quinta-feira, 14 de novembro de 2013
domingo, 10 de novembro de 2013
A Gaiola Dourada passa no MoMa de Nova Iorque em 2014, diz Ruben Alves.
O
filme A Gaiola Dourada vai ser exibido em Março ou Abril do próximo
ano no Museu de Arte Moderna (MoMa) de Nova Iorque, disse este sábado em
Bruxelas o realizador, Ruben Alves.
O
realizador luso-descendente, residente em França e cujo filme é um êxito de
bilheteira e já estreou em mais de dez países, disse à agência Lusa, à margem
da iniciativa Matiné Pensante, que o filme será exibido no MoMa “entre o final
de Março e o início de Abril”, no âmbito de uma semana dedicada ao tema da
emigração.
A
segunda edição da Matiné Pensante, um conjunto de conferências sobre a cultura
e as novas tendências em Portugal, juntou este sábado em Bruxelas
cerca de 200 pessoas, tendo como oradores convidados o comediante Nilton, o
chefe de cozinha José Avillez ou o realizador Ruben Alves, entre outros. (Jornal
Público – 10.11.2013)
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
O homem que tinha em casa um museu de arte moderna.
Cornelius
Gurlitt mantinha num andar de Munique 1400 obras de arte, incluindo telas
desconhecidas de Chagall ou Matisse. As autoridades alemãs descobriram o seu
tesouro, boa parte dele oriundo das pilhagens nazis, já há dois anos, mas não
disseram nada
As
autoridades alemãs anunciaram ontem, em conferência de imprensa, que as 1400
obras de arte encontradas em 2011 num apartamento de Munique incluem pinturas
desconhecidas de Henri Matisse, Marc Chagall e Otto Dix. Meike Hoffmann,
encarregada pelo Ministério Público alemão de catalogar o achado, mostrou aos
jornalistas presentes imagens de uma pintura ignorada de Matisse, de um
auto-retrato de Dix e ainda de uma cena alegórica de Chagall, datável de meados
dos anos 20, à qual a especialista atribuiu "particular importância para a
história da arte".
(Chagall)
O
encontro com a imprensa foi convocado após a revista alemã Focus ter
revelado que as autoridades do seu país mantiveram em segredo durante dois anos
a apreensão de um vastíssimo lote de arte moderna, boa parte dela saqueada
durante o período nazi, que se amontoava num modesto apartamento de Munique. O
andar é propriedade de Cornelius Gurlitt, filho de um célebre negociante de
arte, Hildebrand Gurlitt, que ajudou o regime de Hitler a vender no estrangeiro
a arte saqueada dos museus da Europa e extorquida aos coleccionadores judeus.
Após a morte do pai, em 1956, Cornelius, que tem hoje 79 anos, manteve a
colecção de arte no seu apartamento e foi vendendo ocasionalmente algumas peças
quando precisava de dinheiro.
O
procurador Reinhard Nemetz precisou ontem aos jornalistas que o conjunto
abrange 1401 peças, incluindo pinturas a óleo, aguarelas e desenhos de artistas
como Pablo Picasso, Henri Matisse, Marc Chagall, Paul Klee, Emil Nolde, Franz
Marc ou Max Beckmann, para citar apenas alguns dos mais conhecidos. Só 121
telas mantêm a respectiva moldura, acrescentou Nemetz, mas as restantes, embora
partilhassem o andar de Gurlitt com uma insólita quantidade de latas de comida
fora de prazo, estão devidamente acondicionadas e em bom estado de conservação.
Segundo
a Focus, o conjunto valerá mil milhões de euros. E se algumas destas pinturas
eram até agora ignoradas pelos historiadores de arte, muitas não só são bem
conhecidas, como têm sido activamente procuradas. Já foram identificadas 200
obras para as quais há mandados internacionais, garante a Focus.
"Quando
voltamos a ver estas obras, desaparecidas há tanto tempo e dadas como
destruídas, a sensação é extraordinariamente gratificante", disse ontem
Hoffmann, que se congratulou também pelo bom estado geral das peças. Gurlitt
teve o cuidado de as manter em aposentos escurecidos, protegidas da luz do sol.
