sexta-feira, 11 de julho de 2014
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Artistas ocuparam Museu do Chiado pelo direito à cultura.
"Cultura não é luxo", "Os mirós são nossos", "A cultura é de todos, a arte é para todos" - estas foram algumas das palavras de ordem nos cartazes usados pelos cerca de 50 artistas e agentes culturais que ocuparam o Museu de Arte Contemporânea, em Lisboa, na última noite.
A
ocupação "artivista" foi incentivada por Rui Mourão que ontem
inaugurou no museu a instalação multimédia Os Nossos Sonhos Não Cabem Nas
Vossas Urnas e, durante a sessão, apelou aos convidados a participar numa
ocupação pacifista da instituição.
O
artista desafiou as pessoas para um ato que era ao mesmo tempo artístico e
político. "Estamos aqui em ocupação 'artivista' do Museu Nacional de Arte
Contemporânea. Estamos a ocupar o museu em defesa do museu e não contra o
museu", disse o artista, na abertura da exposição, que procura demonstrar
que o protesto político também é arte. A ação de protesto foi feita "em
defesa do direito à Cultura", explicou à Lusa, Rui Mourão.
Alumas
pessoas já vinham preparadas e munidas de sacos-cama, como num acampamento. Os
ativistas realizaram uma assembleia que votou pela continuação da sua presença
nas instalações do museu para além do horário de funcionamento. A manifestação
terminou, mas algumas pessoas permanceram no museu durante a noite.
A
organização divulgou este vídeo da ação:
(Diário de Notícias)
quinta-feira, 3 de julho de 2014
A cultura é cara, a incultura é mais cara ainda.
"A
arte deve ser livre porque o ato de criação é em si um ato de liberdade",
escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen no semanário Expresso, a 12 de julho
de 1975, num artigo a que chamou "A cultura é cara, a incultura é mais
cara ainda". Este impulso criativo sempre se mostrou como uma
inevitabilidade na vida da poetisa, que se iniciou na escrita aos 12 anos. Foi
ainda jovem, aos 24, que publicou por iniciativa própria o primeiro livro,
intitulado "Poesia".
De
origem dinamarquesa, desembarcou no Porto e ali permaneceu, na Quinta do Campo
Alegre (hoje o Jardim Botânico do Porto), onde viveu com o avô e acabou por
crescer. Uma casa cujo jardim foi cortado pela Ponte da Arrábida e cujos
plátanos foram arrancados, disse Sophia numa entrevista ao "Jornal de
Letras" a 5 de fevereiro de 1985.
Talvez
tenha sido a ausência desse jardim, imortalizado no poema "A Casa do
Mar", que tenha cravado a temática 'natureza' no universo poético da
autora: "A casa que eu amei foi destroçada/ A morte caminha no sossego do
jardim/ A vida sussurrada na folhagem/ Subitamente quebrou-se não é
minha".
Mar,
casa, tempo, amor. São ainda outros dos temas do universo da mítica escritora
portuguesa, que não gostava que lhe perguntassem porque é que escrevia. À
poesia, encontrou-a antes de saber que existia a literatura, disse um dia.
Sempre lhe foi natural.
Sophia
foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões, o mais importante
galardão literário da língua portuguesa. Quando, em 1999, numa entrevista à TSF
o jornalista lhe perguntou "porque não o Nobel?", Sophia respondeu
"que o nome do Nobel não vale o de Camões".
A
transparência da palavra, o ritmo melódico dos versos, a lucidez e pureza da
escrita da poetisa inserem-na no panorama da literatura nacional como uma das
autoras mais reconhecidas e amadas pelo público.
A
poesia está na rua
Detentora
de vários galardões literários e condecorada três vezes pela República
Portuguesa, a poesia de Sophia situa-se entre uma sensibilidade estética
espiritual e uma poesia social, de denúncia a qualquer tipo de ataque à
dignidade humana (cujo estilo se acentuou durante o período que antecedeu o 25
de abril de 1974). "Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial
inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a
substância do tempo", escreveu sobre esse dia de abril.
Ainda
agora, a intervenção de Sophia subsiste. Exemplo disso é a presença da frase
por ela escrita "a poesia está na rua", outrora presente no
emblemático quadro da pintora Vieira da Silva e imortalizada hoje pelas várias
paredes dos bairros lisboetas.
