sexta-feira, 6 de junho de 2014

Isabel Abreu lê Madame Bovary, de Gustav Flaubert.

(ver video em: http://www.publico.pt/multimedia/video/isabel-abreu-20140530-120318)

Isabel Abreu, actriz, descobriu que, aos 36 anos, é melhor leitora de Madame Bovary do que se tivesse lido o romance de Gustave Flaubert na altura em que lhe diziam que era a certa. Entre 7 e 15 de Junho, no teatro São Luiz, em Lisboa, Isabel Abreu é uma das intérpretes da encenação que Tiago Rodrigues criou a partir do romance e do julgamento por obscenidade que se seguiu à sua publicação, em 1857. (Jornal Público)

domingo, 1 de junho de 2014

Os livros do esquecimento.


Entre tudo o que se editou em Portugal nos últimos anos, são muitos os títulos que se perderam na memória, em fundos de catálogo, nos becos sem saída da distribuição. Mais do que as novidades, as grandes obras esquecidas são os achados de cada Feira do Livro. Estas 24 correspondem a uma escolha tão subjectiva quanto possível - acrescente, se puder.
Não se fale de um livro e ele morre. É uma frase repetida por editores sobre um silêncio que condena, que não deixa vestígios para a construção de uma memória e para a sua capacidade de ser alimentada. Sem esse discurso sobre, o leitor não pode fazer como Tamina, a personagem de Milan Kundera que vivia com uma missão muito pessoal: trabalhar o cérebro de modo a não esquecer o rosto do marido. Ela diz da memória pessoal e da dos homens enquanto colectivo.
Tamina serviu a Kundera para trabalhar, entre outros, o tema do esquecimento na Checoslováquia invadida pela União Soviética. Nos anos que se seguiram a esse Verão de 1968, a sociedade programou-se para esquecer o passado. Tamina, a mulher a quem mataram o marido, decidiu resistir à ordem para apagar da memória, anotando todos os vestígios de uma existência ameaçada de maneira a impedi-la de se esfumar — é um dos sete contos que compõem O Livro do Riso e do Esquecimento, ensaio literário sobre a memória de um autor muito valorizado nas décadas de 70 e 80 que passou a ser visto com alguma desconfiança pela crítica quando se tornou um best-seller. Os seus livros vendem em todo o mundo, traduzidos, reedita- dos, permitindo-lhe uma confortável vida de ex-exilado político em Paris.
Passados 45 anos desde que se estreou com Risíveis Amores, em 1969, Milan Kundera recupera prestígio e apontam-no como candidato a Nobel talvez num dos momentos menos criativos da sua vida literária. Está longe de ser um autor esquecido. Nas livrarias há sempre um exemplar de Kundera. Ele é, em simultâneo, best-seller e long-seller, um escritor sempre procurado cujas vendas disparam a cada novidade. A memória é dos que ficam, como ele. Mas arrisque-se outra lista — arrisque-se o exercício de procurar os que inexplicavelmente apareceram e desapareceram sem deixar rasto embora tivessem tudo para fazer parte da tal memória que Tamina fez por não perder porque era tudo o que tinha. Um nome, dez, 15, 50... autores e títulos que passaram ao lado da atenção de lei- tores, livreiros e muitas vezes da crítica. Foram apostas de editores que escolheram publicá-los seguindo um único critério, a qualidade, uma valorização subjectiva que não escapa ilesa às regras do mercado — foram apenas o que foram, e não volumes à espera de um dia melhor ou da simples destruição.
Tamina, a personagem-metáfora que luta contra o esquecimento no livro de Kundera, é aqui uma espé- cie de guia para recuperar livros que se perderam na memória recente mas ainda têm uma presença física, ainda que no limiar da invisibilida- de. Mais do que as novidades, esses “livros perdidos”, os condenados pela falta de um discurso que produza memória colectiva, protagonizam cada edição da Feira do Livro — e a de Lisboa começou ontem. São eles os grandes achados e só estão vivos porque alguém os leu e não os esqueceu.
A possibilidade de uma lista
