cortázar, do cinema ao jazz e ao boxe, e ainda o programa RompeCortázar, no Palais de Glace (um edifício de Buenos Aires que reproduz o estilo francês da Belle Époque), que reúne trabalhos de escritores e artistas visuais a partir de oito histórias breves do autor de Bestiário (1951) e de outros volumes de contos, como As Armas Secretas (1959) ou Queremos Tanto a Glenda (1980). Os dois últimos acabaram  de ser lançados em Portugal pela Cavalo de Ferro.
Também a Fundação José Saramago não quis deixar passar em claro o centenário de Cortázar, e dedica-lhe o número de Agosto da revista Blimunda(que pode ser descarregada gratuitamente), publicando um texto de Carlos Fuentes sobre o amigo argentino, um artigo de Dulce María Zuñiga, a coordenadora da cátedra Julio Cortázar na universidade mexicana de Guadalajara, uma entrevista com o catalão Carles Álvarez Garriga, um dos grandes especialistas na obra de Cortázar e organizador do livro póstumoPapéis Inesperados (2009), e um texto do jornalista brasileiro Ricardio Viel sobre os cem anos do “maior cronópio de todos” (os amigos e admiradores de Cortázar chamavam-lhe afectuosamente Cronópio-Mor).
E foi precisamente nas Histórias de Cronópios e de Famas que o cineasta argentino Julio Ludueña se inspirou para o seu filme de animação homónimo, que se estreia na quinta-feira em Buenos Aires.
Julio & Carol

Já em fase de conclusão está também o documentário Julio & Carol, do canadiano Tobin Darlymple, que investigou a história de amor de Cortázar e da sua segunda mulher, a escritora, activista e fotógrafa americana Carol Dunlop, com quem o escritor viveu em Paris. Darlymple recolheu um grande número de testemunhos e teve a sorte de conseguir encontrar a velha furgoneta Volkswagen Kombi em que Cortázar e Carol fizeram a viagem pela auto-estrada Paris-Marselha que está na origem do livro que o casal escreveria a meias: Los Autonautas de la Cosmopista (1982). (Jornal Público)


domingo, 17 de agosto de 2014

Morreu Lauren Bacall, a actriz do olhar insolente.


Chamaram-lhe The Look, brilhou com uma insolência que nunca se vira antes na Hollywood dos anos 1940 e 50, era dura, sem paciência para a falta de carácter, e democrata até ao osso. Ensinou Bogart a fumar e a fazer outras coisas. Foi uma working girl até ao fim.
O realizador Howard Hawks ensinou-a a ser insolente para os homens, ela ficou pronta para ensinar Humphrey Bogart a assobiar e fez mais do que isso, levou-o para casa.