Também
o mar - há muito desbravado - foi das temáticas mais presentes na sua obra
poética, cuja "escrita é de nau e singradura". Tanto é que o
Oceanário de Lisboa expõe os seus poemas em zonas de descanso da exposição,
permitindo aos visitantes absorverem esse mar enaltecido por "Sophia como
quem procura a ilha sempre mais ao sul", escreveu Manuel Alegre num poema
de homenagem.
Foi
no dia 2 de julho de 2004 que morreu na sua residência, em Lisboa, aos 84 anos.
Sophia de Mello Breyner Andresen deixa editada uma vasta obra de poesia,
antologia, prosa, ensaios e teatro. Casada com o jornalista, político e
advogado Francisco Sousa Tavares e mãe de cinco filhos, entre eles o jornalista
e escritor Miguel Sousa Tavares, Sophia de Mello Breyner permanece como uma
poetisa intemporal, humana, uma poetisa do e para o povo.
Ainda
o artigo "A cultura é cara, a incultura é mais cara ainda", que
Sophia escreveu para o Expresso: "Quando a Arte não é livre o povo também
não é livre. Onde o artista começa a não ser livre o povo começa a ser
colonizado e a justiça torna-se parcial, unidimensional e abstrata. Se o ataque
à liberdade cultural me preocupa tanto é porque a falta de liberdade cultural é
um sintoma e significa sempre opressão para um povo inteiro".
Ler mais:
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Morreu Eli Wallach, o vilão de westerns formado no Actors Studio.
O
teatro era a verdadeira “casa” de um actor mais recordado pelos seus papéis de
vilão e por uma cena de dança com Marilyn Monroe.
"Parece
que tenho uma vida dupla", disse em tempos Eli Wallach. "No teatro,
sou o homenzinho, ou o homem irritado, ou o homem incompreendido. No cinema,
passo a vida a ser escolhido para os papéis de mau."
Não
é por isso surpresa que Wallach, falecido esta terça-feira aos 98 anos de
idade, seja mais recordado pelos vilões que interpretou em dois dos filmes mais
icónicos da década de 1960: Os Sete Magníficos (1960), versão westerndos Sete
Samurais de Akira Kurosawa dirigida por John Sturges, e O Bom, o Mau
e o Vilão (1966), terceiro filme da trilogia de westerns-spaghetti de
Sergio Leone. Mas é um destino, no mínimo, irónico para aquele que era um dos
últimos nomes ainda vivos da “primeira fornada” formada na lendária escola de
representação nova-iorquina do Actors Studio, que revolucionou o cinema e o
teatro americanos no período do pós-II Guerra Mundial.
Era
no teatro que o actor nova-iorquino, nascido no bairro de Brooklyn em 1915 e
filho único de emigrantes judeus polacos, se sentia mais à vontade. Embora tenha
continuado a filmar quase até ao fim da sua vida - os seus últimos trabalhos de
nota foram O Escritor Fantasma de Roman Polanski eWall Street: O
Dinheiro Nunca Dorme de Oliver Stone, em 2010 - foi no teatro, do qual se
retirou de vez em 1997, que construiu a sua carreira. Trabalhou repetidamente
com a sua mulher, a também actriz Anne Jackson, que conheceu nos palcos em 1946
e com quem casou dois anos depois. Entre os muitos autores que Wallach
representou contam-se Tennessee Williams (vencendo o Tony por uma produção de A
Rosa Tatuada em 1951), Jean Anouilh, Eugène Ionesco ou Tom Stoppard.
O
“camaleão por excelência”
Wallach
foi um dos primeiros alunos da escola de representação do Actors Studio,
fundado em 1947 e gerido a partir de 1951 por Lee Strasberg. Os seus colegas de
curso chamavam-se Marlon Brando, Montgomery Clift e Sidney Lumet. E estreou-se
no cinema precisamente sob o signo do teatro: foi em Baby Doll(1956),
adaptação de Tennessee Williams sob o comando de Elia Kazan, ele próprio um dos
fundadores da escola.
Entre
as quase duas centenas de filmes e produções televisivas em que entrou, muitos
lembrar-se-ão particularmente de Os Inadaptados (1961), realizado por
John Huston e escrito pelo dramaturgo Arthur Miller, com Clark Gable, Marilyn
Monroe e Montgomery Clift nos papéis principais. A cena em que Wallach dança
com Marilyn, de quem era amigo de longa data e que teria aqui a sua última interpretação
em vida, ficou célebre. Wallach participou também em inúmeras séries
televisivas – como Cidade Nua, Batman, onde interpretou (lá está...)
o vilão Mr. Freeze, ou mais recentemente Nurse Jackie- e no último filme
da trilogia O Padrinho de Francis Ford Coppola (1990).