Uma
pintura de Dürer
A
arte da primeira metade do século XX é o grosso do conjunto, mas o apartamento
de Gurlitt, no quinto andar de um prédio modernista que já conheceu melhores
dias, conservava uma tela quinhentista de Albrecht Dürer e obras de artistas de
várias outras épocas, de Canaletto a Courbet, Renoir ou Toulouse-Lautrec.
Nem
todas as obras foram roubadas durante o nazismo, salientou ontem o procurador
Reinhard Nemetz, que anunciou ainda que as autoridades alemãs não irão divulgar
imagens das pinturas na Internet, como tem sido reclamado desde que a Focus revelou
esta história. "A situação legal das obras é muito complexa e não queremos
um cenário em que tenhamos de lidar com dez reivindicações diferentes de uma
mesma pintura", diz Nemetz.
O
argumento não convence os herdeiros de coleccionadores judeus espoliados pelos
nazis e a decisão já foi também criticada por um conhecido advogado berlinense
especialista em reivindicações de arte roubada, Peter Raue, que a considera
"um escândalo". David Rowland, um advogado nova-iorquino que
representa os herdeiros do crítico e coleccionador Curt Glaser, lamenta:
"Sem uma lista das obras, não podemos fazer nada."
Entre
os candidatos a reclamar a propriedade de algumas destas peças conta-se a jornalista
Anne Sinclair, ex-mulher do político francês Dominique Strauss-Kahn e neta do
famoso coleccionador francês Paul Rosenberg. Uma das telas de Matisse que
Gurlitt conservava veio garantidamente da colecção de Rosenberg, pilhada pelos
nazis.
Uma
associação judaica criada para ajudar as vítimas dos nazis a negociar
restituições de bens e compensações por danos, a Conference on Jewish Material
Claims against Germany, já criticou a Alemanha por ter demorado tanto tempo a
revelar a descoberta destas obras. Citado pelo jornal inglêsGuardian, um
porta-voz da instituição, Ruediger Mahlo, defendeu que colecções privadas como
esta sob o Terceiro Reich eram quase sempre constituídas por obras que tinham
pertencido a judeus. Mahlo diz que "não se pode continuar, como neste
caso", a seguir uma prática que "corresponde moralmente ao
encobrimento de bens roubados".
Um
nazi com avó judia
A
razão pela qual se acreditava que muitas destas obras tinham sido destruídas
prende-se com a estranha história de Hildebrand Gurlitt. O pai de Cornelius,
nascido numa família ligada às artes, era já um prestigiado historiador e
coleccionador de arte quando os nazis subiram ao poder em 1933. Com uma avó
materna judia e um reconhecido gosto pela arte moderna, tinha tudo para ser perseguido
pelos nazis. E foi. O regime destituiu-o dos cargos públicos e associativos que
desempenhava, mas, quando precisou de alguém que tivesse contactos
privilegiados com coleccionadores dentro e fora da Alemanha nazi, recorreu a
ele.
Foi
recrutado pelo próprio Goebbels para vender a arte moderna considerada
"degenerada". E fê-lo com tal empenhamento que lhe foi oferecida a
direcção do grande museu de arte germânica que Hitler projectava abrir em Linz,
na Áustria, onde vivera.
Parte
das obras que chegaram às mãos de Hildebrand Gurlitt vieram directamente da
exposição Arte Degenerada (Entartene Kunst) que o regime organizou em
1937. Muitas outras foram adquiridas por Gurlitt, a preços irrisórios, a judeus
que tentavam comprar o seu bilhete de saída do terror nazi.
Se
é notável que o neto de uma judia tenha subido tão alto no regime, não é menos
notável que Gurlitt tenha atravessado incólume o processo de desnazificação no
pós-guerra. Desta vez, a avó judia funcionou como um trunfo e permitiu-lhe
declarar-se como vítima dos nazis aos interrogadores americanos. O
coleccionador convenceu-os ainda de que toda a sua colecção de arte fora
destruída em 1945 nos bombardeamentos de Dresden.
