terça-feira, 7 de outubro de 2014
domingo, 5 de outubro de 2014
Em Lisboa, Pamuk diz que "a Europa precisa de ter uma discussão séria sobre os seus valores".
Na
sua primeira visita oficial a Portugal, para receber um prémio que reconhece o
seu contributo para o património cultural europeu, o Nobel da Literatura deixou
um recado: “A herança cultural europeia não se deve limitar à preservação dos
seus monumentos, mas também à preservação dos seus valores fundamentais”
O
escritor turco Orhan Pamuk defendeu esta sexta-feira em Lisboa que “a Europa
precisa de ter uma discussão séria sobre os seus valores fundamentais”. O Nobel
da Literatura de 2006, autor de uma obra literária sobre a procura de uma
identidade turca, dividida entre o Ocidente e o Oriente, entre modernidade
europeia e tradição muçulmana, recebeu esta noite o Prémio Europeu Helena Vaz
da Silva para a Divulgação do Património Cultural na Fundação Calouste
Gulbenkian, com um discurso em que prestou tributo à tradição cultural
europeia, mas que terminou com uma nota crítica.
“A
herança cultural europeia não se deve limitar à preservação dos seus
monumentos, mas também à preservação dos seus valores fundamentais”, disse o
escritor, na sua primeira visita oficial a Portugal. “E temos de ter uma
discussão séria sobre esses valores fundamentais.”
Pareceu
claro que era um recado para a Europa – não por acaso, o presidente da Comissão
Europeia, Durão Barroso, estava presente na primeira fila – embora Pamuk não
tenha especificado o que queria dizer com isso, talvez para não correr o risco
de soar pouco diplomático. Mas o que Pamuk quis dizer terá talvez a ver com o
que respondeu numa entrevista em Dezembro do ano passado, quando um jornalista
colombiano lhe perguntou se se sentia europeu. “Não sei. Não penso nesses
termos. Em primeiro lugar, sinto-me turco. E um turco tanto se sente europeu
como não europeu. Acredito numa Europa que não se baseia no cristianismo, mas
no Renascimento, na modernidade, na ‘liberdade, igualdade, fraternidade’. Essa
é a minha Europa. Acredito nessas coisas e quero fazer parte delas. Mas se a
Europa é a civilização cristã, lamento: nós, turcos, não queremos entrar.”
No
debate sobre a hipotética entrada da Turquia na União Europeia, Pamuk – um turco
cosmopolita e laico que se autodefine como um “muçulmano, mas apenas no sentido
cultural” – emergiu como um intérprete do diálogo entre civilizações. Daniel
Cohn-Bendit disse que foi Pamuk quem o ajudou a “perceber a importância de a
Turquia aderir à União Europeia”. Até mesmo o ex-Presidente americano George
Bush se referiu à obra do escritor como “uma ponte entre culturas”, notando que
ela mostra como “pessoas noutros continentes e civilizações” são “exactamente
como nós”.
Em defesa das pessoas normais
Atribuído
pela primeira vez no ano passado ao escritor italiano Claudio Magris, cuja obra
é notória pela sua deambulação cultural (como a de Pamuk), o Prémio Europeu
Helena Vaz da Silva, no valor de dez mil euros, é uma iniciativa da organização
europeia de defesa do património Europa Nostra em parceria com o Centro
Nacional de Cultura e o Clube Português de Imprensa, com o objectivo de
distinguir um cidadão europeu que, ao longo da sua carreira, tenha contribuído
para a divulgação, defesa e promoção do património cultural e dos ideais
europeus.
O
presidente do Centro Nacional de Cultura e membro do júri, Guilherme de
Oliveira Martins, notou que a atribuição do prémio a Pamuk teve em conta “o
cidadão apaixonado pela defesa do património cultural, mais do que o grande
romancista”, embora o seu discurso tenha sido dominado por referências e
citações constantes do último romance do escritor, O Museu da Inocência(ed.
Presença), publicado em 2008.
Pamuk
confessou-se “lisonjeado e honrado” pela atribuição do prémio, que lhe foi
entregue pelo secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier.
Falando
em inglês, o escritor lembrou como concebeu um romance e um museu ao mesmo
tempo, referindo-se a O Museu da Inocência, ficção sobre um homem que
colecciona todos os objectos tocados pela mulher que amou e que perdeu e ao
edifício com o mesmo nome que abriu em Istambul, a cidade onde nasceu e onde
vive, com objectos que foi juntando para o processo de escrita do livro e que é
hoje, também, um museu sobre a vida quotidiana da classe média turca na segunda
metade do século XX.
