sábado, 18 de abril de 2015

O novo trailer do novo Star Wars: “Chewie, estamos em casa”.


Vê-se, pela primeira vez, Harrison Ford como um Han Solo envelhecido, ao lado do seu co-piloto no Millenium Falcon, Chewbacca, o wookie.
A voz de Luke Skywalker, mais Han Solo, Chewbacca, acrobacias do Millenium Falcon e uma máscara destruída de Darth Vader. É o que J.J. Abrams mostra no segundo trailer de Star Wars: The Force Awakens, divulgado nesta quinta-feira.
Se o primeiro apenas tinha mostrado apenas as caras novas da série, estes 1m59s já fazem a ponte com o passado. Vê-se, pela primeira vez, Harrison Ford como um Han Solo envelhecido, ao lado do seu co-piloto no Millenium Falcon, Chewbacca, o wookie.
A voz de Luke Skywalker (Mark Hamill) serve como fundo para estas novas imagens do sétimo capítulo da saga criada por George Lucas e que tem estreia mundial marcada para 18 de Dezembro próximo.

Já dá para perceber que neste novo Star Wars vamos ter novos Jedi, Lordes Sith, sabres de luz, X-Wings, e, muito provavelmente, o regresso do Império. Depois das três prequelas que pouco fizeram pela série, este The Force Awakens parece cada vez mais um regresso ao espírito da trilogia original. Como diz Han Solo para Chewie neste trailer: “Estamos em casa.” (Jornal Público – 18.Abr.2015)

domingo, 12 de abril de 2015

A EDUCAÇÃO QUE TEMOS ROUBA DOS JOVENS A CONSCIÊNCIA, O TEMPO E A VIDA.


