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domingo, 6 de abril de 2014

Pedro Xavier vive em 1974 e tem uma página de Facebook.



O que escreveria no seu Facebook um jovem português em 1974? A convite do Teatro Maria Matos, um escritor criou essa personagem e está a contruir a sua história. Dia a dia.
"Saio da camioneta e a luz de Lisboa espanta-me como se a visse pela primeira vez. Mas nem esta luz nem a maresia conseguem disfarçar o cheiro a coisa velha e doente. Sou daqui mas aqui não pertenço." Isto escreveu Pedro Xavier na sua página de Facebook no dia 12 de março de 1974. Não, não nos enganámos na data. É claro que em 1974 não havia Facebook, mas... e se houvesse?
Esse foi o desafio que o Teatro Maria Matos, em Lisboa, fez a um escritor: que inventasse uma personagem, que lhe criasse uma página no Facebook e que imaginasse o que ele iria postar no mês que antecedeu a revolução de 25 de abril. A página está online e a história está a ser contada - por quem é o que se vai saber no fim, o teatro preferiu manter o autor no anonimato para que a atenção do público estivesse apenas focada apenas em Pedro Xavier. (Diário de Notícias - 06.04.2014)

terça-feira, 1 de abril de 2014

Conta lá a história das bibliotecas itinerantes.


Às vezes, dou por mim a falar nisso perante uma plateia que me olha como se estivesse a dar notícias de um mundo meio real, meio imaginário. Não preciso de pensar muito no que estou a dizer porque, por preguiça, utilizo quase sempre as mesmas palavras, basta-me seguir o desejo de exotismo que encontro nos olhos que me fixam. Então, parece-me, sou um pouco como aqueles escritores africanos ou sul-americanos a quem se exige episódios coloridos, personagens singulares, anedotas, contos com moral.
Ainda assim, cada vez mais raramente, acontece estar alguém na sala que também conheceu essas bibliotecas, que também lá esteve. Então, de repente, as palavras voltam a ganhar significado, enchem-se. Ouço essa pessoa contar as suas memórias e, durante aquele instante, somos irmãos no olhar. As descrições têm préstimo, mas há uma presença muito mais funda, invisível, há a certeza de que, afinal, aquele tempo e aquele lugar existiram mesmo. Até eu já começava a duvidar.
As fitas adesivas coladas nas lombadas eram reais.
Uma vez por mês, ao fim da tarde, a carrinha Citroën chegava ao terreiro de Galveias, calhava-nos as quartas-feiras. Ficava estacionada em frente da cooperativa. Em Galveias, depois do 25 de Abril, o clube dos ricos passou a sede da cooperativa. Quando eu chegava, vindo dos lados do São João, já havia outros rapazes e raparigas à volta da carrinha.
Impressionava-me a quantidade de livros. Precisava de me esticar para chegar às prateleiras mais altas e, por isso, parecia-me que não tinham fim. O senhor Dinis conduzia a carrinha, recebia os papéis preenchidos com os códigos dos livros que requisitávamos, foi então que aprendi esse verbo, e era dentista. Eu conhecia-o da sala de espera, aquele cheiro antissético, onde aguardava a minha mãe e as minhas irmãs. Encontrei-o no ano passado na biblioteca de Abrantes, tirámos uma fotografia juntos. Aproveito para lhe enviar um abraço. Espero que esteja a ler estas palavras, com saúde.
Levávamos sempre a quantidade máxima de livros. E, sim, é verdade aquilo que costumo dizer: líamos muito depressa os que tínhamos e, depois, íamos trocando entre nós até ao regresso da biblioteca no mês seguinte.
Esse era também o tempo das sessões de cinema do Inatel no centro paroquial e na casa do povo. Foi dessa forma que, em Galveias, desci a ladeira, passei pela travessa da fonte e cheguei a casa com o rosto incendiado pelo Apocalipse Now. Foi também assim que assisti ao Baile, de Ettore Scola, sentado em cadeiras de tábua dura exatamente como aquelas em que assistia a bailes no salão da sociedade filarmónica. Poderia agora dar muitos outros exemplos.
Conheço as crianças de Galveias. Há dois anos, estive na escola onde também eu aprendi a ler e vejo-as na rua quando lá vou. No entanto, se quero identificá-las, tenho de perguntar-lhes quem são os seus pais. Nos sábados de manhã, ouve-se muito menos crianças a brincar do que no meu tempo. No ano passado, na minha terra, morreram mais de cinquenta pessoas e nasceram apenas duas.
As crianças de Galveias são iguais às de antes. Sinto pena que tenham menos do que eu tinha há quase trinta anos. Não se evoluiu. Na formação e na vida, a televisão não substitui a leitura e o cinema.
Ao falar de bibliotecas itinerantes aos meus filhos ou a essas crianças, sinto que sou como o meu pai quando me contava histórias da sua infância. Eu sabia que se tinham passado com ele mas, para mim, esse conhecimento era muito vago, pareciam lendas. No entanto, esse tempo era tão concreto como este. Um dia, este tempo, hoje de manhã, ontem, este preciso momento, será contado pelos meus filhos e por essas crianças com o mesmo tom com que agora falo de bibliotecas itinerantes. Naquele tempo, dirão. E aquele tempo será isto, tão concreto, tão prosaico, tão isento de magia. Estes objetos sem graça serão esse incrível futuro.
Eu, que estou aqui neste instante, também estava lá, a cheirar aqueles livros, a subir para a carrinha, a escutar a voz do doutor Dinis. Por isso, ainda que use as mesmas palavras até à exaustão, hei de continuar a repetir esta história. Sempre. É a minha história.
Ler mais: 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

