quarta-feira, 25 de março de 2015

Morreu Herberto Helder, a voz mais fulgurante da poesia portuguesa.


Morreu na segunda-feira o grande mago da poesia portuguesa actual. Herberto Helder tinha 84 anos e publicara há pouco A Morte Sem Mestre, livro onde se mostrava a morrer, mas ainda tocado por esse poder criador que o tornou único.
O poeta Herberto Helder morreu esta segunda-feira na sua casa de Cascais, aos 84 anos, e apenas alguns meses após o lançamento de A Morte Sem Mestre (2014), um ofício de trevas, irado e irónico, e às vezes de uma crueza sem bálsamo: “e eu que me esqueci de cultivar: família, inocência, delicadeza,/ vou morrer como um cão deitado à fossa!”. Outras vezes sabendo que os seus misteriosos dons criadores ainda não o tinham deixado de todo: “(…) a morte faz do teu corpo um nó que bruxuleia e se apaga,/ e tu olhas para as coisas pequenas/ e para onde olhas é essa parte alumiada toda”.
Como Pedro Mexia refere na sua reacção à morte do poeta, não tardará a tornar-se pacífico que Herberto Helder é o poeta central da segunda metade do século XX, como Pessoa o foi da primeira. Mas é uma centralidade que é ao mesmo tempo uma anomalia, porque a mágica e bárbara linguagem de Herberto, mesmo na sua versão atenuada dos últimos livros, parece vir do fundo dos tempos e ter nascido por engano nesta modernidade.
Não há na poesia portuguesa pós-Pessoa nenhum poeta que tenha exercido um tal poder de atracção e gerado tantos epígonos. E nenhum mais absolutamente impossível de imitar com proveito.
Quem leu desprevenidamente esses primeiros livros de Herberto, nos anos 60 e 70, há-de ter experimentado essa sensação de que a poesia só podia ser aquilo. Foi sempre esse o maior e mais estranho dom de Herberto Helder: convencer-nos (ainda que injustamente) de que escreve directamente em poesia, como se a poesia fosse a sua língua materna, e todos os outros poetas se limitassem a traduções mais ou menos conseguidas de um idioma perdido de que só ele detinha a chave.
Nada poderia estar mais longe desta pós-modernidade culta, enfadada, cínica e céptica, do que o entendimento que Herberto tinha da poesia. Numa extraordinária entrevista que concebeu para uma revista galega e que o PÚBLICO divulgou em 1990, ele próprio escreve: “(…) o poema é um objecto carregado de poderes magníficos, terríficos: posto no sítio certo, no instante certo, segundo a regra certa, promove uma desordem e uma ordem que situam o mundo num ponto extremo: o mundo acaba e começa”. Herberto Helder não vinha entreter ninguém, vinha para viver aquilo a que um dia chamou, com inteira propriedade, a sua vida verdadeira.
Apenas um ano antes de A Morte Sem Mestre, que assinalou a passagem da sua obra para a Porto Editora, o poeta lançara em 2013, na Assírio & Alvim, o livro Servidões. Mas fora sobretudo com A Faca Não Corta o Fogo (2008) que se tornara um caso de consenso crítico quase absoluto.