“Os
verdadeiros romances centram-se em pessoas normais, no seu dia-a-dia”, disse.
Com a entrada na modernidade, a literatura deixou de se interessar pelos reis e
poderosos para se ocupar da história de pessoas simples, como se fossem reis –
Joyce fê-lo em Ulisses, notou. Pamuk defendeu que os museus deviam fazer o
mesmo. “Deixem de prestar atenção à nação e aos reis e dediquem-se aos pequenos
detalhes das nossas vidas quotidianas. É por isso que defendo que precisamos de
pequenos museus”, disse.
Nesta
segunda edição do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, foi também atribuído um
prémio especial de carreira ao historiador de arte José-Augusto França por ter
“fomentado a tomada de consciência e o sentimento de orgulho relativamente à
arte portuguesa, relacionando-a com a cultura europeia e mundial”. O júri
distinguiu ainda o jornalista holandês Pieter Steinz com uma menção especial
pela criação de uma enciclopédia de ícones
culturais europeus. (Jornal Público)
domingo, 28 de setembro de 2014
O “caso” Donna Tartt.
Chamam-lhe
a Dickens do século XXI. No final de 2013 publicou O Pintassilgo e
dividiu a chamada crítica de referência. Livro infantil para adultos ou
sinfonia de prodigiosa imaginação, está traduzido em 20 idiomas e a suscitar um
debate sobre o gosto literário.
No
princípio não há uma ideia, mas uma imagem, quase sempre um desenho. No caso de
Donna Tartt, a escritora natural do Mississippi, onde nasceu em Dezembro de
1963, o romance começa por ser uma montagem de desenhos, frases, recortes de
excertos de blocos de notas onde o texto vai crescendo à mão, a caneta azul e
vermelha, até ganhar corpo.
É
um processo longo. Leva-lhe cerca de uma década a compor cada livro. “Já tentei
ser mais rápida, mas não funciona. Não retiro qualquer prazer da escrita e se o
escritor não tiver prazer não o pode passar ao leitor”, tem dito Tartt sobre a
sua escrita lenta. Em 32 anos de escrita publicou três romances. O último, O
Pintassilgo, é um caso. Lançado nos Estados Unidos no Outono de 2013, há cerca
de um ano, já vendeu mais de um milhão e meio de cópias e venceu o Pulitzer
para ficção em Abril deste ano, dividindo a crítica em língua inglesa: os que o
consideram uma sinfonia extasiante, como o escritor Stephen King nas páginas do The
New York Times Book Review, e quem, como o crítico James Wood, o tenha referido
como um livro infantil para adultos no texto que assinou na The New Yorker.
Também já este ano, foi ainda notícia nos principais jornais de língua inglesa
por ter “falhado” a longlist do Booker Prize (o vencedor será conhecido no dia
14 de Outubro) e está na génese de mais uma discussão sobre o futuro da
literatura: o que é um bom romance e quem define essa qualidade.
A
grande comparação é com Charles Dickens. Nas poucas entrevistas que tem dado, a
autora fala de Oliver Twist como o primeiro livro que leu de um
escritor que apresenta como grande referência pela capacidade de envolver o
leitor com uma geografia e uma personagem, dando-lhe a ilusão de uma voz
íntima, da partilha de sentimentos como a alegria ou a tristeza. “O livro vive
dentro da minha cabeça; ia para a escola a perguntar-me como estaria Oliver”,
contou ao The Independent durante a promoção de O Pintassilgo,
referindo-se a um tempo em que devorava livros e que foi o seu grande formador.
(Jornal Público)
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Alabardas - Pré-publicação - Primeiros parágrafos do último livro .
"O
homem chama-se artur paz semedo e trabalha há quase vinte anos nos serviços de
faturação de armamento ligeiro e munições de uma histórica fábrica de armamento
conhecida pela razão social de produções belona s.a., nome que, convém aclarar,
pois já são pouquíssimas as pessoas que se interessam por estes saberes
inúteis, era o da deusa romana da guerra. Nada mais apropriado, reconheça-se.
