sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Fotógrafo António Pedrosa vence Hasselblad Masters 2014.


Uma reportagem de António Pedrosa sobre uma comunidade cigana do "bairro do Iraque", na vila transmontana de Carrazeda de Ansiães, em Trás-os-Montes, venceu o Prémio Hasselblad Masters 2014, promovido pela marca sueca de máquinas fotográficas. O trabalho do português, que já em 2012 tinha vencido o Prémio de Fotojornalismo 2012 Estação Imagem/Mora, foi premiado na categoria Editorial.
Em Carrazeda de Ansiães, Bragança, há uma comunidade cigana que vive no topo de um monte há uma dezena de anos, depois de ter sido expulsa docentro da vila. Aos ciganos, António Pedrosa chamou-lhes "iraquianos" e começou em Janeiro de 2011 a contar as suas histórias através de fotografias.
Entre barracas de chapas de zinco e paredes riscadas, com poucas condições e sem quaisquer privilégios, vivem mais de dez famílias ciganas em Carrazeda de Ansiães. O bairro chama-se "Iraque", por estar situado numa antiga mina, e o isolamento para o qual foram atirados é retratado nas imagens de António Pedrosa, que agora foram premiadas na categoria Editorial, de um total de 12 áreas como a Paisagem, o Retrato, a Arquitectura, a Vida Selvagem ou o Subaquático.
O Hasselblad Masters é um concurso internacional que acontece a cada dois anos. A edição deste ano foi, segundo o comunicado do prémio, a mais concorrida de sempre, tenho sido submetidas quase quatro mil candidaturas. Em 2012, foram 2500. “O padrão esteve extraordinariamente elevado este ano, e os vencedores de cada categoria podem estar verdadeiramente orgulhosos pelo que conseguiram”, destacou no comunicado Paul Waterworth, porta-voz da Hasselblad.
Depois de um processo inicial em que o público foi convidado a votar, os 12 vencedores, cujo trabalho pode ser visto aqui, foram escolhidos por um júri constituído por alguns dos antigos premiados e outros fotógrafos de renome como Steve McCurry ou Gerry O'Leary.
Aos vencedores será agora emprestado material da Hasselblad para que possam desenvolver um novo trabalho que entrará no livro comemorativo do Hasselblad Masters. Além disso, e do troféu que vão receber, todas as imagens premiadas serão publicadas no site da Hasselblad e integrarão várias exposições em todo o mundo.
Quando em 2012, António Pedrosa venceu o maior prémio de fotojornalismo em Portugal, o fotógrafo contou ao PÚBLICO que o trabalho no "bairro do Iraque nunca está acabado. "Não é um projecto que se esgote numa semana ou num período curto", disse então o fotógrafo, explicando que a comunidade cigana nunca lhe foi estranha, por ser natural de uma aldeia perto daquela vila. Hoje já é "da casa". "Sempre que vou a Carrazeda, vou ao 'Iraque'", lembrou, explicando que o projecto surgiu como uma espécie de fuga ao trabalho diário de fotojornalismo.

O júri do Prémio de Fotojornalismo 2012 Estação Imagem/Mora destacou na altura a forma como as fotografias de António Pedrosa contam a história daquela comunidade, “com forte dramatismo”, tornando-a “muito fácil de entender”. (Jornal Público)

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Criada primeira capa de livro numa impressora 3D.


A mais recente obra de Chang-Rae Lee, On Such a Full Sea, deixou de lado a ideia tradicional de livro para entrar na era tridimensional, com uma edição especial limitada onde as caixas dos livros são em relevo e produzidas com impressoras 3D.
De acordo com a revista Time, a versão limitada do livro - com 200 exemplares -, estará disponível hoje, dia 7 de janeiro. ARiverhead Books, a editora, denomina-a já como "a primeira capa removível de sempre impressa em 3D".
A capa resulta de uma colaboração da editora com os peritos em impressão tridimensional da Makerbot que produziram com impressoras 3D uma caixa branca com as letras do título da obra salientes, onde o livro encaixa quando arrumado. À mesma fonte, a diretora de arte da Riverhead Books, Helen Yentus, afirmou que nem pensou ser capaz de o fazer, devido à tecnologia ser tão recente e inovadora. Mesmo assim, o objetivo principal parece ter sido cumprido: o resultado foi algo diferente de tudo o já visto no mundo da publicação.
Cada uma destas caixas levou 15 horas a ser fabricada, sendo que alguns protótipos chegaram às 30 horas. Helen Yentus édesigner de capas há mais de 10 anos e para esta capa particular teve de se familiarizar com o tipo de impressão e a tecnologia a si aliada. O esforço não se devia apenas à criação de uma capa irreverente, mas também à necessidade de esta combinar com o conteúdo futurista do livro de Lee, autor nascido na Coreia do Sul mas naturalizado norte-americano.
Reconhecendo as dificuldades que a literatura impressa atravessa, o autor Chang-Rae Lee afirmou em comunicado que esta caixa"reintroduz a ideia de livro como um objeto de arte".