O maior depois de Camões


“Herberto Helder foi um poeta poderoso, a sua obra foi um centro de atracção e um horizonte em relação ao qual todos os seus contemporâneos tiveram de se situar”, diz o crítico António Guerreiro. “Como antes tinha acontecido com Fernando Pessoa, também houve um ‘efeito Herberto Helder’”.
Visivelmente emocionada com a notícia da morte de Herberto Helder, a escritora Maria Velho da Costa disse ao PÚBLICO que “morreu o maior poeta português depois de Luís de Camões”. A romancista, que vê em A Morte Sem Mestre “um longo poema, belíssimo”, conclui com um apelo: “Se as minhas palavras tivessem alguma influência, eu propunha um dia de luto nacional”. 
“Quando morre um poeta com a dimensão de Herberto Helder, o que sentimos é que não apenas morreu um poeta mas a poesia”, declarou ao PÚBLICO o poeta madeirense José Tolentino Mendonça. “Nestes casos o luto torna-se insuportável e, ao mesmo tempo, este luto faz-nos perceber que Herberto Helder é imortal com a sua obra. Daqui a mil anos, se subsistir um falante de língua portuguesa, a poesia de Herberto Helder subsistirá”.
Num testemunho recolhido pela agência Lusa, o crítico e poeta Pedro Mexia considera que “o lugar de Herberto Helder na literatura portuguesa equivalerá ao de Fernando Pessoa na primeira metade do século XX”, algo que, acrescenta, “se começou a dizer há algum tempo e que se tornará, com o tempo, uma coisa pacífica, sem prejuízo dos grandes poetas da geração dele”.
Desde O Amor em Visita, ainda no fim dos anos 50, até A Morte sem Mestre, já em pleno século XXI, a produção escrita de Herberto Helder criou um universo em permanente expansão e revisão, um poema contínuo constantemente reescrito. Cuja última formulação ficou agora irremediavelmente fixada pela sua morte nos recém-lançados Poemas Completos (Porto Editora, 2014), um título, aliás, algo desconcertante para quem nunca parece ter visto na sua obra uma sucessão discreta de poemas autónomos e fechados.

Se é inegável que Herberto Helder é hoje um poeta muito conhecido, a ponto de cada novo livro se esgotar num ápice – o que não quer necessariamente dizer que tenha assim tantos leitores –, nunca alimentou essa notoriedade com a exibição da sua pessoa civil. Já na sua poesia, pode dizer-se que os seus últimos livros assinalam uma inflexão marcada por uma mais nítida e declarativa dimensão autobiográfica, com todas as cautelas que a palavra exige quando aplicada a um poeta. (Jornal Público – 25.Mar.2015)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Há cem anos o terramoto Orpheu virou do avesso a literatura portuguesa.


Na primeira metade do século XX português não houve escassez de revistas literárias importantes e duráveis, como a Águia (1910-1932) ou a Presença(1927-1940), para citar apenas duas. Mas é hoje surpreendentemente consensual que a mais influente e icónica de todas foi uma efémera publicação de que apenas saíram dois números no primeiro semestre de 1915. Chamou-se Orpheu e foi recebida pela imprensa da época com títulos como “Literatura de Manicómio”, “Os Poetas do Orpheu e os Alienistas” ou “Orpheu no Inferno”.
Decorrido um século, o centenário do lançamento do primeiro número deOrpheu, que terá saído da gráfica a 24 de Março de 1915, vai ser evocado por estes dias em colóquios, exposições, lançamentos, leituras públicas e outras iniciativas. Tudo somado, não é de mais, já que Orpheu não foi apenas um terramoto que deixou irreconhecível a paisagem literária portuguesa da época, foi também, enquanto gesto fundador do nosso modernismo, o início de uma aventura criativa que atravessou todo o século XX e que só agora começa a dar sinais de esgotamento. E foi ainda, sobretudo no seu segundo número, a materialização mais significativa da colaboração entre dois génios criativos: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Sem eles, poderia ter existido Orpheu, mas dificilmente estaríamos hoje a celebrar o seu centenário.
No plano académico, o momento mais significativo destas comemorações é o grande colóquio luso-brasileiro 100 Orpheu, que decorre em Lisboa, na Gulbenkian e no Centro Cultural de Belém, entre os dias 24 e 28, e que terá depois uma etapa brasileira em São Paulo, no final de Maio. Com pessoanos de várias gerações e proveniências, de Eduardo Lourenço ou Teresa Rita Lopes a Richard Zenith, Steffen Dix e Jerónimo Pizarro, o congresso começou com um aperitivo portuense na Fundação Eng.º António de Almeida, que inaugurou ontem o colóquio Orpheu e o Modernismo Português e a exposiçãoMemória d’Orpheu.
Na Biblioteca Nacional, abre no dia 24 a exposição Os Caminhos de Orpheu, organizada por Richard Zenith, que mostra o percurso da revista desde os seus antecedentes até às posteriores tentativas de Pessoa para ressuscitar o projecto. A par de muitos outros materiais que documentam a história deOrpheu, e não esquecendo a importância que as artes plásticas e gráficas tiveram no movimento, a exposição inclui vários papéis inéditos, incluindo documentos que demonstram que o envolvimento de Pessoa na produção do célebre número zero da revista Contemporânea, em 1915, foi muito mais decisivo do que se pensava.
Ocupando vários espaços da Casa Fernando Pessoa (CFP), inaugura-se a 25 a exposição Os Testamentos de Orpheu, de Pedro Proença. E a CFP está ainda a desenvolver com o Instituto Camões (IC) uma outra mostra – Nós, os de Orpheu –, que circulará em Portugal e na rede internacional do IC. E, a partir de 28 de Março, propõe-se fazer regressar Orpheu aos cafés onde o projecto foi pensado e discutido, convidando actores a ler textos que convoquem “o espírito do grupo” que fez a revista.