Tendo
em conta a notoriedade de Hildebrand Gurlitt, não deixa de ser surpreendente
que não tenha sido mais investigado após a guerra, como é de estranhar que os
seus herdeiros possam ter mantido a sua colecção de arte a salvo e ignorada
durante mais de meio século, ainda por cima vendendo regularmente algumas
peças.
Autorizado
a retomar a profissão de negociante de arte, o coleccionador veio a morrer em
1956 num acidente de viação, deixando a colecção à mulher, Helene, que por sua
morte a deixou ao filho de ambos. A galeria suíça Kornfeld, que negoceia com
Cornelius Gurlitt desde o início dos anos 90, defende-se da acusação de más
práticas, alegando precisamente que se trata de um mero "caso de herança
não declarada".
Tramado
pelo fisco
Se
não for possível encontrar os proprietários legítimos de algumas destas 1400
obras, como é provável que aconteça, não é de excluir que, tendo muitas delas
sido compradas de acordo com a lei, mesmo que a preços irrisórios e em
circunstâncias vergonhosas, acabem por regressar à posse de Cornelius Gurlitt.
O
filho de Hildebrand Gurlitt é descrito pelas autoridades como um idoso um pouco
lunático e que leva uma vida de eremita. Tendo em conta que conseguiu guardar
segredo durante mais de meio século da existência de um tesouro estimado em mil
milhões de euros, chega a ser anedótico pensar que foi apanhado porque andava
com nove mil euros no bolso. Numa tarde de Setembro de 2010, alguns fiscais
alfandegários alemães entraram num comboio que vinha de Zurique e se destinava
a Munique, na Baviera. Dado que a banca suíça é ilegalmente utilizada por
alemães que tentam fugir aos impostos, as inspecções de rotina são frequentes,
mas a dessa tarde apanhou na rede o mais improvável dos peixes.
Quando
pediram a documentação a um homem de cabelo branco, este sacou de um passaporte
austríaco que o identificava como sendo Rolf Nikolaus Cornelius Gurlitt,
nascido em Hamburgo, em 1933, e residente em Salzburgo. Explicou que fora à
Suíça em negócios e que fizera uma transacção na galeria Kornfeld, em Berna, e
mostrou um envelope contendo nove mil euros - mil euros abaixo do limite a
partir do qual teria de declarar a verba na fronteira.
Um
dos fiscais contou à Focus que o homem "parecia nervoso" e
que resolveram investigá-lo. Não tardaram a descobrir que não vivia em
Salzburgo, que não estava registado na polícia, como é obrigatório na Alemanha,
não tinha número de contribuinte, não recebia nenhuma pensão e não dispunha de
qualquer seguro. "Era um homem que não existia", resumiu o mesmo
fiscal.
A
vigilância prosseguiu, até que, em Fevereiro de 2011, os investigadores
encarregados do caso obtiveram um mandado para revistar o seu apartamento em
Munique, onde esperavam encontrar provas de depósitos ilegais e fuga ao fisco.
E descobriram, de facto, a caderneta de uma conta bancária com várias centenas
de milhares de euros, produto das ocasionais vendas de arte que Gurlitt ia
fazendo para se financiar.
Mas
encontraram também 1401 obras de arte atrás de uma barreira de latas de comida
em decomposição, que já estavam fora do prazo nos anos 80. E se tivessem sido
mais rápidos, ainda teriam apanhado uma tela de Max Beckmann, intitulada Lion
Tamer, que Gurlitt vendeu a uma leiloeira de Colónia por 864 mil euros.
A
convicção de que esta venda ocorrera já depois de a colecção ter sido
confiscada e guardada num depósito alfandegário em Munique levou os jornais
alemães a especular que Gurlitt poderia ter outros depósitos secretos. Mas as
autoridades já vieram garantir que a transacção é anterior à busca e que não há
motivos para crer que existam mais obras de arte escondidas noutros locais.