As fotografias vencedoras do World Press Photo 2014.

A organização do mais importante concurso de fotojornalismo do mundo, o World Press Photo, divulgou os trabalhos vencedores. Uma imagem do norte-americano John Stanmeyer foi a escolhida para o Grande Prémio de 2013. É uma fotografia que mostra um grupo de emigrantes africanos que, de telemóveis erguidos para o céu e à luz da lua, tentam a partir da costa do Djibuti encontrar a rede somali mais barata para poderem falar com os seus familiares. (Jornal Público)

Questões Actuais, 1º prémio (estórias). Discussão entre Shane e Maggie enquanto a filha entra na cozinha, Lancaster. EUA
SARA NAOMI LEWKOWICZ/TIME

Notícias, 1º prémio (fotografia única). Centro de refugiados sírios, em Sofia, Bulgária
ALESSANDRO PENSO/ONOFF PICTURES

World Press Photo of the Year, Questões Actuais, 1º prémio (fotografia única). Grupo de imigrantes africanos que, a partir da costa do Djibuti, tentam encontrar a rede somali mais barata para falarem com os seus familiares
JOHN STANMEYER/VII FOR NATIONAL GEOGRAPHIC

Retrato, 1º prémio. Mulher desanimada depois de não conseguir ver o corpo de Nelson Mandela, em Pretória, África do Sul
MARKUS SCHREIBER/THE ASSOCIATED PRESS


Retrato, 1º prémio. Rapazes albinos cegos numa escola, Índia
BRENT STIRTON/GETTY IMAGES

Notícias, 1º prémio (fotografia única). Sobreviventes do tufão Haiyan, durante uma procissão em Tolosa, ilha de Leyte, Filipinas
PHILIPPE LOPEZ/AGENCE FRANCE-PRESSE



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Quando a literatura pode mudar a sociedade.