E pode ser por causa de uma frase. Um papel verde-alface a marcar a página fechada: “Em italiano exis- tem duas palavras sono e sonho, enquanto o napolitano tem uma só, suonno.” Original de 2001, Montedidio foi editado pela primeira vez em Portugal pela Ambar, saiu de circulação e voltou reeditado pela Bertrand em 2012. É considerado um dos grande livros contemporâneos em Itália. Escrito por Erri di Lucca (Nápoles, 1950), poeta, tradutor, revolucionário, operário, autor múltiplo, é o relato do quotidiano de um rapaz de 13 anos, na- politano como o escritor, a quem o mestre Errico ensina como quem ensina um ofício que cada dia é curto, como “uma dentada” — esse quotidiano em que o rapaz aprende a palavra ammor, com consoante dobrada, e a querer fazer voar um pedaço de madeira. A escrita é depurada, os capítulos breves, cada palavra medida porque “neste bair- ro de vielas chamado Montedidio se se quiser cuspir para o chão não se encontra um espaço livre entre um pé e o outro”. O aplauso em Itália ditou-lhe traduções, mas editar é quase sempre uma aposta em que ganhar e perder são hipóteses iguais à partida.
Numa geografia próxima está A Ilha dos Demónios, da catalã Carmen Laforet (1921-2004). A Cavalo de Ferro editou-o em 2009, era o livro que se seguia ao romance que a tinha apresentado como uma das grandes escritoras espanholas do século XX: Nada, com o qual venceu o prémio Nadal, em 1994. Em A Ilha dos Demónios, publicado oito anos depois do sucesso inicial, Laforet recupera o espírito da jovem protagonista de Nada, que a crítica chegou a comparar a Holden Caulfield, o rapaz de À Espera no Centeio, de J.D. Salinger. 
Desta vez, a acção decorre em 1938, ano de mudança na vida de Marta Camino, na passagem da adolescência para a idade adulta. É Las Palmas, nas Canárias, em ambiente de Guerra Civil, numa família entre o exílio e o trauma. O tempo entre Nada e este A Ilha dos Demónios foi precioso para confirmar o talento de Laforet. A insegurança que sentiu entre um livro e o outro passou a fazer parte da sua biografia e a acrescentar-lhe interesse.
Os títulos sucedem-se, o ritmo é sôfrego, tanto tem sido o esquecimento. São dezenas de livros perdidos mas “imperdíveis”. Mede-se o exagero do qualificativo enquanto se acrescentam títulos à lista à custa da supressão de outros. Pede-se ajuda a editores, críticos, tradutores, leitores. Bibliófilos. Mas são os editores que melhor sabem da relação entre o que se publica e o que se vende, do que sai sem quase ser visto. Enviam listas mais ou menos extensas. Não se repetem e recomendam-se uns aos outros. Nomeiam ficção e poesia entre os livros mais esquecidos a encontrar no Parque Eduardo VII. Por exemplo: em 2005, passou discreto um dos grandes poemas épicos numa tradução a reter, de José Lino Grunewald. Falamos de Os Cantos, de Ezra Pound, editado pela mesma Assírio & Alvim que tem colocado no mercado muita da poesia que se publicou nas últimas décadas em Portugal. Não há editor que a propósito da Feira do Livro não fale dos saldos da Assírio — como dos da Relógio D’Água, da Cavalo de Ferro ou da Cotovia... Os clássicos, lembram. Mas esses são os que sempre vão vendendo. Outro exemplo: O Bom Soldado Svejk, do checo Jaroslav Hasek (1883-1903), sátira que desmonta de forma corrosiva o poder de um Estado. O original foi publicado em 1929 e a Tinta-da- China traduziu-o na íntegra, pela primeira vez, em 2012. Em português do Brasil, um clássico menos conhecido mas a merecer lugar de honra entre os grandes romances a não esquecer: A Menina Morta, de Cornélio Penna (1896-1958). Publicado em 2006 na colecção de Literatura Brasileira coordenada por Abel Barros Baptista para a Cotovia, é um marco pela originalidade, pela elegância da escrita e pelo modo como se dedicou a um universo mais pessoal num tempo de agitação social.
Todas as geografias