Cornelius
Gurlitt pode vir a ser acusado de evasão fiscal, lavagem de dinheiro e outros
delitos, mas o procurador Nemetz explicou ontem que não existiam
"suspeitas de um crime que pudesse justificar a sua detenção". E
acrescentou que se desconhece "o actual paradeiro" de Cornelius
Gurlitt. (Jornal Público – 06.11.2013)
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Morreu Zé da Guiné, ícone da boémia e cultura dos anos 1980.
Morreu
na sexta-feira Zé da Guiné, personalidade marcante da vida nocturna e cultural
da Lisboa dos anos 1980. Sofria há mais de dez anos de uma doença degenerativa
do foro neurológico, impeditiva de qualquer actividade. Morreu durante a noite,
no Hospital de São José, em Lisboa.
Nos
últimos anos, passava por dificuldades materiais, tendo-se avolumado as
iniciativas públicas, promovidas por amigos artistas, cineastas, jornalistas ou
músicos em seu auxílio e foi produzido o documentário Zé da Guiné –
Crónica de Um Africano em Lisboa, da autoria de José Manuel S. Lopes, que
reflectia a sua vida, desde a chegada a Lisboa, nos anos 1970, passando pela
sua relevância na fervilhante actividade cultural e na vida boémia dos anos
1980.
O
realizador lembra o amigo como alguém que "teve a particularidade de ter
modificado os hábitos de Lisboa, tanto na forma de estar como de usufruir da
cidade". "Foi um precursor e arrastou outras pessoas nesse
movimento", diz ao PÚBLICO. "Não consigo encontrar outra pessoa como
ele: inovador, de espírito aberto, aventureiro e, ao mesmo tempo, cuidadoso,
amigo e óptimo em relações públicas." Durante 14 anos,
continua, lutou contra a doença, esclerose lateral amiotrófica, a
mesma que vitimou Zeca Afonso, "o que revela a sua grande capacidade de
luta e resistência."
Como
escreveu na altura da homenagem Miguel Esteves Cardoso numa crónica no
PÚBLICO: "Zé da Guiné é um grande artista. Não foi só uma inspiração,
um exemplo e um catalisador, embora também fosse essas coisas. Criou ambientes
e criou mentalidades. Abriu caminhos e diversões. A noite de Lisboa era
fechada, triste, mesquinha e clandestina antes do Zé e do Manuel Reis
[Frágil/Lux], cada um à maneira dele. Contra todas as más vontades,
burocracias, pessimismos e letargias, estes dois artistas públicos conseguiram
abri-la, alegrá-la, engrandecê-la e mergulhá-la no presente."
Natural da Guiné-Bissau, onde nasceu a 4 de Janeiro de 1959, José Osaldo Barbosa teve uma passagem breve pela guerrilha na luta pela libertação. Chegou a Lisboa nos anos 70, depois do 25 de Abril.
Natural da Guiné-Bissau, onde nasceu a 4 de Janeiro de 1959, José Osaldo Barbosa teve uma passagem breve pela guerrilha na luta pela libertação. Chegou a Lisboa nos anos 70, depois do 25 de Abril.
No
final dessa década, foi ele um dos primeiros a aventurar-se no território de
prostitutas e de má fama que era então o Bairro Alto, abrindo o espaço Souk.
Mais tarde, viria a embarcar no projecto Rock House (mais tarde, Juke Box),
assumindo várias funções, entre elas a de porteiro, participando na emergência
do Bairro Alto como o lugar por excelência de afirmação da Lisboa cultural dos
anos 1980.
Era
conhecido de todos, artistas, músicos, cineastas ou jornalistas. De alguma
forma, era um símbolo de uma cidade que, depois do 25 de Abril, se queria abrir
à modernidade e ao exterior. Não é por acaso que muitas das publicações de
referência internacionais da época – como a revista inglesa The Face –,
quando abordavam as dinâmicas culturais em ligação com as actividades nocturnas
da época, o procuravam.