Já Helen Yentus acreditava que os livros em versão física estarão perto do fim, pois os preços são forçosamente mais, e mais, baixos. Estas edições especiais são para ela uma possível salvação. "Com estas edições especiais, não posso garantir a 100%, mas acho que estamos a criar um objeto físico que as pessoas gostariam de manter e ter, provavelmente, como resposta ao crescimento do e-book", afirma. (Diário de Notícias)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

EUA preparam-se para novo recorde no cinema em 2013, o mundo e a China crescem e Portugal cai...


Homem de Ferro 3 foi o sucesso nos EUA, que sonha chegar aos 11 mil milhões de dólares de receitas de bilheteira. Portugal perde espectadores mas tem uma Gaiola Dourada.
s bilheteiras dos EUA continuam a dar apenas um sinal: os blockbusters, com a aliança entre o gigante dos comics Marvel e a Disney à cabeça, são ainda o segredo do sucesso. E dos recordes. Pelo segundo ano consecutivo, um super-filme Marvel foi o mais visto nos EUA — Homem de Ferro 3 sucede aosVingadores e contribuiu para que as receitas do box office americano cheguem aos 11 mil milhões de dólares. Em Portugal, o cenário é bem menos optimista: perdeu-se mais de um milhão de espectadores e produziu-se muito, muito pouco cinema.
Nos EUA, ainda o grande exportador mundial de cinema para consumo de massas, as expectativas são altas: até à meia-noite desta terça-feira, as previsões citadas pela Variety indicam que se baterá então novo recorde de receita de bilheteira, apesar de o número de espectadores não estar em crescendo — o preço dos bilhetes é que está e a quantidade de pessoas que foi ao cinema manteve-se em relação a 2012. E muitas foram mesmo ver osblockbusters e seus derivados em franchise, ingredientes do modelo de negócio que alguns temem vá vitimar a indústria norte-americana.
No ano passado, ultrapassaram-se os oito mil milhões de euros de receitas de bilheteira graças a Os Vingadores, ao primeiro tomo de O Hobbit e à adaptação de Os Miseráveis. Em 2013, espera-se que os números atinjam pela primeira vez os 11 mil milhões de dólares nos EUA (que ao câmbio actual acabam por ser inferiores a 2012 em euros — 7,9 mil milhões). O filme que arrasou quarteirões foi mesmo Homem de Ferro 3, com mais de 871 milhões de euros de receitas em todo o mundo e o mais rentável do box office norte-americano. É um sucesso fruto do que o analista do Guardian, Phil Hoad, chama a “abordagem de fertilização cruzada” da Marvel, visto que Homem de Ferro é um dos Vingadores, filão também explorado este ano nas salas com o segundo Thor.
No que toca ao mercado mundial, as estimativas em termos de receitas brutas de bilheteira são de 4 ou 5% de crescimento em relação a 2012, muito graças à vitalidade do consumo na China, atenta ainda a Variety. Nos dez filmes mais vistos na China este ano estão quatro blockbusters e/ou franchisesamericanos (Homem de Ferro 3, Gravidade, Velocidade Furiosa 6, Batalha do Pacífico) mas também seis filmes chineses, com Homem de Ferro 3 em segundo lugar num mercado dominado em 2013 por Journey to the West: Conquering the Demons, uma comédia de acção baseada no clássico da literatura chinesa homónimo. De acordo com o Guardian, focado no número de espectadores nas salas e não nas receitas de bilheteira, a China será o maior mercado mundial de cinema em 2018.