Quando ouvimos este psiquiatra chileno de 75 anos, temos a sensação de estarmos diante de Jean-Jacques Rousseau do nosso tempo. Ele nos conta que esteve bastante adormecido até os anos 60, quando se mudou para os EUA, se tornou discípulo de Fritz Perls, um dos grandes terapeutas do século XX, e passou a integrar a equipe de terapeutas do Instituto Esalen da Califórnia. A partir deste momento passou a ter profundas experiências no mundo terapêutico e espiritual. Entrou em contato com o Sufismo e tornou-se um dos introdutores do Eneagrama no Ocidente. Ele também bebeu do budismo tibetano e do zen.
Claudio Naranjo tem dedicado sua vida à pesquisa e ao ensino em universidades como Harvard e Berkeley. Fundou o programa SAT, uma integração de Gestalt-terapia, o Eneagrama e Meditação para enriquecer a formação de terapeutas  professores. Neste momento, lança um alerta contundente: ou mudamos a educação ou o mundo vai afundar.
- Você diz que para mudar o mundo é preciso mudar a educação. Qual é o problema da educação e qual é a sua proposta?
- O problema da educação não é de forma alguma o que os educadores pensam que é. Acreditam que os alunos não querem mais o que eles tem a oferecer. Aos alunos vão querer forçar uma educação irrelevante e estes se defendem com distúrbios de atenção e com a desmotivação. Eu acho que a educação não está a serviço da evolução humana, mas sim a produção ou socialização. Esta educação serve para adestrar as pessoas de geração em geração, a fim de continuar a ser mais um manipulado pelos cordeiros da mídia. Este é um grande mal social. Você quer usar a educação como uma maneira de embutir na mente das pessoas uma maneira de ver as coisas que irá atender ao sistema e a burocracia. Nossa maior necessidade é evoluir na educação, para que as pessoas sejam o que elas poderiam ser.
A crise da educação não é uma crise entre as muitas crises que temos, uma vez que a educação é o cerne do problema. O mundo está em uma profunda crise porque não temos uma educação para a consciência. Nós temos uma educação de uma forma que está roubando as pessoas de sua consciência, seu tempo e sua vida.
O modelo de desenvolvimento econômico de hoje tem ofuscado o desenvolvimento da pessoa.
- Como seria uma educação para a qual sejamos seres completos?
- A educação ensina as pessoas a passar por exames, não em pensar por si mesmas. É um exame que não se mede a compreensão, mede-se então a capacidade de repetir. É ridículo, se perde uma grande quantidade de energia! Ao invés de uma educação para a informação, precisamos de uma educação que aborde o aspecto emocional e uma educação da mente profunda. Para mim parece que estamos presos entre uma alternativa idiota, que é a educação secular e uma educação autoritária que é a educação religiosa tradicional. Está tudo bem separar o Estado e a Igreja mas, por exemplo, a Espanha, tem descartado o espírito, como se religião e espírito fossem a mesma coisa. Precisamos que a educação também atenda à mente profunda
- Quando você fala sobre a espiritualidade e a mente profunda o que quer dizer exatamente?
Tem a ver com a própria consciência. Tem a ver com essa parte da mente da qual depende o sentido da vida. Se está educando as pessoas sem este sentido. Tampouco é uma educação de valores, porque a educação de valores é demasiadamente retórica e intelectual. Os valores deveriam ser cultivados através de um processo de transformação pessoal e esta transformação está longe da educação atual.
A educação deve também incluir um aspecto terapêutico. O desenvolvimento pessoal não pode ser separado do crescimento emocional. Os jovens estão muito danificados afetiva e emocionalmente pelo fato de que o mercado de trabalho esta absorvendo os pais que não têm mais disponibilidade para os filhos. Há muita carência amorosa e muitos desequilíbrios nas crianças. Não pode aprender intelectualmente uma pessoa que está emocionalmente danificado.
O lado terapêutico tem muito a ver com resgatar na pessoa a liberdade, a espontaneidade e a capacidade de satisfazer seus próprios desejos. O mundo civilizado é um mundo domesticado e tanto a formação como a criança são instrumentos desta domesticação. Temos uma civilização doente que os artistas perceberam há muito tempo e agora cada vez mais pensadores, percebem também.
-A educação parece interessada apenas em desenvolver as pessoas racionais. Que outras partes mais poderiam ser desenvolvidas?
