segunda-feira, 7 de julho de 2014

Artistas ocuparam Museu do Chiado pelo direito à cultura.


"Cultura não é luxo", "Os mirós são nossos", "A cultura é de todos, a arte é para todos" - estas foram algumas das palavras de ordem nos cartazes usados pelos cerca de 50 artistas e agentes culturais que ocuparam o Museu de Arte Contemporânea, em Lisboa, na última noite.
A ocupação "artivista" foi incentivada por Rui Mourão que ontem inaugurou no museu a instalação multimédia Os Nossos Sonhos Não Cabem Nas Vossas Urnas e, durante a sessão, apelou aos convidados a participar numa ocupação pacifista da instituição.
O artista desafiou as pessoas para um ato que era ao mesmo tempo artístico e político. "Estamos aqui em ocupação 'artivista' do Museu Nacional de Arte Contemporânea. Estamos a ocupar o museu em defesa do museu e não contra o museu", disse o artista, na abertura da exposição, que procura demonstrar que o protesto político também é arte. A ação de protesto foi feita "em defesa do direito à Cultura", explicou à Lusa, Rui Mourão.
Alumas pessoas já vinham preparadas e munidas de sacos-cama, como num acampamento. Os ativistas realizaram uma assembleia que votou pela continuação da sua presença nas instalações do museu para além do horário de funcionamento. A manifestação terminou, mas algumas pessoas permanceram no museu durante a noite.

A organização divulgou este vídeo da ação:



(Diário de Notícias)

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A cultura é cara, a incultura é mais cara ainda.


"A arte deve ser livre porque o ato de criação é em si um ato de liberdade", escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen no semanário Expresso, a 12 de julho de 1975, num artigo a que chamou "A cultura é cara, a incultura é mais cara ainda". Este impulso criativo sempre se mostrou como uma inevitabilidade na vida da poetisa, que se iniciou na escrita aos 12 anos. Foi ainda jovem, aos 24, que publicou por iniciativa própria o primeiro livro, intitulado "Poesia". 
De origem dinamarquesa, desembarcou no Porto e ali permaneceu, na Quinta do Campo Alegre (hoje o Jardim Botânico do Porto), onde viveu com o avô e acabou por crescer. Uma casa cujo jardim foi cortado pela Ponte da Arrábida e cujos plátanos foram arrancados, disse Sophia numa entrevista ao "Jornal de Letras" a 5 de fevereiro de 1985.
Talvez tenha sido a ausência desse jardim, imortalizado no poema "A Casa do Mar", que tenha cravado a temática 'natureza' no universo poético da autora: "A casa que eu amei foi destroçada/ A morte caminha no sossego do jardim/ A vida sussurrada na folhagem/ Subitamente quebrou-se não é minha".
Mar, casa, tempo, amor. São ainda outros dos temas do universo da mítica escritora portuguesa, que não gostava que lhe perguntassem porque é que escrevia. À poesia, encontrou-a antes de saber que existia a literatura, disse um dia. Sempre lhe foi natural.
Sophia foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões, o mais importante galardão literário da língua portuguesa. Quando, em 1999, numa entrevista à TSF o jornalista lhe perguntou "porque não o Nobel?", Sophia respondeu "que o nome do Nobel não vale o de Camões".
A transparência da palavra, o ritmo melódico dos versos, a lucidez e pureza da escrita da poetisa inserem-na no panorama da literatura nacional como uma das autoras mais reconhecidas e amadas pelo público. 
 A poesia está na rua
Detentora de vários galardões literários e condecorada três vezes pela República Portuguesa, a poesia de Sophia situa-se entre uma sensibilidade estética espiritual e uma poesia social, de denúncia a qualquer tipo de ataque à dignidade humana (cujo estilo se acentuou durante o período que antecedeu o 25 de abril de 1974). "Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo", escreveu sobre esse dia de abril.
Ainda agora, a intervenção de Sophia subsiste. Exemplo disso é a presença da frase por ela escrita "a poesia está na rua", outrora presente no emblemático quadro da pintora Vieira da Silva e imortalizada hoje pelas várias paredes dos bairros lisboetas.
Também o mar - há muito desbravado - foi das temáticas mais presentes na sua obra poética, cuja "escrita é de nau e singradura". Tanto é que o Oceanário de Lisboa expõe os seus poemas em zonas de descanso da exposição, permitindo aos visitantes absorverem esse mar enaltecido por "Sophia como quem procura a ilha sempre mais ao sul", escreveu Manuel Alegre num poema de homenagem.
Foi no dia 2 de julho de 2004 que morreu na sua residência, em Lisboa, aos 84 anos. Sophia de Mello Breyner Andresen deixa editada uma vasta obra de poesia, antologia, prosa, ensaios e teatro. Casada com o jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares e mãe de cinco filhos, entre eles o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares, Sophia de Mello Breyner permanece como uma poetisa intemporal, humana, uma poetisa do e para o povo.
Ainda o artigo "A cultura é cara, a incultura é mais cara ainda", que Sophia escreveu para o Expresso: "Quando a Arte não é livre o povo também não é livre. Onde o artista começa a não ser livre o povo começa a ser colonizado e a justiça torna-se parcial, unidimensional e abstrata. Se o ataque à liberdade cultural me preocupa tanto é porque a falta de liberdade cultural é um sintoma e significa sempre opressão para um povo inteiro".

