domingo, 16 de fevereiro de 2014

As fotografias vencedoras do World Press Photo 2014.

A organização do mais importante concurso de fotojornalismo do mundo, o World Press Photo, divulgou os trabalhos vencedores. Uma imagem do norte-americano John Stanmeyer foi a escolhida para o Grande Prémio de 2013. É uma fotografia que mostra um grupo de emigrantes africanos que, de telemóveis erguidos para o céu e à luz da lua, tentam a partir da costa do Djibuti encontrar a rede somali mais barata para poderem falar com os seus familiares. (Jornal Público)

Questões Actuais, 1º prémio (estórias). Discussão entre Shane e Maggie enquanto a filha entra na cozinha, Lancaster. EUA
SARA NAOMI LEWKOWICZ/TIME

Notícias, 1º prémio (fotografia única). Centro de refugiados sírios, em Sofia, Bulgária
ALESSANDRO PENSO/ONOFF PICTURES

World Press Photo of the Year, Questões Actuais, 1º prémio (fotografia única). Grupo de imigrantes africanos que, a partir da costa do Djibuti, tentam encontrar a rede somali mais barata para falarem com os seus familiares
JOHN STANMEYER/VII FOR NATIONAL GEOGRAPHIC

Retrato, 1º prémio. Mulher desanimada depois de não conseguir ver o corpo de Nelson Mandela, em Pretória, África do Sul
MARKUS SCHREIBER/THE ASSOCIATED PRESS


Retrato, 1º prémio. Rapazes albinos cegos numa escola, Índia
BRENT STIRTON/GETTY IMAGES

Notícias, 1º prémio (fotografia única). Sobreviventes do tufão Haiyan, durante uma procissão em Tolosa, ilha de Leyte, Filipinas
PHILIPPE LOPEZ/AGENCE FRANCE-PRESSE



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O perdão de Filomena.


"Filomena" conta uma história real. Conta muitas coisas. De dois mundos em coabitação fugaz - o do jornalista e assessor político retirado sem glória, que se prepara para escrever um livro sobre a história da Rússia, e duma simples mulher do povo, com gostos literários mais prosaicos. Do amor e da perda dum filho. Da culpa e das pazes que queremos fazer com a nossa própria história quando o fim se aproxima. Mas "Filomena" fala, antes de tudo, de um conflito moral fundamental nas nossas vidas. A partir duma história de abuso de que a Igreja Católica em geral e a Igreja irlandesa em particular está cheia.
Filomena engravidou sem ser casada. Na conservadoríssima Irlanda de 1952. Coberto da vergonha que o julgamento social impunha, um pai que amava mais a sua imagem do que a sua filha, entregou-a a um convento. Por lá pariu e trabalhou durante quatro anos para pagar as despesas. O seu filho foi, como os filhos de todas as jovens mães que ali estavam, entregue para adopção famílias abastadas que compraram as crianças. Sem a sua autorização, claro. Ou seja, o seu filho foi-lhe roubado. O resto não conto, para não estragar.
Apesar de nunca me deixar de sentir esmagado pela crueldade que o conservadorismo extremo carrega em si, não me preparo para um manifesto anticlerical. De crimes estão cheios todos os templos, mas também todas instituições de poder. Ainda mais uma instituição milenar. Ainda mais uma instituição que, por natureza, escapa ao escrutínio público. Ainda mais uma instituição que exige obediência e se move no território da fé.
"Filomena" fala duma coisa muito mais interessante do que qualquer julgamento histórico duma instituição demasiado grande para caber num só texto. Fala do confronto entre o sofrimento extremo de um individuo e a vontade e preservar uma instituição que o explica como pessoa. Como julgar os que moldaram o que somos pode ser ainda mais violento do que nos julgarmos a nós próprios. Na realidade, pode ser exatamente a mesma coisa. Por isso compreendo tão bem aqueles que, chegados ao fim da vida, se recusam a negar tudo aquilo em que acreditaram e todas as instituições a que pertenceram, por mais evidente que tenham sido os seus erros. Pedir que neguemos toda a sua vida é exigir demais a quem é apenas humano.
Pelo menos esta é a parte do filme de Stephen Frears que mais me interessa. Porque retira à obediência a visão simplista de quem pensa que ela resulta apenas da anulação do indivíduo. Como se o lugar de onde vimos e onde estivemos não fizesse parte da nossa individualidade. Ainda mais quando essa obediência, que nos faz ser injustos connosco mesmos, não resulta do medo e da coação, mas do sentimento de pertença e de dever. É um conflito tramado que a personagem do filho biológico, gay republicano que, com SIDA, trabalha convictamente com o governo que recusa investir no combate à doença. A vida está cheia de contradições.
Filomena existiu. E chama-se mesmo Filomena. E divide a sua história com milhares de outras mães que foram exploradas e roubadas na sua maternidade pela Igreja irlandesa. Mas o mais interessante desta história é a dificuldade que Filomena tem em culpar as freiras que foram as suas carrascas. E ainda mais a Igreja de que ela própria faz parte. Uma dificuldade incompreensível para o cínico, agnóstico e desiludido (ex-correspondente da BBC, ex- católico) Martin Sixsmit (autor do livro em que se baseia este filme).
Há, em Filomena, uma fronteira ténue entre a resignação e a capacidade de perdoar. Há, em Martin, uma fronteira ténue entre o sentido de justiça e a amargura. Martin não pode compreender Filomena. Ele não pertence a nada. Na realidade, ele não acredita em grande coisa. Filomena não pode compreender Martin. Afinal de contas, ela foi privada, desde muito cedo, da mais elementar noção de justiça.
No fim, lá as coisas equilíbram-se. Ele compreende a necessidade pessoal de perdoar, ela compreende a necessidade pessoal de denunciar. E, não sendo o filme da minha vida, a qualidade de "Filomena" é essa amenidade das personagens. A suavidade dos seus sofrimentos e julgamentos. Ele decide que não explorará de novo Filomena, não escrevendo sobre a história. Mas ela opta por uma justiça salomónica: perdoa as freiras (não poderia encontrar maior castigo contra quem apregoa o "perdão" sem nunca o ter experimentado), mas quer que a verdade se saiba. Tudo ao contrário de grande parte da história da Igreja Católica, no que toca aos seus pecados e aos dos outros. Ainda assim, um final absolutamente cristão. Que até o agnóstico Martin, de quem obviamente me sinto mais próximo, compreende.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Escritórios da Columbia TriStar Warner Filmes de Portugal vão encerrar.