O escritor mineiro Luiz Ruffato foi o herói da cerimónia oficial da abertura da Feira do Livro de Frankfurt, que começa nesta quarta-feira e em que o Brasil é o país convidado. Arriscou, pôs o dedo na ferida e foi aplaudido de pé.
Para o brasileiro Luiz Ruffato “escrever é um compromisso”. O autor de “Estive em Lisboa e lembrei-me de ti” (que é editado em Portugal pela Quetzal e Tinta da China) quer “afectar o leitor”, modificá-lo, para transformar o mundo. “Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias”, disse nesta terça-feira, na cerimónia oficial de abertura da Feira do Livro de Frankfurt, que este ano tem o Brasil como país convidado.
O escritor de Minas Gerais foi escolhido para ser o orador literário da cerimónia de boas vindas ao país convidado ao lado da presidente da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, naquela que é a mais importante feira mundial do sector e que nesta quarta-feira abre portas. Fez um discurso que não deixou ninguém indiferente, mostrando como o Brasil é um “país paradoxal”: “Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edénicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza.”
Falou do genocídio histórico dos índios, que em 1500 eram quatro milhões e hoje são 900 mil, das desigualdades sociais, da violência, do racismo, afirmando que a história do Brasil se tem alicerçado “quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença”. No final havia gente a aplaudir de pé.
Emocionou, por exemplo, a mais importante agente literária brasileira, Lucia Riff, uma das veteranas de Frankfurt, e foi ao encontro do que pensa o escritor brasileiro Paulo Lins, autor de Cidade de Deus e de Desde que o Samba é Samba (ed. Caminho), que se sentiu muito bem representado e para quem o discurso do colega mostrou “o Brasil como ele é”. “A gente fica passando essa visão debaixo do pano, ele falou somente a verdade”, disse ao PÚBLICO, surpreendido com a opinião daqueles que consideraram não ser a Feira do Livro de Frankfurt o lugar para se fazer um discurso daquele tipo argumentando que só iria aumentar o estereótipo. “Não seria o lugar?! Mas qual seria o lugar, no congresso nacional brasileiro? Ainda mais tendo os escritores um compromisso com a verdade.” Também o escritor Cristovão Tezza, autor do premiadíssimo O Filho Eterno (ed. Gradiva) disse ao PÚBLICO ter sentido o discurso de Luiz Ruffato como “muito autêntico e verdadeiro”, alegando que não reforçava o cliché. 
Luiz Ruffato começou com uma interrogação pertinente: "O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso.” Lembrou o “mito corrente” da chamada “democracia racial brasileira”, de que não houve “dizimação, mas assimilação dos autóctones”. “Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um facto indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.” Silêncio na sala.
O escritor continuou. “Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.” E lembrou que 75% de toda a riqueza brasileira se encontra nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Disse que “quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas eléctricas, segurança privada e vigilância electrónica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.”
Lembrou que são “machistas”, ocupam “o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica”, e que são “hipócritas”, sendo reveladores os casos de intolerância em relação à orientação sexual : “O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.”

Mas o discurso de Ruffato em Frankfurt terminou com optimismo. Além de referir a conquista da sua geração, a democracia, voltou à pergunta inicial: “O que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida? Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contacto, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade.” (Jornal Público – 09.10.2013)

domingo, 23 de junho de 2013

A casa com que Aristides de Sousa Mendes sempre sonhou.


A casa de Aristides de Sousa Mendes, mais conhecida como a Casa do Passal, em Cabanas de Viriato, vai finalmente ser restaurada. Depois de vários anos ao abandono, a Secretaria de Estado da Cultura (SEC) anunciou nesta quinta-feira, numa cerimónia de homenagem ao “Cônsul de Bordéus”, que em breve vão começar os trabalhos de recuperação.
O dia foi de festa e de homenagem ao homem que durante a Segunda Guerra Mundial passou o visto a mais de 30 mil pessoas, permitindo que estas pudessem fugir aos terrores do Holocausto.
Foi aliás por causa de um destes sobreviventes que nesta quinta-feira se reuniram centenas de pessoas em Cabanas de Viriato. Eric Moed, um arquitecto norte-americano, ficou a saber no ano passado que Aristides de Sousa Mendes tinha passado o visto ao seu avô. Na mesma altura estava a preparar o projecto final de curso.
“E foi então que tudo fez sentido. Assim que o meu avô me contou a sua história, eu quis saber mais sobre Aristides de Sousa Mendes. Quando vi a Casa do Passal completamente destruída, percebi que esse seria o meu projecto”, contou ao PÚBLICO o arquitecto de 25 anos. O resultado final do seu trabalho é uma instalação à entrada da destruída casa. O objectivo é não só lembrar o acto heróico do cônsul, como também alertar para o estado de degradação da casa, já com parte do telhado destruído.
O plano do arquitecto parece ter resultado e os trabalhos de restauro vão começar ainda este ano, como anunciou o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, que, apesar de não ter estado presente na homenagem, enviou uma mensagem. O objectivo, segundo as palavras do secretário de Estado, é que a Casa do Passal seja no futuro um espaço onde o passado e o futuro se encontrem para que “aprendamos a dizer: ‘Nunca mais’.”

