segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Morreu Edouard Molinaro, o realizador de A Gaiola das Malucas.


Começou a carreira quando a Nouvelle Vague anunciava uma nova era mas, ao contrário dos nomes que com ela emergiram, como Godard ou Truffaut, estava no coração da indústria cinematográfica. Começou pelos policiais, mas foi na comédia que encontrou o seu verdadeiro veículo expressivo, trabalhando com Louis de Funès em Oscar ou com Jacques Brel e Lino Venture emO Chato. O seu maior sucesso, a Gaiola das Malucas, estreou em 1978 e correria o mundo, chegando a ser nomeado para os Óscares. Edouard Molinaro, realizador reconhecido “pela precisão do seu trabalho, mas também pela sua grande modéstia”, como escreve a AFP, morreu este sábado, aos 85 anos, de insuficiência pulmonar.
Nascido em Bordéus a 13 de Maio de 1928, Edouard Molinaro realizou o seu último filme para cinema, Beaumarchais, l’insolent, em 1996. Desde então, dedicara-se à televisão, meio para o qual dirigiu telefilmes ou episódios de séries. O seu auge, porém, fora vivido nas décadas de 1960 e 1970, período em que, como escreve em obituário a edição online de revista Les Inrockuptibles, referindo-se a duas bem-sucedidas colaborações com o comediante francês Louis de Funès, Oscar(1967) e O Avôzinho Congelado(1969), se afirma o seu “gosto e competência para converter em campeões de bilheteira os sucessos do théàtre de boulevard”. Maior exemplo disso terá sido a supracitada A Gaiola das Malucas, adaptação de uma peça de Jean Poiret (O Chato, estreado em 1973, nasceu por sua vez de uma peça de 1971 de Francis Veber).


Neste período, Edouard Molinaro filma alguns dos jovens nomes emblemáticos do cinema francês do seu tempo, de Jean-Claude Brialy, Françoise Dórleac e Jean-Pierre Cassel (em Arsène Lupin Contre Arsène Lupin, de 1962) a Brigitte Bardot (As Malícias do Amor, de 1964, também com Anthony Perkins) e a Jean-Paul Belmondo e Catherine Deneuve (Caça ao Homem, igualmente estreado em 1964). Desses actores, aponta ainda o Les Inrockuptibles, aproveitou para os seus filmes “o fogo e a vitalidade pop dos anos 1960”.
No final da década seguinte, chegaria o filme, protagonizado por Michel Serrault e Ugo Tognazzi, pelo qual é mais recordado. A Gaiola das Malucas daria origem a duas sequelas (apenas a primeira foi realizada por Molinaro) e uma adaptação americana em 1996. Na década de 1980, a televisão começa a ganhar um espaço cada vez maior no seu percurso. Dedicar-se-ia a ela em exclusivo, adaptando obras de Stefan Zweig, Henry James ou Balzac, depois de abandonar o cinema pela porta grande:Beaumarchais, L’insolent, filme biográfico dedicado ao dramaturgo, espião, inventor e mil coisas mais Pierre Beaumarchais, homem de vida preenchida, revolucionário em França e revolucionário além-mar, enquanto activo apoiante da luta pela independência dos Estados Unidos, levou dois milhões de franceses às salas em 1996.

O seu último telefilme, Une famille pas comme les autres, foi exibido em 2005. (Jornal Público – 07.12.2013)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Quadro de Norman Rockwell atinge valor recorde.


Uma obra do popular pintor americano Norman Rockwell, considerada uma das suas mais representativas, atingiu hoje um valor recorde em leilões de trabalhos deste artista plástico que viveu entre 1894 e 1978. Intitulado Saying Grace foi arrematado por 33,9 milhões de euros (46 milhões de dólares).
O quadro foi à praça num leilão da Sotheby's, em Nova Iorque, com mais duas obras daquele que é considerado o pintor que melhor retratou a América profunda, das pequenas cidades e do mundo rural.
Intitulado Saying Grace, o quadro alcançou a soma de 57 milhões de dólares ( 33,9 milhões de euros) enquanto o recorde de uma obra de Rockwell estava nos 15,6 milhões de dólares (11,3 milhões de euros) num leilão de 2006.
A imagem foi capa do Saturday Evening Post, para o qual Rockwell era assíduo colaborador, e data de 1951.
Em 1955 foi considerada a obra mais popular de Rockwell numa sondagem entre os leitores daquela publicação.
Outra obra de Rockwell, The Gossips, foi vendida por 8,45 milhões de dólares (6 milhões de euros); e a terceira, Walking to Church, alcançou a verba de 3,2 milhões de dólares (2,3 milhões de euros). (DN – 06.12.2013)

domingo, 1 de dezembro de 2013

O filme que devia ser visto por todos.