Eli
Wallach nunca foi nomeado para um Óscar, mas a Academia das Artes e Ciências
Cinematográficas de Hollywood reconheceu a sua carreira no final de 2010,
entregando-lhe o Óscar honorário pela “desenvoltura inata com que interpretou
uma variedade de personagens, ao mesmo tempo que deixou uma marca inimitável em
cada papel”. Chamou-lhe então “um camaleão por excelência”. O “camaleão por
excelência” era algo que vinha da sua extensa experiência teatral - e Wallach
nunca escondeu que, para um actor de composição como ele, "o cinema era
apenas um meio para chegar a um fim", como disse numa entrevista de 1973
citada pelo New York Times. "Vou montar a cavalo para Espanha durante
dez semanas e regresso com uma almofada financeira suficiente para poder montar
uma peça."
Mas
a verdade é que, se Wallach e Anne Jackson se tornaram no “primeiro casal” do
teatro americano nas décadas de 1960 e 1970, foram mesmo os papéis de vilão que
fizeram o nome do actor no grande écrã. Faltou-lhe “aquele” papel que o
atirasse para uma carreira de primeira grandeza – mas a verdade é que o actor
também nunca o terá querido. Como o comprova um daqueles fait-divers que
muitas vezes definem uma personalidade: primeira escolha do realizador Fred
Zinnemann para um papel secundário em Até à Eternidade (1953), Eli
Wallach optou antes por aceitar o convite para uma nova peça de Tennessee
Williams encenada por Elia Kazan, Camino Real. Em seu lugar ficou Frank
Sinatra, que ganhou o Óscar de melhor actor secundário. (Jornal Público – 25.06.2014)
sábado, 21 de junho de 2014
A energia da inquietação.
Festa,
alegria, violência, futuro, comprometimento, fragilidade. São as palavras e os
significados que envolvem Artistas comprometidos? Talvez, a colectiva
apresentada na Gulbenkian no âmbito do programa Próximo Futuro
Fundação
Gulbenkian. Está cansado – “escapou” há minutos do calor da rua – mas
visivelmente satisfeito e saúda os artistas que encontra pelo caminho,
interrompendo-se aqui e ali para olhar a montagem final das obras. “Artistas
comprometidos? Talvez”, a exposição que comissaria, no âmbito do programaPróximo
Futuro, está quase pronta. A meio da sala, o artista moçambicano Celestino
Mudaulane termina a sua pintura mural e ao fundo a instalação de Wum Botha
parece concluída. Nas paredes, já se exibem as fotografias do franco-argelino
Bruno Boudjelal, os estranhos e coloridos “retratos” do sul-africano Athi-Patra
Ruga e a pintura do brasileiro Luiz Zerbini. No chão, algumas obras esperam a
sua vez. Como já se tornou, presume-se, evidente, os artistas participantes
nesta colectiva (ao todo são 21) não se subsumem a uma geografia. Há-os de
diferentes continentes e países, o que denota uma coerência com os fins do
programa Próximo Futuro e, neste, com a actividade de curadoria de
António Pinto Ribeiro. Mas o que dizer do título? Que sentido tem a palavra
“comprometidos”?
“Há
aqui dois tipos de comprometimento”, diz o curador. “Um comprometimento com o
legado artístico, com a arte, que considero profundo. E uma atitude que no meio
das maiores vicissitudes, das maiores catástrofes, encontra espaço para a
expressão de uma certa alegria, de uma ideia de festividade. Não se trata de
uma regra, mas é substancial. É uma energia que os artistas canalizam para a
expressão artística, para a criação das suas obras”. Alguns trabalhos tornam
presente esse energia, Veja-se o tromp-l’oeilque espreita da pintura de
Luiz Zerbini, a indeterminação colorida dos seres de Athi-Patra Ruga, as luzes
e o movimento da instalação de Wum Botha. A cor e a diversidade de linguagens
são aspectos que ressaltam e envolvem o visitante. E a par de pinturas, de
esculturas e instalações, encontram-se filmes, pinturas murais, referências a
cidades ou a lugares específicos (a costa do Norte de África, o Mediterrâneo,
Maputo, as ruas de Joanesburgo), inclusive a outras artes (a BD). Como se
articula toda esta diversidade, e o comprometimento que a atravessa, com a
possibilidade de uma intervenção? “Nas conversas com os artistas, houve sempre
um debate em torno do papel interventivo, quer da obra, quer do artista como
cidadão. Que implicações surgem na produção contemporânea e na relação dessa
produção com os cidadãos? As obras e actividades dos artistas desta exposição
não são militantes ou panfletárias, mas partem de um programa individual,
pessoal”.