Ler mais:
http://expresso.sapo.pt/a-cultura-e-cara-a-incultura-e-mais-cara-ainda=f878882#ixzz36RfROzwH

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Morreu Eli Wallach, o vilão de westerns formado no Actors Studio.


O teatro era a verdadeira “casa” de um actor mais recordado pelos seus papéis de vilão e por uma cena de dança com Marilyn Monroe.
"Parece que tenho uma vida dupla", disse em tempos Eli Wallach. "No teatro, sou o homenzinho, ou o homem irritado, ou o homem incompreendido. No cinema, passo a vida a ser escolhido para os papéis de mau."
Não é por isso surpresa que Wallach, falecido esta terça-feira aos 98 anos de idade, seja mais recordado pelos vilões que interpretou em dois dos filmes mais icónicos da década de 1960: Os Sete Magníficos (1960), versão westerndos Sete Samurais de Akira Kurosawa dirigida por John Sturges, e O Bom, o Mau e o Vilão (1966), terceiro filme da trilogia de westerns-spaghetti de Sergio Leone. Mas é um destino, no mínimo, irónico para aquele que era um dos últimos nomes ainda vivos da “primeira fornada” formada na lendária escola de representação nova-iorquina do Actors Studio, que revolucionou o cinema e o teatro americanos no período do pós-II Guerra Mundial.
Era no teatro que o actor nova-iorquino, nascido no bairro de Brooklyn em 1915 e filho único de emigrantes judeus polacos, se sentia mais à vontade. Embora tenha continuado a filmar quase até ao fim da sua vida - os seus últimos trabalhos de nota foram O Escritor Fantasma de Roman Polanski eWall Street: O Dinheiro Nunca Dorme de Oliver Stone, em 2010 - foi no teatro, do qual se retirou de vez em 1997, que construiu a sua carreira. Trabalhou repetidamente com a sua mulher, a também actriz Anne Jackson, que conheceu nos palcos em 1946 e com quem casou dois anos depois. Entre os muitos autores que Wallach representou contam-se Tennessee Williams (vencendo o Tony por uma produção de A Rosa Tatuada em 1951), Jean Anouilh, Eugène Ionesco ou Tom Stoppard.
O “camaleão por excelência”
Wallach foi um dos primeiros alunos da escola de representação do Actors Studio, fundado em 1947 e gerido a partir de 1951 por Lee Strasberg. Os seus colegas de curso chamavam-se Marlon Brando, Montgomery Clift e Sidney Lumet. E estreou-se no cinema precisamente sob o signo do teatro: foi em Baby Doll(1956), adaptação de Tennessee Williams sob o comando de Elia Kazan, ele próprio um dos fundadores da escola.
Entre as quase duas centenas de filmes e produções televisivas em que entrou, muitos lembrar-se-ão particularmente de Os Inadaptados (1961), realizado por John Huston e escrito pelo dramaturgo Arthur Miller, com Clark Gable, Marilyn Monroe e Montgomery Clift nos papéis principais. A cena em que Wallach dança com Marilyn, de quem era amigo de longa data e que teria aqui a sua última interpretação em vida, ficou célebre. Wallach participou também em inúmeras séries televisivas – como Cidade Nua, Batman, onde interpretou (lá está...) o vilão Mr. Freeze, ou mais recentemente Nurse Jackie- e no último filme da trilogia O Padrinho de Francis Ford Coppola (1990).
Eli Wallach nunca foi nomeado para um Óscar, mas a Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood reconheceu a sua carreira no final de 2010, entregando-lhe o Óscar honorário pela “desenvoltura inata com que interpretou uma variedade de personagens, ao mesmo tempo que deixou uma marca inimitável em cada papel”. Chamou-lhe então “um camaleão por excelência”. O “camaleão por excelência” era algo que vinha da sua extensa experiência teatral - e Wallach nunca escondeu que, para um actor de composição como ele, "o cinema era apenas um meio para chegar a um fim", como disse numa entrevista de 1973 citada pelo New York Times. "Vou montar a cavalo para Espanha durante dez semanas e regresso com uma almofada financeira suficiente para poder montar uma peça."

