sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Cinema Ideal abre portas com “A Desaparecida”, de John Ford.

O mais antigo cinema de Lisboa, o Cinema Ideal, vai abrir portas ao público no próximo dia 28 de agosto. A Midas Filmes e a Casa da Imprensa, entidades responsáveis pela reconstrução do cinema, tem estado desde dezembro de 2013 a reconstruir uma das salas mais marcantes da cidade, prometendo trazer nova vida através de uma programação mais virada para o cinema independente. O cinema passou nos últimos meses por um profundo “trabalho de renovação e recuperação, de arquitectura e de equipamento de projecção de imagem e som. É um trabalho que dará origem a um novo cinema e a um novo espaço de animação cultural e urbana”. Com um investimento de cerca de 350.000 euros, o Cinema Ideal abre oficialmente ao público com a reposição do filme de John Ford “A Desaparecida” (1956) e com a estreia em sala do premiado filme de Joaquim Pinto “E agora? Lembra-me“. Em comemoração dos 110 anos do Cinema Ideal, em setembro, está prevista também a estreia do filme “Os Maias”, de João Botelho, na versão longa, no dia 11 desse mês.



Quanto ao eterno clássico do western, “A Desaparecida”, de John Ford, João Bénard da Costa chamou-lhe “o mais belo dos Ford”. Este filme é considerado a melhor obra de Ford e um dos melhores westerns de sempre, em que a personagem de John Wayne (Ethan Edwards) regressa da guerra civil a casa e descobre que os seus familiares foram mortos pelos índios. Ethan parte à procura da sua sobrinha que foi raptada e criada pelos índios, percorrendo o Oeste, durante cinco anos, pelo que a personagem heróica de J.Wayne passou a ser mais sombria e obsessiva. Para Ethan, apesar de a sua sobrinha estar a viver com os índios, não significa que esteja viva, pelo que até ao final do filme não sabemos se Ethan a quer matar ou não, tornando-se na personagem mais medonha do filme. No final, Ethan salva-a e leva-a de volta a casa, mas para Ethan não é um final feliz, pois ele vai ficar sozinho, condenado a vaguear pelo deserto.
“Na Rua do Loreto, junto ao Largo do Camões, na zona de confluência da Baixa/Chiado com o Bairro Alto e a Bica, existe ainda hoje em dia uma sala de cinema, que é o mais antigo cinema de Lisboa. Aberto desde 1904, ele conheceu ao longo dos anos diversas designações – Salão Ideal, Cinema Ideal, Cine Camões e Cine Paraíso. É uma sala de cinema cuja última grande remodelação teve lugar nos anos 50, mas que conserva ainda todo o charme de um “cinema de bairro”, com o seu foyer, balcão e plateia”.

domingo, 17 de agosto de 2014

Morreu Lauren Bacall, a actriz do olhar insolente.


Chamaram-lhe The Look, brilhou com uma insolência que nunca se vira antes na Hollywood dos anos 1940 e 50, era dura, sem paciência para a falta de carácter, e democrata até ao osso. Ensinou Bogart a fumar e a fazer outras coisas. Foi uma working girl até ao fim.
O realizador Howard Hawks ensinou-a a ser insolente para os homens, ela ficou pronta para ensinar Humphrey Bogart a assobiar e fez mais do que isso, levou-o para casa.