Fragilizar
a mediação
Algumas
estratégias que ilustram a complexidade, bem como a singularidade, desses
programas podem ser: evocar ou documentar um período negro da história de um
país (é o que fazem o sul-africano Conrad Botes ou a guatemalteca Sandra
Monterroso), confrontar a violência de uma sociedade (nas pinturas de Celestino
Mudaulane, na proposta da artista brasileira Berna Reale) ou explorar
narrativas da história política (Bouchra Khalili). Na maioria destes trabalhos,
o que se evidencia não será um gesto de denúncia, menos ainda de activismo, mas
uma inquietação provocada pelas condições sociais e políticas do real;
inquietação que só se mostra, só emerge se transfigurada pela arte. Repare-se
nas imagens de Bruno Boudjelal. Ao longe, parecem pinturas de paisagens e são
paisagens o que vemos representado. Um olhar mais aproximado, permite descobrir
outra coisa: são fotografias, tomadas, ofuscadas pela luz, da costa argelina e
da costa da Europa do Sul que o artista fez durante uma série de viagens. A
alusão às travessias do Mediterrâneo por jovens africanos que tentam chegar à
Europa vai-se revelando. Escreve o artista no catálogo: “Virando as costas a
África, diante das margens europeias de Espanha ou Itália, regressei aos locais
onde embarcam estes migrantes clandestinos. Estas paisagens brancas fixam numa
mesma fotografia o encandeamento da luz, o desaparecimento da paisagem e as
construções da memória.”
Apesar
da articulação entre temas próximos ou comuns, refira-se que grande parte dos
artistas não se conhecia pessoalmente. “Não houve colaboração entre eles, mas
existiu um processo de debate interno”, nota Pinto Ribeiro. “Houve conversas,
leram-se textos, houve reflexão. Verificou-se um processo de partilha, com
propostas e contra-propostas, trocas de imagens. E mostrei-lhes a história da
exposição anterior, para terem uma perspectiva com que se pudessem relacionar”.
O curador, embora participante, assumiu a fragilização da sua função, atitude
que, no seu entender, modera a autoridade excessiva do mediador. Podemos
intuir, na opção, uma crítica ao mundo da curadoria? “É hoje uma evidência o
excesso de mediação entre os artistas, o público e as instituições. E isso tem
uma razão de fundo que é grande diversidade e a ausência de cânones da arte
contemporânea. Cabe muito do poder de selecção aos curadores. Mas o problema
não são os curadores, e sim o excesso da sua influência e autoridade, que vai
personificando um star-system”. A este problema, acrescem outros obstáculos que
desvirtuam a produção artística: “Há muitas situações de promiscuidade entre
curadores, responsáveis por colecções e críticos. E isso não é nada saudável
para os artistas e as programações”.
Comprometimento
com o futuro
Dos
participantes em Artistas comprometidos? Talvez só se contam dois nomes
portugueses: Pedro Barateiro e João Ferro Martins. Que conclusões se podem
tirar desta parca representação? Que a inquietação que anima esta colectiva não
é partilhada pela actual arte portuguesa? António Pinto Ribeiro admite que sim.
“A responsabilidade não é, contudo, dos artistas. Eles estão inseridos num
processo histórico onde o mercado e as galerias se lhes impõem, não permitindo
outro tipo de orientações. Também não encontro essa inquietação na arte que se
torna panfletária ou naïve. Há uma falta de comprometimento radical. O Pedro
Barateiro e o João Ferro Marins, para mim, têm esse comprometimento com o
futuro, com o devir, mas por razões que terão a ver com os limites de produção,
tendem a fazer obras minimais, com escalas mais reduzidas”.
Uma
escala reduzida é algo que não se encontra emTeoria, peça de Eduardo T.
Basualdo, uma enorme rocha negra, suspensa sobre o foyer da Fundação.