Uma
das suas paixões era a moda, tendo sido uma personalidade inspiradora,
assistindo à emergência da geração que consolidou a moda em Portugal através de
iniciativas como as Manobras de Maio.
Mas
o projecto onde se envolveu e que talvez mais marcas deixou foi as Noites
Longas, ao largo do Conde Barão, em Santos, num palacete do século XVI, que
mais tarde viria a albergar o B. Leza e que hoje se encontra desactivado. Ideia
partilhada com Hernâni Miguel, viria a transformar-se numa das experiências
mais cosmopolitas da época.
A
meio dos anos 1980, era ali que a Lisboa artística se misturava, até de manhã,
com a Lisboa castiça do Cais do Sodré e do mercado da Ribeira e com a Lisboa do
roteiro das discotecas africanas. Depois dessa aventura, surgiram outras, como
a abertura, já nos anos 1990, do Be Bop, no Bairro Alto, onde se ouvia jazz, a
sua grande paixão. (Jornal Público – 01.11.2013)
terça-feira, 29 de outubro de 2013
domingo, 27 de outubro de 2013
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Feira Popular de Lisboa - Que é feito dela?
Terreno
da Feira Popular em Lisboa vale 100 milhões de euros mas está abandonado.
O
parque de diversões da capital abriu para a última temporada em Março de 2003 e
fechou definitivamente em Outubro desse ano. O futuro dos terrenos continua por
definir, após dez anos de polémicas.
A
Feira Popular de Lisboa fechou em Outubro de 2003 e desde então o terreno que
ocupava, em Entrecampos, com um valor estimado em 100 milhões de euros, está ao
abandono. Após dez anos marcados por avanços e recuos polémicos, ainda não há
uma decisão sobre o futuro do espaço.
Os
antigos edifícios do parque de diversões estão em ruínas e cheios degraffiti,
no terreno há lixo e mato a crescer. Uma chapa de metal cobre uma abertura no
muro, mas é possível entrar por ali, como muitos têm feito. O espaço é hoje
poiso de toxicodependentes e, mesmo em pleno dia, há casos de prostituição
masculina, descreveu à Lusa a presidente da Junta de Freguesia de Nossa Senhora
de Fátima, Idalina Flora.
Pontualmente,
parte do terreno volta a acolher equipamentos de diversão ou tendas de circo,
que ali se instalam sobretudo em épocas festivas, mas o espaço perdeu o brilho
de antigamente.
Contactado
pela Lusa, um promotor imobiliário da ERA - Avenidas Novas, Rui Ferreira,
estimou que o terreno, com 100 mil metros quadrados, tenha um valor entre os 90
e os 110 milhões de euros, tendo por base um custo por metro quadrado entre os
900 e os 1100 euros. O valor do terreno depende de vários factores,
nomeadamente a localização, o projecto para o local e a rentabilidade que pode
proporcionar.
A
saída da Feira Popular de Entrecampos causou “um grande abalo” na zona, mas
permitiu diminuir a poluição e recuperar os edifícios envolventes, considera
Idalina Flora. A autarca do PSD lamenta que a cidade tenha perdido o seu parque
de diversões, que atraía lisboetas e turistas, mas salienta o impacto positivo.
“Só assim foi possível recuperar os prédios à volta e instalar-se ali um novo
hotel de quatro estrelas”, exemplifica.
Dez
anos de avanços e recuos
Quando
a Feira Popular abriu para a última temporada, a 28 de Março de 2003, a Câmara
de Lisboa, então presidida por Pedro Santana Lopes (PSD), tencionava criar um
novo parque de diversões, mais moderno - na época, a feira estava envelhecida e
degradada - e reabilitar o Parque Mayer.
Só
ao fim de três anos viria a ser realizada uma permuta entre os dois terrenos. Antes,
foi aprovada uma primeira permuta, posteriormente anulada, e foi chumbada a
criação de um fundo de investimento imobiliário.
