sexta-feira, 9 de março de 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

A todas as mulheres... Mães da humanidade! 
Neste caso à minha querida mãe que foi uma GRANDE MULHER!...

 "Pequeno Poema" de Sebastião da Gama

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A origem do conto do vigário.



Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.
Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa. Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe:
«Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer?
Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.»
«Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as:
«Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil re notas falsas, e disse-lhe:
>
éis cada uma.
Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos negociantes de gado como ele a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se, se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem.
Houve então a troca de outro olhar. O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho.
Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas.
E ditou o recibo – um recibo de bêbedo, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e «estando nós a jantar (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbedo...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.
Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.
Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido.
Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário «nem eu estava tão bêbedo que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça foi mandado em paz.
Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que lembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade – nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.

Contado por Fernando Pessoa.

(publicado pela primeira vez no diário Sol, Lisboa, ano I, nº 1, de 30/10/1926, com o título de «Um Grande Português». Foi publicado depois no Notícias Ilustrado, 2ª série, Lisboa, 18/08/1929, com o título de «A Origem do Conto do Vigário».

Enviado por "mail" por um amigo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Avieiros - Alves Redol



As palhotas são todas iguais. Quatro prumos metidos no chão e varas de madeira a segurar o telhado coberto pelo carroicil das abertas, que é a melhor palha nascida na vegetação da Lezíria. O material das paredes vem da mesma origem. Apodrece depressa, mas depressa se refaz. E como o vento do norte sopra rijo e traz frio, os pescadores põem na parede desse lado latas velhas e pedaços de madeira que acham nos valados ou as enxurradas trazem no Inverno. Não espanta que pareçam vergonhosas de ali estarem; e acaçapam-se. Entra-se nelas de cabeça baixa como na vida.
Na parede do fundo, no lado do poente, coloca-se a tarimba onde todos dormem. Ao cutelo se são muitos. Onde os pais amam e os filhos aprendem; onde os doentes se queixam, gemendo, e onde os sãos se queixam, calando. Bastam dois tijolos para se arranjar cozinha; chega o chão varrido para se ter assento e mesa. Aos cantos ou penduradas das varas que seguram o tecto, as artes da pesca: as nassas, os botirões e as tarrafas.
O chão ressumbra humidade das marés do Tejo e anda no ar um cheiro a bafio. Também nisso as choupanas são iguais; também não há telhado mais alto a dominar por ali. A rasoira da sorte nivela as vidas e as choupanas. As da rua estreita, as que vieram depois, unem-se às da frente por varas lançadas de telhado para telhado, amparando-se todas para defrontarem os temporais.
Assim os homens se aconchegassem. 

(extraido do Livro: "Avieiros") - Recomendo a leitura ou convido a reler de novo...


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Recordar é viver - A velha nota de 100$00!

É evidente que os tempos eram outros e nós não tínhamos aquilo que hoje temos. De qualquer forma é engraçado ver o que se podia fazer com uma nota de cem escudos... há 40 anos atrás. Hoje... uma nota de cem euros não dava... nem para metade...



Almoçávamos um frango de churrasco no Bom Jardim                     20$00
Víamos uma matinée no Cinema S. Jorge (Música no Coração)      10$00
Bebíamos 2 ginginhas no Rossio                                                           3$00
Comíamos 2 sandes de presunto no Solar dos Presuntos                    6$00
Jantar no Parque Mayer (Sardinhas Assadas)                                    7$50
Assistíamos a uma Revista à Portuguesa no Parque                         16$00
Telefone para dizer que tínhamos perdido o último barco                    1$00
Dormir numa pensão com pequeno-almoço incluído                           25$00
O resto da nota dava para ir de carro eléctrico                                     1$50

Total                                                                                                      100$00

Os tempos são outros, diferentes realidades e o valor do dinheiro também ...