Mesmo se só tivesse feito os dois filmes em que Hawks elaborou para o casal, uma cartilha de jogos de sedução e double entendres – o assobio e o cigarro em Ter ou não ter (1944), falar de sexo como quem fala de corrida de cavalos, uns que correm à frente outros que vêm de trás, em The Big Sleep (1946) –, Lauren Bacall já seria uma das criaturas mais extraordinárias que o cinema fabricou.
Esta senhora dura, insolente, sem paciência para a falta de carácter e para a cobardia moral, democrata até ao osso, morreu esta terça-feira, aos 89 anos, na sua casa em Nova Iorque, noticiou à AFP o seu sócio na Humphrey Bogart Estate, Robbert JF de Klerk. A actriz teve um "forte acidente vascular cerebral" e não resistiu. Houve um post de fonte da família Bogart numa conta oficial no Twitter: "Com profunda tristeza, mas com grande gratidão pela sua vida incrível, confirmamos o falecimento de Lauren Bacall".
Chamaram-lhe The Look, e é só olhar para as fotografias para perceber porquê. Hawks (e é preciso sempre regressar a ele) tem responsabilidades. A mulher do realizador viu-a um dia numa capa da Harper's Bazaar – dia 1 de Março de 1943 – e recomendou-a ao marido. Betty Joan Perske não tinha ainda 19 anos, estudara dança, faltava às aulas para ver filmes com Bette Davies (alguma coisa deve ter ficado nela...), era manequim e contava no seu portfolio com dois ou três fracassos na Broadway. Mas perante a foto daHarper's Bazaar Hawks soube o que fazer. Contratou-a.
Ensinou-a a tirar partido da voz grave, porque não haveria coisa “menos atraente” do que uma rapariga guinchar. E lá ia ela (contou na sua autobiografia By Myself) para Mulholland Drive ler alto para os canyons. Três semanas depois...Hello, how are ya. Betty Joan Perske metamorfoseava-se em Lauren Bacall. Hawks – ele próprio conta-o no livro de conversas Hawks on Hawks, de Joseph McBride – ensinou-lhe ainda algo de mais essencial: a ser má com os homens para conseguir boleias para casa. "Porque não tentas insultá-los?".
E assim apareceu uma rapariga de 19 anos que era tão insolente como a mais insolente das estrelas do firmamento de Hollywood daqueles anos: Humphrey Bogart. Nunca se tinha visto nada assim, embora Marlene Dietrich se tivesse aproximado de Hawks a reclamar o que achava que era dela: “Sabes, aquilo sou eu há 20 anos”. (Hawks sabia-o, era verdade).
Em Ter ou não Ter, Bacall chama-se Slim porque era esse o nome da mulher de Hawks. Afinal, é preciso regressar a ela, Slim Keith, mulher do jet set de Nova Iorque, ícone da moda (ela própria apareceu na Harper's Bazaar), inspiração de Truman Capote, fumadora inveterada e, segundo a sua biografia,Memories of a Rich and Imperfect Life, a proprietária das roupas que Bacall usa em Ter ou não Ter e a autora do famoso ''You know how to whistle, don't you?'' – a que, reconhece, Bacall deu um tom pessoal de comic film-noir.
O casal Bogart/Bacall tiraria ainda partido da sua química cinematográfica emDark Passage (1947) e Key Largo (1948), mas Lauren dedicou-se à vida familiar, escolha que, assumiu, prejudicou a evolução da sua carreira. Também não ajudou o facto de ter entrado em vários litígios com o estúdio, a Warner, por recusar papéis, sendo suspensa (12 vezes). Mesmo parecendo sempre inquebrantável, por exemplo ao lado de Marilyn Monroe em How to Marry a Millionaire (1953) – um suplemento de fibra para prender a volátil loura à terra –, ou ainda em melodramas de Vincent Minnelli (Cobweb, 1956,Designing Woman, 1957), ou Douglas Sirk (Escrito no Vento, 1958), Bacall cedo demais ficou um magnífico side-show. Bogart, de quem teria dois filhos, Steve e Leslie, morreria em 1957 e, entre 1961 e 1969, foi casada com Jason Robards, de quem teve Sam.“O meu obituário vai estar cheio de Bogart, tenho a certeza”, disse numa entrevista à Vanity Fair em 2011. “Nunca saberei se é a verdade. Se é o que é, é o que é. Ele foi o meu mentor, o meu professor e o amor da minha vida. Lembro-me de cada palavra que me disse mas nunca mais o verei.”


Continuou a ser uma working girl, também sem paciência para os benefícios da "lenda cinematográfica", e a ter de ganhar a vida. As lendas eram do passado e nada tinham a ver com o presente, onde a actriz ainda queria fazer tanta coisa. “Quando alguém me pergunta porque é que eu ainda estou a trabalhar, apetece-me logo dizer: ‘Por que é que te atreves a perguntar-me isso?’ Se eu não trabalhasse, não saberia o que fazer comigo", disse em tempos. Ganhou um Globo de Ouro e uma nomeação ao Óscar por The Mirror Has Two Faces (1996), de Barbra Streisand. E deve ter percebido que continuava na memória de muita gente e que era em nome disso que Robert Altman (Pronto a Vestir, 1994), Lars von Trier (Dogville, em 2003 e Manderlay, em 2005), ou Jonathan Glaser (Birth, 2004) a chamaram. (Jornal Público)