“Temos de ter a capacidade de aprender com a história.” A notícia foi recebida pela população com um entusiasta e longo aplauso. “Finalmente”, gritou-se.

sábado, 25 de maio de 2013

Rugas.




Título original: Arrugas
Género: Drama, Animação
Classificação: M/12
Outros dados: ESP, 2011, Cores, 89 min.
Links: Site Oficial
Emílio e Miguel são dois amigos a dividir quarto num lar de terceira idade. Quando são diagnosticados a Emílio os primeiros sintomas de Alzheimer, Miguel percebe que terá de encontrar uma maneira de impedir que o transfiram para o segundo andar da instituição, para onde, supostamente, são deslocados os casos sem solução. Assim, ao mesmo tempo que um se vai perdendo nos labirintos da memória, confundindo a realidade com criações da sua mente envelhecida, o outro arranja um plano infalível que provará a todos que, mesmo na velhice, a amizade é o bem mais precioso. 
Realizada por Ignacio Ferreras, um filme de animação que adapta a novela gráfica homónima criada por Paco Roca, premiada, em 2008, com o Prémio Nacional del Cómic. PÚBLICO
Emílio, ex-diretor bancário, tem alzheimer. O filho "despacha-o" para um lar de 3.ª idade. E é aí que conhece Miguel, ex boémio, que extorque às velhinhas endinheiradas, dinheiro por "serviços" que não passam de informações inúteis!...
"Arrugas" /"Rugas" é uma visão dos lares da 3º. Idade, onde os utentes são os que menos contam! Os "cliente" reais, são os filhos e o estado, que subsidia estas residências, com equipamentos absolutamente desnecessários - a piscina é um exemplo que o filme apresenta - apenas para "encher os olhos" aos que (ainda) os visitam!
Teve ante-estreia no cine fiesta e, saúda-se a dobragem para português.
Animação "séria" para adultos. Cinema híper realista da sociedade atual, onde os velhos são literalmente "depositados" em equipamentos (na sua maioria "generosamente" subsidiados pelo estado) dos quais, ninguém parece interessado em saber o que quer que seja. 
A história em si mesma, poderia mesmo não resultar num filme dito "normal" de ficção. No formato do "desenho animado", acaba por resultar muitíssimo bem, capaz de ombrear com "Chico & Rita" de Fernando Trueba ou com o "O Mágico" de Sylvain Chomet, igualmente, belíssimas obras de cinema de "animação" destinada a gente "muito" crescida, contrastando com a animação que vem de Hollywood. Vai haver muitos espetadores "perdidos" (ou enganados?!) a ver este filme...(****)

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Português que venceu o World Press Photo não tem máquina.


É fotógrafo, está desempregado e foi obrigado a vender o seu material fotográfico para fazer face às despesas. Chama-se Daniel Rodrigues e venceu o primeiro prémio do World Press Photo, na categoria “Daily Life”.
 A fotografia que lhe garantiu o prémio foi tirada em Março de 2012, na aldeia de Dulombi, na Guiné-Bissau. “As crianças estavam a jogar à bola e fui jogar com elas. Pelo meio, fotografei-as. Gostei do resultado e fiz mais algumas fotografias semelhantes”, afirma Daniel Rodrigues, ao P3.
 O fotógrafo esteve um mês na Guiné-Bissau, ao abrigo da missão humanitária Dulombi. A iniciativa partiu do próprio, que contactou os responsáveis da missão. Para além da vertente humanitária da iniciativa, que considera “muito compensadora, pela possibilidade de ajudar quem precisa”, houve outro motivo forte que o levou àquele destino.
“Sou apaixonado por África e tinha o sonho de fotografar lá. Nunca tinha lá ido e esta era uma boa oportunidade”, garante. A experiência foi tão positiva que já está no horizonte nova viagem. No dia 7 de Março, regressa à Guiné, “a não ser que tenha boas notícias e arranje trabalho”. Desta vez, irá "unicamente para ajudar", uma vez que não dispõe de material fotográfico para registar momentos da missão.
O desemprego
Depois de ter estado na Guiné, em Março de 2012, este grupo humanitário esteve retido 15 dias no Mali, uma vez que o aeroporto de Bamako havia sido tomado por um grupo de militares. Foi mais uma oportunidade para Daniel Rodrigues tirar algumas fotografias no continente africano.
A dualidade, entre o drama do desemprego e o reconhecimento do World Press Photo, desperta-lhe um sentimento: revolta.
“Há muita gente com valor, em Portugal, que não tem trabalho. Talvez este prémio possa ajudar a que essas pessoas sejam olhadas com outra atenção. Espero que este prémio me ajude”, garante.
Daniel Rodrigues tirou o curso de fotografia no Instituto Portugês de Fotografia em 2008. De seguida, estagiou no "Correio da Manhã", durante três meses, e trabalhou na Global Imagens, até Setembro de 2012. (jornal Público - 16.02.2013)