-Eu coloco ênfase de que somos seres com três cérebros: temos cabeça (cérebro intelectual), coração (cérebro emocional) e intestino (cérebro visceral ou instintivo). A civilização está intimamente ligada à tomada do poder pelo cérebro racional. No momento em que os homens predominaram no controle político, cerca de 6000 anos atrás, se instaura o que chamamos de civilização. E não é só o domínio masculino e nem só o domínio da razão, mas também a razão instrumental e prática, que se associa com a tecnologia;  é este predomínio da razão instrumental sob o afeto e a sabedoria instintiva que nos tem empobrecidos. A plenitude só pode viver em uma pessoa que tem os três cérebros ordenados e coordenados. Deste meu ponto de vista, precisamos de uma educação para os seres com três cérebros. Uma educação que poderia ser chamada de holística ou integral. Se vamos educar a pessoa como um todo, devemos ter em mente que a pessoa não é apenas razão.
Ao sistema convém que cada pessoa não esteja em contato consigo mesma e nem que pense por si mesma. Por mais que se levante a bandeira da democracia, ela tem muito medo que as pessoas tenham uma voz e estejam conscientes. A classe política não está disposta a investir em educação.
- A educação nos faz mergulhar em um mar de conceitos que nos separam da realidade e nos aprisiona em nossa própria mente. Como se pode sair desta prisão?
Esta é uma grande questão e é uma questão necessária no mundo educacional. A ideia de que o conceitual é uma prisão requer uma certa experiência de que a vida é mais que isto. Para quem já tem interesse em sair da prisão intelectual, é muito importante ter disciplina para parar a mente, ter a disciplina do silêncio, como praticado em todas as tradições espirituais: cristianismo, budismo, yoga, xamanismo… Parar os diálogos internos em todas as tradições do desenvolvimento humano tem sido visto como algo muito importante. A pessoa precisa se alimentar de coisas a mais do que conceitos. A educação quer aprisionar a pessoa em um lugar onde ela é submetida a uma educação conceitual forçada, como se não houvesse outra coisa na vida. É muito importante, por exemplo, a beleza… A capacidade de reverência, admiração, veneração, de devoção. Isto não tem a ver necessariamente com uma religião ou um sistema de crenças. É uma parte importante da vida interior que está se perdendo, da mesma forma que estão perdendo belas áreas da superfície da Terra, a medida que se constrói e se urbaniza.
- Precisamente quero saber sua opinião sobre a crise ecológica que vivemos.
Ela é uma crise muito evidente, é a ameaça mais tangível de todas. Você pode facilmente prever que, com o aquecimento global, com o envenenamento dos oceanos e outros desastres que estão acontecendo, muitas pessoas não poderão sobreviver.
Estamos vivendo graças ao petróleo e consumimos mais recursos do que a terra produz. É uma contagem regressiva. Quando ficarmos sem o combustível, será um desastre para o mundo tecnológico que temos.
As pessoas que chamamos primitivas como os índios têm uma maneira de tratar a natureza que não vem do sentido utilitário. Na ecologia, na economia e em outras coisas, temos dispensado a consciência e trabalhado apenas com argumentos racionais que estão nos levando ao desastre. A crise ecológica só pode ser interrompida com uma mudança pelo coração, com a verdadeira transformação que só um processo educativo pode dar. Com isto, eu não tenho muita fé nas terapias ou religiões. Só uma educação holística poderia evitar a deterioração da mente e do planeta.
- Poderiamos dizer que você encontrou um equilíbrio em sua vida nesse momento?
-Eu diria que mais e mais, apesar de eu não ter terminado a jornada. Eu sou uma pessoa com muita satisfação, a satisfação de ajudar o mundo que estou. Vivo feliz, se é que se pode ser feliz nesta situação trágica em que todos nós estamos.
-A partir de sua experiência, da sua carreira e sua maturidade, como você processa a questão da morte?
-Em todas as tradições espirituais são aconselhados a viver com a morte ao lado. Você tem que chegar a essa evidência de que somos mortais e que levar a morte a sério não será tão vaidoso. Não tens tanto medo das coisas pequenas, quando tens uma coisa grande que te preocupas mais. Acredito que a morte só é superada para aqueles que de alguma forma morrem antes de morrer. Um tem que morrer para a parte mortal, para a parte que não transcende. Aqueles que tem tempo e suficiente dedicação e que vão suficientemente longe nesta viagem interior, finalmente encontram seu verdadeiro eu. E este ser interior ou este ser que é um, é algo que não tem tempo e que dá a uma pessoa uma certa paz ou um sentimento de invulnerabilidade. Estamos tão absortos em nossas vidas diárias, em nossos pensamentos de alegria, tristeza, etc … Nós não estamos em nós, não temos conhecimento de quem somos. Para isso, precisamos estar muito sintonizados com a nossa experiência de tempo. Esta é a condição humana, estamos vivendo no passado e no futuro, é o aspecto horizontal de nossas vidas. Mas desatentos para a dimensão vertical da nossa vida, para o aspecto mais alto e mais profundo, e este é nosso espírito e nosso ser e a chave para o acesso é o aqui e o agora.
Às vezes a gente vai estar em busca do ‘Ser’ e às vezes ficamos confusos em busca de outras coisas menos importantes, como a glória.