Mais discretas mas não menos importantes, duas iniciativas editoriais assinalam o centenário de Orpheu: 1915 – O Ano do Orpheu, com organização de Steffen Dix, uma belíssima edição da Tinta-da-China (a capa inspira-se no grafismo do segundo número de Orpheu). O livro acabou de ser lançado e reúne textos de mais de 20 investigadores, contextualizando o surgimento da revista, abordando as experiências afins noutras literaturas europeias e tratando individualmente os “órficos” mais relevantes. Em Abril, a Assírio & Alvim lançará, na colecção Pessoa Breve, o volume Sobre Orpheu e o Sensacionismo, co-organizado por Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. (Jornal Público)

sábado, 14 de março de 2015

Tragam os corpos!


Rolam cabeças e ninguém está a salvo, nos romances e nos contos de Hilary Mantel. A sua peculiar atracção pelos cenários labirínticos e violentos, onde a intriga e as distorções da realidade são colocadas como armadilhas no decorrer de acontecimentos aparentemente banais, faz dela uma escritora peculiar, hábil na manipulação de personagens, situações e ambientes que deixam um rasto amargo mas sinistramente cómico. Depois de uma já longa carreira literária, e do compreensível sucesso de Wolf Hall e Bring up the Bodies (O Livro Negro, em português), dois romances históricos de uma trilogia — que ficará completa neste ano (2015) — em torno da figura de Thomas Cromwell e que lhe valeram dois prémios Booker, Mantel resolveu publicar estas histórias, demonstrando, como uma malabarista demoníaca e travessa, a capacidade para abordar os temas clássicos — casamento, família e sexo, diferenças entre géneros e classes — de uma forma, no mínimo, bizarra. Na realidade, Mantel está tão perfeitamente à vontade na movediça, perigosa e viciosa corte de Henrique VIII como no ambiente inseguro e repleto de ciladas do que tem sido o universo caótico das últimas décadas.
Nestes contos, comparáveis aos do seu contemporâneo Ian McEwan no que diz respeito ao que existe de macabro, sombrio e desviante no ser humano, Mantel mostra ser, também, uma discípula de Edgar Allan Poe, quando traz para o quotidiano um ambiente de permanente ameaça, irracionalidade e ambiguidade.
As narrativas são bastante curtas e a autora confere-lhes um carácter pessoal, não no sentido estritamente autobiográfico mas sim como se tudo o que descreve fosse uma anedota privada, algures num espaço paralelo, tanto temporal como físico, distorcido pela imprevisibilidade e observado a partir de uma visão desfocada e alucinatória. O primeiro conto, Desculpe incomodar, é um bom exemplo: relatado na primeira pessoa, remete para acontecimentos passados quando Mantel viveu com o marido em Jeddah, na Arábia Saudita. A autora descreve o ambiente claustrofóbico, a impossibilidade de sair livremente, a incompreensão perante regras conviviais absurdas, as barreiras numa sociedade com duras regras e muito pouco tolerante para com as mulheres. O ar abafado, as baratas no chuveiro, as janelas entaipadas, as importunas visitas de um homem demasiado amigável — esta intromissão reflecte-se na do sniper do IRA que invade e ocupa uma casa para ter um bom ângulo de ataque à primeira-ministra, no último conto —, as maleitas que a atingem — dores de cabeça, tonturas, intolerância