sábado, 5 de janeiro de 2013

Manual do sexo de Aristóteles banido durante 200 anos vai a leilão.


Um manual do sexo banido durante 200 anos no Reino Unido vai agora ser leiloado este mês. Trata-se de uma cópia do «Aristotles Compleat Master-Piece».
O livro foi publicado pela primeira vez em 1680 e nele constam várias ideias para manter relações sexuais e inclusivamente para conceber.
O manual acabou por ser banido em meados do século XVIII e permaneceu proibido até que o «embargo» foi levantado em 1960.
Uma edição impressa, datada de 1760, vai agora a leilão, estimando-se arrancar com uma base de licitação de 400 libras na casa de leilões de Edimburgo Lyon and Turnbull.
Estima-se que a obra tenha servido de referência para recém-casadas na época e jovens casais e inclui avisos sobre os potenciais riscos de relações extra-matrimoniais e recomendações sobre como conceber. 
O livro foi atribuído a Aristóteles mas há pouco, se é que há sequer, algum do seu trabalho no texto. Nada é sabido sobre o autêntico autor do manual.
Para os interessados (o comentário é meu)... O leilão está agendado para dia 16 de Janeiro (quarta-feira).

retirado de: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=608954

sábado, 29 de dezembro de 2012

Paulo Rocha: o realizador que "viveu" cinema.



É um cineasta maior, uma das referências incontornáveis de um cinema livre e inconformista gerado num país sem indústria, mas com uma força imagética em que muitas vezes não acreditamos.
Quando morre um grande cineasta – Paulo Rocha, esta manhã, aos 77 anos –, alguém que mudou a paisagem representativa de uma cinematografia como a nossa, o pior a fazer é perder muito tempo com dados biográficos: nasceu no Porto em 22 de Dezembro de 1935, abandonou os estudos de Direito para ir estudar cinema no IDHEC, em Paris, foi assistente estagiário do grande Jean Renoir em O Cabo de Guerra (1962) e assistente de Manoel de Oliveira sobretudo em Acto de Primavera (1963).
Ou seja, “viveu” cinema, desde a sua participação na fundação do Cine Clube Católico com Bénard da Costa ou Nuno Bragança até à sua estreia como realizador com Verdes Anos (1963), o filme que transformou tudo no cinema português: da forma de conceber o espaço urbano, integrando na estafada dicotomia cidade-campo uma nova e radical forma de exílio, até à direcção de actores – rostos marcantes de uma nova visualidade, como Isabel Ruth, ou a recuperação de uma irreconhecível teatralidade, como Paulo Renato –, passando pelas condições de produção e de escrita – um cinema “pobre”, actuante, urgente e poético. Verdes Anos não representa apenas o início do Cinema Novo, é o manifesto de uma forma revolucionária de olhar para nós e para as nossas atávicas contradições, com poucos meios, muita imaginação e com um lirismo pungente: cerca de 50 anos depois permanece vivo e perturbante, como um retrato de família de um país e de uma sociedade em ruptura e em carne viva.

Retirado do jornal "Público".

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Melhores Fotos 2012.