http://estaremsi.com.br/a-educacao-que-temos-rouba-dos-jovens-a-consciencia-o-tempo-e-a-vida/

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Português.


Este texto é da autoria de Teolinda Gersão.
Escritora, Professora Catedrática aposentada da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
(escreveu-o depois de ajudar os netos a estudar Português, e colocou-o no Facebook)
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete”: “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados; almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa. No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo visto, no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer, dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Morreu o mestre Manoel de Oliveira.


Morreu o mais velho realizador do mundo em atividade. Manoel Cândido Pinto de Oliveira nasceu a 11 de dezembro de 1908 no Porto.
Morreu o realizador Manoel de Oliveira, aos 106 anos, confirmou à agência Lusa fonte familiar. Era o mais velho realizador do mundo em atividade."A atividade do cinema é uma atividade artística, a última das artes, a Sétima Arte", dizia.
Manoel de Oliveira nasceu a 11 de dezembro de 1908 no Porto, embora o registo fixe a data de nascimento no dia seguinte.
Depois de uma participação num filme de Rino Lupo, em 1928, estreou o primeiro filme como realizador, a curta-metragem documental Douro, Faina Fluvial em 1931. O último, O Velho do Restelo, estreou-se no ano passado, por ocasião do seu 106.º aniversário. Foram 83 anos de carreira e dezenas de filmes que contam a história do cinema em Portugal.
Em 2011, entrevistado pelo DN, Manoel de Oliveira confessava: a morte "não me assusta nada. O sofrimento, sim, a morte não".
E revelou pensar no mundo espiritual como se fosse uma porta que dá algum lado."Há um poeta português que disse que o espírito é como o ar que se respira. Eu fiquei com essa ideia. E, ultimamente, há um outro escritor que diz que o espírito é como o ar que se respira. Fiquei muito emocionado nesse livro, que eu li era muito novo. Fiquei sempre a pensar... E agora, pensando melhor, realmente, quando se morre, solta-se o espírito. O espírito é como o ar que sai. E o espírito sai e junta-se. Ao sair, perde a personalidade, onde está todo o bem e todo o mal, liberta-se desse bem e mal e junta-se ao absoluto, que é a configuração do espírito, o absoluto. É Deus."
Sempre lúcido em relação à vida e à morte, Manoel de Oliveira acreditava que a longevidade "era um capricho e o cinema uma paixão".
"Tanto faz que o meu cinema exista ou não exista"
Em 2013, em entrevista à revista francesa Cahiers du Cinema, deixava um lamento: "Eu penso que no país há uma grande indiferença pelo que já realizei. Tanto faz que o meu cinema exista ou não exista". Rodou o último filme, "O velho do Restelo", já no jardim próximo de casa, no Porto, com quatro atores de eleição: Luís Miguel Cintra, Ricardo Trepa, Diogo Dória e Mário Barroso.
À mesma revista, Manoel de Oliveira revelou que tinha concluído o argumento para um outro filme centrado nas mulheres que fazem as vindimas e a adaptação de "A missa do Diabo", do autor brasileiro Machado de Assis. Nas últimas décadas teve sucessivos projetos cinematográficos, uns mais amados que outros, uns mais premiados que outros, mas sempre fiéis a uma estética cinematográfica individual.
O primeiro contacto com o cinema foi como ator, quando aos 19 anos fez figuração no filme "Fátima Milagrosa", de Rino Lupo, e com algumas experiências com cinema de animação. A paixão pelo cinema rivalizava com o gosto pelo atletismo (foi campeão de salto à vara) e pelo automobilismo, modalidade em que conquistou alguns prémios.
"Douro, Faina Fluvial", uma curta-metragem documental sobre a vida nas margens do rio Douro, foi o primeiro filme que Manoel de Oliveira rodou, então com 23 anos, com uma câmara oferecida pelo pai. A estreia desse filme aconteceu a 19 de setembro de 1931, no mesmo dia em que morreu Aurélio da Paz dos Reis, considerado o pai do cinema português.Hoje o filme é largamente elogiado, mas na altura foi mal recebido pelo público, tal como "Aniki-Bobó", o seu primeiro filme de ficção, estreado em 1942.Com uma longa-metragem e uma mão cheia de pequenos filmes, Manoel de Oliveira quase abandonou o cinema, por falta de apoios financeiros.
O silêncio, durante o qual se dedicou à lavoura e à reflexão sobre o cinema, como o próprio disse em entrevistas, durou até 1956, quando estreou a curta-metragem "O Pintor e a Cidade", o seu primeiro filme a cores.