A passagem para a senhora que se segue é intuitiva. Eudora Welty (1909-2001), uma das grandes prosadoras da América, de quem a Antígona publicou, em 2013, As Maçãs Douradas (1949), um prodigioso livro de contos que guarda o que de mais precioso e cru existe no imaginário do interior sul do Estados Uni- dos. Welty é com frequência nomeada como inspiração de muitos escritores que tentam captar-lhe a simplicidade aparente que vem de um talento raro de observadora do quotidiano e do seu olho clínico. O outro, a nu, é o seu tópico. É exímia em captar-lhe a gíria e o inconfessável, exercício de que resultam livros de grande riqueza linguística e densidade humana. O feito de verosimilhança, por mais desconcertante, acontece. Um pouco em contraste com a alucinante escrita do argentino Roberto Arlt e Os Sete Loucos. Não consta dos tops este homem nascido em Buenos Aires, em 1900, com a história de Erdosain, um cientista perdido nas suas convicções e imerso numa espiral de mal-entendidos que serviu ao autor argentino para ensaiar, num estilo surreal, uma nociva concepção de sociedade e para romper com “os bons modos da época” e do que tinha sido até então a sua própria escrita entre a autobiografia e a escola prussiana, a origem da sua família. “Aquilo a que chamamos loucura é a falta de hábito do pensamento dos outros”, lê-se, e é bom que haja caneta à mão para que a mente retenha este livro de 1929, editado em português em 2003, pela Cavalo de Ferro.
Sabe-se que a subversão é um dos caminhos para permanecer ou ser- se esquecido. O egípcio radicado em França Albert Cossery (1913-2008) não produziu muito mas nenhum dos seus oito livros merece se não um lugar de destaque em qualquer estante. São dele Os Homens Esquecidos de Deus e Mendigos e Altivos, ambos editados pela Antígona. Um modo de escrever em que o escárnio convive com grandes descrições do que pode ser a maior miséria humana, nunca incompatíveis com o riso. Coincide na estante com Os Javaneses, romance de Jean Malaquais (1908-1998), francês nascido polaco, vencedor do prémio Renaudot em 1939. Poderia ter como subtítulo os “homens também esquecidos por Deus” — no caso, os trabalhadores de uma mina na ilha de Java, na década de 30. Malaquais escreve sobre viver na exclusão, no limite de meios e de linguagem, criando códigos de sobrevivência — e assim expõe alguns dos seus ideais políticos, próximos do trotskismo, facto que não compromete em nada a qualidade literária do livro.
Está feita a ponte para o Leste. A Vida e o Sonho de Sukahanov revelou Olga Grushnin (Moscovo, 1971) em mais um exemplo, agora actual, de que ideologia e boa literatura são conjugáveis. Sukahanov é um homem de mais de 50 anos satisfeito com as suas conquistas pessoais até que o Kremlin muda de comando. Não é tanto a acção o que conta, mas o modo como a escritora consegue dar densidade ao que poderia ser uma existência banal de mais um ser humano comprometido com o seu passado. A Bizâncio publicou este romance em 2007. O que é feito dele?
A lista tenta ser abrangente nas suas limitações. Clássicos, contemporâneos, geografias diversas. A norte, o norueguês Jon Fosse (n. 1959), com É a Aless, novela de um autor conhecido sobretudo pela sua dramaturgia. Não chega a cem páginas, mas é como imergir na mente de alguém e acompanhar as suas hesitações, os seus impulsos, percebendo nessa cadência única uma melodia universal. A Cotovia publicou-o em 2008. O vizinho do lado é sueco. Chama-se Torgny Lindgren (n. 1938) e escreveu um romance sobre o compromisso de um jorna- lista com a realidade. A acção arranca em 1948, ano de um surto de tu- berculose numa zona inóspita da Suécia onde o correspondente de um pequeno jornal é acusado de inventar um périplo gastronómico muito pouco conveniente. O romance chama-se A Última Receita na tradução portuguesa, também de 2008, da Cavalo de Ferro.