A História do Cinema - Uma Odisseia
De: Mark Cousins
Com:
Género: Histórico, Documentário
Classificacao: M/12
No mundo real, contudo, aquele em que é difícil escapar às codificações e às gavetas impostas pela economia e negócio mercantil em que o cinema (também) se tornou ao longo dos anos, um objecto “fora de série” como este torna-se num bico de obra. A dimensão simultaneamente sedutora e informativa de A História do Cinema é uma “introdução” às suas glórias, “porta de entrada” para os recém-iniciados. O entusiasmo contagiante e a pedagogia sem esforço da viagem exige pensar fora da caixa; as suas 15 horas de duração desafiam as convenções da exibição comercial, dão-lhe uma dimensão de evento único e irrepetível - como o foram em tempos os grandes ciclos da Cinemateca ou da RTP-2, congregando à sua volta toda uma população de cinéfilos “em construção” que não tinham acesso regular às grandes obras.
Mas os cinéfilos em construção de hoje já não se encontram limitados aos ciclos ou às sessões especiais, que em qualquer caso já deixaram de ser irrepetíveis. Os festivais, o DVD, o video-on-demand ou o streaming fizeram explodir as limitações da exibição comercial; um investigador determinado pelos recantos da internet não terá problemas em encontrar este DVD ou aquela gravação da TV de um objecto raro algures num qualquer canto do mundo.
Daí que a ideia da distribuidora Midas Filmes de acompanhar a edição em DVD do documentário de Mark Cousins com uma exibição comercial em sala (oito sessões de duas horas ao longo de uma semana, terminando com um debate inspirado pelo filme) traia um idealismo quase quixotesco, até um tudo nada vão, de “serviço público”. Esse idealismo é algo a que a distribuidora nos habituou, através do lançamento em DVD das História(s) do Cinema de Godard, ou de obras históricas de Glauber Rocha, Jean Rouch, Jacques Demy, Claude Lanzmann, Victor Erice ou Béla Tarr. 
Mas fará sentido, num país que – como muito se falou esta semana – não consome cultura? Em que três quartos da população não vai ao cinema? Em que as elites culturais se refugiam no seu próprio casulo? Em que as políticas governamentais reduzem tudo puramente a questões de financiamento e retorno no investimento? Em que os cidadãos protestam contra a demolição do Odeon, o fecho do King ou a inactividade do Batalha apesar de não os frequentarem enquanto estiveram abertos? Num país como este, exibir A História do Cinema em oito sessões numa sala de cem espectadores em Lisboa pode ser a única maneira de o mostrar em sala, mas fará sequer sentido de um ponto de vista que não seja o do princípio? E até gostávamos de pensar que sim, mas...
Mesmo nos velhos tempos em que havia um outro consumo de cultura, A História do Cinema dificilmente teria chegado ao circuito comercial. Ter-se-ia ficado por exibições especiais (na Gulbenkian ou na Cinemateca) ou, sobretudo, por uma passagem televisiva que, isso sim, seria verdadeiro “serviço público”. Sem vergonha nenhuma, porque tem sido no pequeno écrã que o documentário de Mark Cousins mais tem vivido por todo esse mundo. E a vontade que ele cria de ir à procura daquilo que não conhecíamos ou que nunca vimos, o abrir os olhos para tudo o que existe para lá das estreias semanalmente escoadas pelas salas, é a própria definição do serviço público que a televisão deveria ser (e que, em Portugal, não é de todo, mas isso é outra conversa).

A História do Cinema mereceria ser visto por toda a gente, em todo o país, e seria provavelmente mais eficaz do que um qualquer Plano Nacional Educativo de Cinema. Mostrá-lo em sala é reduzi-lo ao mesmo “gueto” cinéfilo do qual Mark Cousins quis que ele escapasse; lançá-lo em DVD é o pequeno passo, mas o passo-chave, para torná-lo visível a todos. (Jornal Público)

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Cinema King, em Lisboa, deverá fechar as portas no domingo.