Outras fábricas, mastodônticos impérios industriais armamentistas de peso
mundial, se chamarão krupp ou thyssen, mas esta produções belona s.a. goza de
um prestígio único, esse que lhe advém da antiguidade, baste dizer-se que, na
opinião abalizada de alguns peritos na matéria, certos apetrechos militares
romanos que encontramos em museus, escudos, couraças, capacetes, pontas de
lança e gládios, tiveram a sua origem numa modesta forja do trastevere que,
segundo foi voz corrente na época, havia sido estabelecida em Roma pela
mesmíssima deusa. Ainda não há muito tempo, um artigo publicado numa revista de
arqueologia militar ia ao ponto de defender que alguns recém-descobertos restos
de uma funda balear provinham dessa mítica forja, tese que logo seria rebatida
por outras autoridades científicas que alegaram que, em tão remotos tempos, a
temível arma de arremesso a que se deu o nome de funda balear ou catapulta
ainda não havia sido inventada. A quem isso possa interessar, este artur paz
semedo não é nem solteiro, nem casado, nem divorciado, nem viúvo, está
simplesmente separado da mulher, não porque ele assim o tivesse querido, mas
por decisão dela, que, sendo militante pacifista convicta, acabou por não
suportar mais tempo ver-se ligada pelos laços da obrigada convivência doméstica
e do dever conjugal a um faturador de uma empresa produtora de armas. Questão
de coerência, simplesmente, tinha explicado ela então. A mesma coerência que já
a tinha levado a mudar de nome, pois, tendo sido batizada como berta, que era o
nome da avó materna, passou a chamar-se oficialmente felícia para não ter de
carregar toda a vida com a alusão direta ao canhão ferroviário alemão que ficou
célebre na primeira guerra mundial por bombardear paris de uma distância de
cento e vinte quilómetros."
Ler
mais:
domingo, 21 de setembro de 2014
A vida dos emigrantes portugueses na Argentina deu um livro.
As docas de Buenos Aires em
Outubro de 1921 — a emigração portuguesa ajudou na construção do país KEYSTONE
VIEW CO/NATIONAL GEOGRAPHIC SOCIETY/CORBIS
Algarvios,
muitos, minhotos e serranos cons-truíram, na primeira metade do século XX, uma
nova vida num país que estava, também ele, a ser ainda construído. De Buenos
Aires à Patagónia. Em Portugal Querido, podemos ler histórias como a de
Yudith, que atravessou o oceano sem saber como era o pai que a esperava no
outro lado do Atlântico.
víamos
em São Brás de Alportel… e o meu pai levava-me a passear todos os dias quando
chegava do trabalho. Eu era a filha mais velha de três irmãos e de um ainda por
nascer… De um dia para o outro, deixei de ver o meu pai e com quatro anos — e
ele apenas com 23 — não podia entender o que tinha acontecido, nem para onde
tinha ido. Ao ficarmos sozinhos, fomos viver para o campo, no sítio Dos
Machados, com a minha mãe Gertrudes, grávida de oito meses. Ela teve de ir
trabalhar, pelo que eu e os meus irmãos ficávamos sozinhos, quase todo o dia.
Começaram a chegar as primeiras cartas. O meu pai pedia que o filho, se fosse
varão, se chamasse Abel. Os dias passavam e eu só via cartas. Numa delas, ele
dizia: ‘Yudith, neste momento, olhando as estrelas, vejo nelas o brilho dos
teus olhos’, palavras que me ficaram gravadas na memória, apesar da minha tenra
idade.”
Yudith
Rosa Viegas recorda, assim, a partida do pai para a Argentina, em 1926. O
reencontro só aconteceria “13 longos anos” mais tarde, quando, em vésperas do início
da II Guerra Mundial, embarcou com a mãe e os dois irmãos (o bebé mais novo,
uma menina que não pôde chamar-se Abel, morreu com apenas oito meses) “num
barco inglês” a caminho de Buenos Aires.
O
destino desta família algarvia e de muitas outras famílias portuguesas foi
recolhido por Mário dos Santos Lopes, jornalista e professor, também ele filho
de algarvios que emigraram para a Argentina, e que lançou, naquele país, o
livro Portugal Querido. A edição de autor, de cinco mil exemplares, já
está a ser revista e ampliada, com novas histórias de uma emigração muito
particular.
Mário
dos Santos Lopes, 55 anos, recusa arcar sozinho com a responsabilidade do
livro. Até porque, explica à Revista 2, quem insistiu para que ele avançasse
com o projecto foi o irmão, Victor, que abriu uma pousada portuguesa, a Pousada
São Brás, em Córdoba. “Estava de férias em Villa General Belgrano, Córdoba, e,
durante uma conversa, o meu irmão Victor disse que gostaria de publicar um
livro em homenagem aos imigrantes. Disse-lhe que sim, que o faria, mas na
realidade não sabia como nem em quanto tempo. Nessa mesma noite, comecei a
procurar contactos de luso-descendentes no Facebook e na Internet, sem saber
onde chegaríamos. A ideia original era termos um livro de cem páginas, algo
muito pequeno”, explica, através de email, o jornalista que vive em Puerto
Deseado, Santa Cruz, na Patagónia argentina.