A sua localização inusitada (parece rasar as cabeças dos visitantes) e a sua
queda latente (um fio segura-a ao tecto) interpelam quem passa. Primeiro, o
receio face à possibilidade de uma catástrofe, logo a seguir o encontro com uma
presença surreal, fantasiosa, plena de ilusão. Não é ferro ou granito o que a
constitui, mas folha de alumínio. Entre a aparição violenta e a ironia,
testemunha-se uma transfiguração semelhante à realizada pelas imagens de Bruno
Boudjelal, com a diferença de que aqui é a relação entre os homens e os
objectos, e menos entre os homens e os lugares, aquilo que o artista vem
interrogar.
Regresse-se
à sala principal. Acolhe filmes da autoria de Bouchra Khalili, de Miguel Jara,
de Pedro Barateiro e Solon Ribeiro. Todos lidam com questões distintas, quanto
muito contíguas: a performance, a montagem, a memória do cinema, a animação, a
documentação. Em comum, sobressai um envolvimento com a cultura das imagens e
os arquivos que ela vai construindo. Esse é também um aspecto relevante do
projecto. Mas há outro que surge mais interpelador. A aparição da pintura
mural, nas propostas de Conrad Botes, vindo da BD experimental, de Celestino
Mudaulane (que tem apresentado desenhos e esculturas em edifícios devolutos de
Maputo) e do mexicano Demián Flores, que retoma um “movimento” que marcou a
história da arte do seu país. Pergunta “provocadora”: por que não levar estes
trabalhos para o exterior, para o interior da cidade? “Isso seria um gesto de
falsa rebeldia”, responde o curador. “Não faz sentido, neste contexto instalar
e pintar um muro numa rua da cidade. Seria uma situação de extrema hipocrisia.
Esta é uma exposição que decorre numa instituição. É mais transparente e
honesto propor essas obras no interior da exposição, com os limites possíveis,
do que ir para os subúrbios”. A presença ameaçadora de “Teoria”, do Eduardo T.
Basualdo, sobre as nossas cabeças, no foyer da Fundação, parece dar razão ao
curador. (Jornal Público)
domingo, 15 de junho de 2014
Encontramo-nos mais logo à porta do Cinema Ideal?
A
abertura do Ideal anuncia-se como “o primeiro acontecimento da rentrée”. O
cinema de bairro – o mais antigo de Lisboa – quer ser um espaço de encontro em
torno dos filmes, mas também do prazer de ir a uma sala de cinema.
Hão-de
vir os que gostam de ver cinema e de falar sobre o cinema que vêem, os que
perderam em Lisboa um lugar que seja um ponto de encontro, os que têm saudades
dos cinemas de bairro, e os que vivem no bairro e ainda se recordam do velho
Ideal; hão-de vir os que cresceram a ver os clássicos, e os que cresceram no
tempo em que a televisão já não mostra os clássicos, os que enchem os festivais
de cinema, os que gostam de filmes portugueses, os que não encontram nas salas
os filmes que querem ver; hão-de vir os que gostam dos westerns de
John Ford, e os que querem rever Hitchcock, os fãs do cinema do Irão ou de
Taiwan, e os que querem simplesmente descobrir filmes novos. Hão-de vir os que
gostam de salas de cinema.
O
encontro está marcado para o início da rentrée, no novo Cinema Ideal, Rua
do Loreto números 15 e 17, Lisboa, entre o Camões e a Bica. Hão-de vir muitos,
espera Pedro Borges, produtor e distribuidor da Midas Filmes, o impulsionador
desta reabertura da mais antiga sala de cinema da capital. E virão, acredita,
porque um espaço como este faz falta, e porque, ao contrário do que se pensa,
continua a haver público para ver cinema em sala.
Por
enquanto, a sala do Ideal, no edifício da Casa da Imprensa, que é senhoria do
espaço e investidora do projecto através da indemnização paga aos anteriores
inquilinos, ainda está em obras, com operários a entrar e a sair, carregando
tábuas e baldes.
O
projecto de recuperação (um investimento de 500 mil euros, incluindo ecrã,
projector, equipamento de som) é do arquitecto José Neves, Prémio Secil de
Arquitectura 2012, e a programação será da responsabilidade da Associação
Cultural Cinema Ideal – um grupo de perto de 30 pessoas, entre as quais
realizadores, actores e produtores, que terá a sua sede no primeiro andar do
mesmo edifício, espaço que se abrirá também ao público.