A Gaiola portuguesa
Em Portugal, o francês A Gaiola Dourada, de Ruben Alves, é o filme mais visto do ano e o sétimo mais visto na última década nos cinemas portugueses. Foi o único título deste ano a entrar na lista dos 40 mais vistos entre 2004 e 2013, segundo dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) que contabilizam o período até 30 de Dezembro, com mais de 756 mil espectadores e 3,8 milhões de euros de receitas brutas de bilheteira. No topo desta lista estão o imbatível Avatar, de James Cameron, com 1,2 milhões de espectadores em 2009, seguido do musical Mamma Mia!, com 851 mil espectadores em 2008, e da animação Shrek O Terceiro, de 2007, com 824 mil bilhetes vendidos.
O ano de 2013 foi agitado — e não pelos melhores motivos — no cinema português. A produção teve os seus resultados mais baixos na última década, com apenas 19 títulos produzidos — dos quais quatro longas-metragens de ficção, cinco longas documentais e apenas duas curtas de animação. Em 2012, por exemplo, produziram-se 39 títulos, já de si um valor baixo quando o resto da década nunca caiu abaixo dos 48 filmes. Reflexos do ano zero do cinema português, quando não abriram concursos para apoios públicos ao sector, e talvez um prenúncio do que pode ser 2014, porque 2013 foi um ano marcado pelo não pagamento da taxa anual pelos operadores de TV por subscrição, que assim deixaram de fora das contas de 2013 cerca de 11 milhões de euros que se destinariam em parte aos apoios públicos à produção.
A acentuada quebra nas bilheteiras, que pode ter tido em Dezembro e nas estreias de Natal como O Hobbit: A Desolação de Smaug ou na saga The Hunger Games: Em Chamas salva-vidas de última hora, era até ao final de Novembro de 11,7%. Ou seja, venderam-se menos 1,4 milhões de bilhetes e perdeu-se quase um milhão e meio de espectadores nas salas nos primeiros 11 meses do ano. Em Janeiro, com as contas de 2013 fechadas pelo ICA, a lista dos mais vistos e do número de espectadores deverá sofrer ainda algumas alterações. Se A Gaiola Dourada parece imune a quaisquer recém-chegados, seguida pelos 426 mil espectadores que foram ver Velocidade Furiosa 6 ao cinema, Gru – O Maldisposto 2 e A Ressaca – Parte III, em terceiro e quarto lugares até Novembro, já foram suplantados por Frozen – O Reino do Gelo e pelo português 7 Pecados Rurais, ambos estreias de Dezembro que até ao dia de Natal tinham já chamado às salas 297 mil e 259 mil pessoas, respectivamente. O segundo capítulo de O Hobbit foi visto nas salas por 183 mil espectadores nas suas duas primeiras semanas de exibição.
De acordo com os números mais recentes do ICA, estrearam-se em Portugal, até dia 29, 20 longas-metragens de produção portuguesa — entre elas 7 Pecados Rurais, de Nicolau Breyner, Comboio Nocturno para Lisboa, de Billie August, e RPG, de Tino Navarro e David Rebordão, os três mais vistos da listagem.