Mas a verdade é que, se Wallach e Anne Jackson se tornaram no “primeiro casal” do teatro americano nas décadas de 1960 e 1970, foram mesmo os papéis de vilão que fizeram o nome do actor no grande écrã. Faltou-lhe “aquele” papel que o atirasse para uma carreira de primeira grandeza – mas a verdade é que o actor também nunca o terá querido. Como o comprova um daqueles fait-divers que muitas vezes definem uma personalidade: primeira escolha do realizador Fred Zinnemann para um papel secundário em Até à Eternidade (1953), Eli Wallach optou antes por aceitar o convite para uma nova peça de Tennessee Williams encenada por Elia Kazan, Camino Real. Em seu lugar ficou Frank Sinatra, que ganhou o Óscar de melhor actor secundário. (Jornal Público – 25.06.2014)

sábado, 21 de junho de 2014

A energia da inquietação.


Festa, alegria, violência, futuro, comprometimento, fragilidade. São as palavras e os significados que envolvem Artistas comprometidos? Talvez, a colectiva apresentada na Gulbenkian no âmbito do programa Próximo Futuro
Fundação Gulbenkian. Está cansado – “escapou” há minutos do calor da rua – mas visivelmente satisfeito e saúda os artistas que encontra pelo caminho, interrompendo-se aqui e ali para olhar a montagem final das obras. “Artistas comprometidos? Talvez”, a exposição que comissaria, no âmbito do programaPróximo Futuro, está quase pronta. A meio da sala, o artista moçambicano Celestino Mudaulane termina a sua pintura mural e ao fundo a instalação de Wum Botha parece concluída. Nas paredes, já se exibem as fotografias do franco-argelino Bruno Boudjelal, os estranhos e coloridos “retratos” do sul-africano Athi-Patra Ruga e a pintura do brasileiro Luiz Zerbini. No chão, algumas obras esperam a sua vez. Como já se tornou, presume-se, evidente, os artistas participantes nesta colectiva (ao todo são 21) não se subsumem a uma geografia. Há-os de diferentes continentes e países, o que denota uma coerência com os fins do programa Próximo Futuro e, neste, com a actividade de curadoria de António Pinto Ribeiro. Mas o que dizer do título? Que sentido tem a palavra “comprometidos”?
“Há aqui dois tipos de comprometimento”, diz o curador. “Um comprometimento com o legado artístico, com a arte, que considero profundo. E uma atitude que no meio das maiores vicissitudes, das maiores catástrofes, encontra espaço para a expressão de uma certa alegria, de uma ideia de festividade. Não se trata de uma regra, mas é substancial. É uma energia que os artistas canalizam para a expressão artística, para a criação das suas obras”. Alguns trabalhos tornam presente esse energia, Veja-se o tromp-l’oeilque espreita da pintura de Luiz Zerbini, a indeterminação colorida dos seres de Athi-Patra Ruga, as luzes e o movimento da instalação de Wum Botha. A cor e a diversidade de linguagens são aspectos que ressaltam e envolvem o visitante. E a par de pinturas, de esculturas e instalações, encontram-se filmes, pinturas murais, referências a cidades ou a lugares específicos (a costa do Norte de África, o Mediterrâneo, Maputo, as ruas de Joanesburgo), inclusive a outras artes (a BD). Como se articula toda esta diversidade, e o comprometimento que a atravessa, com a possibilidade de uma intervenção? “Nas conversas com os artistas, houve sempre um debate em torno do papel interventivo, quer da obra, quer do artista como cidadão. Que implicações surgem na produção contemporânea e na relação dessa produção com os cidadãos? As obras e actividades dos artistas desta exposição não são militantes ou panfletárias, mas partem de um programa individual, pessoal”.
Fragilizar a mediação