Pode ver mais em: http://blogs.reuters.com/fullfocus/2012/11/30/best-photos-of-the-year-2012/#a=1

domingo, 25 de novembro de 2012

Padre - Joan Manuel Serrat



Padre, decidme qué le han hecho al río que ya no canta.
Resbala como un barbo muerto bajo un palmo de espuma blanca.
Padre, que el río ya no es el río.
Padre, antes de que vuelva el verano esconda todo lo que tiene vida.
Padre, decidme qué le han hecho al bosque que no hay árboles.
En invierno no tendremos fuego ni en verano sitio donde resguardarnos.
Padre, que el bosque ya no es el bosque.
Padre, antes de que oscurezca llenad de vida la despensa.
Sin leña y sin peces, padre tendremos que quemar la barca, labrar el trigo entre las ruinas, padre, y cerrar con tres cerraduras la casa y decía usted, padre, si no hay pinos no se hacen piñones, ni gusanos, ni pájaros.
Padre, donde no hay flores no hay abejas, ni cera, ni miel.
Padre, que el campo ya no es el campo.
Padre, mañana del cielo lloverá sangre.
El viento lo canta llorando.
Padre, ya están aquí... Monstruos de carne con gusanos de hierro.
Padre, no tengáis miedo, decid que no, que yo os espero.
Padre, que están matando la tierra.
Padre, dejad de llorar que nos han declarado la guerra.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Paisagem da alma.



Para Hélder Macedo, "Portugal, de certa maneira, é uma ilha que tem o mar de um lado e a hostilidade da terra contra ele".

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Somos a primeira pessoa do plural



Estamos tão perto uns dos outros. Somos contemporâneos, podemos juntar-nos na mesma frase, conjugarmo-nos no mesmo verbo e, no entanto, carregamos um invisível que nos afasta. Ouvimos os vizinhos de cima a arrastarem cadeiras, a atravessarem o corredor com sapatos de salto alto, a sua roupa molhada pinga sobre a nossa roupa a secar; ouvimos a voz dos vizinhos de baixo, dão gargalhadas, a nossa roupa molhada pinga sobre a roupa deles a secar; cheiramos as torradas dos vizinhos do lado, ouvimo-los a chamar o elevador e, no entanto, o nosso maior problema não é apenas não nos reconhecermos na rua. O nosso problema grande é estarmos convencidos que os problemas deles não nos dizem respeito. A nossa tragédia é acharmos que não temos nada a ver com isso.
 Há três ou quatro anos, caminhava com um conhecido no aeroporto. De repente, ouviu-se um estalido. Ele agarrou-se ao peito com as duas mãos, caiu de joelhos e, pálido, esperou por morrer. Não morreu. Tinha-lhe rebentado um isqueiro no bolso da camisa. Aliviado, encostado a um balcão, a beber um copo de água, explicou que esse ardor repentino e esse susto pareceram-lhe um ataque cardíaco. Nunca tinha tido um ataque cardíaco antes, por isso confiou em descrições vagas, a que nunca tinha realmente prestado muita atenção. 
 Há alguns anos também, talvez um pouco mais do que três ou quatro, tinha acabado de participar num jantar cordial, reconfortante. Toda a gente estava bem disposta, à porta dos anfitriões, longa despedida, graças, à espera de táxi. De repente, tocou o telefone de um senhor com quem tinha estado a conversar durante todo o serão. Ninguém reparou nesse telefonema até ao momento em que o senhor começou a chorar convulsivamente. Ficámos todos a olhar sem saber como chegar até ele. Tínhamos braços, estendíamo-los na sua direcção, mas continuavam distantes.
 Irritamo-nos com a existência uns dos outros. Fazemos sinais de luzes àquele homem com setenta anos, num carro dos anos setenta, que anda a setenta quilómetros por hora na auto-estrada. Contrariados, esperamos por aquela pessoa que atravessa a passadeira, enchemos as bochechas de ar e sopramos. Impacientes, batemos no volante. Daí a minutos, depois de estacionarmos o carro, somos essa pessoa a atravessar a passadeira. Da mesma maneira, daqui a algum tempo, não muito, seremos esse homem com setenta, dos setenta, a setenta. O tempo passa. Se deitarmos lixo para o chão, alguém o apanhará.
 Um amigo que teve um AVC, que passou por uma reabilitação profunda, que enfrentou a morte e a paralisia, depois de anos de fisioterapia, depois de esforço gigante e sofrimento gigante, falou-me da forma como esse susto muda tudo. Passa-se a apreciar aquilo que realmente importa. A imensa maioria das preocupações transformam-se em luxos ridículos, desprezíveis, alimentados pela cegueira. Após essa experiência de quase morte, ganha-se uma nitidez invulgar, que, no entanto, esteve sempre lá. Para percebê-la, bastava levar a sério a promessa de transitoriedade de tudo e, também, levar a sério essa palavra, esse planeta: o amor. Ao ouvi-lo, fui capaz de entender aquilo que dizia. Depois, também fui capaz de entender quando me disse: mas, sabes, ao fim de algum tempo, esquecemo-nos, voltamos a tomar tudo por garantido e voltamos a cometer os mesmos erros.
 Repito para mim próprio: estamos tão perto uns dos outros. Não há nenhum motivo para acreditarmos que ganhamos se os outros perderem. Os outros não são outros porque levam muito daquilo que nos pertence e que só pode existir sendo levado por eles. Eles definem-nos tanto quanto nós os definimos a eles. Eles são nós. Eles somos nós. Se tivermos essa consciência, podemos usar todo o seu tamanho. Mesmo que pudéssemos existir sozinhos, de olhos fechados, com os ouvidos tapados, seríamos já bastante grandes, mas existe algo muito maior do que nós. Fazemos parte dessa imensidão. Somos essa imensidão que, vista daqui, parece infinita. 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Dezembro 2011)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Hoje já ninguém escreve cartas...