Durante alguns meses, vários distritos e cidades ficaram sem oferta de cinema comercial de estreia simultânea, o que pode ter influído em parte no comportamento do box office português. Com o encerramento de 70 salas da portuguesa Socorama por todo o país, reabrindo 54 delas pelas mãos do novo exibidor brasileiro Orient Cineplace, mais algumas perdas de salas emblemáticas da capital (Londres, King, por exemplo) e a abertura de dois ecrãs low-cost no Saldanha Residence, o mercado de exibição mudou de rosto. Continuando a ser dominado pela portuguesa Zon, tem agora como segundo maior nome a Orient Cineplace, seguida pela UCI. (Jornal Público)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Sherlock Holmes já pode ser usado sem direitos de autor.


Uma disputa legal nos EUA entre os herdeiros de Conan Doyle e um especialista em Holmes terminou com uma decisão histórica, que coloca (quase todo) o famoso detective no domínio público.
Tudo o que diz respeito à personagem de Sherlock Holmes, excepto alguns pormenores, passa a ser do domínio público, e portanto utilizável por todos os que desejarem fazer algum trabalho inspirado no famoso detective, na sequência de uma decisão judicial de um tribunal norte-americano que veio pôr termo a uma complexa disputa em torno de direitos de autor.
A decisão, tomada na segunda-feira mas noticiada apenas na sexta, representa uma dura derrota para os herdeiros de Sir Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, e autor de quatro romances e 56 contos com aventuras envolvendo o detective e o seu amigo Watson. Representa também uma vitória para Leslie Klinger, especialista naquela personagem ficcional e autor de vários livros sobre o tema.
A disputa chegou ao tribunal por causa do mais recente livro de Klinger, feito em colaboração com Laurie King, e em relação ao qual os herdeiros de Conan Doyle exigiram o pagamento de direitos de autor, ameaçando, caso isso não acontecesse, impedir a publicação. Klinger, que já tinha pago direitos relativamente a livros anteriores, nomeadamente A Study in Sherlock (pelo qual, segundo a Economist, a editora Random House pagou cinco mil dólares, cerca de 3600 euros), decidiu que desta vez ia contestar a exigência, por acreditar que a personagem de Holmes é já inteiramente do domínio público.
O interesse por Sherlock Holmes não tem diminuído, antes pelo contrário: nos últimos tempos surgiram novas obras a partir da personagem, desde as séries Sherlock, da BBC, e Elementary, da CBS, até aos filmes em que o actor Robert Downey Jr. interpreta o detective. Geralmente, em produtos com esta notoriedade, os responsáveis têm preferido pagar direitos aos herdeiros para evitar problemas, diz ainda a Economist.
A questão dos direitos de autor, neste caso, é particularmente complicada porque envolve subtilezas da lei norte-americana. No resto do mundo, incluindo o Reino Unido, onde as obras entram em domínio público 70 anos após a morte do autor (Conan Doyle morreu em 1930), já não existe nada que impeça que Holmes seja utilizado noutras histórias por outros autores. Mas esta regra só foi introduzida nos Estados Unidos em 1977 e por isso só de aplica a obras posteriores a essa data.
Sendo que as obras anteriores a 1923 são já do domínio público, resta o período entre 1923 e 1977, em que a regra nos EUA é esperar 95 anos após a publicação – e é precisamente aí que se situa The Case-Book of Sherlock Holmes (Os Casos de Sherlock Holmes, na edição portuguesa) , um conjunto de 10 contos publicados nos EUA em 1927 e que só entrarão no domínio público em 2023. Quem quiser utilizar algum elemento que faça parte destas histórias terá que pagar direitos aos herdeiros de Conan Doyle, de acordo com a lei americana. Todos os outros livros com Holmes foram publicados antes de 1923 e por isso podem ser usados livremente.
O problema é que os detentores dos direitos de Conan Doyle argumentam que Holmes é uma “personagem complexa” e que se pormenores da sua personalidade ainda estão protegidos pela lei, isso significa que toda a personagem está, porque não faz sentido separá-lo em partes. “O facto é que Sir Arthur continuou a desenvolver as personagens nas dez histórias que ainda estão protegidas, acrescentando aspectos significativos a cada personagem, criando nova história sobre a dinâmica da relação entre elas, alterando a visão que Holmes tem do mundo e dando-lhe novas capacidades. E fez isto de uma forma não linear”, alegam, na defensa que apresentaram em tribunal, citada pelo The Guardian. Acrescentam que  Klinger “sugere que Holmes e Watson podem ser desmantelados em versões parciais deles próprios”.
O tribunal não lhes deu razão nestes argumentos, e deliberou que tudo o que diz respeito a Sherlock Holmes, excepto elementos que surgem exclusivamente nas dez histórias pós-1923, pode a partir de agora ser usado livremente. Isto significa, por exemplo, que detalhes como o segundo casamento de Watson ou a passagem à reforma de Holmes só podem ser citados noutras obras se forem pagos direitos aos herdeiros.

Klinger manifestou o seu contentamento com a decisão, afirmando que “Sherlock Holmes pertence ao mundo”, e congratulando-se com o facto no blogue que criou para acompanhar o caso judicial e ao qual chamou Free Sherlock!. O livro que deu origem à disputa, In the Company of Sherlock Holmes, de Klinger e Laurie King, será publicado pela Pegasus Books em 2014.  (Jornal Público – 29.12.2013)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Banhos judaicos medievais descobertos em Coimbra.