Algumas estratégias que ilustram a complexidade, bem como a singularidade, desses programas podem ser: evocar ou documentar um período negro da história de um país (é o que fazem o sul-africano Conrad Botes ou a guatemalteca Sandra Monterroso), confrontar a violência de uma sociedade (nas pinturas de Celestino Mudaulane, na proposta da artista brasileira Berna Reale) ou explorar narrativas da história política (Bouchra Khalili). Na maioria destes trabalhos, o que se evidencia não será um gesto de denúncia, menos ainda de activismo, mas uma inquietação provocada pelas condições sociais e políticas do real; inquietação que só se mostra, só emerge se transfigurada pela arte. Repare-se nas imagens de Bruno Boudjelal. Ao longe, parecem pinturas de paisagens e são paisagens o que vemos representado. Um olhar mais aproximado, permite descobrir outra coisa: são fotografias, tomadas, ofuscadas pela luz, da costa argelina e da costa da Europa do Sul que o artista fez durante uma série de viagens. A alusão às travessias do Mediterrâneo por jovens africanos que tentam chegar à Europa vai-se revelando. Escreve o artista no catálogo: “Virando as costas a África, diante das margens europeias de Espanha ou Itália, regressei aos locais onde embarcam estes migrantes clandestinos. Estas paisagens brancas fixam numa mesma fotografia o encandeamento da luz, o desaparecimento da paisagem e as construções da memória.”
Apesar da articulação entre temas próximos ou comuns, refira-se que grande parte dos artistas não se conhecia pessoalmente. “Não houve colaboração entre eles, mas existiu um processo de debate interno”, nota Pinto Ribeiro. “Houve conversas, leram-se textos, houve reflexão. Verificou-se um processo de partilha, com propostas e contra-propostas, trocas de imagens. E mostrei-lhes a história da exposição anterior, para terem uma perspectiva com que se pudessem relacionar”. O curador, embora participante, assumiu a fragilização da sua função, atitude que, no seu entender, modera a autoridade excessiva do mediador. Podemos intuir, na opção, uma crítica ao mundo da curadoria? “É hoje uma evidência o excesso de mediação entre os artistas, o público e as instituições. E isso tem uma razão de fundo que é grande diversidade e a ausência de cânones da arte contemporânea. Cabe muito do poder de selecção aos curadores. Mas o problema não são os curadores, e sim o excesso da sua influência e autoridade, que vai personificando um star-system”. A este problema, acrescem outros obstáculos que desvirtuam a produção artística: “Há muitas situações de promiscuidade entre curadores, responsáveis por colecções e críticos. E isso não é nada saudável para os artistas e as programações”.
Comprometimento com o futuro
Dos participantes em Artistas comprometidos? Talvez só se contam dois nomes portugueses: Pedro Barateiro e João Ferro Martins. Que conclusões se podem tirar desta parca representação? Que a inquietação que anima esta colectiva não é partilhada pela actual arte portuguesa? António Pinto Ribeiro admite que sim. “A responsabilidade não é, contudo, dos artistas. Eles estão inseridos num processo histórico onde o mercado e as galerias se lhes impõem, não permitindo outro tipo de orientações. Também não encontro essa inquietação na arte que se torna panfletária ou naïve. Há uma falta de comprometimento radical. O Pedro Barateiro e o João Ferro Marins, para mim, têm esse comprometimento com o futuro, com o devir, mas por razões que terão a ver com os limites de produção, tendem a fazer obras minimais, com escalas mais reduzidas”.
Uma escala reduzida é algo que não se encontra emTeoria, peça de Eduardo T. Basualdo, uma enorme rocha negra, suspensa sobre o foyer da Fundação. A sua localização inusitada (parece rasar as cabeças dos visitantes) e a sua queda latente (um fio segura-a ao tecto) interpelam quem passa. Primeiro, o receio face à possibilidade de uma catástrofe, logo a seguir o encontro com uma presença surreal, fantasiosa, plena de ilusão. Não é ferro ou granito o que a constitui, mas folha de alumínio. Entre a aparição violenta e a ironia, testemunha-se uma transfiguração semelhante à realizada pelas imagens de Bruno Boudjelal, com a diferença de que aqui é a relação entre os homens e os objectos, e menos entre os homens e os lugares, aquilo que o artista vem interrogar.