à luz — estabelecem os vários leitmotiv que marcam a acção e os temas dos outros contos. EmVírgula, duas miúdas passam um Verão a fugir de casa e a embrenharem-se num matagal, os joelhos esfolados e os vestidos sujos, para espiarem uma mansão, de onde, todos os dias, emerge uma senhora elegante que empurra uma cadeira de rodas com um ser indistinto — semelhante a uma vírgula — embrulhado em mantas. Em O Qt-Longo — nome de um Síndrome relacionado com um certo tipo de taquiarritmia —, a dona da casa, durante uma festa, presencia a traição do marido com uma convidada. Tudo gira em torno desse momento em que o tempo pára, os sons são abafados, os copos se estilhaçam, os vidros cobrem o chão e o triângulo formado por marido, mulher e amante efectua uma espécie de dança grotesca que termina em tragédia, tal como acontece em Férias de Inverno, em que um casal parte para a Grécia e presencia um episódio de contornos sinistros. Num dos melhores contos, Como é que a irei reconhecer?, uma infeliz autora (ela própria?), incapaz de recusar o convite de uma comunidade de leitores numa cidade distante para falar da sua obra, passa pelos inconvenientes de uma hospitalidade dúbia — o seu anfitrião chama-se senhor Simister — num hotel à beira da estrada, depois de uma sessão pouco auspiciosa e perante uma plateia de zombies. Aliás, para Mantel, as personagens — fantasmas, vampiros, delinquentes, terroristas, ladrões, sequestradores, violadores e as suas vítimas, a criança paraplégica, a porteira aleijada, a escritora sonâmbula, a rapariga anoréctica, a estrangeira sequestrada, a mulher traída — são tão laboriosamente desenhadas como o espaço que as rodeia, sejam as escadas de um hotel, a divisão da casa em Jeddah onde a mobília se movimenta sozinha durante a noite, uma sala de pânico, o chão de uma cozinha, os consultórios em Harley Street, ou os canteiros de um jardim em que os botões de rosa se transformaram em borbotos castanhos e os carris de comboio a entrecruzarem-se na estação de Waterloo.

O conto que dá o título ao livro — situado no dia 6 de Agosto de 1983, quatro anos depois de Thatcher ganhar as eleições e apenas alguns meses antes do ataque terrorista do IRA, em Brighton, que realmente era destinado a matar a primeira-ministra — causou burburinho na Grã-Bretanha, por parte dos conservadores (Tories), ao ponto de um ex-deputado ter clamado contra a “fantasia deturpada e grotesca” da senhora (Dame) Mantel, a qual, no entanto, não deu sinais de se sentir minimamente afectada. (“Ainda hoje sinto o sangue a ferver de ódio contra Thatcher”, diz ela). Acrescente-se que estes dez contos, onde não se encontram vestígios de complacência, empatia, paciência ou compaixão, são extremamente imperfeitos; no entanto, o seu poder encantatório é fruto dessa estranha forma de narrar, sem fim nem princípio, a unidade quebrada e o equilíbrio instável. A autora não estabelece qualquer cumplicidade com o leitor, antes o atrai para um sorvedouro, em que a doença, a morte, a traição e o desleixo moral são habilmente reequilibrados por uma ironia exultante.
 Crítica corrigida: onde se lia Oliver Cromwell passou a ler-se Thomas Cromwell (Jornal Público)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

A vida longa e próspera de Mr. Nimoy.