A primeira conquista


A primeira grande conquista junto do público ocorreu na década de 1960 depois de "O Acto da Primavera", em 1962, ano em que foi detido pela PIDE, precisamente numa sessão pública de apresentação do filme, no Porto. Foi também com "O Acto da Primavera" que Oliveira recebeu o Grande Prémio do Festival de Cinema de Siena, em Itália, em 1964. Um ano depois a Cinemateca Francesa rendeu-lhe uma homenagem com uma retrospetiva.
Nos anos 1970 realizou a "tetralogia dos amores frustrados", com "O Passado e o Presente" (1971), "Benilde ou a Virgem Mãe" (1975), "Amor de Perdição" (1978) e "Francisca" (1981).
Em 1985, com 77 anos, recebeu o "Leão de Ouro" do Festival de Veneza, em Itália, e em 1989 foi condecorado pelo então Presidente da República, Mário Soares, com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique.
"Non, ou a Vã Glória de Mandar", uma visão sobre a identidade portuguesa a partir da revolução de 25 de Abril de 1974, abriu uma nova etapa na filmografia de Oliveira, que a partir de então realizou e estreiou, em média, um filme por ano.
Entre eles estão o autobiográfico "Viagem ao Princípio do Mundo" (1997), com Marcelo Mastroianni, "Palavra e Utopia" (2000), sobre o Padre António Manuel Vieira, "Um Filme Falado" (2003), uma viagem pelo Mediterrâneo e pela civilização ocidental, e "Cristóvão Colombo - O Inigma" (2007).
Quase toda a obra de Oliveira faz também uma aproximação ao teatro, que o próprio reconheceu e sublinhou.
Uma Palma de Ouroem Cannes
Fora do enquadramento da câmara, Manoel de Oliveira também experimentou a encenação de teatro, admitindo que a prática teatral estava muito ligada ao seu cinema.
Em 2008 festejou cem anos de vida rodeado de técnicos e atores, enquanto filmava em Lisboa "Singularidades de uma rapariga loura", e recebeu a Palma de Ouro de Carreira em Cannes, um prémio que se junta ao Leão de Ouro de carreira que Veneza lhe entregou em 2004.
O público português reconheceu-o como figura incontornável da cultura, mas o elogio nem sempre se traduziu em sucesso nas bilheteiras de cinema.
Houve quem lhe criticasse a ausência de direção de atores e a repetição de fórmulas, mas são mais os elogios, pelo toque de genialidade, pela interpretação da História de Portugal, pela visão muito particular e sensível do cinema e do mundo, pela representação do cinema português no estrangeiro.
Em dezembro de 2014, Manoel de Oliveira foi distinguido com a Legião de Honra francesa, por uma carreira que o embaixador francês em Portugal, Jean-François Blarel, descreveu como "fora do comum".

Na esfera privada, Manoel de Oliveira era casado, desde 1940, com Maria Isabel Brandão Carvalhais, de quem teve quatro filhos. (DN – 02.Abr.2015)

quarta-feira, 25 de março de 2015

Morreu Herberto Helder, a voz mais fulgurante da poesia portuguesa.