Mesmo se só tivesse feito os dois filmes em que Hawks elaborou para o casal, uma cartilha de jogos de sedução e double entendres – o assobio e o cigarro em Ter ou não ter (1944), falar de sexo como quem fala de corrida de cavalos, uns que correm à frente outros que vêm de trás, em The Big Sleep (1946) –, Lauren Bacall já seria uma das criaturas mais extraordinárias que o cinema fabricou.
Esta senhora dura, insolente, sem paciência para a falta de carácter e para a cobardia moral, democrata até ao osso, morreu esta terça-feira, aos 89 anos, na sua casa em Nova Iorque, noticiou à AFP o seu sócio na Humphrey Bogart Estate, Robbert JF de Klerk. A actriz teve um "forte acidente vascular cerebral" e não resistiu. Houve um post de fonte da família Bogart numa conta oficial no Twitter: "Com profunda tristeza, mas com grande gratidão pela sua vida incrível, confirmamos o falecimento de Lauren Bacall".
Chamaram-lhe The Look, e é só olhar para as fotografias para perceber porquê. Hawks (e é preciso sempre regressar a ele) tem responsabilidades. A mulher do realizador viu-a um dia numa capa da Harper's Bazaar – dia 1 de Março de 1943 – e recomendou-a ao marido. Betty Joan Perske não tinha ainda 19 anos, estudara dança, faltava às aulas para ver filmes com Bette Davies (alguma coisa deve ter ficado nela...), era manequim e contava no seu portfolio com dois ou três fracassos na Broadway. Mas perante a foto daHarper's Bazaar Hawks soube o que fazer. Contratou-a.
Ensinou-a a tirar partido da voz grave, porque não haveria coisa “menos atraente” do que uma rapariga guinchar. E lá ia ela (contou na sua autobiografia By Myself) para Mulholland Drive ler alto para os canyons. Três semanas depois...Hello, how are ya. Betty Joan Perske metamorfoseava-se em Lauren Bacall. Hawks – ele próprio conta-o no livro de conversas Hawks on Hawks, de Joseph McBride – ensinou-lhe ainda algo de mais essencial: a ser má com os homens para conseguir boleias para casa. "Porque não tentas insultá-los?".
E assim apareceu uma rapariga de 19 anos que era tão insolente como a mais insolente das estrelas do firmamento de Hollywood daqueles anos: Humphrey Bogart. Nunca se tinha visto nada assim, embora Marlene Dietrich se tivesse aproximado de Hawks a reclamar o que achava que era dela: “Sabes, aquilo sou eu há 20 anos”. (Hawks sabia-o, era verdade).
Em Ter ou não Ter, Bacall chama-se Slim porque era esse o nome da mulher de Hawks. Afinal, é preciso regressar a ela, Slim Keith, mulher do jet set de Nova Iorque, ícone da moda (ela própria apareceu na Harper's Bazaar), inspiração de Truman Capote, fumadora inveterada e, segundo a sua biografia,Memories of a Rich and Imperfect Life, a proprietária das roupas que Bacall usa em Ter ou não Ter e a autora do famoso ''You know how to whistle, don't you?'' – a que, reconhece, Bacall deu um tom pessoal de comic film-noir.
O casal Bogart/Bacall tiraria ainda partido da sua química cinematográfica emDark Passage (1947) e Key Largo (1948), mas Lauren dedicou-se à vida familiar, escolha que, assumiu, prejudicou a evolução da sua carreira. Também não ajudou o facto de ter entrado em vários litígios com o estúdio, a Warner, por recusar papéis, sendo suspensa (12 vezes). Mesmo parecendo sempre inquebrantável, por exemplo ao lado de Marilyn Monroe em How to Marry a Millionaire (1953) – um suplemento de fibra para prender a volátil loura à terra –, ou ainda em melodramas de Vincent Minnelli (Cobweb, 1956,Designing Woman, 1957), ou Douglas Sirk (Escrito no Vento, 1958), Bacall cedo demais ficou um magnífico side-show. Bogart, de quem teria dois filhos, Steve e Leslie, morreria em 1957 e, entre 1961 e 1969, foi casada com Jason Robards, de quem teve Sam.“O meu obituário vai estar cheio de Bogart, tenho a certeza”, disse numa entrevista à Vanity Fair em 2011. “Nunca saberei se é a verdade. Se é o que é, é o que é. Ele foi o meu mentor, o meu professor e o amor da minha vida. Lembro-me de cada palavra que me disse mas nunca mais o verei.”


Continuou a ser uma working girl, também sem paciência para os benefícios da "lenda cinematográfica", e a ter de ganhar a vida. As lendas eram do passado e nada tinham a ver com o presente, onde a actriz ainda queria fazer tanta coisa. “Quando alguém me pergunta porque é que eu ainda estou a trabalhar, apetece-me logo dizer: ‘Por que é que te atreves a perguntar-me isso?’ Se eu não trabalhasse, não saberia o que fazer comigo", disse em tempos. Ganhou um Globo de Ouro e uma nomeação ao Óscar por The Mirror Has Two Faces (1996), de Barbra Streisand. E deve ter percebido que continuava na memória de muita gente e que era em nome disso que Robert Altman (Pronto a Vestir, 1994), Lars von Trier (Dogville, em 2003 e Manderlay, em 2005), ou Jonathan Glaser (Birth, 2004) a chamaram. (Jornal Público)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Morreu o ator Robin Williams.