Aos 83 anos, desaparece um dos rostos mais conhecidos do sci-fi, quase indissociável de Spock e das sua orelhas de vulcano na saga Star Trek.
Leonard Nimoy escreveu duas autobiografias com 20 anos de intervalo, I Am not Spock (1975) e I Am Spock (1995).
Como tantos actores, Nimoy fez uma primeira tentativa de não ser confundido com a personagem que lhe deu fama, mas acabou por se render à evidência: Nimoy era e sempre foi Spock, desde o primeiro momento em que apareceu na televisão com as orelhas pontiagudas e a franja minuciosamente aparada. Morreu na sexta-feira aos 83 anos, vítima de doença pulmonar, o actor que encarnou a personagem mais emblemática de Star Trek, a série de ficção científica que começou por ser um fracasso, mas catalisadora de um culto que a transformou num fenómeno com vida longa e próspera.
 Nimoy sofria de doença pulmonar obstrutiva crónica, diagnóstico que revelou publicamente em 2014, e foi a doença que causou a sua morte, como confirmou ao New York Times a sua mulher, Susan Bay Nimoy. No início desta semana, o actor tinha já sido hospitalizado na sequência de um agravamento da doença. Foi nesse dia que escreveu o que seria o seu último tweet: “Uma vida é como um jardim. Os momentos perfeitos podem ser vividos, mas não preservados, excepto na memória. LLAP”, escreveu, com a derradeira sigla para Live Long and Prosper - a frase-chave da sua personagem. Era assim que terminava cada uma das suas mensagens em 140 caracteres ou menos para o seu milhão e meio de seguidores.

Nimoy foi muitas coisas, mas ser Spock foi um emprego para toda a vida, desde a primeira aparição no episódio piloto de Star Trek, “The Cage”, em 1965, até aos dois filmes de J.J. Abrams (2009 e 2013). Spock era um ser meio vulcano, meio humano, membro da tripulação da USS Entreprise, a nave espacial que tinha por missão explorar novos mundos por mandato da Federação dos Planetas. Era o cientista racional para fazer contra ponto ao aventureiro capitão James T. Kirk (William Shatner).