“Ninguém é mais solitário do que aquele que nunca recebeu uma carta.” Elias Canetti
Uma caligrafia bonita, esculpida, morosa.
Como Cargaleiro a cinzelar mármore, Manuel Beja debruça-se com cuidados de artesão sobre a folha de papel branco e desenha as capitulares com vagar e minúcia de estilete-BIC. Uma caligrafia ornamentada, quase barroca, que enche de orgulho o antigo ferroviário, reclinado na velha cadeira de mogno entronizada no terreiro de luz do Abril-em-flor beirão. “Toda a gente me gaba a letra”, aventa com um sorriso empinado nos óculos garrafais que tentam iludir as cataratas do octogenário escrevinhador. “Nos Escalos, antigamente, a minha mãe era das poucas que sabia ler e escrever e era assim que ganhava mais uns trocados para alimentar sete filhos. Lia e escrevia as cartas para o povo. Acho que lhe herdei o jeito”.
Imagino a letrada camponesa no Largo dos Escalos como os escribas que montavam banca e tinteiro no Largo do Pelourinho de Lisboa no final do século XVI para escreverem cartas galantes a soldo; ou Florentino Ariza, personagem de “Amor em Tempos de Cólera” de Garcia Marquez, dedilhando a sua angústia em cartas de amor mercenárias forjadas para outros amantes se amanharem nos montes de Vénus; ou os ardis do amor por escrito que uma freira do séc. XIX ministrava, ensinando a simular o pingo de uma lágrima a pontuar uma carta de saudade.
As cartas de amor são como retratos amarelecidos com a usura do tempo. Já não se escrevem cartas de amor como antigamente, aliás já ninguém escreve “Meu amorzinho, meu Bébé querido” como Fernando Pessoa escrevia a Ofélia.
Na era do “fast-love” dos piropos via SMS, dos “chat´s” e da internet, o romantismo lacrado num envelope perfumado é um romantismo extinto: “Quem me dera no tempo em que escrevia/ Sem dar por isso/ Cartas de amor/ Ridículas / A verdade é que hoje/ As minhas memórias/ D`essas cartas de amor /É que são ridículas”.
Ti Manel contorna o sobrescrito com a língua, para acicatar a goma que sela as palavras esculpidas: “É para o meu irmão que está em França. Hoje em dia, já ninguém escreve cartas por causa do telefone. É tudo mais fácil. É pena, já nem o carteiro vem à nossa porta e uma carta escrita tem outra graça.”
Desde que Ti Sebastião, o antigo carteiro do “giro” de Castelo Novo se reformou, as quintas semeadas no sopé da Gardunha já não recebem com alegria o estardalhaço da motorizada zundape-alada deste Mercúrio rural, fintado a canzoada para entregar o correio, dois dedos de conversa e boa disposição: “Agora as caixas de correio estão concentradas em caminhos de acesso às quintas e já não se entrega a correspondência ao domicílio como antigamente. Muitas vezes os carteiros nem conhecem as pessoas. No meu tempo não era assim. Íamos a todas as quintas, mesmo as mais remotas. Conhecia toda a gente e ao longo dos anos fui ficando amigo de muitos deles. Vi gente nascer, crescer, casar, partir e fui vendo esse mundo rural morrer devagarinho”, conta Ti Sebastião enquanto prepara a pauta para o ensaio da Banda de São Vicente da Beira, da qual é maestro.
Empunha a batuta com as mãos que durante anos cavaram o fundo da sacola de carteiro, garimpando cartas que traziam as novas – boas e amargas -, a esperança e a angústia.