A tarefa assemelhou-se “às obras de Santa
Engrácia”, lê-se na introdução de Portugal Querido, e só ficaria pronta ao
fim de cinco anos de busca e escrita, tornando-se uma verdadeira empreitada
familiar. Victor foi “o criador e impulsionador da ideia”, Andrea, a irmã mais
nova, “traduziu, corrigiu e deu bons conselhos”. Juan Benjamín Lopes, filho de
Mário, “desgravou os áudios”. Pablo Molina e Ana Laura Lopes, genro e filha,
“puseram o coração e o profissionalismo na artística capa do livro”. O
resultado foi uma obra de 254 páginas com muitas histórias de emigrantes,
algumas referências históricas da passagem portuguesa pela Argentina, umas
curtas histórias e participações de emigrantes lusos noutros países, vários
textos sobre os clubes e associações dedicadas à cultura nacional e relatos de
cantoras argentinas que se apaixonaram pelo fado. O fio condutor do livro é,
contudo, a compilação das memórias das famílias que, deixando Portugal,
encontraram um novo lar na Argentina. (Jornal Público)
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Caminhadas são "comprimido" contra várias doenças.
Caminhar
30 minutos por dia ajuda a prevenir inúmeras doenças relacionadas com o
envelhecimento, desde a diabetes tipo 2, a certos tipos de cancro, passando por
doenças do foro psiquiátrico como a depressão, defendeu esta semana um
investigador britânico no evento British Science Festival, que decorreu em
Birmingham.
Fazer
caminhadas de pelo menos 30 minutos por dia é um exercício simples mas que
funciona de forma quase “milagrosa” ajudando a prevenir o envelhecimento
precoce e várias doenças, disse no encontro o médico James Brown, da School of
Life and Health Sciences da Universidade de Aston (Reino Unido).
Além
de prevenir a diabetes tipo 2, certos tipos de cancro e problemas como a
ansiedade ou a depressão, James Brown revela que este exercício diário ajuda a
reduzir em 40% determinadaslesões,
como as fraturas de anca.
Segundo
avança a imprensa britânica, o especialista defendeu ainda que as caminhadas
diárias podem evitar a progressão da doença de Alzheimer e reforçar as funções
cognitivas, além de reduzirem as dores provocadas pela artrite e de diminuirem
em 23% o risco de morte.
"Comprimido
mágico"
“Estes benefícios não
se verificam nas pessoas que praticam exercício intensivo, como correr em
maratonas ou fazer levantamento de pesos, verificam-se nas pessoas que caminham
todos os dias", afirmou James Brown no encontro de cientistas e
investigadores, referindo-se às caminhadas como "um comprimido
mágico" mais eficaz do que qualquer medicamento.
O
médico salientou os riscos de permanecer sedentário durante um longo período de
tempo, sublinhando que isso pode levar a uma perda de massa muscular que
nunca poderá ser recuperada. Brown avisa que esta situação, normalmente,
reforça a inatividade pelo que deve ser prevenida.
Para
ilustrar este caso, Brown apresentou os resultados de um estudo que comparou a
recuperação de fraturas na perna em dois grupos: um com participantes jovens e
outro grupo com participantes mais idosos.
Durante
o tempo que estiveram com a perna imobilizada, os jovens perderam mais massa
muscular (já que tinham mais músculo) mas recuperaram essa mesma massa muito
mais rapidamente do que o grupo de participantes idosos, que ao fim de oito
semanas ainda não tinha voltado à forma original.
Esta
perda de massa, defende o especialista, pode levar as pessoas mais velhas a
tornarem-se cada vez mais dependentes, além de poder conduzir
a uma condição conhecida como “sarcopenia” que implica uma perda acentuada da
força muscular. (Jornal Boas Notícias)
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Olhos nos olhos com o Chile de Pinochet.
Escuela,
a peça de Guillermo Calderón que chegou esta sexta-feira a Lisboa via Próximo
Futuro, é uma história secreta da violência muito latino-americana com que a
esquerda chilena acreditou poder matar a ditadura de Pinochet à queima-roupa.
Mas também é a história de um teatro disposto a fazer o que a democracia
boicotou – justiça, e pelas suas próprias mãos. Por contraponto, e depois de
tantas visitas, apetece perguntar ao teatro português: de que é que tu estás à
espera?