Morreu na segunda-feira o grande mago da poesia portuguesa actual. Herberto Helder tinha 84 anos e publicara há pouco A Morte Sem Mestre, livro onde se mostrava a morrer, mas ainda tocado por esse poder criador que o tornou único.
O poeta Herberto Helder morreu esta segunda-feira na sua casa de Cascais, aos 84 anos, e apenas alguns meses após o lançamento de A Morte Sem Mestre (2014), um ofício de trevas, irado e irónico, e às vezes de uma crueza sem bálsamo: “e eu que me esqueci de cultivar: família, inocência, delicadeza,/ vou morrer como um cão deitado à fossa!”. Outras vezes sabendo que os seus misteriosos dons criadores ainda não o tinham deixado de todo: “(…) a morte faz do teu corpo um nó que bruxuleia e se apaga,/ e tu olhas para as coisas pequenas/ e para onde olhas é essa parte alumiada toda”.
Como Pedro Mexia refere na sua reacção à morte do poeta, não tardará a tornar-se pacífico que Herberto Helder é o poeta central da segunda metade do século XX, como Pessoa o foi da primeira. Mas é uma centralidade que é ao mesmo tempo uma anomalia, porque a mágica e bárbara linguagem de Herberto, mesmo na sua versão atenuada dos últimos livros, parece vir do fundo dos tempos e ter nascido por engano nesta modernidade.
Não há na poesia portuguesa pós-Pessoa nenhum poeta que tenha exercido um tal poder de atracção e gerado tantos epígonos. E nenhum mais absolutamente impossível de imitar com proveito.
Quem leu desprevenidamente esses primeiros livros de Herberto, nos anos 60 e 70, há-de ter experimentado essa sensação de que a poesia só podia ser aquilo. Foi sempre esse o maior e mais estranho dom de Herberto Helder: convencer-nos (ainda que injustamente) de que escreve directamente em poesia, como se a poesia fosse a sua língua materna, e todos os outros poetas se limitassem a traduções mais ou menos conseguidas de um idioma perdido de que só ele detinha a chave.
Nada poderia estar mais longe desta pós-modernidade culta, enfadada, cínica e céptica, do que o entendimento que Herberto tinha da poesia. Numa extraordinária entrevista que concebeu para uma revista galega e que o PÚBLICO divulgou em 1990, ele próprio escreve: “(…) o poema é um objecto carregado de poderes magníficos, terríficos: posto no sítio certo, no instante certo, segundo a regra certa, promove uma desordem e uma ordem que situam o mundo num ponto extremo: o mundo acaba e começa”. Herberto Helder não vinha entreter ninguém, vinha para viver aquilo a que um dia chamou, com inteira propriedade, a sua vida verdadeira.
Apenas um ano antes de A Morte Sem Mestre, que assinalou a passagem da sua obra para a Porto Editora, o poeta lançara em 2013, na Assírio & Alvim, o livro Servidões. Mas fora sobretudo com A Faca Não Corta o Fogo (2008) que se tornara um caso de consenso crítico quase absoluto.

O maior depois de Camões


“Herberto Helder foi um poeta poderoso, a sua obra foi um centro de atracção e um horizonte em relação ao qual todos os seus contemporâneos tiveram de se situar”, diz o crítico António Guerreiro. “Como antes tinha acontecido com Fernando Pessoa, também houve um ‘efeito Herberto Helder’”.
Visivelmente emocionada com a notícia da morte de Herberto Helder, a escritora Maria Velho da Costa disse ao PÚBLICO que “morreu o maior poeta português depois de Luís de Camões”. A romancista, que vê em A Morte Sem Mestre “um longo poema, belíssimo”, conclui com um apelo: “Se as minhas palavras tivessem alguma influência, eu propunha um dia de luto nacional”. 
“Quando morre um poeta com a dimensão de Herberto Helder, o que sentimos é que não apenas morreu um poeta mas a poesia”, declarou ao PÚBLICO o poeta madeirense José Tolentino Mendonça. “Nestes casos o luto torna-se insuportável e, ao mesmo tempo, este luto faz-nos perceber que Herberto Helder é imortal com a sua obra. Daqui a mil anos, se subsistir um falante de língua portuguesa, a poesia de Herberto Helder subsistirá”.
Num testemunho recolhido pela agência Lusa, o crítico e poeta Pedro Mexia considera que “o lugar de Herberto Helder na literatura portuguesa equivalerá ao de Fernando Pessoa na primeira metade do século XX”, algo que, acrescenta, “se começou a dizer há algum tempo e que se tornará, com o tempo, uma coisa pacífica, sem prejuízo dos grandes poetas da geração dele”.
Desde O Amor em Visita, ainda no fim dos anos 50, até A Morte sem Mestre, já em pleno século XXI, a produção escrita de Herberto Helder criou um universo em permanente expansão e revisão, um poema contínuo constantemente reescrito. Cuja última formulação ficou agora irremediavelmente fixada pela sua morte nos recém-lançados Poemas Completos (Porto Editora, 2014), um título, aliás, algo desconcertante para quem nunca parece ter visto na sua obra uma sucessão discreta de poemas autónomos e fechados.