O mestre de música sabe que o homem que inaugurou a moderna indústria dos correios com a invenção do selo postal em 1837 era também maestro?
Sir Rowland Hill, administrador do Correio inglês, venceu a casmurrice da Câmara dos Lordes e impôs uma reforma postal que consagrava um sistema de padrões tarifários que permitia aos Correios Ingleses cobrar antecipadamente pelos serviços prestados, bastando colar um comprovativo do pagamento sobre a encomenda.
Nascia assim a lambidela no selo postal, gesto universalmente repetido da Gronelândia ao Burkina-Fasso, que permitiu aos serviços de correios de todo o mundo crescerem e democratizar esse sistema de comunicação tão antigo como a própria escrita e cujos registos mais ancestrais remontam a 2.400 AC no Egipto, quando os sigmanacis – velozes mensageiros – percorriam grandes distâncias a pé, de cavalo ou a camelo, carregando os papiros e correspondência com que os faraós mandatados pelo deus Sol, subjugavam o seus domínios à beira-Nilo.
Os comensais que uma vez por mês se agremiam na casa do Ti Sebastião na Soalheira para uma patuscada são a reencarnação desses sigmanacis e dos peregrinos, escudeiros, almocreves, correios-mores, correios a cavalo da mala-posta e de todos os homens que ao longo da história da humanidade carregaram o poder da palavra escrita para reis, senhores feudais, corpo eclesiástico e derradeiramente … para o povo: “É uma almoçarada de carteiros, alguns já reformados, outros no activo. Sempre serve para nos mantermos em contacto, trocarmos histórias ou até ensinarmos alguns segredos da profissão aos mais novos.”
A banda afina a marcha, o sisudo oboé abafa a fanfarronice do cornetim, o mesmo que serve de símbolo ao cavaleiro do logótipo dos CTT, que sopra com estribilho as novas de um mundo em permanente mudança, um mundo em que já ninguém escreve ao Ti Manel: “Até a reforma é depositada no banco. Só recebo publicidade do Jumbo e recibos da água e da luz. Hoje em dia, a única coisa que leio é o Jornal do Fundão para ver os resultados dos Escalos nos distritais e saber quem morreu por lá”.
Todas as quintas-feiras, Manuel Beja desenferruja o reumático que lhe atravanca o andar, no quilómetro e meio que separa a sua quinta da caixa postal junto à ordenha colectiva.
Todas as quintas-feiras, Ti Manel caminha até ao mundo exterior ao seu lameiro, que hoje lhe entra pela televisão e pelo telefone, com o coração acelerado pela secreta e irreprimível esperança de ter uma carta do seu irmão Carlos, emigrado em França.
A mesma esperança renovada e amarga que levava o velho coronel de Gabriel Garcia Marquez a desesperar todas as sextas-feiras a carta da pensão do seu filho morto na revolução, a carta de um tempo que já não volta, a carta que nunca chega: “Estou à espera de uma carta urgente – disse ele – é de avião.
O administrador procurou nos compartimentos classificados. Quando acabou de ler, repôs as cartas na letra correspondente, mas não disse nada. Sacudiu as palmas das mãos e dirigiu ao coronel um olhar significativo.
- Devia chegar hoje de certeza – disse o coronel.
O administrador encolheu os ombros.
- A única coisa que chega de certeza é a morte, coronel”.

retirado de: 
http://www.a23online.com/2011/08/12/carteiros-do-fim-do-mundo-ja-ninguem-escreve-ao-ti-manel/