“Queremos
ser o primeiro acontecimento da rentrée”, diz Pedro Borges. Inicialmente
pensou-se abrir na Primavera, mas não foi possível, e a data prevista agora é
final de Agosto, início de Setembro. A programação de arranque, essa já está
quase toda definida. “Por uma série de coincidências, vamos ter muito cinema
português até ao final do ano: o filme do Joaquim Pinto, E Agora?
Lembra-me, a estreia do último do Paulo Rocha (1935-2012),Se Eu Fosse Ladrão,
Roubava, e a reposição dos dois primeiros, Verdes Anos(1963) e Mudar
de Vida (1966), Os Maias do João Botelho, que tem uma versão do
realizador com três horas que ele gostaria que nós estreássemos; o Pedro Costa
que está a acabar um filme, o João Canijo, a acabar um documentário, o João
Salaviza, enfim, uma série de realizadores de cujos trabalhos gostamos e que
vamos estrear."
Uma
sala, muitos filmes
Mas
esta sala com foyer, plateia e balcão, como os antigos cinemas de bairro,
quer ser “um multiplex”. Pedro Borges explica: “A ideia é trabalhar do meio-dia
às duas da manhã e combinar sempre pelo menos dois filmes em exibição para
públicos diferentes, alternando as sessões." A reposição de um clássico
pode alternar com a estreia de um filme de um novo realizador, por exemplo – “é
importante separar o cinema da ideia de novidade; como nas outras artes deve
ver-se o que foi feito agora como o que foi feito há 20 anos, ou há 70."
Ou
então podem combinar-se filmes que façam sentido juntos por algum motivo.
“Imagine-se que o Pedro Costa diz que quando estrear o filme dele gostaria de
ter determinado filme ao mesmo tempo. As sugestões podem vir dos realizadores
ou serem simplesmente coisas que nós achamos que fazem sentido." Pode
acontecer que venha o próprio realizador explicar porque acha aquele filme
importante, ou que venham pessoas contar outras histórias. “Com o filme do
Joaquim Pinto vamos ter isso – pessoas que vêm falar da sua relação com o
filme. Quando fizermos a estreia e as reposições do Paulo Rocha, gostava que
viessem pessoas que assistiram à estreia dos Verdes Anos em 1963 no
São Luiz para dizerem como vêem o filme hoje. São coisas que noutros países se
fazem regulamente e que cá se perderam muito."
Mas
o que se perdeu não foi, sobretudo, o público do cinema? Não, diz Pedro Borges.
O que se perdeu – por razões várias, nomeadamente a especulação imobiliária em
vários espaços que eram ocupados por cinemas – foi uma certa forma de ir ao
cinema. “A ida ao cinema nunca foi apenas para ver filmes. Cinemas de bairro
como este eram onde as pessoas se encontravam regulamente, onde conviviam.
Depois, noutras zonas da cidade, nas Avenidas Novas por exemplo, as pessoas iam
também para ver aqueles edifícios. Isso perdeu-se a partir do momento em que as
salas passaram a ser todas iguais, independentemente do centro comercial em que
estão."
A
ambição é que o Cinema Ideal tenha uma identidade própria. E, no entanto, já
houve cinemas com essa identidade – como o Quarteto, ou o King (ao qual Pedro
Borges esteve também ligado como exibidor) – que tiveram de fechar as portas.
Nestes casos, o público foi desaparecendo devido a uma certa incapacidade de
renovação. Relativamente ao Quarteto, Pedro Borges lembra que um dos grandes
problemas eram “as condições físicas”. “O grau de exigência das pessoas
aumentou muito. Em 1990 já ninguém queria ver os filmes nas condições em que se
viam lá."