Regresse-se à sala principal. Acolhe filmes da autoria de Bouchra Khalili, de Miguel Jara, de Pedro Barateiro e Solon Ribeiro. Todos lidam com questões distintas, quanto muito contíguas: a performance, a montagem, a memória do cinema, a animação, a documentação. Em comum, sobressai um envolvimento com a cultura das imagens e os arquivos que ela vai construindo. Esse é também um aspecto relevante do projecto. Mas há outro que surge mais interpelador. A aparição da pintura mural, nas propostas de Conrad Botes, vindo da BD experimental, de Celestino Mudaulane (que tem apresentado desenhos e esculturas em edifícios devolutos de Maputo) e do mexicano Demián Flores, que retoma um “movimento” que marcou a história da arte do seu país. Pergunta “provocadora”: por que não levar estes trabalhos para o exterior, para o interior da cidade? “Isso seria um gesto de falsa rebeldia”, responde o curador. “Não faz sentido, neste contexto instalar e pintar um muro numa rua da cidade. Seria uma situação de extrema hipocrisia. Esta é uma exposição que decorre numa instituição. É mais transparente e honesto propor essas obras no interior da exposição, com os limites possíveis, do que ir para os subúrbios”. A presença ameaçadora de “Teoria”, do Eduardo T. Basualdo, sobre as nossas cabeças, no foyer da Fundação, parece dar razão ao curador. (Jornal Público)

domingo, 15 de junho de 2014

Encontramo-nos mais logo à porta do Cinema Ideal?