O cinema King, que integra duas salas – chegou a ter três em funcionamento - para exibição sobretudo de cinema de autor, é gerido desde 1990 pela exibidora Medeia Filmes, de Paulo Branco
O cinema King, em Lisboa, deverá encerrar no domingo e os sete trabalhadores serão colocados noutras duas salas de cinema da mesma exibidora, disse à agência Lusa fonte sindical.
Contactado pela agência Lusa, o exibidor Paulo Branco remeteu esclarecimentos para segunda-feira, numa conferência de imprensa nas instalações do cinema King.
No início de novembro, Paulo Branco tinha explicado à Lusa que a decisão de encerramento do cinema estava em cima da mesa, por causa de uma proposta de atualização do valor da renda por parte do proprietário do espaço, mas que os postos de trabalho estavam garantidos.
Fonte do Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Telecomunicações e Audiovisual (SINTTAV) disse hoje que os trabalhadores foram informados que o cinema irá fecharno domingo e que serão recolocados nos cinemas Fonte Nova e Nimas, ambos em Lisboa.
O cinema King, que integra duas salas – chegou a ter três em funcionamento - para exibição sobretudo de cinema de autor, é gerido desde 1990 pela exibidora Medeia Filmes, de Paulo Branco.
A Medeia Filmes detém ainda o cinema Monumental, Nimas e Fonte Nova, todos em Lisboa, e tem programação no Cine Estúdio Teatro do Campo Alegre, no Porto, Auditório Charlot, em Setúbal, no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, no Theatro Circo de Braga e no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.
De acordo com dados do Instituto do Cinema e Audiovisual, até outubro a exibidora Medeia Filmes (incluindo o cinema Fonte Nova) contabilizou 186.367 espetadores.
O Cinema King abriu no espaço onde antes funcionou o Cinema Vox, inaugurado em abril de 1969.
Em 2011, Paulo Branco encerrou os cinemas Saldanha Residence, que funcionavam praticamente frente ao cinema Monumental, deixando nove pessoas sem trabalho.
Este ano, a rede de exibição de cinema em Portugal sofre uma mudança depois da exibidora Socorama ter aberto falência, fechando algumas das salas que detinha (mais de cem) de norte a sul do país, incluindo o cinema Londres, em Lisboa.

Algumas dessas salas de cinema, em particular as que estão localizadas em centros comerciais, têm estado a reabrir gradualmente por iniciativa da exibidora brasileira Orient. (Jornal I – 21.11.2013)

domingo, 17 de novembro de 2013

Morreu Doris Lessing, uma contadora de histórias de intelecto feroz e coração afectuoso.


A escritora britânica Doris Lessing, que recebeu em 2007 o Nobel da Literatura, morreu este domingo aos 94 anos.
Autora de mais de 50 romances e com uma obra diversificada, Lessing foi descrita pela Academia Sueca, que lhe atribuiu o Prémio Nobel da Literatura em 2007, como "uma épica da experiência feminina que, com cepticismo, fogo e poder visionário, sujeitou uma civilização ao escrutínio". 
Doris Tayler, que como escritora veio a adoptar o apelido do seu segundo marido, Lessing, nasceu a 22 de Outubro de 1919 em Kermanshah, no Curdistão iraniano, então integrado no reino da Pérsia. O pai, o capitão Alfred Tayler, tinha perdido uma perna na primeira guerra e conhecera a futura mãe de Doris, a enfermeira Emily McVeagh, no hospital onde recuperava da amputação. Quando Doris nasceu, os pais viviam em Kermanshah, onde o ex-militar conseguira emprego, trabalhando como escriturário num banco.  
Em 1925, a família mudou-se para a colónia britânica da Rodésia do Sul, onde Tayler acreditava poder enriquecer plantando e vendendo milho. Investiu as poupanças na compra de uma grande extensão de terreno, mas o negócio revelou-se ruinoso e a família passou dificuldades. Doris estudou numa escola dominicana, em Salisbúria (hoje Harare, no Zimbabwe), mas abandonou os estudos aos 14 anos, tendo continuado a sua instrução por conta própria, lendo romancistas ingleses e russos.
Um ano depois abandona também a casa paterna e sobrevive trabalhando como enfermeira, criada, telefonista, secretária. Aos 19, casa com Frank Wisdom, um funcionário público, de quem terá dois filhos. O casamento não dura muito.
Em 1943, já divorciada, frequenta as reuniões do Left Book Club, um clube do livro organizado por intelectuais comunistas e adere ao Partido Comunista, então proibido na colónia do Rodésia do Sul. Este período de militância clandestina aparecerá mais tarde reflectido em A Ripple From the Storm(1958), um dos cinco romances do ciclo The Children of Violence, que Lessing inicia em 1952 com A Revoltada (Martha Quest).
É neste meio que conhece o seu segundo marido, o alemão Gottfried Lessing, então dirigente do Partido Comunista da Rodésia. Em A Ripple From the Storm, Lessing chamar-se-á Anton Hesse, e em The Golden Notebook (1962) dará pelo nome de Willi Rodde. O casal divorcia-se em 1949 e Lessing virá a tornar-se embaixador da Alemanha no Uganda, onde é assassinado em 1979, no âmbito de uma revolta contra Idi Amin.