Lembrar os imerecidamente esquecidos e ter de não falar da maioria é um exercício doloroso. Na ficção de Kundera, Tamina tinha um rosto para não apagar e ele era tudo. Não é o caso desta lista em aberto. Entre os grandes livros esquecidos das livrarias, dos leitores, dos jornais, há muitos em português. A escolha vai para Uma Aventura Secreta do Marquês de Bradomín, de Teresa Veiga, pseudónimo de uma autora nascida em Lisboa em 1945 que prefere não falar dos livros que escreve. Não há um rosto, apenas nomes de personagens contadas entre silêncios neste livro de contos — que talvez seja oportuno neste momento em que os leitores parecem estar a reconciliar- se com o género. (Jornal Público)

terça-feira, 27 de maio de 2014

Feira do Livro de Lisboa começa a 29 de maio no Parque Eduardo VII.


Em 2014, a Feira do Livro em Lisboa vai ser como é habitual no Parque Eduardo VII e começa em Maio. A informação foi esta terça-feira enviada em comunicado às redacções pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL).
O evento vai realizar-se de 29 de Maio a 15 de Junho e, como sempre, além da venda de livros irá ter uma programação para promover a leitura e o diálogo entre escritores e leitores.
Segundo o documento enviado pela APEL, este ano a feira volta a ter um horário alargado por forma a permitir aos visitantes mais tempo na “companhia dos livros”.
Assim, de segunda a quinta-feira, a Feira do Livro de Lisboa estará aberta desde as 12h30 até às 23h e à sexta-feira fica aberta até à meia-noite. Aos sábados e vésperas de feriado o evento funciona das 11h à meia-noite. Domingos e feriados começa também às 11h e termina às 23h.
No ano passado, a feira contou com 250 pavilhões e a APEL disse ao PÚBLICO que este ano espera ultrapassar esse número. As inscrições para a Feira do Livro de Lisboa começaram dia 24 de Fevereiro e estão abertas até dia 7 de Março. Já há 50 pavilhões reservados pelos editores (em apenas um dia de inscrições) e para a associação isso "faz prever [para este ano] uma forte adesão por parte dos editores e livreiros à Feira". 

A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros  já está a trabalhar com a Câmara Municipal do Porto e "estão a ser feitos todos os esforços" para devolver a Feira do Livro a esta cidade. O local ainda "está a ser equacionado", mas vai ser divulgado em breve aos associados da APEL. (Jornal Público)


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Livros são os que melhor aguentam a quebra do mercado de entretenimento.


