terça-feira, 23 de dezembro de 2014
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Artista retrata a sociedade com ilustrações que estão a dar polémica. Veja porquê.
Chama-se
Luis Quiles, é um artista espanhol, e sem medo utiliza a paixão pela arte para
criticar a sociedade. No fundo, "desenha para denunciar".
Com nome
artistítico de Gunsmithcat,
Luis Quiles, marca a diferença pela forma como retrata a sociedade
contemporânea nos seus trabalhos. Com sarcasmo, frieza e sem rodeios,
Gunsmithcat, denuncia temas como aprostituição, a homofobia, a exploração, a
fome, as drogas e as redes sociais.
Numa
entrevista ao jornal italiano Il Fatto Quotidiano, o artista diz que "a tecnologia
mudou a forma como comunicamos. Não quer isto dizer que seja pior do que no
passado. É simplesmente diferente. Por um lado, com a Internet, é mais simples.
Por outro, é também mais fácil de nos isolarmos da realidade".
Quanto
às críticas, Luis Quiles diz que apesar de haver pessoas que
agradeçam e que valorizem o trabalho que faz, e como o faz, há também "quem
não concorde e que o escreva publicamente". Contudo, "é difícil
silenciarem-me".
Para
o futuro, o artista espanhol está a pensar recorrer ao crowdfunding (angariar
fundos para o projecto através da Internet) para publicar um artbook com
todo o seu trabalho. Até lá, vai continuar a "desenhar e
denunciar". (DN – 16.Dez.2014)
sábado, 6 de dezembro de 2014
Tudo o que queremos na vida aborrece-nos na literatura.
O
mexicano David Toscana escreveu um romance que é um delírio quixotesco. O
Exército Iluminadonarra a empreitada delirante e impossível da reconquista do
Texas aos gringos, a bordo de uma carroça.
O
que mais impressiona em O Exército Iluminado, o romance do mexicano David
Toscana (n. 1961), é o delírio quixotesco a que um professor de História e um
grupo de cinco crianças com atraso mental se entregam. Partem da cidade de
Monterrey numa carroça puxada por uma mula para reaver o território do Texas,
perdido para os EUA numa guerra de há mais de um século. “Na minha infância
ainda se viam os buracos das balas nos antigos edifícios coloniais de
Monterrey, a cidade onde cresci”, lembra o autor em conversa com o Ípsilon.
“Brincávamos muito imaginando uma guerra com os EUA, e que no fim conseguíamos
recuperar as terras a Norte do rio Bravo. Venho de uma família em que se
contavam muitas histórias dessa guerra, vinham de geração em geração. Este
romance trouxe-me uma grande nostalgia da infância.”
A
empreitada delirante em que este exército absurdo de crianças se vê envolvido é
organizada por um seu professor, Ignacio Matus, antigo maratonista. Em 1924,
durante os Jogos Olímpicos de Paris, e por não ter dinheiro para viajar para
França, Matus corre pelas ruas de Monterrey a distância da maratona à mesma
hora que a prova decorre em Paris. Com o tempo que faz, ficaria classificado,
caso tivesse ido, em terceiro lugar. Desde essa altura começa a importunar por carta
o atleta americano medalhado para que este lhe envie o troféu (acabará por
recebê-lo 44 anos depois). Mais ou menos entre a alegoria e o delírio épico,
Matus (a quem também chamam general, “o último dos heróis nacionais”) sonha com
a busca do impossível, uma forma de redimir as crianças das suas limitações,
mas também de se redimir a si próprio. “Hoje vi-me à cabeça de um exército de
milhares de homens; íamos em direcção ao Texas, com as botas enlameadas,
murmurando uma canção.” Essa alegoria leva também à rebeldia, e o gordo rapaz
Comodoro anuncia aos colegas de escola na sala de aulas: “Meninas e
cavalheiros, estamos perdidos, não temos outro remédio senão ir apanhar
gringos.”
O
fracasso e a melancolia são temas comuns aos anteriores romances de David Toscana, O
Último Leitor e Santa Maria do Circo (ambos publicados pela
Oficina do Livro). “A literatura deve falar do fracasso, da dor, da morte, de
tudo o que não queremos que esteja presente na nossa vida. A literatura precisa
de conflito para que no fim haja pelo menos a ambígua possibilidade de uma
redenção”, diz Toscana. “Não gosto de romances policiais porque sei que o crime
vai ser desvendado. Interessa-me mais a história de um detective fracassado,
que entra em crise, que não consegue resolver o mistério, encontrar o culpado.