Técnicos da autarquia descobriram por acaso na cave de um prédio o que parece ser uma pequena piscina medieval para uso ritual de mulheres judias.
Uma rotura de canos num prédio de Coimbra levou à descoberta do que se julga ser uma estrutura medieval destinada a banhos rituais femininos judaicos. Esta espécie de pequena piscina para fins religiosos apareceu na cave de um edifício da Rua do Visconde da Luz, na área da antiga judiaria da cidade, e está surpreendentemente bem preservada.
O arqueólogo Jorge Alarcão diz que, neste estado de conservação, “pode ser caso único em Portugal”. E o presidente da Câmara de Coimbra, Manuel Machado, embora ressalve que “o estudo do achado ainda está a decorrer”, admite que se trate da “descoberta arqueológica mais importante que se fez em Coimbra ao longo dos últimos 70 anos”.
Ou seja, depois da descoberta do criptopórtico romano, agora devidamente recuperado e visitável no recentemente reaberto Museu Nacional Machado de Castro, o achado destes banhos judaicos promete oferecer mais uma peça importante ao património de Coimbra. Mas ainda há muito a fazer. Neste momento, explica Manuel Machado, “está-se ainda a identificar os proprietários e os direitos envolvidos, uma vez que não havia qualquer registo daquela existência”. O autarca explica que o que agora se descobriu “está na cave de um prédio particular, ao lado da Ourivesaria Marialva”, mas alerta para a possibilidade de a investigação poder vir a revelar que este tanque integra um conjunto mais vasto, cuja área abranja também o subsolo de outros edifícios da zona.
O que para já se trouxe à luz parece ter boas possibilidades de ser um dos mais antigos banhos rituais judaicos (mikvá) descobertos na Europa, já que tudo indica que não seja posterior ao século XIV. E se efectivamente se destinava a banhos rituais femininos, é ainda mais raro.
A comunidade judaica está documentada em Coimbra desde tempos anteriores à nacionalidade, e sabe-se que a Rua de Visconde da Luz, outrora chamada do Coruche, era um dos limites da chamada judiaria velha, que terá sido desactivada no reinado de D. Fernando I, por volta de 1370. Daí que Jorge Alarcão acredite que estes banhos “já funcionavam certamente antes do tempo de D. Fernando”.
Avaria providencial
Se há males que vêm por bem, pode dizer-se que foi o caso com o rebentamento dos canos de esgoto de um prédio da Rua do Visconde da Luz, mais precisamente o n.º 21. Quando os técnicos municipais da Divisão de Promoção e Reabilitação da Habitação foram tentar resolver o problema, viram-se na necessidade de aceder a um espaço fechado nas traseiras do edifício. A divisão não seria usada há muito e foi preciso arrombar uma porta de metal. Verificou-se, então, que se tratava da entrada para uma cave, à qual se acedia por um lance de escadas em pedra. Nesta cave, uma nova abertura conduzia ainda mais abaixo, ao que parecia ser uma fonte de chafurdo ou mergulho (fontes das quais tradicionalmente se tirava água submergindo as próprias vasilhas).