A venda de livros em Portugal (excluíndo os manuais escolares) teve uma ligeira queda de 1% ao longo do ano passado, fechando 2013, segundo dados da analista GfK, com uma facturação de 147 milhões de euros. Feitas as contas também às descidas na música, filmes e videojogos, este foi o sector que menos se ressentiu.
Em tempo de crise, o valor do mercado português de entretenimento encolheu 12% em 2013. O ano anterior tinha sido pior, com uma retracção de 21%. A queda de 1% nos livros foi, de longe, a menor. Já o sector da música encolheu 13% (para perto de 17 milhões de euros) enquanto o dos filmes sofreu uma quebra de 15% (para cerca de 23 milhões). Os videojogos (o que inclui consolas, acessórios e jogos para várias plataformas, mas não as vendas online) acabaram o ano a valer menos 16%, mesmo com o lançamento da PlayStation 4, a mais recente consola doméstica da Sony, que domina o mercado português. As vendas totalizaram os 100 milhões de euros.
Os números mostram também que os livros conseguiram ganhar terreno nos gastos dos consumidores. O sector livreiro acabou o ano passado a representar uma fatia de 55% da facturação total daquelas quatro áreas de entretenimento. Em 2012, os livros já representavam mais de metade do mercado: tinham então uma parcela de 52% do total, uma subida face aos 47% de 2011. Este sector tem sido também marcado por um decréscimo do número de livros editados (foram 30 por dia em 2013, contra 57 em 2010) e das editoras (4000 no ano passado, menos 1200 do que em 2010). Os hiper e supermercados têm vindo a ganhar importância nas vendas de livros, embora paulatinamente. No ano passado, foi nestas superfícies que se fizeram  31% vendas. Há quatro anos, este valor era de 27%.
Já a dimensão do sector dos videojogos no mercado total tem estado em trajectória descendente. Representaram em 2013 um terço do mercado, abaixo dos 36% de 2012 e dos 41% de 2011. Por outro lado, ao longo destes anos, a parcela da música e a do vídeo no total do mercado mantiveram-se inalteradas, nos  5% e 7% do valor total das quatro áreas, apesar das quebras de facturação significativas.
Para este ano, a GfK estima um aumento das vendas de consolas, sobretudo da chamada oitava geração: a Wii U (lançada pela Nintendo em 2012 e cujas vendas estão muito aquém do esperado pela empresa), a PlayStation 4 (posta à venda no final do ano passado) e a Xbox One, da Microsoft, e que só este ano chegará a Portugal. As previsões da GfK apontam para um crescimento de 22% a 25% nas vendas deste tipo de aparelhos, mas antevêem um ligeiro decréscimo na venda de jogos.
Muita televisão, mais Internet
A televisão continua a ser o meio mais frequente de entretenimento em Portugal, mas a Internet tem o crescimento mais rápido. A indicação surge nos resultados de um inquérito da GfK a uma amostra de 1258 pessoas, representativa da população. Os números mostram que 98% dos inquiridos afirmaram ter visto televisão ao longo dos 12 meses anteriores (um ligeira subida de dois pontos percentuais face a um inquérito de 2008) e que 49% navegaram na Internet - mais 18 pontos percentuais.
O mesmo estudo aponta que um terço das pessoas lê livros (ligeiramente menos do que no questionário anterior) e 6% fazem-no em formato digital. Cinco horas é o tempo médio de leitura semanal.

No que diz respeito aos aparelhos, os smartphones e os tablets, protagonizaram, sem surpresas, as maiores subidas: uma em cada cinco pessoas afirmaram ter um smartphone e 14% disseram ter um tablet. (Jornal Público – 23.05.2014)

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O 25 de Abril e a Gata Borralheira no sapato que Portugal calça em Cannes.