Se é inegável que Herberto Helder é hoje um poeta muito conhecido, a ponto de cada novo livro se esgotar num ápice – o que não quer necessariamente dizer que tenha assim tantos leitores –, nunca alimentou essa notoriedade com a exibição da sua pessoa civil. Já na sua poesia, pode dizer-se que os seus últimos livros assinalam uma inflexão marcada por uma mais nítida e declarativa dimensão autobiográfica, com todas as cautelas que a palavra exige quando aplicada a um poeta. (Jornal Público – 25.Mar.2015)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Há cem anos o terramoto Orpheu virou do avesso a literatura portuguesa.


Na primeira metade do século XX português não houve escassez de revistas literárias importantes e duráveis, como a Águia (1910-1932) ou a Presença(1927-1940), para citar apenas duas. Mas é hoje surpreendentemente consensual que a mais influente e icónica de todas foi uma efémera publicação de que apenas saíram dois números no primeiro semestre de 1915. Chamou-se Orpheu e foi recebida pela imprensa da época com títulos como “Literatura de Manicómio”, “Os Poetas do Orpheu e os Alienistas” ou “Orpheu no Inferno”.
Decorrido um século, o centenário do lançamento do primeiro número deOrpheu, que terá saído da gráfica a 24 de Março de 1915, vai ser evocado por estes dias em colóquios, exposições, lançamentos, leituras públicas e outras iniciativas. Tudo somado, não é de mais, já que Orpheu não foi apenas um terramoto que deixou irreconhecível a paisagem literária portuguesa da época, foi também, enquanto gesto fundador do nosso modernismo, o início de uma aventura criativa que atravessou todo o século XX e que só agora começa a dar sinais de esgotamento. E foi ainda, sobretudo no seu segundo número, a materialização mais significativa da colaboração entre dois génios criativos: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Sem eles, poderia ter existido Orpheu, mas dificilmente estaríamos hoje a celebrar o seu centenário.
No plano académico, o momento mais significativo destas comemorações é o grande colóquio luso-brasileiro 100 Orpheu, que decorre em Lisboa, na Gulbenkian e no Centro Cultural de Belém, entre os dias 24 e 28, e que terá depois uma etapa brasileira em São Paulo, no final de Maio. Com pessoanos de várias gerações e proveniências, de Eduardo Lourenço ou Teresa Rita Lopes a Richard Zenith, Steffen Dix e Jerónimo Pizarro, o congresso começou com um aperitivo portuense na Fundação Eng.º António de Almeida, que inaugurou ontem o colóquio Orpheu e o Modernismo Português e a exposiçãoMemória d’Orpheu.
Na Biblioteca Nacional, abre no dia 24 a exposição Os Caminhos de Orpheu, organizada por Richard Zenith, que mostra o percurso da revista desde os seus antecedentes até às posteriores tentativas de Pessoa para ressuscitar o projecto. A par de muitos outros materiais que documentam a história deOrpheu, e não esquecendo a importância que as artes plásticas e gráficas tiveram no movimento, a exposição inclui vários papéis inéditos, incluindo documentos que demonstram que o envolvimento de Pessoa na produção do célebre número zero da revista Contemporânea, em 1915, foi muito mais decisivo do que se pensava.
Ocupando vários espaços da Casa Fernando Pessoa (CFP), inaugura-se a 25 a exposição Os Testamentos de Orpheu, de Pedro Proença. E a CFP está ainda a desenvolver com o Instituto Camões (IC) uma outra mostra – Nós, os de Orpheu –, que circulará em Portugal e na rede internacional do IC. E, a partir de 28 de Março, propõe-se fazer regressar Orpheu aos cafés onde o projecto foi pensado e discutido, convidando actores a ler textos que convoquem “o espírito do grupo” que fez a revista.