A abertura do Ideal anuncia-se como “o primeiro acontecimento da rentrée”. O cinema de bairro – o mais antigo de Lisboa – quer ser um espaço de encontro em torno dos filmes, mas também do prazer de ir a uma sala de cinema.
Hão-de vir os que gostam de ver cinema e de falar sobre o cinema que vêem, os que perderam em Lisboa um lugar que seja um ponto de encontro, os que têm saudades dos cinemas de bairro, e os que vivem no bairro e ainda se recordam do velho Ideal; hão-de vir os que cresceram a ver os clássicos, e os que cresceram no tempo em que a televisão já não mostra os clássicos, os que enchem os festivais de cinema, os que gostam de filmes portugueses, os que não encontram nas salas os filmes que querem ver; hão-de vir os que gostam dos westerns de John Ford, e os que querem rever Hitchcock, os fãs do cinema do Irão ou de Taiwan, e os que querem simplesmente descobrir filmes novos. Hão-de vir os que gostam de salas de cinema.
O encontro está marcado para o início da rentrée, no novo Cinema Ideal, Rua do Loreto números 15 e 17, Lisboa, entre o Camões e a Bica. Hão-de vir muitos, espera Pedro Borges, produtor e distribuidor da Midas Filmes, o impulsionador desta reabertura da mais antiga sala de cinema da capital. E virão, acredita, porque um espaço como este faz falta, e porque, ao contrário do que se pensa, continua a haver público para ver cinema em sala. 
Por enquanto, a sala do Ideal, no edifício da Casa da Imprensa, que é senhoria do espaço e investidora do projecto através da indemnização paga aos anteriores inquilinos, ainda está em obras, com operários a entrar e a sair, carregando tábuas e baldes. 
O projecto de recuperação (um investimento de 500 mil euros, incluindo ecrã, projector, equipamento de som) é do arquitecto José Neves, Prémio Secil de Arquitectura 2012, e a programação será da responsabilidade da Associação Cultural Cinema Ideal – um grupo de perto de 30 pessoas, entre as quais realizadores, actores e produtores, que terá a sua sede no primeiro andar do mesmo edifício, espaço que se abrirá também ao público. 
“Queremos ser o primeiro acontecimento da rentrée”, diz Pedro Borges. Inicialmente pensou-se abrir na Primavera, mas não foi possível, e a data prevista agora é final de Agosto, início de Setembro. A programação de arranque, essa já está quase toda definida. “Por uma série de coincidências, vamos ter muito cinema português até ao final do ano: o filme do Joaquim Pinto, E Agora? Lembra-me, a estreia do último do Paulo Rocha (1935-2012),Se Eu Fosse Ladrão, Roubava, e a reposição dos dois primeiros, Verdes Anos(1963) e Mudar de Vida (1966), Os Maias do João Botelho, que tem uma versão do realizador com três horas que ele gostaria que nós estreássemos; o Pedro Costa que está a acabar um filme, o João Canijo, a acabar um documentário, o João Salaviza, enfim, uma série de realizadores de cujos trabalhos gostamos e que vamos estrear." 
Uma sala, muitos filmes
Mas esta sala com foyer, plateia e balcão, como os antigos cinemas de bairro, quer ser “um multiplex”. Pedro Borges explica: “A ideia é trabalhar do meio-dia às duas da manhã e combinar sempre pelo menos dois filmes em exibição para públicos diferentes, alternando as sessões." A reposição de um clássico pode alternar com a estreia de um filme de um novo realizador, por exemplo – “é importante separar o cinema da ideia de novidade; como nas outras artes deve ver-se o que foi feito agora como o que foi feito há 20 anos, ou há 70."  
Ou então podem combinar-se filmes que façam sentido juntos por algum motivo. “Imagine-se que o Pedro Costa diz que quando estrear o filme dele gostaria de ter determinado filme ao mesmo tempo. As sugestões podem vir dos realizadores ou serem simplesmente coisas que nós achamos que fazem sentido." Pode acontecer que venha o próprio realizador explicar porque acha aquele filme importante, ou que venham pessoas contar outras histórias. “Com o filme do Joaquim Pinto vamos ter isso – pessoas que vêm falar da sua relação com o filme. Quando fizermos a estreia e as reposições do Paulo Rocha, gostava que viessem pessoas que assistiram à estreia dos Verdes Anos em 1963 no São Luiz para dizerem como vêem o filme hoje. São coisas que noutros países se fazem regulamente e que cá se perderam muito."
Mas o que se perdeu não foi, sobretudo, o público do cinema? Não, diz Pedro Borges. O que se perdeu – por razões várias, nomeadamente a especulação imobiliária em vários espaços que eram ocupados por cinemas – foi uma certa forma de ir ao cinema. “A ida ao cinema nunca foi apenas para ver filmes. Cinemas de bairro como este eram onde as pessoas se encontravam regulamente, onde conviviam. Depois, noutras zonas da cidade, nas Avenidas Novas por exemplo, as pessoas iam também para ver aqueles edifícios. Isso perdeu-se a partir do momento em que as salas passaram a ser todas iguais, independentemente do centro comercial em que estão."