Com dois casamentos falhados atrás, Doris Lessing chega a Londres apenas com o filho que tivera do segundo casamento, Peter – os dois filhos mais velhos tinham ficado com Frank Wisdom –, e durante algum tempo divide um apartamento com uma mulher sul-africana, que tem alguns quartos alugados a prostitutas, cenário que lhe dará material para In Pursuit of the English(1961).
Mas, nesta altura, o objectivo da escritora é publicar o seu romance de estreia, uma história situada na Rodésia e centrada numa mulher casada com um colono branco, pobre e fraco. A protagonista, espécie de Lady Chatterley inter-racial, tem uma aventura com o seu criado africano, Moses, que acabará por a matar. O romance, publicado em 1950 com o título The Grass is Singing(A Erva Canta na edição portuguesa), foi atacadíssimo na Rodésia e na África do Sul. Mesmo no Reino Unido, Doris Lessing só atinge algum sucesso comercial e consagração crítica nos anos 60, com livros como The Golden Notebook, ousada experiência ficcional em torno de uma mulher, Anna Wulf, que procura uma espécie de honestidade radical, que a liberte da hipocrisia e da anestesia emocional que vê na sua geração.
Boa parte da ficção de Lessing tem uma forte dimensão autobiográfica, e são muitos os livros que evocam a suas experiências em África, desde as memórias de infância, até às questões sociais e políticas pelas quais se interessou desde muito nova. O modo como os seus romances e contos descrevem as injustiças raciais e expõem os podres da presença colonial britânica em África fizeram com que fosse oficialmente proibida, em 1956, de entrar na Rodésia do Sul. Por essa altura, Lessing também já se desiludira do comunismo.
Da sua vastíssima bibliografia, que lhe valeu, em 2007, o Prémio Nobel da Literatura, podem destacar-se ainda O Verão antes das Trevas (1973), a pentalogia de ficção científica Canopus em Argos (1979-1983) ou A Boa Terrorista (1985), relato perpassado de ironia da vida de uma militante de esquerda, no qual Lessing mostra como a fronteira entre as convicções ideológicas e a prática terrorista pode tornar-se perigosamente delgada. É ainda autora de uma série de notáveis livros sobre gatos, que misturam ficção com textos de vários géneros.


O seu último livro, Alfred & Emily – os nomes próprios dos pais – saiu em 2008 e prosseguia um projecto autobiográfico iniciado com Under My Skin(1994) e Walking in the Shade (1997).
Mesmo antes de receber o Nobel, Lessing já recebera vários prémios, e tentaram mesmo dar-lhe o título de “dama”, ou, por extenso, dama do Império Britânico (dame of the British Empire), honra que recusou, argumentando que não existia qualquer império britânico,
Também não se mostrou particularmente agradecida pelo Nobel. Numa entrevista ao New York Times, em 2008, diz que “os suecos não têm uma grande tradição literária, e por isso tentam aproveitar ao máximo o Nobel”. E ironiza com a declaração do júri, que a considerou uma “épica da experiência feminina”. Afirmando não se rever no retrato, diz que imagina o sueco responsável pela frase a pensar para si próprio: “O que é que raio havemos de dizer desta? Ainda por cima não gosta que lhe chamem feminista. E então escrevinharam aquilo”.
Doris Lessing tinha 88 anos quando recebeu o Nobel da Literatura. O prémio nunca tinha sido atribuído a um escritor tão idoso. “Como não podiam dá-lo a alguém que já tivesse morrido, devem ter achado que era melhor darem-mo logo, antes que eu batesse a bota”, comentaria mais tarde.
Charlye Redmayne, da editora HarperCollins, descreve Lessing como “uma brilhante contadora de histórias com um intelecto feroz e um coração afectuoso e que não tinha medo de lutar por aquilo em que acreditava”.

O escritor sul-africano J.M. Coetzee, que conhece bem o mundo que moldou a obra de Lessing e que a precedeu quatro anos na lista dos prémios Nobel da Literatura, chamou-lhe "uma das maiores romancistas visionárias do nosso tempo". (Jornal Público – 17.11.2013)