Alertado o Gabinete para o Centro Histórico, foram feitas duas visitas ao local nos dias 18 e 19 de Novembro, que envolveram técnicos de várias especialidades, incluindo a arqueóloga Raquel Santos, a historiadora de arte Luísa Silva e o técnico de conservação e restauro Manuel Matias.
O que encontraram foi uma gruta natural de calcário, aparentemente utilizada para vários fins ao longo dos tempos. E quando desceram os degraus e viram a pequena piscina, começaram por admitir que pudesse efectivamente tratar-se de uma fonte de chafurdo. Mas à medida que investigavam mais minuciosamente o local, foi-se tornando evidente que aquele era um espaço que fora cuidadosamente concebido.
Por cima da cabeceira do tanque, descobriram-se mesmo vestígios muito razoavelmente conservados de um antigo fresco com motivos florais. Os técnicos estão convencidos de que esta pintura datará provavelmente dos séculos XVI ou XVII e corresponderá à última fase de utilização ritual deste tanque.
Dado que a estrutura se encontra na área da judiaria velha, e parece corresponder perfeitamente às descrições dos banhos de purificação judaicos da época, a convicção actual é de que se trata mesmo de uma mikvá (também grafado mikvah ou mikveh). Os frescos, e a própria dimensão reduzida do tanque, apontam para que fosse usado por mulheres.
A descoberta já foi comunicada à Direcção Regional de Cultura do Centro e, neste momento, segundo Manuel Machado, a prioridade é identificar todos os eventuais proprietários envolvidos, estudar o achado, garantir a sua preservação e verificar se não faz parte de um sistema mais amplo.
A fraude holandesa
E os próximos tempos servirão também para se confirmar de modo mais inequívoco que se trata mesmo de banhos rituais judaicos. Há precedentes de descobertas semelhantes cuja autenticidade veio a ser contestada. É o caso damikvá da cidade holandesa de Venlo, descoberta em 2004, datada do século XIII e publicitada como a mais antiga do país.
O município gastou cerca de dois milhões de euros em obras de restauro e na construção de uma nova ala no museu municipal, onde os supostos banhos medievais judaicos iriam ser admirados. Mas afinal parece que a cave em causa nunca fora utilizada para quaisquer rituais judaicos e que o arqueólogo municipal fora instruído pelos seus superiores para defender a tese de que se tratava de uma mikvá e silenciar quaisquer hipóteses alternativas.
O que é significativo neste recente caso holandês é verificar-se que a descoberta de uma mikvá medieval é considerada suficientemente relevante para levar poderes públicos a tentar confirmá-la por meios fraudulentos. Com o turismo cultural judaico em franco crescimento, este é um tipo de achado que pode tornar-se altamente rentável. E a suposta mikvá de Venlo tinha ainda a adicional importância simbólica de atestar a existência de uma comunidade judaica fortemente estruturada muito antes da chegada ao país dos judeus fugidos de Espanha e Portugal.
Aquela que é reconhecidamente a mais antiga mikvá conhecida na Europa é a de Siracusa, na Sicília, que datará provavelmente do século VII. Bastante mais antigos são os banhos rituais judaicos descobertos em 2009 em Jerusalém, uma estrutura de grandes dimensões que se crê ser anterior à destruição do segundo Templo, em 70 d.C..