Nascido em Boston a 26 de Março de 1931, filho de imigrantes ucranianos, Leonard Simon Nimoy mudou-se para Hollywood aos 17 anos, esteve na tropa, conduziu táxis, entregou jornais e andava perdido pela televisão, teatro e por produções cinematográficas de baixo orçamento. Mas foi ganhando reputação como actor e chegou a Star Trek por escolha própria, não como último recurso – podia escolhido ser um leading man numa telenovela, mas preferiu arriscar numa série de ficção científica sem garantia que desse alguma coisa.
O piloto original de Star Trek era muito diferente do que aquilo que acabaria por ser e, dessa primeira experiência, apenas o Spock de Nimoy sobreviveu, muito por insistência de Gene Rodenberry, o criador da série, e contra a vontade da NBC, que queria livrar-se do “tipo das orelhas”. A série ganhou novas personagens e novo elenco, mas não seria um sucesso imediato. Foi cancelada ao fim de três temporadas (80 episódios), mas ganhou nova vida nas reposições. Mais do que Kirk, Scotty, Sulu, Uhura, Chekov ou McCoy, o Spock de Nimoy foi a figura central do culto inicial à volta de Star Trek e a presença mais reconhecida do fenómeno trekkie – os fãs preferem trekker.
O sucesso ao retardador de Star Trek gerou uma série de filmes que começou em 1979. Nimoy entrou nos seis primeiros, realizou dois deles – Star Trek III: The Search for Spock e Star Trek IV: The Voyage Home e foi também argumentista de dois capítulos – e foi o único do elenco original a regressar no reboot de J.J. Abrams, como um Spock original que se cruza com um jovem Spock de uma realidade alternativa interpretado por Zachary Quinto, escolhido para o papel pelas parecenças físicas com Nimoy.  Nimoy seria ainda Spock num episódio de Star Trek: The Next Generation, numa série de desenhos animados e muitas das suas aparições recentes, como em A Teoria do Big Bang, também recuperam a icónica personagem.
A sua carreira não se fez apenas de viagens por galáxias distantes a bordo da USS Enterprise. Dramaturgo (a sua peça Vincent esteve no Teatro Villaret em 2006, por exemplo), realizador, poeta, fotógrafo, músico - Leonard Nimoy, uma figura acarinhada no meio cinematográfico, foi ainda mais isto. Foi agente secreto na série Missão Impossível, esteve ao lado de Donald Sutherland em A Invasão dos Violadores e fez uma última incursão na ficção científica televisiva em Fringe. Para além dos dois capítulos de Star Trek, Nimoy realizou mais quatro filmes, entre eles a comédia de enorme sucessoTrês Homens e um Bebé, um remake do francês Três Homens e um Berço.
“Amava-o como a um irmão. Vamos todos sentir falta do seu talento, do seu humor e da sua capacidade para amar”, escreveu no Twitter William Shatner, aquele que mais vez esteve em cena com Nimoy. Foi a dinâmica entre o seu Kirk e o Spock de Nimoy que deu origem a tudo, embora Shatner nem sempre tenha lidado bem com o talento multifacetado de Nimoy – Shatner exigiu, por exemplo, que lhe dessem a realização de Star Trek V depois do sucesso dos dois anteriores capítulos realizados pelo seu colega de elenco.
Nimoy abraçou até ao fim a personagem com a qual não queria ser confundido mas que tornou num ícone com a sua voz serena e o seu olhar impassível, mas sempre a projectar emoções numa personagem que se pedia fria. “Por alguma razão”, disse ao Los Angeles Times numa entrevista em 1999, “projectei algum tipo de qualidade que fazia as pessoas dizer ‘OK, ele é um bom extra-terrestre’”. (Jornal Público – 27.Fev.2015) 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Cottinelli Telmo: um piano no ateliê.


Uma exposição no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, patente até 6 de Abril, exibe todo o génio e versatilidade do realizador de "A Canção de Lisboa". A entrada é livre.
A grande rosa-dos-ventos no chão e o luminoso panorama da beira-rio não deixam perceber facilmente a verdadeira lufada de ar fresco que — por paradoxal que possa parecer — sobrevém da cave do Padrão da Descoberta (sua designação inicial, mais renascentista) onde está patente uma pequena mas surpreendente exposição “Os arquitectos são poetas também”, dedicada a José Ângelo Cottinelli Telmo (1897-1948) — co-criador do próprio edifício, na sua versão efémera e ligeiramente menor, só madeira e estuque.
O apreço dos responsáveis do Padrão dos Descobrimentos pela figura do seu arquitecto vai ao ponto de exibir no seu auditório, em sessões contínuas, o recente documentário de António-Pedro Vasconcelos e Leandro Ferreira (Uma Vida Interrompida, 2013, 55′) sobre o realizador de A Canção de Lisboa, no qual intervém amiúde o arquitecto João Paulo Martins, o comissário desta exposição que dedicou em 1995 a sua tese de mestrado a Cottinelli (ainda inédita), beneficiando do acesso ao seu espólio, actualmente conservado no forte de Sacavém, onde aguarda inquirições. Vários documentos expostos vieram de lá.
Arquitecto-chefe da Exposição do Mundo Português, Cottinelli pode e deve ser colocado, sem favor, ao nível de Almada Negreiros (de quem se revelam desenhos ainda inéditos na Fundação EDP, ali perto) pela sua excepcional e precoce criatividade multimédia, ou de Leitão de Barros e Carlos Botelho, dois outros enormes, polifacetados e prolixos talentos artísticos — aliás muito subestimados —, e com quem mais fez o seu caminho, desde que frequentaram juntos o Liceu Pedro Nunes e a Escola de Belas-Artes na década de 1910.
Em Fevereiro de 1917, meses antes de a companhia de Bailados Russos de Diaghliev ter aberto uma fina e breve brecha civilizacional na pasmaceira lisboeta — um desenho inédito sobre esses bailados é, precisamente, uma das surpresas da exposição —, Leitão de Barros publicou na efémera e esquecida revistaSphinx (Esfinge) um elogio de José Telmo, chamando-lhe “grande Fenómeno de Arte”, “desenhador, poeta, actor, diseur e músico”, “em tudo original, em tudo interessante e profundo, em tudo um grande esteta da Cor, do Som e da Vida. […] Fixem-lhe o nome, esperem-no impacientemente”.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