É oficial, a distribuidora da Sony Pictures e da Warner vai fechar. Ainda não se sabe quem vai passar a distribuir os filmes dos dois estúdios americanos.
Os escritórios da Columbia TriStar Warner Filmes de Portugal (CTW) vão fechar no dia 31 de Março, revelou hoje a empresa em comunicado à imprensa. A CTW era a responsável pela distribuição dos filmes da Warner Bros. e da Sony Pictures Entertainment.
Uma fonte da empresa revelou ao PÚBLICO que, para a Columbia Pictures, a empresa portuguesa não apresentava níveis de rentabilidade satisfatórios devido à quebra que houve no mercado nacional. E segundo a agência Lusa o encerramento do escritório leva ao despedimento de 14 trabalhadores.
Os últimos filmes a ser lançados pela CTW vão ser o Winter’s Tale – Uma História de Amor, com estreia agendada para 13 de Fevereiro, o filme de animação Lego, a 27, e 300: O Início de um Império.
Assim, O Fantástico Homem-Aranha 2: O Poder de Electro, que vai estrear a 17 de Abril e que se espera venha a ser o grande lançamento da produtora para este ano, já não vai ser distribuído pela empresa portuguesa que era a segunda maior distribuidora a operar no mercado português.
A empresa, que em 2013 distribuiu 24 filmes, teve cerca de dois milhões de espetadores (uma quebra de 7,2 por cento em relação a 2012) e 11,8 milhões de euros de receita bruta de bilheteira (perdas de 6,5 por cento comparando com 2012) segundo dados recentes do Instituto do Cinema e Audiovisual, divulgados pela agência Lusa.
Sabe-se que a Sony Pictures tem vindo a reduzir o número de filmes lançados. Questionada sobre a possibilidade de a multinacional estar a atravessar uma crise, a mesma fonte da CTW revelou ao PÚBLICO que a Sony, onde está inserida a Sony Pictures, está à procura de optimizar soluções na gestão e irá despedir 5.000 trabalhadores, o que provavelmente também acabou por se reflectir em Portugal.