Nos meios do judaísmo ortodoxo a mikvá, que tem de ser alimentada por uma fonte natural de água, desempenha ainda hoje um papel importante. As mulheres usam as que lhes são destinadas para recuperar a “pureza ritual”, designadamente após o ciclo menstrual ou depois de um parto. Os regulamentos obrigam a que todo o corpo entre em contacto com a água e asmikvá actuais têm geralmente uma funcionária encarregada de ajudar as mulheres a cumprir correctamente este e outros preceitos.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Museu de Arte Antiga compra em Londres uma peça “ímpar” resgatada aos escombros de 1755.


Baixo-relevo de cerca de 1575 retrata o teólogo Diogo de Paiva de Andrade e foi adquirido por 43 mil euros, anunciou esta sexta-feira a Direcção-Geral do Património Cultural.
Não se sabe quem a terá resgatado intacta às ruínas da Capela de S. Nicolau de Tolentino, da Igreja do Convento da Graça, de Lisboa, depois do terramoto de 1 de Novembro de 1755. Sabe-se apenas que em algum momento depois esta peça “ímpar” entrou para a colecção de Sebastião José de Carvalho e Mello, Marquês de Pombal. Terá estado com os seus herdeiros até em 1997 surgir pela primeira vez no mercado. Agora, 16 anos volvidos, o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) conseguiu adquirir este baixo-relevo datado de cerca de 1575 e que retrata Diogo de Paiva de Andrade, um dos mais importantes teólogos portugueses.
A obra, um medalhão em bronze com 33 centímetros de diâmetro, posteriormente emoldurado e com uma base em mármore, chegou esta quarta-feira ao MNAA, onde integrará as colecções de escultura.
“Já na época do Marquês de Pombal se percebeu a importância histórica deste medalhão”, explica Anísio Franco, conservador de escultura e vidros do museu. Também especialista em leilões, Anísio Franco chama a atenção para uma segunda placa aplicada no século XVIII ao reverso do medalhão quinhentista. Nessa segunda placa, uma longa inscrição em latim explica vários aspectos da memória transportada pela peça em que o rosto de Diogo de Paiva de Andrade ficou gravado num retrato lateral, feito na tradição renascentista das peças “ao romano” com que mais de um século antes, em Itália, se tinham começado a celebrar os grandes heróis antigos e contemporâneos.
A inscrição setecentista estabelece, por um lado, os principais dados biográficos de Paiva de Andrade, contemporâneo de D. Sebastião e o mais importante agostinho do reino, participante, aos 33 anos, no Concílio de Trento, considerado um dos três concílios fundamentais da Igreja Católica. Por outro lado, a inscrição fala do processo de achamento do próprio medalhão, contando como “foi recuperado intacto das ruínas” da capela onde o teólogo foi enterrado em 1575 e como a peça foi depois “esquecida até ao momento em que (…) Sebastião José de Carvalho e Mello (…) corrigiu esta negligência”, fazendo com que a memória de Paiva de Andrade “fosse protegida da devastação do tempo”.   
“A inscrição demonstra que havia já, nitidamente, uma vontade de preservação de memória”, sublinha Anísio Franco. Uma vontade que se liga hoje tanto à importância da personagem retratada quanto às características formais da própria peça e ao seu percurso histórico.
Com dimensões que ultrapassam em muito a medalhística no sentido em que hoje estamos habituados a pensá-la, não se conhece, em Portugal, outra peça semelhante. “Tem alguma raridade, mesmo considerando a produção internacional”, diz Maria João Vilhena de Carvalho, também conservadora de escultura do MNAA.
“No contexto das obras do museu é ímpar. Não temos nenhuma que se possa assemelhar a esta”, refere a especialista, apontando exemplos de produção internacional em quase todos os grandes museus do mundo, instituições como o Victoria & Albert, de Londres, ou o Kunsthistorisches Museum, de Viena.
Um feliz achado
Só agora, com a entrada nos acervos do MNAA, começará o estudo aprofundado deste medalhão. Até aqui desconhece-se, por exemplo, a sua autoria. No entanto, segundo Maria João Vilhena de Carvalho, a sua produção é “provavelmente” nacional, eventualmente por influência de – ou executada por – algum artista italiano a trabalhar, à época, no reino.
Não se sabe também de quem terá partido a encomenda. Outras peças internacionais semelhantes serviam, na maior parte dos casos, como presentes de aparato – ofertas, por exemplo, entre príncipes. O medalhão português “terá sido pensado para uma parede ou mesmo para o túmulo” de Paiva de Andrade, explica ainda Maria João Vilhena de Carvalho.  
Depois de por volta de 1438 Pisanello ter cunhado a medalha comemorativa normalmente considerada como a cabeça de série renascentista desta forma de difusão do retrato – com o busto de João VIII, penúltimo imperador bizantino, por ocasião de uma sua visita a Itália –, muitos dos mais importantes artistas do período deixaram peças deste tipo. No entanto, a importância para Portugal do medalhão dedicado a Paiva de Andrade foi evidente para o conhecido comerciante de arte londrino Rainer Zietz.
Anísio Franco conta que o marchand entrou pela primeira vez em contacto com o MNAA em 2005, oito anos depois de a peça ter aparecido pela primeira vez no mercado, num leilão da Christie’s de Londres, onde foi vendida por mais de 16.500 libras (20 mil euros, ao câmbio actual). Nesse primeiro contacto, quando os especialistas do MNAA primeiro tomaram conhecimento da peça, Zietz propunha ao museu uma compra no valor de 150 mil euros – mais de sete vezes o valor por que a obra tinha antes ido à praça. Ainda assim, o museu entendeu que a aquisição devia ser feita. O parecer enviado à tutela acabou, no entanto, na altura, por não ter seguimento. Entretanto, já em Julho deste ano, a peça voltou ao mercado, desta vez através da Sotheby’s. E com uma expectativa de venda inferior: entre as 40 mil e as 60 mil libras (aproximadamente 48 mil e 72 mil euros).