Vencedor do Óscar por «O Bom Rebelde» e protagonista de filmes marcantes ao longo de 30 anos, Robin Williams morreu aos 63 anos. Suspeita-se que a morte, por asfixia, tenha sido um suicídio.
Robin Williams morreu esta segunda-feira de manhã aos 63 anos. Vários órgãos de comunicação social norte-americana adiantaram tratar-se de suicídio. Embora a sua representante não tenha ido tão longe, o comunicado oficial refere que o ator «estava a lutar contra uma grave depressão. Esta é uma trágica e súbita perda. A família respeitosamente pede para que seja respeitada a sua privacidade durante o seu luto neste momento muito difícil». De acordo com o comunicado do chefe de polícia de Marin County, suspeita-se de «suicídio por asfixia».
Susan Schneider, a sua esposa, de quem se separara durante algum tempo, enviou também um comunicado: «Esta manhã perdi o meu marido e o meu melhor amigo, enquanto o mundo perdeu um dos seus mais amados artistas e seres humanos. Estou completamente de coração partido. Em nome da família de Robin, pedimos privacidade durante este nosso tempo de profunda tristeza. Conforme ele é recordado, a nossa esperança é que o foco não seja na morte do Robin, mas nos inúmeros momentos de alegria e riso que ele deu a milhões de pessoas.»
Na década de 70 e inícios de 80, Williams teve uma forte dependência do álcool e da cocaína, que ultrapassou na sequência do nascimento do primeiro filho e do susto com a morte por «overdose» do amigo John Belushi. Vinte anos depois recaiu no vício do álcool, o que o levou a internar-se em 2006 numa clínica de reabilitação, algo que voltaria a fazer em janeiro deste ano, no que indicou ser apenas uma pausa para repouso no meio de uma agenda carregada de trabalho.
O ator tem por estrear uma comédia do circuito independente, «Merry Friggin’ Christmas», com Lauren Graham e Oliver Platt, a 7 de novembro, e «À Noite, No Museu 3», onde volta a ser o presidente Theodore Roosevelt ao lado de Ben Stiller, a 19 de dezembro. Sem data estão «Boulevard», um drama de Dito Montiel, e a comédia britânica «Absolutely Anything», de Terry Jones, com Simon Pegg e Kate Beckinsale, onde dá voz a um cão. Tinha também assinado contrato para voltar a ser Mrs. Doubtfire na continuação do seu grande êxito de 1993, novamente dirigido por Chris Columbus.
Um ícone que viveu intensamente entre a comédia e o drama
Nascido a 21 de julho de 1951, foi bolseiro na prestigiada Julliard School de Nova Iorque ao mesmo tempo que servia em bares e fazia o circuito de «stand-up» nos clubes noturnos ao lado de parceiros como Eddie Murphy, Jerry Seinfeld ou Jon Stewart. «A comédia é o meu oxigénio», diria muito mais tarde.
Em 1977, estreou-se na televisão e tornou-se logo um fenómeno. Significativamente, como um extraterrestre em «Mork and Mindy». A personagem surgira primeiro em dois episódios de «Happy Days» e um dos seus atores, Henry Winkler, em declarações ao Hollywood Reporter, recordou o talento incontrolável e como a sua única tarefa se tornou «manter uma cara séria», observando que os argumentos subsequentes de «Mork e Mink» eram 15 páginas mais curtos, com notas que frequentemente referiam «Robin vai fazer alguma coisa aqui».
A passagem para o grande ecrã deu-se em 1980 com uma adaptação dos «comics» sobre o marinheiro que come espinafres para ter força: os resultados de «Popeye» não foram felizes, não obstante o seu talento e a presença de Robert Altman atrás das câmaras. Pelo contrário, todos repararam quando foi o excêntrico escritor em «O Estranho Mundo de Garp», dois anos mais tarde, ao lado de Glenn Close, que se tornaria um dos títulos mais importantes da sua carreira.
Sucederam-se filmes de qualidade muito desigual como «Os Sobreviventes»«Um Russo em Nova Iorque»(uma primeira viragem dramática), «Clube Paraíso» e «A Brigada do Reumático», até que se dá a viragem com «Bom Dia, Vietname», com Barry Levinson a controlar e tirar o melhor partido do seu explosivo talento como Adrian Cronauer, o indomável animador radiofónico das forças armadas em Saigão. Obteve uma nomeação para o Óscar de Melhor Ator, acontecimento pouco comum para o género.