Ainda não foi revelado oficialmente quem vai passar a representar os estúdios da Warner Bros. e da Sony Pictures, no entanto, a mesma fonte garantiu que essa informação será revelada muito em breve.
O PÚBLICO tentou contactar a ZON Optimus, que se suspeita ser quem vai passar a distribuir os filmes que eram da responsabilidade CTW desde 1982, no entanto o grupo empresarial disse que não iria comentar o assunto.

Nota: Mais uma "machadada" no cinema e nos trabalhadores. O capital não pode perder...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Christie's cancela leilão da colecção Miró.


A leiloeira Christie's anunciou esta tarde em comunicado que retirou as 85 obras de Joan Miró da colecção do Banco Português de Negócios do leilão que estava marcado para se iniciar esta noite.
"A venda da colecção dos 85 trabalhos de Joan Miró foi cancelada como resultado da disputa no tribunal português, do qual a Christie’s não é parte interessada”, escreve Matthew Paton, director de comunicação da leiloeira, no comunicado enviado ao PÚBLICO, explicando que apesar de o tribunal não ter impedido a venda desta noite, “as incertezas legais criadas por esta disputada significam que não somos capazes de oferecer com segurança estes trabalhos para venda”.
Na mesma nota, Matthew Paton explica que a Christie’s “tem a responsabilidade” de oferecer aos seus clientes as condições máximas de segurança nas transacções, o que significa que tanto a leiloeira como os interessados em comprar as obras “têm de ter a certeza legal que as podem transferir sem problema”.
“Uma vez que a decisão do tribunal questiona isto nesta altura, a Christie’s é obrigada a retirar as obras da venda”, escreve ainda o responsável da leiloeira, esperando que “as partes nesta disputa consigam resolver as suas diferenças no devido tempo”.
O Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa decidiu esta terça-feira de manhã que o leilão, marcado desde Novembro de 2013, se poderia realizar, admitindo no entanto que parte dos procedimentos legais a que a Lei de Bases do Património Cultural obriga não tinham sido cumpridos. As obras viajaram inclusive ilegalmente para Londres, onde estão expostas, não tendo nunca a Direcção-Geral do Património Cultural autorizado a sua saída. São estas as questões legais levantas nestes últimos dois dias que levaram a que a leiloeira retirasse as obras.
Lê-se no acórdão do tribunal que a “expedição das obras é manifestamente ilegal”, não sendo “necessário argumentação sofisticada para concluir que a realização do leilão pela leiloeira Christie's das obras de Joan Miró comprometeria gravemente o cumprimento dos deveres impostos" pela Lei de Bases do Património "e reduziria a nada a concretização dos deveres de protecção do património cultural".

O Estado esperava arrecadar com esta venda cerca de 35 milhões de euros, segundo a avaliação da leiloeira. No entanto, como é habitual nestas situações, no contrato celebrado entre a Christie’s e a Parvalorem e Parups, sociedades criadas no âmbito do Ministério das Finanças para recuperar créditos do BPN e que são proprietárias das obras, existe uma cláusula que pressupõe o pagamento de uma indemnização caso o leilão não aconteça. Não sendo conhecido este contrato, lê-se no acórdão do tribunal que neste caso "a Parvalorem, S.A. por força do contrato celebrado, constituir-se-á na obrigação de indemnizar a Christie’s em montante cujo valor se situará entre os 4,7 milhões e os 5 milhões de euros”. Uma vez que foi a própria leiloeira a cancelar o leilão não se sabe se esta cláusula se aplicará. (Jornal Público - 04.02.2014)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Entrevista a José Luís Peixoto - “Manifesto contra a Crise – Compromisso com a Ciência, a Cultura e as Artes em Portugal” .


O escritor José Luís Peixoto é um dos subscritores do “Manifesto contra a Crise – Compromisso com a Ciência, a Cultura e as Artes em Portugal”.


Apoiado por 131 intelectuais, o documento defende a criação de condições para que os talentos se fixem em Portugal, ou então no estrangeiro, mas ao serviço do seu país. 
Nesta entrevista conduzida pelo jornalista Nuno Rodrigues, José Luís Peixoto afirma que a área do saber é sempre castigada num contexto de crise e dificuldades generalizadas.