View-Master regressa através de parceria entre Mattel e Google.


O famoso dispositivo para visionamento de diapositivos está de volta, adaptado à era digital. Será lançado em Outubro.
Os maiores de trinta anos lembram-se certamente do View-Master, os "óculos" que nos permitiam ver diapositivos, ou melhor, que nos permitiam entrar diapositivo dentro, em visão estereoscópica. Apresentado originalmente em 1939, popular em Portugal algumas décadas depois, terá uma versão digital no mercado em Outubro deste ano, fruto da parceria entre a Google e a Mattel, passando de protótipo a verdadeiro dispositivo de realidade virtual.
Em vez das bobinas de cartão onde estavam dispostos os diapositivos contendo imagens de locais distantes ou fotos pessoais, o novo View-Master, apresentado sexta-feira na Feira Internacional do Brinquedo, em Nova Iorque, requer a utilização de um telemóvel Android que se encaixa no novo dispositivo, adoptado do design original, permitindo assim aceder às imagens descarregadas através da aplicação criada para o efeito – o Google Cardboard é a tecnologia utilizada.
Segundo a Mattel, foram vendidos 100 milhões dos View-Master originais, bem como 1,5 mil milhões de bobinas. “O nosso objectivo, usando esta nova tecnologia, é criar a marca View-Master para os próximos 75 anos”, afirmou àWired Doug Wadleighm, vice-presidente de Marcas Globais da Mattel. Tendo em conta que que o novo produto tem como alvo preferencial os consumidores em idade escolar (para além, obviamente, dos nostálgicos do velhinho View-Master), Wadleigh anunciou que também serão comercializadas bobinas em formato físico. “Os miúdos gostam de ter colecções que possam guardar no quarto”, justificou.
Este será apenas o primeiro passo da Mattel para, através da parceria com a Google, actualizar à era digital o seu vasto catálogo de brinquedos. “O nosso objectivo com a marca View-Master é tornar a realidade virtual acessível, fácil de utilizar, divertida, educativa e para toda a família”, referiu Wadleigh.
A jornalista da Wire Issie Lapowsky experimentou o novo dispositivo e viajou pelas ruas de São Francisco, passando pela prisão de Alcatraz, comparando a experiência a “ver o mundo em redor como uma fotografia gigante a 360 graus”. Visitou também por paisagens pré-históricas, observando um gigantesco Brontossauro em movimento, criado com tecnologia CGI.

O novo View-Master terá o preço de 29,99 dólares (26,33 euros). As bobinas serão vendidas em pacotes de quatro por 14,99 dólares (13,16 euros). Na altura do lançamento, será apenas compatível com Android. A versão para iOS a surgir algum tempo depois. (Jornal Público – 14.Fev.2015)


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

AS PALAVRAS INVISÍVEIS.