Não suscitando interesse, a peça, que compunha o lote 81, acabou por ser retirada sem licitações – o que permitiu ao MNAA fazer uma proposta de aquisição mais vantajosa: 36 mil libras (43 mil euros).
Os valores inicialmente propostos por Zietz eram “equivalentes aos [de obras semelhantes] do mercado internacional”, explica Anísio Franco. O especialista aponta, contudo, o que o proprietário acabou por perceber: que “esta peça só interessa realmente ao mercado português”. Depois, o marchand teve ainda que considerar o actual contexto nacional: “Nas circunstâncias actuais, o proprietário percebeu que o valor de 2005 seria impossível.”
“Acaba por ser um achado, um feliz achado”, conclui Maria João Vilhena de Carvalho.

Foi uma de apenas duas aquisições que o MNAA, o mais importante museu nacional, fez em 2013, juntando-se a uma peça de joalharia da Colecção António Barreto. (Jornal Público)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Palácio Nacional de Queluz, tal como antigamente, vai voltar a ser palco de concertos.


Foi anunciada a temporada de música para 2014 com 11 concertos no Palácio Nacional de Queluz. O histórico pianoforte de Clementi foi recuperado e vai ser tocado nos dois ciclos programados.
A música vai voltar àquele que foi o palco de festas e concertos da corte real de D. Maria I e de D. Pedro, ou seja, ao Palácio Nacional de Queluz. Mais especificamente, às salas por onde passaram músicos conceituados da época. Para 2014 estão programados dois ciclos, um de Carnaval e outro de Outono, tal como se fazia na altura. A música vai levar-nos a esse tempo da monarquia pela mão de alguns dos maiores nomes da actualidade, como o pianista holandês Ronald Brautigam ou o português Pedro Burmester.
Mas se com esta programação, que tem por nome Temporada de Música – Tempestade e Galanterie e que arranca a 8 de Março, o seu director artístico Massimo Mazzeo nos quer transportar para a época dos grandes bailes e concertos da corte, muito se deve também à recuperação de uma das jóias do Palácio de Queluz, o pianoforte de Clementi. Este instrumento musical com mais de 200 anos estava há 12 arrumado e a precisar de um grande trabalho de intervenção. Na semana passada voltou finalmente ao seu lugar, a Sala da Música, uma das mais antigas do Palácio, e já se pôde ouvir o som que dele sai, podendo imaginar-se até D. Maria (representada no quadro que está pendurado na parede junto ao instrumento) embalada por aquela música.
“Este é o regresso à cena do pianoforte, uma peça excepcional de grande raridade”, disse na conferência de imprensa de apresentação desta programação musical a directora do Palácio de Queluz, Inês Ferro, explicando que este instrumento histórico, construído pelo célebre compositor e intérprete italiano Muzio Clementi, “esteve esquecido 12 anos” mas depois de ter sido “completamente desmontado e restaurado” vai permitir finalmente que a música volte a ser tocada no Palácio. E tal como foi antigamente, vai voltar a ser agora.
Para Massimo Mazzeo, director musical da Divino Sospiro, responsável também pelo Centro de Estudos Setecentistas de Portugal, “Clementi retorna ao lugar que lhe é próprio”. E por isso mesmo é o italiano e o seu instrumento o foco do concerto inaugural marcado para o dia 8 de Março na Sala da Música. No pianoforte vai estar o holandês Ronald Brautigam para tocar reportório de Clementi, em tributo ao italiano.
O pianoforte é aliás a figura central do Ciclo de Carnaval, estando presente em todos os concertos. No dia 12 de Março volta a ser tocado mas desta vez pelas mãos do sul-africano Kristian Bezuidenhout, que apresentará em Queluz “um repertório onde se destaca a obra do compositor Carl Philip Emanuel Bach, assinalando assim os 300 anos do seu nascimento”. Segue-se depois um concerto na Sala dos Embaixadores, no dia 16, preparado pela musicóloga e crítica de música clássica do PÚBLICO Cristina Fernandes, que pretende recriar historicamente o espírito das festas do final do século XVIII. O ciclo de Carnaval termina com mais três concertos, o último dos quais no dia 29 de Março a cargo do pianista Pedro Burmester, que tocará pela primeira vez num pianoforte.
“No meu percurso de músico sempre dei importância à recuperação do património porque é a recuperação de identidade, e é isso que estamos a fazer aqui”, explicou Massimo Mazzeo enquanto apresentava a programação, destacando a importância destas obras serem tocadas no Palácio de Queluz. “O que vai acontecer aqui é a música a ser tocada dentro do espaço para o qual foi pensada”, disse o director artístico, para quem hoje em dia se ouvem “coisas completamente descontextualizadas. A ideia é por isso que, em cada concerto, se regresse à vivência total da música, recriando-se, tanto quanto possível, as condições originais da sua primeira interpretação.
E porque antigamente a época de espectáculos se dividia habitualmente em dois ciclos, em Outubro a música volta ao Palácio num Ciclo de Outono com mais cinco concertos. E aqui Mazzeo destaca o primeiro espectáculo, a 3 de Outubro, “um concerto de referência para toda a temporada” com Midori Seiler, no violino e Jos van Immerseel, no pianoforte. “Dois músicos que pisaram os palcos mais importantes do mundo, estamos a falar do pico mais alto do que temos hoje em dia na interpretação”, disse o director artístico, mencionando ainda o último concerto, a 25 de Outubro, em que a Orquestra Gulbenkian será dirigida pelo maestro argentino Leonardo Garcia Alarcón.
Os preços dos bilhetes para estes concertos variam entre 15 e 20 euros, existindo ainda dois passes especiais que permitem o acesso a todos os concertos de cada ciclo, com preços entre os 60 e os 90 euros.

“Era aqui que a corte se divertia e por isso tudo o que está pensado para esta temporada faz sentido”, disse António Lamas, presidente do conselho de administração da Parques de Sintra, empresa que gere o Palácio de Queluz, esperando com esta iniciativa conquistar “mais e diferentes visitantes”. “Queremos que a música se torne no principal motivo de atracção do Palácio”, acrescentou ainda o responsável, garantido que “este é um programa para se repetir com regularidade”. “É para se tornar um hábito.” (Jornal Público)