Robin Williams tornou-se mais exigente com os argumentos. Do encontro com Peter Weir, realizador conhecido pelo seu rigor, resulta o segundo filme a que sempre estará associado, «O Clube dos Poetas Mortos»: ele era John Keatin, o novo professor de literatura inglesa que chegava ao colégio interno de Welton em 1959 e se tornava o «capitão» que revelava aos seus jovens estudantes poetas como Keats, Byron e Walt Whitman, abrindo-lhes novos horizontes para existências que pareciam pré-estabelecidas. O mesmo sucedeu na vida real com muitos dos que o viram: tornou-se um fenómeno cultural (em Portugal esteve mais de um ano em exibição nas salas) e revelou atores como Ethan HawkeRobert Sean Leonard e Josh Charles, bem como o talento dramático de Williams, novamente nomeado para o Óscar. «Carpe diem. Agarrem o momento, rapazes. Tornem as vossas vidas extraordinárias» tornou-se um lema de vida para gerações de espetadores.
A presença secundária em «Despertares» (90), de Penny Marshall, ao lado de Robert De Niro, e depois com Jeff Bridges em «O Rei Pescador» (91), de Terry Gilliam, e que foi a sua terceira nomeação para o Óscar, consolidam o estatuto enquanto ator e estrela de cinema.
O sucesso banalizou um talento único
Uma segunda fase da carreira, com o regresso à comédia e a dominar grande parte das atenções, começa com três inesperados e sonantes fracassos comerciais de Roger DonaldsonSteven Spielberg e Barry Levinson, «Um Sedutor em Apuros» (90), «Hook» (91) e «Toys - Fabricante de Sonhos» (92), este um projeto muito pessoal. No entanto, ao mesmo tempo, é justo dizer que o impacto do seu trabalho vocal como génio em «Aladdin» (92) se revelou determinante no lento processo de recuperação da animação da Disney, que começara com «A Pequena Sereia» (89), continuaria com «A Bela e O Monstro» e culminaria em «O Rei Leão» (94), não obstante uma posterior zanga com o estúdio por causa da partilha de receitas, bem como no lançamento do movimento de colocar estrelas de cinema a dar voz a personagens de animação.
«Papá Para Sempre», em que era um pai desempregado que se torna uma competente governanta inglesa para estar mais perto dos filhos após um processo de divórcio, afirma-se como o outro marco importante: ali está o louco talentoso, o génio do improviso e a super estrela da comédia. De certa forma, nas irregulares comédias que se seguiram esteve completamente à solta para combinar esses elementos e apesar de vários terem sido bem sucedidos, a alquimia perfeita só se repetiria quando tinha um realizador capaz de controlar os exageros, como sucedeu com Mike Nichols em «Casa de Doidas», em que o papel mais expansivo até foi entregue a Nathan Lane.
Assim, a uma muito elogiada participação dramática na série «Departamento de Homicídios» para Barry Levinson seguiram-se títulos como «Jumanji»«Nove Meses» (cuja presença caricatural antecipava o tom de muitos dos papéis após a mudança de século) ou «Jack», que muitos não perdoam a Francis Ford Coppola.
Em 1997, quando os melhores momentos dramáticos pareciam ter ficado para trás e parecia reduzido a filmes como o desastroso «O Dia dos Pais», ao lado do amigo Billy Cristal, ou «Flubber - O Professor Distraído», surgiu «O Bom Rebelde», onde era um terapeuta que ajudava a personagem problemática interpretada por Matt Damon. E na época como agora, o Óscar recebido como ator secundário foi entendido como uma compensação pelos títulos anteriormente que lhe tinham valido nomeações.
Com exceção de «Patch Adams» (98), a grande maioria dos filmes que se seguiram à consagração artística, entre ambiciosos e banais, foram auto-indulgentes e pouco acrescentaram. Pelo contrário, alguns, como «Para Além do Horizonte» e «O Homem Bicentenário», foram mesmo notórios e caríssimos fracassos comerciais que marcaram o início de um lento declínio que infelizmente grandes interpretações em «One Hour Photo - Câmara Indiscreta» (02), «Insomnia» e «Smoochy», não por acaso as suas mais pessimistas, não conseguiram contrariar. Entre muitas presenças secundárias a roçar a caricatura que não faziam justiça ao seu legado, destacam-se «Happy Feet», um sucesso da animação, e a interpretação secundária como o presidente Eisenhower em «O Mordomo».
Em 2013, regressou à televisão com «The Crazy Ones», cancelada ao fim da primeira temporada a 10 de Maio. «The Angriest Man in Brooklyn», de Phil Alden Robinson, o último filme a estrear em vida, estreia em Portugal a 9 de outubro.
Nuno Antunes
(retirado de : http://cinema.sapo.pt/atualidade/noticias/morreu-o-ator-robin-williams)