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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O Museu de Arte Antiga tem mais um Menino Jesus feminino e encantador de Josefa de Óbidos.


Não é difícil imaginá-la no seu universo feminino, fora da oficina, rodeada de crianças que não eram suas, talvez na cozinha, a fazer bolos ou a escolher os frutos e flores que mais tarde haveria de pintar. Não é difícil imaginar alguém a chamar-lhe tia Josefa, diz Anísio Franco, conservador do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), frente à obra que acaba de ser exposta. É um Menino Jesus Peregrino que Josefa de Óbidos terá pintado já no auge da sua carreira — invulgar para uma mulher do século XVII —, nas décadas de 1660 ou 70, que reúne uma série de traços característicos da sua obra, femininos.
A incorporação deste Menino Jesus no acervo que já inclui 15 pinturas da artista que nasceu em Sevilha e escolheu fixar-se em Óbidos vai permitir ao museu “mostrar mais uma tipologia que, não sendo única em Josefa de Óbidos, não estava ainda presente na colecção do MNAA”, explica Anísio Franco, um dos conservadores.
Quem percorre hoje este museu de Lisboa encontra duas das naturezas-mortas que a tornaram tão popular (Com Taça de Cristal e Com Caixas e Potes), um Menino Jesus Salvador do Mundo, uma Adoração dos Pastores e um Casamento Místico de Santa Catarina em ambiente doméstico, com a Virgem sobre um estrado, com um cesto de costura aos pés. Estas obras chegaram à colecção da Rua das Janelas Verdes em vários momentos e algumas pertenceram aos reis D. Fernando e D. Luís. Nas futuras galerias de pintura e escultura portuguesa, que deverão ser inauguradas no terceiro piso, no final de 2014, voltarão a estar expostas, ao lado do novo Menino Jesus, que está hoje no MNAA graças a um depósito, por dois anos (renovável), segundo o vice-director, José Alberto Seabra Carvalho.
A obra, que foi a leilão em Setembro do ano passado sem que fosse vendida, pertence à família Roque de Pinho Patrício, que pouco depois decidiu propor ao museu que a expusesse, o que, dada à sua qualidade, foi aceite.
As tentativas para deixar obras em depósito no museu são muitas, mas são poucas as que se concretizam. A explicação, diz Anísio Franco, é simples: “As pessoas vêm, de boa vontade, confiar ao museu aquilo que acham ser um tesouro, mas o que acontece na maioria das vezes é que as obras só são tesouros num contexto familiar.”
“O Menino está sozinho, com o bordão e a cabaça dos peregrinos de Santiago, e parece, à primeira vista, muito inocente. Mas, quando começamos a reparar nos detalhes da roupa, que são muitos, percebemos que esta criança sabe exactamente o que lhe vai acontecer.”
Anísio Franco, conservador do Museu Nacional de Ar
Entre 2005 e 2012 — os dados mais recentes —, o MNAA recebeu cinco depósitos de pintura ou mobiliário de particulares, como o Retrato de Jácome Ratton (século XIX), de Thomas Lawrence, que pertence à Fundação Calouste Gulbenkian. Mas as doações e os legados no mesmo período atingem os “milhares” de peças. Só a colecção Francisco Castro Pina, que chegou em 2011, tem mais de três mil, com destaque para ourivesaria, têxteis e cerâmica portuguesa e oriental. Por que razão fazem doações e não deixam em depósito?
“Não temos essa tradição. E acho que também há o receio, por parte dos donos, de que o Estado classifique os bens e que isso dificulte a sua transacção futura.” Um receio que, garante o conservador do museu, não se justifica em casos como este: “Uma Josefa de Óbidos, um Malhoa ou um Columbano têm é valor cá. Fora do nosso mercado dizem muito pouco aos coleccionadores.”

Um Menino Jesus ibérico.