Os meus romances terminam de uma maneira um pouco ambígua, mas as personagens
já lograram qualquer coisa.” Em O Exército Iluminado, em que a derrota é
uma constante, os perdedores são levados ao limite por um sonho, e de certa forma
é isso que os redime.
O
poder da linguagem
A
linguagem deste romance é clara e directa, cuidada, impondo um ritmo constante
à acção, conseguindo alternar passado e presente, quase dissimulando as
fronteiras entre os diálogos e as descrições, os pensamentos e as geografias.
Ao leitor cabe ir juntando os pontos de vez em quando. Este domínio da escrita
é uma das virtudes da obra de David Toscana, para quem “a linguagem é a
literatura”. “Não uso a linguagem para contar alguma coisa, conto uma história
para usar a linguagem. Como leitor interessa-me também sobretudo a linguagem. A
história contada pode ser muito interessante, mas se a linguagem não me seduz,
abandono-a”, diz. O seu uso obedece, nos romances de Toscana, à percepção
estética que o autor tem da personagem e à que quer passar ao leitor, daí ter
de ser tão eficiente. “A linguagem é o que dá mais trabalho ao escritor, e é o
que a maioria dos leitores menos nota, poucos são os que sublinham os livros
pela linguagem.”
Mais
do que um modelo, o Dom Quixote de Cervantes é a inspiração dos
romances de David Toscana. Isso era bem visível em O Último Leitor, que
trata de um Quixote que lê e que conhece o mundo através dos livros. As
aventuras imaginárias enchem também O Exército Iluminado, mas é sobretudo
o seu heroísmo trágico, tão quixoteano, o ponto central. “O Dom Quixote fez-me
como escritor”, confessa Toscana, “foi depois de o ler que decidi ser escritor.
O Quixote é por vezes descuidado com a linguagem, por causa das
repetições, mas muito cuidado quanto ao ritmo e às imagens, o que é uma forma
criativa de usar a linguagem.”
Para
além das influências de Cervantes, Toscana confessa-se fascinado pelas
personagens um pouco loucas de Juan Carlos Onetti, pela falta de lógica, pela
atmosfera opressora e sem saída dos seus contos. Mas também pelos romances do
chileno José Donoso e pelas suas personagens desadaptadas, e pela capacidade de
dizer muito em poucas palavras da escrita de Tchékhov. “Aprendo muito com
eles”, diz, sublinhando porém que os escritores de quem mais se gosta “não são
necessariamente os que mais nos influenciam.”
Mais
do que a verosimilhança de uma história, é o poder de sedução dessa mesma
história que interessa a David Toscana. Não exige – e isso é evidente neste seu
romance em que um grupo de crianças parte para desafiar os “gringos” – que a
história seja verosímil, que respeite a lógica. E dá o exemplo de A
Metamorfose, de Kafka: “O que faz Kafka para que a história seja verosímil?
Nada. Se tentasse que aquilo fosse verosímil, deitava tudo a perder. Imagine-se
que recorria a explicações com o DNA e as mutações para explicar como Gregor
Samsa se transforma num insecto. O que interessa é o que seduz.” (Jornal Público)
domingo, 30 de novembro de 2014
O dia em que o cante saltou do Alentejo para a eternidade.
Há
21 meses que trabalhavam na candidatura e ontem foi o dia de ouvir o
"sim". Com lágrimas, nervosismo e louvores
"A
minha senhora ligou-me logo a dizer que já tinham rebentado os foguetes",
diz Carlos Paraíba, ensaiador do grupo coral da Casa do Povo de Serpa, ao
telefone, de Paris, horas depois de saber que o cante alentejano já faz parte
da lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade. A mulher estava
em Serpa, cidade que promoveu a candidatura do género musical. A confirmação chegou ontem, pouco passava das 10.00 (mais
uma hora em França). À emoção do momento juntaram-se as lágrimas dos 22 homens
que se apresentaram ao Comité Intergovernamental da UNESCO e cantaram Alentejo
Alentejopara mais de 100 delegações internacionais. "Estava tudo muito
comovido, nas era a chorar de alegria", explica.