Procuro o meu bloco de notas em lugares onde já procurei. Tenho a esperança que, desta vez, por qualquer milagre, possa estar lá. Não é um bloco extravagante, é preto e simples, vejo-o na memória enquanto procuro. Há aquilo para que olho, está à minha frente com todas as suas formas, e há este bloco de capa preta que quero encontrar e que é concreto na minha lembrança, como uma imagem projetada sobre aquilo que existe, como um slide antigo, e não adianta estender a mão para agarrá-lo, não está lá, os dedos atravessariam a luz dessa projeção colorida e imaterial.
Tento recordar a última vez que segurei o bloco de notas, ontem. Sei que estava em casa, isso é certo, mas apenas lembro a sensação viva de ter descoberto um bom lugar para o guardar. Talvez dentro de uma gaveta, talvez debaixo de alguma coisa, talvez entre dois livros que, naquele instante, me pareceram especialmente simbólicos. Escondi-o tão bem que, agora, nem eu próprio o consigo encontrar.
Conheço blocos de notas de grandes escritores, edições fac-similadas, póstumas. Os meus cadernos não são assim. Encho-me de pudor com a simples referência mental às anotações que faço: frases muito distantes de chegarem a verso, listas de tarefas, ideias sem forma, fragmentos meus, nus, inocentes, a exporem aquilo que não quero mostrar. Não são restos de mistério, não têm aquela imperfeição cuidadosa, perfeita. Aquelas páginas sou eu em cuecas, acabado de acordar, zombie; sou eu despenteado, camisola com nódoas, meias sem elástico; sou eu adormecido no sofá, diante da televisão acesa, a babar-me.
Na semana passada, estacionei o carro num lugar diferente. Entrei em casa, enchi a cabeça com as coisas de casa, dormi essa noite e, no dia seguinte, quando saí à rua, sobressaltei-me por não o encontrar no posto de todos os dias. Comecei a procurá-lo. A possibilidade mais insistente era: roubaram-me o carro. Apressei o passo e, quando já tinha o telefone na mão, lembrei-me daquele instante na véspera em que decidi estacionar num lugar diferente.
Escondido de mim, o meu bloco de notas, imóvel, discreto, abriga aquele pequeno mundo. Bastará folheá-lo para que essas palavras se soltem; estão lá, à espera, são como um segredo com corpo. O meu bloco de notas é como o corpo desse segredo.
Ainda assim, há diferenças fundamentais: esconder para sempre é tentar que algo nunca tivesse existido. Em coerência, a única forma de levar esse raciocínio até ao fim é morrer. Comparado com essas decisões, o meu bloco de notas, feito de papel barato, não é realmente o corpo de um segredo, é apenas o biombo que cobre esse corpo e, mesmo assim, é um biombo que permite transparências. Por sua vez, morrer com segredos, carregá-los no peito a vida inteira e morrer, nunca os partilhando com irmãos ou filhos, é um ato que questiona a própria morte. Conseguirá a morte ser suficientemente opaca para esconder esses segredos para sempre?
Um bilhete achado no interior de um livro antigo pode mudar tudo o que pensávamos sobre o nosso avô. Uma grande parte do passado ainda está para acontecer.
Além disso, os segredos retiram lógica ao mundo. Aquilo que se omite priva os outros de compreenderem as razões dos episódios a que assistem. Porque é que estás maldisposto? Por nada. Passa-se alguma coisa? Não, não se passa nada. Há algum problema? Não, não é nada.
Talvez encontre o bloco de notas quando já não estiver à espera. Então, quase de certeza, irá iluminar-se o instante em que decidi guardá-lo e as razões que me levaram a escolher esse lugar que, agora, me parece insuspeito. Será como quando não consigo recordar um nome ou uma data, faço um grande esforço de memória, mas nada. Depois, quando já não estou a pensar nisso, de repente, como um objeto que regressa à superfície, aparece-me na cabeça. Até posso acordar de noite com a força dessa lembrança.
Conformo-me, estou cansado de procurar, mas tenho pena. Nesse bloco, tinha anotado a ideia que ia desenvolver neste texto. Não consigo lembrar como era, só recordo que me entusiasmou, pareceu-me boa ideia, fiquei contente quando a tive.


José Luís Peixoto, in revista Visão