No caso deste Menino Jesus Peregrino, justificava-se “em pleno” a integração no acervo, quer pela temática, quer pelo rigor da execução. Presente em todas as exposições importantes que foram dedicadas a Josefa de Óbidos, dos anos 1940 até à de 1991, “a mais completa e com reatribuições”, esta pintura reflecte uma “tradição iconográfica muito ibérica”. Um iberismo que Anísio Franco justifica com o facto de este Jesus ainda criança estar representado com uma série de símbolos que por hábito são associados aos peregrinos a Santiago de Compostela, na Galiza. “O Menino está sozinho, com o bordão e a cabaça dos peregrinos de Santiago, e parece, à primeira vista, muito inocente. Mas, quando começamos a reparar nos detalhes da roupa, que são muitos, percebemos que esta criança sabe exactamente o que lhe vai acontecer.”
O conservador refere-se aos símbolos da Paixão de Cristo que estão bordados na gola da capa — os dados associados à traição, a lança que o matou ou a esponja embebida em vinagre de onde terá bebido — e presentes em alguns dos adereços que usa, como o pano de Verónica (véu com que Jesus limpa o rosto a caminho da crucificação), o chapéu com a coroa de espinhos e um medalhão em que está inscrito INRI (acrónimo em latim para “Jesus de Nazaré Rei dos Judeus”, que viria a ser usado na placa que encima a cruz do calvário).
Tudo isto pintado, acrescenta o especialista do MNAA, com “o característico toque feminino da Josefa de Óbidos”. E em que é que consiste esse “toque feminino”? Numa atenção aos pormenores muito particular, nas margaridas que coloca aos pés deste Menino de longos cabelos loiros aos caracóis, de grandes rosáceas e “olhos meigos”, explica. É tudo feito com muito cuidado no tratamento da luz e dos panejamentos, diz Anísio Franco, falando da “singularidade” da artista no contexto da pintura que se fazia em Portugal. “O professor Manuel do Rio-Carvalho [historiador de arte] dizia que a Josefa pintava meninos como quem pintava bolinhos [que tantas vezes aparecem nas suas naturezas-mortas] e bolinhos como quem pintava meninos” — tudo muito minucioso e com “grande doçura”: "As suas pinturas são, efectivamente, encantadoras."

Uma mulher singular.

Na época, e apesar de uma clientela fiel, ainda que “restrita e muito regional”, esta artista que se formara na oficina do pai, o pintor Baltazar Gomes Figueira, não tinha a mesma projecção de outros colegas de profissão e havia até quem a acusasse de erros de perspectiva elementares. Anísio Franco lembra que não era comum no antigo regime uma mulher solteira, sem descendência directa e, ainda por cima, capaz de se sustentar. “Isso devia incomodar muita gente.”
Justas ou não as críticas, certo é que a pintora conquistou um lugar na cultura portuguesa, sendo muito popular no seu tempo, mas também no século XIX, quando o mercado da arte nacional começou a funcionar. Primeiro, explica o conservador, começou por ajudar o pai nas grandes encomendas de Coimbra — ainda hoje é discutível a autoria de algumas das obras por causa dessa proximidade — e por trabalhar para uma certa “corte de Aldeia” (à volta de Óbidos há muitas obras dispersas); séculos depois, “todas as boas famílias queriam ter uma natureza-morta da Josefa na sala de jantar”...
A questão da autoria à volta de Josefa de Óbidos e de Gomes Figueira tem sido muito trabalhada por Vítor Serrão, historiador de arte que tem estudado a obra dos dois pintores. “É claro que gostávamos de saber muito mais sobre ela, mas isso pode passar, como defende Vítor Serrão, por saber mais sobre o pai.”
Josefa nasceu em Sevilha quando Baltazar Gomes Figueira lá trabalhava, foi apadrinhada por um importante pintor espanhol da época, Francisco Herrera, e começou por copiar os modelos que encontrava na oficina do pai, alguns de Francisco de Zurbarán, que ele terá chegado a conhecer. “Ela aprende em segunda mão, é verdade, mas não é em nada menor do que o pai”, defende o conservador do MNAA. “Podemos dizer que Baltazar Gomes Figueira tinha outro mundo, outra relação com os modelos, eventualmente mais informada, mas Josefa soube desenvolver a sua própria maneira de pintar.”
Obras como o Menino Jesus Peregrino ou a Sagrada Família (1664), que pertencia ao Convento de Santa Cruz do Buçaco e que ardeu na última noite de Consoada, eram encomendas recorrentes. Destinavam-se a uma “devoção doméstica, na intimidade”, embora a primeira exiba claras marcas de luxo e a segunda seja muito mais contida, como convém a uma pintura destinada à casa religiosa de uma ordem que professa a pobreza (no caso, a dos monges carmelitas descalços). Outra das diferenças, sublinha Anísio Franco, é o facto de a pintura agora no MNAA não ter sido sujeita a intervenções de restauro de fundo, ao contrário da que foi completamente destruída no convento: “O requinte nos efeitos lumínicos é absolutamente evidente, porque neste Menino Jesus a pintura está toda cá, o que já não se passava com a do Buçaco, muito intervencionada. Isto não quer dizer, no entanto, que a perda daquela Sagrada Família não seja um desastre patrimonial.”
A investigação sobre as causas que levaram ao incêndio no convento de 24 para 25 de Dezembro estão ainda a decorrer, disse nesta quarta-feira ao PÚBLICO o presidente da Fundação Mata do Buçaco, responsável pelo edifício, sendo agora da responsabilidade do Ministério Público.