Carlos
Arruda, 28 anos, lançou a moda, na qualidade de ponto do grupo coral da Casa do
Povo de Serpa. "Foi um misto de sentimentos", conta." Orgulho,
alegria, sentido de responsabilidade, um pouco de nervosismo...". É um dos
mais jovens elementos, e já canta desde os 13 anos, caso raro entre os
cantadores.
Ele
e a comitiva deveriam voltar a Portugal da mesma maneira que chegaram a Paris
na segunda-feira: de autocarro. No entanto, já depois de terem recebido a
confirmação da Unesco, a TAP ofereceu a passagem de regresso aos membros
do grupo e responsáveis da candidatura. E a primeira atuação aconteceu em Orly antes de embarcar no
Voo do Cante, nome dado à viagem. (Diário de Notícias)
domingo, 23 de novembro de 2014
Volta à História de Portugal com Fernando Rosas.
O
século XX português, entre o Regicídio (1908) e o 25 de Abril de 1974, visto a
partir da Rua do Arsenal, é o tema do episódio inaugural da série televisiva História
a História, que este domingo começa a ser exibido na RTP Internacional. O autor
é Fernando Rosas, que nesta sua volta a Portugal diz sentir-se bem mais
confortável do que quando correu o país em campanhas políticas e eleitorais.
Uma
camisa (verde, nesse dia) debaixo dos tradicionais suspensórios (que também vão
variando de cor), o gesto largo e expressivo, a palavra fácil e clara de
professor, o à-vontade bem conhecido de tantas presenças televisivas… É com
esta imagem que, a partir deste domingo, o historiador Fernando Rosas (n.
Lisboa, 1946) vai entrar nas nossas casas com a série História a História.
Numa primeira fase, o conjunto de 13 episódios vai ser exibido, semanalmente,
no horário nobre da RTP Internacional, e na RTP África (30 de Novembro); em
Janeiro entrará também na grelha da RTP nacional.
“Em
cada episódio vamos contar uma história a partir de um lugar, de uma
actividade, de uma personagem ou de um conjunto delas”, explica Fernando Rosas
na apresentação que faz ao PÚBLICO, no meio de mais um dia de filmagens, em
Ílhavo, desta sua experiência nova no formato documental televisivo.
O
primeiro episódio tem por título Rua do Arsenal, uma História Política do
Século XX. Com base nesta rua da Baixa de Lisboa nascida da reconstrução
pombalina, Fernando Rosas conta a história do século XX português, desde o
Regicídio de 1908 até ao 25 de Abril de 1974, passando pela implantação da
República, pelas revoltas, revoluções e episódios mais ou menos sangrentos das
primeiras décadas do século, e também pela consolidação do Estado Novo e pelos
discursos de Salazar na Sala do Risco do Arsenal. “É impressionante como uma
simples rua foi palco de tantos acontecimentos, e tão marcantes, da nossa
história contemporânea”, realça.
História
a História resulta de um convite da RTP, a que o historiador “não podia
dizer que não”. Elencou 13 temas, 13 histórias da História de Portugal, com a
“preocupação de a aproximar do grande público”.
A
meio da última semana, Fernando Rosas e a sua pequena equipa de sete pessoas –
dirigida pelo jovem produtor (GardenFilms) e realizador Bruno Morais
Cabral – percorriam numa autocaravana as margens da Ria de Aveiro a
registar imagens e testemunhos sobre a pesca do bacalhau. O PÚBLICO acompanhou
o segundo de dois dias de rodagem das imagens actuais que farão o nono episódio
da série, Faina Maior, a pesca do bacalhau. Primeiro, no interior do
arrastão “Santo André” (construído na Holanda, em 1948), que no antigo Forte da
Barra (agora Jardim Oudinot) perpetua a memória dessa faina mítica como uma
extensão do Museu Marítimo de Ílhavo; depois, já dentro do museu, frente ao
aquário de bacalhaus – “um dos peixes mais estúpidos que há, por isso fácil de
pescar”, comentava –, Fernando Rosas evoca, explica e desmonta o processo e o
imaginário associado a esta faina que ocupa um lugar à parte na história do
país. “Deixando de parte a questão de saber quem é que chegou primeiro à Terra
Nova, a verdade é que Portugal estava lá já no século XVI, com os seus barcos
de pesca”, diz o apresentador percorrendo o velho barco, agora “envernizado” a
azul-e-branco para objecto de museu.