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Onde somos.


Este sol é português. Nasce lá na distância do cosmos, a milhares de quilómetros, mas aqui, esta alegria que toca a pele e a paisagem, que ilumina e aquece, é portuguesa. Podia mesmo ter passaporte, documento que guardaria no bolso e que apresentaria à passagem pelas fronteiras, diante do olhar circunspecto do polícia, a testá-lo na máquina, a escrever qualquer coisa no computador e a perguntar: vai em turismo?
O fado é universal. No auditório de qualquer continente, cantado por um homem ou por uma mulher, é universal. Acompanhado por aquela guitarra também universal, existe naquele lugar humano, onde as pessoas não têm nacionalidade. O fado circula livremente, não precisa de ser declarado como os produtos electrónicos. Depois de tirar o cinto, depois de descalçar os sapatos, o fado não apita na máquina dos metais. O fado existe em discos, mas os discos não são o fado. O fado existe na internet, mas a internet não é o fado. O fado é maior do que a internet, é mais universal.
Este vento é português. Não o vento das caravelas, esse já não existe, foi importante para quem lhe deu utilidade, mas gastou-se. A memória do vento das caravelas também é portuguesa, é património imaterial português. Mais concreto, no entanto, é este vento, soprado neste preciso instante. Tudo nele é português: o cheiro, a temperatura e até um certo silêncio. Este não é o único vento português, há muitos mais, com diferentes idades, velocidades e espessuras. No moinho ou na vela das pranchas de windsurf, no Cabo da Roca, ao longo do Douro ou nas ruas de Beja, vento raro, aragem nocturna, é sempre português.
A língua em que falo e escrevo é universal. A língua que a minha mãe começou a ensinar-me, sílaba a sílaba, é universal. Escrita, falada ou pensada, pode ser utilizada em qualquer ponto do planeta ou do universo. Repara no teu próprio exemplo: onde estás? Se estiveres a ler estas palavras traduzidas noutra língua, agradece ao tradutor e sabe que, desse modo, ainda mais se demonstra a universalidade desta expressão, desta matéria. Assim se revela a sua capacidade de movimento e adaptação, características primeiras daquilo que pode existir em todos os lugares e em todos os momentos.
Esta terra é portuguesa, a não ser que se encha baldes com ela, é para isso que servem as pás, e que se transporte em camiões ou em grandes navios através das fronteiras. Nesse caso, se tiver sido legitimamente adquirida, passará a ser terra desses países e, com muita probabilidade, continuará fértil. Assim, talvez se possa afirmar que esta terra é universal, a não ser que esteja debaixo dos meus pés, que sustente todo o peso da minha casa, a não ser que os meus mortos estejam enterrados e dissolvidos nela.
Sol e música, vento e língua, terra e tempo, somos aquilo que nos compõe. Respiramos ar que estava à nossa espera, que nos pertence, respiramo-nos a nós próprios. Da mesma forma, quando temos sede, bebemos água que se transforma em nós. São indefinidas e ambíguas as fronteiras entre nós e o mundo. Em todos os instantes, ao mesmo tempo, somos portugueses e universais.
por José Luís Peixoto

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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Artistas ocuparam Museu do Chiado pelo direito à cultura.


"Cultura não é luxo", "Os mirós são nossos", "A cultura é de todos, a arte é para todos" - estas foram algumas das palavras de ordem nos cartazes usados pelos cerca de 50 artistas e agentes culturais que ocuparam o Museu de Arte Contemporânea, em Lisboa, na última noite.
A ocupação "artivista" foi incentivada por Rui Mourão que ontem inaugurou no museu a instalação multimédia Os Nossos Sonhos Não Cabem Nas Vossas Urnas e, durante a sessão, apelou aos convidados a participar numa ocupação pacifista da instituição.
O artista desafiou as pessoas para um ato que era ao mesmo tempo artístico e político. "Estamos aqui em ocupação 'artivista' do Museu Nacional de Arte Contemporânea. Estamos a ocupar o museu em defesa do museu e não contra o museu", disse o artista, na abertura da exposição, que procura demonstrar que o protesto político também é arte. A ação de protesto foi feita "em defesa do direito à Cultura", explicou à Lusa, Rui Mourão.
Alumas pessoas já vinham preparadas e munidas de sacos-cama, como num acampamento. Os ativistas realizaram uma assembleia que votou pela continuação da sua presença nas instalações do museu para além do horário de funcionamento. A manifestação terminou, mas algumas pessoas permanceram no museu durante a noite.