As obras para corrigir as infiltrações na cobertura que terão estado na origem do curto-circuito que levou ao desaparecimento da pintura ainda não começaram, porque os técnicos estão a estudar ainda o que fazer, acrescentou Fernando Correia: “Todas as diligências estão em curso mas, antes de qualquer intervenção, é preciso ouvir os especialistas em património. É o que estamos a fazer." (Jornal Público)

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O primeiro livro de BD de Paulo Monteiro ganhou prémio em França.


“Olá ! 'O Amor Infinito que te tenho' ganhou o Prix Sheriff D'Or 2013, em França !!! Estou muito feliz !!! Um abraço a todos !!!”. Estas foram as palavras que Paulo Monteiro escreveu na segunda-feira na sua página de Facebookapós ter ganho o Prix Sheriff D’Or. O prémio foi atribuído pela livraria Espirit BD, de Clermont-Ferrand.
Este é o primeiro livro de banda desenhada do autor e escusado será dizer que ficou radiante, porque isso é mais do que perceptível pelo que escreveu.
Lançado em 2011 em Portugal pela editora Polvo, O Amor Infinito que te Tenho e Outras Histórias fala do amor sob diferentes perspectivas, em 10 histórias criadas entre 2005 e 2010. Logo no ano de lançamento, o livro arrecadou os prémios de Melhor Álbum Português no Festival de Banda Desenhada Amadora e de Melhor Publicação Independente da nona edição dos Troféus Central Comics.
Editado em França em Junho, pela editora 6 Pieds Sous Terre, O Amor Infinito que te Tenho e Outras Histórias teve críticas positivas em publicações como o Le Monde e a revista Les Inrocks.
Em declarações à Lusa, o autor de 46 anos, natural de Vila Nova de Gaia e que vive em Beja, explica que já tinha ficado contente com a nomeação pela imensidão que é o mercado francês de BD e acrescenta que estes prémios são seguidos “com muito interesse na imprensa francesa e pelos leitores”, sendo um trampolim para chegar a mais pessoas. Paulo Monteiro, que é também director da Bedeteca de Beja e do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, confessou ainda numa entrevista à rádio regional Voz da Planície que ficou “incrédulo” por o prémio ter sido atribuído num país onde são editadas por ano mais de 7000 obras de BD.
De acordo com o autor, o livro tem lançamento agendado noutros países e a internacionalização só foi possível através de contactos feitos pelo autor, pela editora e pelo “passa a palavra” após a edição francesa.
Paulo Monteiro deve acabar no próximo mês o seu segundo livro, que será editado em 2016. O tema também vai abordar assuntos do coração, uma vez que conta a história de um “um homem que perde o pouco que tem face a uma paixão não recíproca”, explicou o autor ao PÚBLICO recentemente.
Para já o autor foi convidado a estar presente no maior festival do mundo nesta área - Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême –, entre 30 de Janeiro e 2 de Fevereiro, onde vai assinar livros.
O Amor Infinito que te Tenho e Outras Histórias está ainda nomeado para mais dois prémios franceses, o Prix Bulles de Cristal 2014, criado pela livraria Ange Bleu, e o Prix Lycéen de la Bd Midi-Pyrénées 2014, indicado pelos estudantes das escolas da região dos Pirinéus. Os vencedores em ambos os prémios vão ser conhecidos em Março. (Jornal Público)