A Caça Revoluções de Margarida Rêgo está na Quinzena dos Realizadores e Boa-Noite Cinderela de Carlos Conceição na Semana da Crítica
Filmes de época? Filmes para esta época. O que fazer com a memória e com o idealismo da revolução de 1974, pergunta Margarida Rêgo em A Caça Revoluções? Uma versão “carnal e materialista” da Gata Borralheira – materialismo de estirpe marxista – propõe Carlos Conceição com Boa-Noite Cinderela, uma Cinderela que faz pela vida no século XIX, época que para o realizador tem semelhanças com a actualidade portuguesa que não são mera coincidência.
São duas curtas-metragens portuguesas em Cannes 2014, 67ª edição, de 14 a 25 de Maio. A primeira está na Quinzena dos Realizadores, a segunda na Semana da Crítica. São duas secções paralelas de Cannes, não são abrangidas pelo Palmarés oficial, embora os filmes que ali passem possam ser atingidos por mísseis lançados por júris e prémios alternativos – a Semana da Crítica, aliás, a mais antiga das secções paralelas do festival, tem a sua própria competição, com um júri que no ano passado foi presidido pelo realizador português Miguel Gomes e que este ano é liderado pela britânica Andrea Arnold, cineasta muito da casa, onde já venceu o Prémio do Júri por duas vezes, em 2006 (Red Road) e em 2009 (Fish Tank).
Margarida Rêgo olha Portugal a partir do Royal College of Art de Londres onde estudou Design de Comunicação. A Caça Revoluções é um trabalho de mestrado. Com uma memória pessoal da revolução de Abril que foi construída, pela família e amigos, viveu as manifestações em Setembro de 2012 e pergunta-se o que fazer à nostalgia que sente, por um país e revolução idealizados, na sua geração - os que agora progridem na casa dos 20. (Quando se vir, no próximo DocLisboa, Metáfora ou a Tristeza Virada do Avesso, de Catarina Vasconcelos, outro trabalho de mestrado do Royal College of Art, é legítimo perguntar se avistamos gente à procura um país).
A nostalgia, e como ultrapassá-la. E como renovar as palavras, as músicas e o protesto. Sobre uma fotografia da época revolucionária e com sons em fundo,A Caça Revoluções “anima” marcas do tempo. Margarida Rêgo experimenta desenhos sobre imagens, inventando um diálogo entre uma memória rica mas cansada, que desistiu, e uma memória ávida de ser alimentada mas com dificuldade de se autonomizar da idealização do passado. Quando o filme foi exibido no IndieLisboa, dizia-nos a realizadora: “A revolução não terminou no 25 de Abril, temos de pensar que ela continua e que está sempre em mudança. Vamos estar sempre a fazer a revolução.” O filme propõe esse desassossego.
A Caça Revoluções é um encontro com o cinema, que para Margarida Rêgo, que descobriu que um filme pode engolir tudo, pode engolir o tempo, é neste momento campo de experiência artesanal. Sem compromisso fixo. A relação de Carlos Conceição, 35 anos, com os filmes é “clássica”. É um licenciado em cinema. Boa-Noite Cinderela é filme de época: século XIX, e o trio D. Luís, que como rei de Portugal seria O Bom, o seu escudeiro e uma criada que perde o sapato ao descer a escadaria do baile real.
D. Luís (João Cajuda), nestes tempos antes do casamento por procuração com D. Maria Pia de Sabóia, põe-se à procura do par. Sem ele sente que nada é. Mas quererá verdadeiramente encontrar um par ou satisfazer a sua pulsão de calçar saltos altos? E o romantismo da criada (Joana de Verona) é um disfarce de Gata Borralheira para um tenaz objectivo de mudar de vida, aí residindo a rivalidade com o escudeiro (David Cabecinha)? Nunca nada se quer estabilizado no território de cada personagem, sexualidade e condição social. Há desejo e há luta de classes. Há a nossa memória de um conto de fadas que é acrescentada, violentada – forma de ser fiel, no fim de contas, à “zona de pulsões e de perversão latente” no conto de fadas, como diz Carlos Conceição. E há a memória do realizador do imaginário marxista-leninista do país em que nasceu, Angola.
Há Marx, portanto, que também é um conto de fadas distante. E existe, surpreendente numa curta, a panache do guarda-roupa e dos movimentos de câmara. O que, tal como o filme faz a Marx e à Gata Borralheira, também implica memória e crença no classicismo (“Gosto de David Lean, gosto de Powell/Preessburger”). E consciência da impossibilidade, porque os meios de produção só permitem que o filme seja austero.

Carlos Conceição surpreendeu-se que tenha sido este filme a levá-lo a Cannes. À partida, nada nele, discorre, exibe os sinais de uma contemporaneidade que os festivais tornam tendência: o documentário ou a ficção do real, a confissão, o discurso na primeira pessoa... Mas Boa-Noite Cinderela está sempre a dizer que não é do século XIX que se trata. É a crise, é o desespero do tecido social, é “o desconhecimento total” dos privilegiados sobre os outros, é hoje. E a personagem Joana de Verona, se tivesse um filme que se colocasse inteiramente na sua perspectiva, podia ser a Jeanne Moreau/Celestine deDiário de uma Criada de Quarto, de Luis Buñuel/Octave Mirbeau, que olha assim o mundo de garras afiadas desejando o apocalipse: “Si infâmes que soient les canailles, ils ne le sont jamais autant que les honnêtes gens.” (Jornal Público – 14.05.2014)

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Uma Outra Voz.