Em
2005, os terrenos do Parque Mayer, pertença da Bragaparques, passam para a
posse da Câmara de Lisboa, e a empresa de Domingos Névoa recebe metade do lote
de Entrecampos, anteriormente municipal.
Em
Julho daquele ano, a Bragaparques invocou o direito de preferência na hasta
pública para adquirir o resto dos terrenos de Entrecampos, de 59 mil metros
quadrados, por 57,1 milhões de euros - o valor de licitação por metro quadrado
era de 950 euros e a P. Mayer SA, empresa da Bragaparques, pagou 967 euros.
Mais tarde, o negócio seria inviabilizado em tribunal.
No
ano passado, o Tribunal Central Administrativo declarou nula a permuta entre a
Câmara de Lisboa e a empresa Bragaparques. Autarquia e empresa recorreram e
continua a aguarda-se a decisão do Supremo Tribunal Administrativo sobre a
posse do terreno.
Esta
indefinição tem causado à Bragaparques “um prejuízo enorme, incalculável”,
disse à Lusa a advogada Rita Matias. A empresa está “há dez anos a pagar juros”
de um empréstimo de dezenas de milhões de euros, “numa altura em que é
extremamente difícil negociar condições aceitáveis com os bancos, porque
entretanto os juros subiram imenso”.
“É
uma situação verdadeiramente dramática, porque a empresa tem ali um
investimento muito grande e não consegue desenvolver nenhum negócio”,
acrescentou a advogada da Bragaparques.
O
projecto para aqueles terrenos contemplava a construção de 600 a 700
habitações, 16 mil metros quadrados de áreas comerciais e 40 mil metros
quadrados seriam destinados a serviços.
Rita
Matias critica a Câmara de Lisboa por ter vindo “a adiar a execução da
sentença” e por fazer “tudo para não cumprir a decisão”, devolvendo à
Bragaparques o valor pago pelo terreno. A Lusa tentou obter um comentário da
autarquia da capital, sem sucesso.
Polémica
fez “cair” a Câmara
O
processo teve consequências também a nível político. Em 2007, o então
presidente da Câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues (PSD), foi constituído
arguido neste processo, tal como vereadores do seu executivo. A 9 de Maio, a
Câmara "caiu" por falta de quorum devido à renúncia dos
mandatos dos vereadores do PSD, do PS, da CDU e do Bloco de Esquerda,
sendo convocadas eleições intercalares antecipadas, que seriam ganhas por
António Costa.
Dez
anos depois da abertura da última época, Lisboa continua sem Feira Popular,
apesar de terem sido apontadas diversas possíveis localizações, como a Bela
Vista, Monsanto ou Jardim do Tabaco.
Sobre
o Parque Mayer, António Costa já admitiu recorrer à expropriação, para que o
terreno possa regressar à posse da autarquia.
Para
trás ficou o plano de recuperação deste espaço junto à Avenida da Liberdade,
que Santana Lopes encomendou ao arquitecto norte-americano Frank Gehry, por 2,5
milhões de euros. O projecto incluía três teatros, um anfiteatro, uma
mediateca, um clube de jazz e seis salas de ensaio, com um custo estimado de
134 milhões de euros.
Em
2008, o Ministério Público calculou que estes avanços e recuos já tinham
custado, até então, mais de 40 milhões de euros ao município, entre taxas que
ficaram por receber, investimento em projectos e indemnizações.
O
processo ficou marcado por outras polémicas, entre as quais o veto do então
Presidente da República à instalação de um casino no Parque Mayer, proposta
inicial de Santana Lopes.
Outro
momento deste processo foi a acusação do advogado Ricardo Sá Fernandes de que
Domingos Névoa havia tentado subornar o seu irmão, José Sá Fernandes, actual
vereador do Espaço Público na Câmara de Lisboa. O empresário foi inicialmente
condenado por corrupção activa para acto lícito, mas o Tribunal da Relação
viria a absolvê-lo.
Notícia
corrigida: inclui a renúncia aos respectivos mandatos dos vereadores da CDU em
2007 que, por lapso, era omitida na primeira versão. (Jornal Público)
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