Guillermo
Calderón (Santiago do Chile, 1971) tinha dois anos em Setembro de 1973, quando
o golpe liderado (mesmo que de óculos escuros) pelo general Augusto Pinochet
mergulhou o Chile numa das muitas longas e aparentemente definitivas noites da
segunda metade do século XX latino-americano – uma noite assombrada pelos
passos cada vez mais indiscretos dos militares e pelos fantasmas cada vez mais
numerosos dos mortos e dos desaparecidos que com o tempo passaram de tragédia a
estatística, para citar outro grande teórico e praticante do extermínio em
massa, o pai dos povos Josef Estaline.
Dois
anos, justifica-se o mais internacional dos novos dramaturgos e encenadores
chilenos, é idade mais do que insuficiente para que possa recordar-se do som e
da fúria dos dias que se seguiram ao 11 de Setembro de 1973 – mas entretanto os
dias passaram e transformaram-se em meses, em anos, em décadas, em vidas.
Guillermo Calderón teve duas – uma em ditadura e outra, a mais recente, em
democracia. Continua, agora que já passaram mais de 40 anos sobre o golpe que
enterrou a experiência de governo popular de Salvador Allende, sem grandes
certezas sobre qual delas lhe parece mais habitável, como confessou ao jornal La
Segunda dias antes da estreia deEscuela em Janeiro de 2013, no
festival Santiago A Mil: “De
certa forma a democracia é mais cruel do que foi a ditadura, porque em última
instância durante a ditadura pelo menos havia uma ilusão.”
Escuela,
que chega a Lisboa esta sexta-feira via Próximo Futuro, o programa
de cultura contemporânea da Gulbenkian (até segunda-feira, dia 8, no Teatro do
Bairro), à frente de mais um pequeno contingente de teatro chileno, é a
história dessa ilusão – à sombra devastadora da desilusão que se seguiu, pelo
menos para os que, como as cinco personagens da peça de Calderón, acreditaram
poder matar a ditadura de Pinochet à queima-roupa, sujando conscientemente as
mãos na violência da guerra psicológica e no sangue da luta armada. Disso sim,
Calderón já se recorda: “Na minha família havia pessoas que estavam
comprometidas com a luta contra a ditadura militar. Eu estava a acabar o
colégio [liceu] e fiz parte da geração dos movimentos estudantis, que no final
dos anos 80 estavam extremamente activos. Confrontávamo-nos permanentemente com
a violência policial nas manifestações – e ao mesmo tempo, paralelamente,
muitos jovens estavam a preparar-se para a guerrilha, na clandestinidade. Mas
nesses anos todos os chilenos estavam expostos à violência. Fazia parte do
quotidiano: num dia morria uma pessoa, no outro rebentava uma bomba ao fundo da
rua”, conta ao Ípsilon por telefone a partir de Santiago do Chile, cidade a que
continua a regressar no final das suas agora bastante recorrentes estadias nos
Estados Unidos e na Europa.
É
como se não conseguisse sair dali – o Chile é o seu passado, e o passado
marcou-o “para sempre”. Tornou-se no presente e no futuro de Guillermo
Calderón, tanto quanto ele o vê daqui – olhos nos olhos, sem óculos escuros.
As personagens de Escuela nunca
mostram a cara, como os militantes da extrema-esquerda do Chile dos anos 80.
Geração perdida
No caso de Escuela, não havia
mesmo como escapar a esse passado – para assinalar os 40 anos do golpe de
Estado, o festival Santiago a Mil encomendou-lhe uma obra que examinasse a
ditadura, e que em certo sentido continuasse o trabalho iniciado mais
subliminarmente uns anos antes, em peças como Neva(2007)
ou Diciembre (2009),
que também vimos por cá, e definitivamente assumido em Villa
+ Discurso (2011), a sua última visita ao Próximo Futuro. É um
trabalho cada vez mais político e cada vez mais radical – a continuação de uma
guerra, só que por outros meios. Não suporta a ideia de voltar a ver políticos
pinochetistas, políticos “que são a encarnação do mal”, a saírem das suas peças
em paz, e a irem beber um copo a seguir, como aconteceu depois de uma
representação de Neva, a sua primeira reflexão sobre o papel do teatro em
tempos de cólera como os da Guerra do Iraque (ou, no caso, da Revolução Russa).
Foi por causa dessa visão infernal – a visão de um teatro absolutamente inútil,
por ironia o próprio tema da peça – que decidiu “radicalizar” ainda mais o seu
trabalho, contou ao New York Times: “Talvez isso me leve a um beco sem
saída, porque haverá um momento em que não poderei ser mais radical. Mas esse
episódio obrigou-me a ser mais abertamente político.” (Jornal Público)
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