A ambição é que o Cinema Ideal tenha uma identidade própria. E, no entanto, já houve cinemas com essa identidade – como o Quarteto, ou o King (ao qual Pedro Borges esteve também ligado como exibidor) – que tiveram de fechar as portas. Nestes casos, o público foi desaparecendo devido a uma certa incapacidade de renovação. Relativamente ao Quarteto, Pedro Borges lembra que um dos grandes problemas eram “as condições físicas”. “O grau de exigência das pessoas aumentou muito. Em 1990 já ninguém queria ver os filmes nas condições em que se viam lá."
Reconhece que seria um grande risco abrir uma sala hoje num bairro envelhecido e com pouca vida. Mas esse problema não existe no Camões, por onde passam os mais variados públicos a diferentes horas do dia. “Lisboa não tem comparação com, já não falo de capitais, mas cidades médias em Itália, França, Alemanha, Holanda, que têm uma oferta muito maior deste género de salas”. Para a criação de um cinema com identidade, Pedro Borges conta com o trabalho de José Neves, que, além de conhecer bem o bairro — é nele que vive e trabalha —, tem falado com muitos moradores, e sabe qual a memória que existe do velho Ideal. “O que estamos a tentar fazer é pegar numa memória que está em muitos lisboetas e torná-la outra vez numa coisa viva, tirando partido do melhor que aqui se encontrou: a forma do espaço da sala de cinema, e alguns dos revestimentos, porque o resto estava destruído”, afirma o arquitecto. (Jornal Público)

terça-feira, 10 de junho de 2014

Google Cultural Institute lança colecção de Street Art no seu arquivo de arte online.


A Google Cultural Institute, um arquivo online de exposições e colecções de todo o mundo, lançou esta terça-feira uma colecção de Arte Urbana que conta, em Portugal, com o apoio da Galeria de Arte Urbana de Lisboa.
Desta colecção faz parte o mural da rua das Murtas, em Lisboa, Rostos do Muro Azul, resultado de uma parceria da Google com a Galeria de Arte Urbana, refere um comunicado hoje divulgado.
 Promovido por esta galeria, em parceria com o Hospital Psiquiátrico de Lisboa, o projecto Rostos do Muro Azul continua a animar a rua das Murtas, em Lisboa, e estará disponível para todo o mundo através do Street Art Project.
Considerado um ícone da arte urbana na capital portuguesa, o mural é “uma apaixonante viagem por mais de um quilómetro de pinturas que têm o azul como cor dominante”.
Em Novembro último, este mural acolheu a edição do Writer’s Delight Burnersde 2013, organizado pela Dedicated Store Lisboa, com um trabalho colectivo de intervenientes alemães e nacionais. Mais recentemente, em Março passado, 29 artistas nacionais e internacionais intervencionaram 54 novas pinturas, naquela que é a sétima fase do projecto Rostos do Muro Azul.
“Neste arquivo de arte online será possível analisar com detalhe todas as obras de arte, conhecer melhor as origens deste movimento urbano e ainda descobrir como se está a utilizar esta técnica para revitalizar as cidades, por exemplo na Polónia”, refere uma nota informativa.
O Street Art Project possibilita também aos seus utilizadores uma visita guiada às origens do movimento graffiti em Nova Iorque nos anos 90. Para quem deseja ir até ao outro lado do oceano, é possível ainda comparar a natureza global da arte urbana produzida no México, onde existe uma grande tradição de pintura mural.
Permite igualmente conhecer os primeiros passos no contexto artístico das Filipinas, onde a arte urbana começa agora a florescer.
Street Art Project é uma iniciativa que congrega mais de 5 mil exemplares de obras de arte urbana de vários países e que tem o objectivo de conservar digitalmente as expressões artísticas que geralmente acabam por desaparecer nas cidades de todo o mundo.
A iniciativa reúne uma grande variedade de estilos e inspirações urbanas e algumas das obras que podem ser consultadas neste arquivo online da Google Cultural Institute correspondem a “autênticas formas de expressão e activismo político e social” em épocas turbulentas da história dos vários países que fazem parte do projecto.
Alguns exemplos são os trabalhos do português Alexandre Farto - mais conhecido por Vhils -, o surrealismo dos brasileiros Os Gémeos, ou ainda os retratos fotográficos a grande escala do francês JR.

O Street Art Project é a primeira iniciativa de captura digital de imagens de arte urbana e representa a união entre aquela que é considerada a plataforma online do presente, a Google, e aquela que é a expressão artística da actualidade, a arte urbana.  (Jornal Público – 10.06.2014)