O romance Uma Outra Voz, de Gabriela Ruivo Trindade, uma portuguesa residente em Londres, ganhou esta terça-feira o Prémio Leya, no valor de cem mil euros. Tal como acontecera com o vencedor da edição de 2011, João Ricardo Pedro, a autora, uma psicóloga de 43 anos, está neste momento desempregada.
Manuel Alegre, presidente do júri, depois de aberto o envelope onde está escrito o nome do concorrente, comunicou por telefone a Gabriela Trindade a notícia de que era vencedora do Prémio Leya. Nessa altura ficou a saber que ela nunca tinha escrito um romance e também nunca tinha publicado. “É um romance onde se cruzam histórias individuais com a história colectiva. É um romance onde se cruzam várias personagens e é também a história de uma cidade do Alentejo, Estremoz”, disse ao PÚBLICO o escritor.


sábado, 3 de maio de 2014

Secretaria de Estado da Cultura autoriza mudança de actividade do cinema Londres.


O Governo autorizou a mudança de actividade do antigo cinema Londres, em Lisboa, que está arrendado a chineses para ser transformado numa loja, disse à Lusa fonte do movimento de comerciantes do bairro onde se localiza o espaço.
Segundo a mesma fonte, que cita uma decisão oficial da secretaria de Estado da Cultura (SEC), foi dada autorização de afectação do recinto para "actividade de natureza distinta", ou seja o antigo cinema Londres poderá acolher outra actividade sem ser a exibição cinematográfica.
No entanto, alerta a SEC na decisão, "a desafectação assim decidida não implica necessariamente a subsequente alteração do uso do espaço, sendo que essa avaliação compete, nos termos legais, à Câmara Municipal de Lisboa".
O cinema Londres está encerrado desde 2013, depois da exibidora Socorama ter declarado falência, e os proprietários assinaram contrato com comerciantes chineses para a abertura de uma loja.
As obras de transformação foram iniciadas sem autorização (obrigatória por lei) de desafectação por parte do Governo e acabaram por ser suspensas em Fevereiro, aguardando resposta da tutela.
O caso suscitou polémica no final do ano passado, levando o movimento MaisLisboa a lançar uma petição pública – Salvem o Cinema Londres –, que chegou ao parlamento, propondo um modelo cooperativo, sem fins lucrativos, para gerir o espaço.
Em paralelo a esta petição, o movimento dos comerciantes da avenida Guerra Junqueiro, praça de Londres e avenida de Roma avançaram com uma outra petição – que foi aprovada por unanimidade pela assembleia municipal - propondo também um projecto cultural e comercial.
Na justificação para a desafectação do espaço, a tutela afirma que "até à data não foi encontrada qualquer solução que permita manter o recinto afecto à actividade cinematográfica nem houve a materialização de qualquer evidência ou sinal de investimento efectivo e demonstrado com base no modelo proposto".
A lei estipula que "a demolição de recintos de cinema ou a sua afectação a actividade de natureza diferente depende de autorização do membro do Governo responsável pela área da cultura".
Considerado uma das últimas salas em Lisboa a existir fora de centros comerciais, o cinema Londres foi inaugurado a 30 de Janeiro de 1972, com o filme Morrer de amar, de André Cayatte, tendo uma área com mais de mil metros quadrados, que incluiu uma vertente comercial, com restauração.

A agência Lusa tentou obter, há várias semanas, mas sem êxito, esclarecimentos junto da SEC sobre a situação dos antigos cinemas Londres, Quarteto e King, em Lisboa, todos encerrados. (Jornal Público – 03.05.2014)