Na
véspera, o cenário para esta viagem às memórias da faina tinha sido o belíssimo
lugre “Santa Manuela”, no interior do museu de Ílhavo. “Havia uma mística
ideológica criada pelo Estado Novo em volta da pesca do bacalhau, que incluía,
por exemplo, um Bispo do Mar que benzia os barcos à partida para a Terra Nova”
– explica-nos o historiador –, “e que era apresentada como a continuação da
gesta dos Descobrimentos”. As razões que tornaram o “projecto do bacalhau"
totalmente anacrónico ainda durante o governo de Salazar, e as mudanças que a
liberalização das pescas, nos anos 60, e depois o 25 de Abril trouxeram ao
sector são também elucidados pelo cicerone deHistória a História – que
para este episódio teve como consultor Álvaro Garrido, director do Museu
Marítimo de Ílhavo e um grande especialista do tema.
Filmar
com drones
Além
de entrevistas e testemunhos, cada episódio da série é feito com filmes de
arquivo, fotografias e outros documentos, além das imagens filmadas agora nos
cenários relacionados com cada tema – com recurso, inclusive, adrones, como se
poderá verificar nas vistas aéreas da Rua do Arsenal, no primeiro episódio.
“Mesmo se falamos de História, o nosso desafio é produzir um conteúdo
contemporâneo, dinâmico, que capte a atenção dos espectadores”, diz Bruno
Morais Cabral. O documentarista formado na Escola de Teatro e Cinema de Lisboa
e autor de Praxis (melhor
curta-metragem do DocLisboa de 2011) assume, no entanto, que a
presença de Fernando Rosas é o principal trunfo do programa.
É,
de facto, notório o à-vontade com que o político e ex-deputado do Bloco de
Esquerda enfrenta a câmara. O desafio maior, nas filmagens na Ria de Aveiro,
era mesmo manter-se penteado perante o vento forte que soprava nessa manhã de
sol. Recorrendo às tradicionais fichas de professor, que a anotadora Raquel
Bagulho lhe ia passando sempre que necessário, Fernando Rosas assume a câmara
de televisão como uma extensão da sua profissão. “Sou professor, gosto de
comunicar”, diz. Essa facilidade faz lembrar a presença televisiva de um José
Hermano Saraiva. Uma associação que Fernando Rosas aceita, de resto. “O Hermano
Saraiva era um magnífico comunicador, um homem com uma telegenia invulgar”,
diz, assumindo que visionou vários dos seus programas, e outros do género, para
“aprender, e para perceber como é que se tem feito História na televisão”. (Jornal Público)
domingo, 16 de novembro de 2014
Senhoras e senhores, apresentamo-vos o "padeiro dos livros".
Nove
mil livros e 30 anos depois, Alberto Casiraghi, poeta, pintor, músico,
construtor de violinos e impressor, tem a sua primeira exposição em Portugal.
Chama-se "9000 Formas da Felicidade: as edições Pulcinoelefante".
Uma gravura baseada no famoso quadro de Goya, "Três de Maio de 1808 em Madrid", assinada por Luciano Ragozzino. Fotografias de Marylin Monroe coladas sobre uma mão de papel e uma fotografia também da atriz, provavelmente recortada de um jornal ou revista, com números pintados sobre o papel. Um poema de Rainer Maria Rilke, o poeta alemão, escrito em italiano. Três fotografias de Alda Merini (1931-2009), a escritora italiana que teve a admiração de artistas como Pasolini, Salvatore Quasimodo e Giorgio Manganelli, e foi vencedora em 2003 do Premio Librex Montale, que reconhece poetas italianos contemporâneos. É ela, aliás, que assina alguns dos livros expostos (mas já lá vamos).