Reconhece que seria um grande risco abrir uma sala hoje num bairro envelhecido e com pouca vida. Mas esse problema não existe no Camões, por onde passam os mais variados públicos a diferentes horas do dia. “Lisboa não tem comparação com, já não falo de capitais, mas cidades médias em Itália, França, Alemanha, Holanda, que têm uma oferta muito maior deste género de salas”. Para a criação de um cinema com identidade, Pedro Borges conta com o trabalho de José Neves, que, além de conhecer bem o bairro — é nele que vive e trabalha —, tem falado com muitos moradores, e sabe qual a memória que existe do velho Ideal. “O que estamos a tentar fazer é pegar numa memória que está em muitos lisboetas e torná-la outra vez numa coisa viva, tirando partido do melhor que aqui se encontrou: a forma do espaço da sala de cinema, e alguns dos revestimentos, porque o resto estava destruído”, afirma o arquitecto. (Jornal Público)
Reconhece que seria um grande risco abrir uma sala hoje num bairro envelhecido e com pouca vida. Mas esse problema não existe no Camões, por onde passam os mais variados públicos a diferentes horas do dia. “Lisboa não tem comparação com, já não falo de capitais, mas cidades médias em Itália, França, Alemanha, Holanda, que têm uma oferta muito maior deste género de salas”. Para a criação de um cinema com identidade, Pedro Borges conta com o trabalho de José Neves, que, além de conhecer bem o bairro — é nele que vive e trabalha —, tem falado com muitos moradores, e sabe qual a memória que existe do velho Ideal. “O que estamos a tentar fazer é pegar numa memória que está em muitos lisboetas e torná-la outra vez numa coisa viva, tirando partido do melhor que aqui se encontrou: a forma do espaço da sala de cinema, e alguns dos revestimentos, porque o resto estava destruído”, afirma o arquitecto. (Jornal Público)
terça-feira, 10 de junho de 2014
Google Cultural Institute lança colecção de Street Art no seu arquivo de arte online.
A Google
Cultural Institute, um arquivo online de exposições e colecções de todo o
mundo, lançou esta terça-feira uma colecção de Arte Urbana que conta, em
Portugal, com o apoio da Galeria de Arte Urbana de Lisboa.
Desta colecção faz parte o mural da rua
das Murtas, em Lisboa, Rostos
do Muro Azul, resultado de uma parceria da Google com a Galeria de Arte Urbana,
refere um comunicado hoje divulgado.
Promovido
por esta galeria, em parceria com o Hospital Psiquiátrico de Lisboa, o projecto Rostos
do Muro Azul continua a animar a rua das Murtas, em Lisboa, e estará
disponível para todo o mundo através do Street Art Project.
Considerado
um ícone da arte urbana na capital portuguesa, o mural é “uma apaixonante
viagem por mais de um quilómetro de pinturas que têm o azul como cor
dominante”.
Em
Novembro último, este mural acolheu a edição do Writer’s Delight Burnersde
2013, organizado pela Dedicated Store Lisboa, com um trabalho colectivo de
intervenientes alemães e nacionais. Mais recentemente, em Março passado, 29
artistas nacionais e internacionais intervencionaram 54 novas pinturas, naquela
que é a sétima fase do projecto Rostos do Muro Azul.
“Neste arquivo de arte online será
possível analisar com detalhe todas as obras de arte, conhecer melhor as
origens deste movimento urbano e ainda descobrir como se está a utilizar esta
técnica para revitalizar as cidades, por exemplo na Polónia”, refere uma nota
informativa.
O Street
Art Project possibilita também aos seus utilizadores uma visita guiada às
origens do movimento graffiti em Nova Iorque nos anos 90. Para quem deseja ir
até ao outro lado do oceano, é possível ainda comparar a natureza global da
arte urbana produzida no México, onde existe uma grande tradição de pintura
mural.
Permite
igualmente conhecer os primeiros passos no contexto artístico das Filipinas,
onde a arte urbana começa agora a florescer.
Street
Art Project é uma iniciativa que congrega mais de 5 mil exemplares de
obras de arte urbana de vários países e que tem o objectivo de conservar
digitalmente as expressões artísticas que geralmente acabam por desaparecer nas
cidades de todo o mundo.
A
iniciativa reúne uma grande variedade de estilos e inspirações urbanas e
algumas das obras que podem ser consultadas neste arquivo online da
Google Cultural Institute correspondem a “autênticas formas de expressão e
activismo político e social” em épocas turbulentas da história dos vários
países que fazem parte do projecto.
Alguns
exemplos são os trabalhos do português Alexandre Farto - mais conhecido por
Vhils -, o surrealismo dos brasileiros Os Gémeos, ou ainda os retratos
fotográficos a grande escala do francês JR.
O
Street Art Project é a primeira iniciativa de captura digital de imagens
de arte urbana e representa a união entre aquela que é considerada a plataforma
online do presente, a Google, e aquela que é a expressão artística da
actualidade, a arte urbana. (Jornal
Público – 10.06.2014)
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