A organização divulgou este vídeo da ação:



(Diário de Notícias)

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A cultura é cara, a incultura é mais cara ainda.


"A arte deve ser livre porque o ato de criação é em si um ato de liberdade", escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen no semanário Expresso, a 12 de julho de 1975, num artigo a que chamou "A cultura é cara, a incultura é mais cara ainda". Este impulso criativo sempre se mostrou como uma inevitabilidade na vida da poetisa, que se iniciou na escrita aos 12 anos. Foi ainda jovem, aos 24, que publicou por iniciativa própria o primeiro livro, intitulado "Poesia". 
De origem dinamarquesa, desembarcou no Porto e ali permaneceu, na Quinta do Campo Alegre (hoje o Jardim Botânico do Porto), onde viveu com o avô e acabou por crescer. Uma casa cujo jardim foi cortado pela Ponte da Arrábida e cujos plátanos foram arrancados, disse Sophia numa entrevista ao "Jornal de Letras" a 5 de fevereiro de 1985.
Talvez tenha sido a ausência desse jardim, imortalizado no poema "A Casa do Mar", que tenha cravado a temática 'natureza' no universo poético da autora: "A casa que eu amei foi destroçada/ A morte caminha no sossego do jardim/ A vida sussurrada na folhagem/ Subitamente quebrou-se não é minha".
Mar, casa, tempo, amor. São ainda outros dos temas do universo da mítica escritora portuguesa, que não gostava que lhe perguntassem porque é que escrevia. À poesia, encontrou-a antes de saber que existia a literatura, disse um dia. Sempre lhe foi natural.
Sophia foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões, o mais importante galardão literário da língua portuguesa. Quando, em 1999, numa entrevista à TSF o jornalista lhe perguntou "porque não o Nobel?", Sophia respondeu "que o nome do Nobel não vale o de Camões".
A transparência da palavra, o ritmo melódico dos versos, a lucidez e pureza da escrita da poetisa inserem-na no panorama da literatura nacional como uma das autoras mais reconhecidas e amadas pelo público. 
 A poesia está na rua
Detentora de vários galardões literários e condecorada três vezes pela República Portuguesa, a poesia de Sophia situa-se entre uma sensibilidade estética espiritual e uma poesia social, de denúncia a qualquer tipo de ataque à dignidade humana (cujo estilo se acentuou durante o período que antecedeu o 25 de abril de 1974). "Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo", escreveu sobre esse dia de abril.
Ainda agora, a intervenção de Sophia subsiste. Exemplo disso é a presença da frase por ela escrita "a poesia está na rua", outrora presente no emblemático quadro da pintora Vieira da Silva e imortalizada hoje pelas várias paredes dos bairros lisboetas.
Também o mar - há muito desbravado - foi das temáticas mais presentes na sua obra poética, cuja "escrita é de nau e singradura". Tanto é que o Oceanário de Lisboa expõe os seus poemas em zonas de descanso da exposição, permitindo aos visitantes absorverem esse mar enaltecido por "Sophia como quem procura a ilha sempre mais ao sul", escreveu Manuel Alegre num poema de homenagem.
Foi no dia 2 de julho de 2004 que morreu na sua residência, em Lisboa, aos 84 anos. Sophia de Mello Breyner Andresen deixa editada uma vasta obra de poesia, antologia, prosa, ensaios e teatro. Casada com o jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares e mãe de cinco filhos, entre eles o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares, Sophia de Mello Breyner permanece como uma poetisa intemporal, humana, uma poetisa do e para o povo.
Ainda o artigo "A cultura é cara, a incultura é mais cara ainda", que Sophia escreveu para o Expresso: "Quando a Arte não é livre o povo também não é livre. Onde o artista começa a não ser livre o povo começa a ser colonizado e a justiça torna-se parcial, unidimensional e abstrata. Se o ataque à liberdade cultural me preocupa tanto é porque a falta de liberdade cultural é um sintoma e significa sempre opressão para um povo inteiro".

Ler mais:
http://expresso.sapo.pt/a-cultura-e-cara-a-incultura-e-mais-cara-ainda=f878882#ixzz36RfROzwH