Uma gravura baseada no famoso quadro de Goya, "Três de Maio de 1808 em Madrid", assinada por Luciano Ragozzino. Fotografias de Marylin Monroe coladas sobre uma mão de papel e uma fotografia também da atriz, provavelmente recortada de um jornal ou revista, com números pintados sobre o papel. Um poema de Rainer Maria Rilke, o poeta alemão, escrito em italiano. Três fotografias de Alda Merini (1931-2009), a escritora italiana que teve a admiração de artistas como Pasolini, Salvatore Quasimodo e Giorgio Manganelli, e foi vencedora em 2003 do Premio Librex Montale, que reconhece poetas italianos contemporâneos. É ela, aliás, que assina alguns dos livros expostos (mas já lá vamos).
Mais
à frente, entra-se no chamado "Núcleo: Alberto em Portugal". Uma
fotografia a preto e branco de Manuel Alegre, vestido de fato. E um desenho de
um homem deitado com uma monumental letra "M" junto à sua cabeça,
parecendo decapitá-lo, e que segundo o programa da exposição é do livro de
Alberto Pimenta, o escritor português, feito e escrito por ele. Miguel Martins,
Luís Manuel Gaspar, Manuel de Freitas. Outros nomes da poesia portuguesa
contemporânea que aparecem destacados. O 91 da exposição é de Vasco Graça
Moura, é de 2013, e tem uma dedicatória sua na capa que diz assim: "Na
verdade, o poema é um ruído modelado de gente".
Chama-se
"9000 Formas de Felicidade: as edições Pulcinoelefante", é dedicada a
Alberto Casiraghi, poeta, pintor, músico, construtor de violinos e impressor, e
inaugurou no final de outubro na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa,
onde fica até 31 de janeiro.
É
a primeira exposição em Portugal dedicada a Alberto, que prefere, no entanto,
ser conhecido como o "padeiro de livros", e o "único padeiro que
trabalha durante o dia". Há uma boa razão para isto: desde 1992, tem
feito, em média, mais de um livro por dia. Atualmente, são mais de nove mil.
Os
livros "belos e simples" do mestre Alberto
Em
1982, depois de ter sido despedido da tipografia onde trabalhava, uma grande
casa em Milão que imprimia jornais, Alberto Casiraghi decidiu construir a sua
própria oficina, a que deu o nome de Pulcinoelefante. Fê-lo em casa, na cidade
de Osnago, em Itália, onde nasceu. Fala-se muito dessa tarde ventosa e de um
primeiro livro dado à estampa nesse dia: "Una Lirica. Una Immagine",
de um escritor chamado Marco Carnà. No ano seguinte, 1983, foram lançados mais
quatro livros, três com textos do próprio Casiraghi (assinados, não sabemos, se
por ele, se por um dos seus três pseudónimos) e o outro da autoria de Gaetano
Neri, também ilustrados por Carnà, em conjunto com Pierluigi Puliti e Gianni
Maura. Em 1984, sete, e no ano seguinte, nove. Ao fim dos primeiros dez anos,
estavam feitos 236 livros, ou 236 "pulcinos", nome por que são
chamados.
Mas
o que são, afinal, os "pulcinos"? A descrição oficial diz assim: são quatro
ou seis folhas de papel Hahnemühle, tamanho A4, dobradas em A5. Contêm um
aforismo ou um pequeno poema impresso em carateres móveis, e uma ilustração,
que tanto pode ser uma impressão digital dos desenhos de Alberto, uma
xilografia, águas-fortes, litografias, fotografias, colagens, desenhos e
pinturas com todas as técnicas, ready-made, esculturas, entre outras
intervenções. As tiragens vão de 15 exemplares a 30 ou 35, numerados
sequencialmente.
A
descrição não-oficial é esta que nos traz Catarina Figueiredo Cardoso,
comissária da exposição, e responsável por outros projectos anteriores na área
da edição independente e livros de artista. Distingue nos "pulcinos"
a "beleza e a aparente simplicidade". Do ponto de vista tipográfico, assegura
que são "impecavelmente bem feitos". "O que torna o Alberto
diferente é a consistência da sua prática e a mestria com que a utiliza. Há
muitos problemas na utilização dos tipos móveis: gastam-se, partem-se, as
máquinas desafinam e avariam, todo o material envolvido é caro e a sua
utilização é difícil e implica muita prática. Ora o Alberto tem tudo: foi
tipógrafo de tarimba, tem imensos tipos, tem a máquina e sabe concertá-la se
for preciso. É por isso que ele se distingue dos restantes impressores".
A
técnica que nasceu na China antes de Cristo
O
primeiro sistema de impressão a partir de tipos móveis (letras, símbolos e
sinais de pontuação individuais), feito em porcelana chinesa, é atribuído a Bi
Sheng (990-1051 AD), e terá sido criado por volta de 1040 A.D., na China.
Quando, cerca de 200 anos depois, a técnica começou a ser usada na Coreia, os
tipos móveis passaram a ser feitos em metal. "Jikji" (1377), ou
"Antologia de ensinamentos zen pelos grandes sacerdotes budistas",
documento budista coreano, é o mais antigo livro imprimido com o uso desta
técnica, título que a UNESCO confirmou em 2001, tendo incluído o livro no
programa "Memory of the World", destinado a preservar documentos e
arquivos de grande valor histórico.
Por
volta de 1450, os tipos móveis voltariam à mó de cima (eram caros e exigiam
muita mão-de-obra e isso teve consequências), com a impressão da Bíblia por
Johannes Gutenberg, na Europa, a partir de um sistema que o próprio inventou, e
que superava em larga medida os antigos modelos. Como se passou para a
impressão em línguas europeias (número mais limitado de carateres), a técnica
tornou-se rentável e foi, dito de uma forma abreviada, um sucesso. Mais tarde,
já no século XIX, com a invenção da composição mecânica e seus sucessores,
acabaria por entrar em declínio.
Cabras,
coelhas e galinhas, e máquinas grandalhonas
Numa
das fotografias dos livros em exposição, Alberto surge acompanhado de uma
cabra. Ao vê-la, lembramo-nos das imagens do editor e tipógrafo, arrumadas em
vídeos (no youtube), que nos trazem essa outra realidade de um quintal cheio de
cabras e coelhos e galinhas, e uma casa aparentemente pequena cheia de máquinas
grandalhonas que já ninguém parece saber ao certo para que servem, e livros,
muitos livros, atrás das portas de vidro dos armários altos ou ali mesmo à mão
de semear.
É
nessa casa que Alberto continua a receber visitas, artistas, poetas e
ilustradores, que ali vão "para lhe ditarem os textos e ajudarem a fazer
os livros, cortar o papel e coser as páginas", explica Catarina. E foi também
nessa casa que recebeu a escritora italiana de que falávamos, Alda Merini,
amiga e colaboradora. Catorze dos 110 livros expostos são dela. Parece pouco,
mas há outra história por detrás disto, que podemos arriscar, embora com
palavras que não são nossas, contar assim: "A amizade e consequente
colaboração com Alda Merini conduziram ao aumento alucinante no número de
livros produzidos, e à enorme projeção de Alberto e da sua editora em Itália,
nos Estados Unidos e no Japão". A escritora deu, ainda segundo essas
páginas que acompanham a exposição, "uma dimensão inesperada à
Pulcinoelefante".
O
mestre Alberto em Portugal
Em
2013, Alberto vinha pela primeira vez a Portugal, a convite de Catarina.
"Achei importante dar a conhecer aos meus amigos portugueses que se
dedicam à edição a obra de um dos expoentes da arte da composição tipográfica
com tipos móveis".
Nesse
ano, fez um workshop no Homem do Saco, um dos ateliers que, segundo Catarina,
continua a dedicar-se à técnica de impressão em tipos móveis. A outra é a
Oficina do Cego, também em Lisboa. Desse workshop resultaram quatro
"pulcinos" sob a supervisão direta de Alberto, que deram aos
tipógrafos e artistas portugueses envolvidos (alguns têm agora expostos os
livros que fizeram) a motivação necessária para, a partir daí, dedicarem-se à
"criação de edições artísticas inovadores e imaginativas que os
singularizam no panorama da edição independente."
Mas
a ligação de Alberto a Portugal é bem mais antiga. Em 1993, fazia o primeiro
livro de um escritor português. É lançar um palpite e acertar, senão à
primeira, pelo menos à segunda. Sim, foi mesmo de Fernando Pessoa, mas esse não
está entre os que viajaram de Itália para Portugal. Vai ter de ficar para a
próxima.
domingo, 9 de novembro de 2014
Romance de estreia de Ana Margarida de Carvalho ganha Grande Prémio da APE.
História
que cruza a geração dos resistentes ao fascismo com a que cresceu em
democracia, Que Importa a Fúria do Mar foi eleito por unanimidade
entre mais de uma centena de romances.
Que
Importa a Fúria do Mar, de Ana Margarida de Carvalho, venceu o Grande Prémio de
Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), tendo sido
escolhido por unanimidade, entre os 107 livros admitidos a concurso, por um
júri composto por José Correia Tavares, Annabela Rita, Cândido Oliveira
Martins, José Manuel de Vasconcelos, Teresa Carvalho e Vergílio Alberto Vieira.
Romance
de estreia da autora, a acção de Que Importa a Fúria do Mar(Teorema, 2013)
inicia-se em 1934, após a célebre revolta operária de 18 Janeiro desse ano, na
Marinha Grande, e parte de uma cena em que um homem lança um maço de cartas da
janela de um comboio, esperando que alguém as faça chegar à mulher para quem
foram escritas. O homem, que se chama Joaquim, foi detido na sequência da
revolta de 1934 e irá integrar a leva de prisioneiros políticos que inaugura o
campo do Tarrafal, em Cabo Verde.
Muitos
anos depois, Joaquim será entrevistado por uma jornalista, Eugénia, na qual se
adivinha um alter-ego da autora, que trabalha actualmente na revista Visão,
e que já tinha uma longa carreira na imprensa (reconhecida com vários prémios)
quando se aventurou a escrever o seu primeiro romance. Após ter estado entre os
finalistas do prémio LeYa, Que Importa a Fúria do Mar ganhou agora o
da APE, no valor de 15 mil euros, um prémio estreado em 1982 com A Balada
da Praia dos Cães, de José Cardoso Pires, e entre cujos anteriores vencedores
se conta também o pai da Ana Margarida Carvalho, o romancista Mário de
Carvalho, premiado em 1994 pelo romanceUm Deus Passeando pela Brisa da Tarde.
Entrevistada
para o PÚBLICO por Isabel Lucas, por ocasião do lançamento de Que
Importa a Fúria do Mar, um livro que cruza a geração dos resistentes
ao fascismo com a que já iniciou a sua vida adulta em democracia, Ana Margarida
Carvalho falava com entusiasmo do prazer que fora experimentar a “imensa
liberdade na forma” que a ficção permite, por contraste com a escrita
jornalística, mas mostrava também um desarmante, e hoje cada vez mais raro,
espírito autocrítico, afirmando, por exemplo, que ficava contente se as pessoas
gostavam do livro, mas que lhe parecia “cheio de imperfeições”, e que evitava
relê-lo para não ver alguns “erros de principiante” que achava ter feito. E
quantos escritores confessariam como ela, sem rebuço, que gostam de dicionários
e escrevem com eles por perto? A sorte de autora foi não ter sido chamada a
julgar em causa própria, ou teria ganho na mesma o prémio da APE, mas não
decerto por unanimidade.
Prémios
Pen Clube
Também
o Pen ClubePortuguês anunciou esta quinta-feira os prémios PEN para obras
publicadas em 2013, cujos júris optaram por escolher dois vencedores ex
aequo em todas as categorias à excepção da de Ensaio, conquistada pelo
livro Para que Serve a História? (Tinta-da-China), do historiador
Diogo Ramada Curto, também crítico do PÚBLICO. Gastão Cruz e Golgona Anghel
dividiram o prémio de poesia, respectivamente com Fogo(Assírio &
Alvim) e Como Uma Flor de Plástico na Montra de Um Talho(Assírio &
Alvim), e o de narrativa foi atribuído ex aequo a Ana Luísa
Amaral, por Ara (Sextante) e Bruno Vieira Amaral, pelo romance As
Primeiras Coisas(Quetzal). Também na categoria de primeiras obras, o prémio foi
dividido, consagrando Ensaio sobre o Pensamento Estético de Adorno (Vendaval),
de João Pedro Cachopo, e o livro de poemas Cinza (Tinta da China), de
Rosa Oliveira.
João David Pinto-Correia, Fernando Martinho e
Pedro Eiras compuseram o júri de poesia, Maria João Cantinho, Paula Morão e
Nuno Crespo o de ensaio, e o de narrativa incluiu Teresa Salema, Vítor Viçoso,
Filipa Melo. O prémio para primeiras obras é atribuído por elementos dos júris das categorias anteriores. (Jornal Público)
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