Mais discretas mas não menos importantes, duas iniciativas editoriais assinalam o centenário de Orpheu: 1915 – O Ano do Orpheu, com organização de Steffen Dix, uma belíssima edição da Tinta-da-China (a capa inspira-se no grafismo do segundo número de Orpheu). O livro acabou de ser lançado e reúne textos de mais de 20 investigadores, contextualizando o surgimento da revista, abordando as experiências afins noutras literaturas europeias e tratando individualmente os “órficos” mais relevantes. Em Abril, a Assírio & Alvim lançará, na colecção Pessoa Breve, o volume Sobre Orpheu e o Sensacionismo, co-organizado por Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. (Jornal Público)

sábado, 14 de março de 2015

Tragam os corpos!


Rolam cabeças e ninguém está a salvo, nos romances e nos contos de Hilary Mantel. A sua peculiar atracção pelos cenários labirínticos e violentos, onde a intriga e as distorções da realidade são colocadas como armadilhas no decorrer de acontecimentos aparentemente banais, faz dela uma escritora peculiar, hábil na manipulação de personagens, situações e ambientes que deixam um rasto amargo mas sinistramente cómico. Depois de uma já longa carreira literária, e do compreensível sucesso de Wolf Hall e Bring up the Bodies (O Livro Negro, em português), dois romances históricos de uma trilogia — que ficará completa neste ano (2015) — em torno da figura de Thomas Cromwell e que lhe valeram dois prémios Booker, Mantel resolveu publicar estas histórias, demonstrando, como uma malabarista demoníaca e travessa, a capacidade para abordar os temas clássicos — casamento, família e sexo, diferenças entre géneros e classes — de uma forma, no mínimo, bizarra. Na realidade, Mantel está tão perfeitamente à vontade na movediça, perigosa e viciosa corte de Henrique VIII como no ambiente inseguro e repleto de ciladas do que tem sido o universo caótico das últimas décadas.
Nestes contos, comparáveis aos do seu contemporâneo Ian McEwan no que diz respeito ao que existe de macabro, sombrio e desviante no ser humano, Mantel mostra ser, também, uma discípula de Edgar Allan Poe, quando traz para o quotidiano um ambiente de permanente ameaça, irracionalidade e ambiguidade.
As narrativas são bastante curtas e a autora confere-lhes um carácter pessoal, não no sentido estritamente autobiográfico mas sim como se tudo o que descreve fosse uma anedota privada, algures num espaço paralelo, tanto temporal como físico, distorcido pela imprevisibilidade e observado a partir de uma visão desfocada e alucinatória. O primeiro conto, Desculpe incomodar, é um bom exemplo: relatado na primeira pessoa, remete para acontecimentos passados quando Mantel viveu com o marido em Jeddah, na Arábia Saudita. A autora descreve o ambiente claustrofóbico, a impossibilidade de sair livremente, a incompreensão perante regras conviviais absurdas, as barreiras numa sociedade com duras regras e muito pouco tolerante para com as mulheres. O ar abafado, as baratas no chuveiro, as janelas entaipadas, as importunas visitas de um homem demasiado amigável — esta intromissão reflecte-se na do sniper do IRA que invade e ocupa uma casa para ter um bom ângulo de ataque à primeira-ministra, no último conto —, as maleitas que a atingem — dores de cabeça, tonturas, intolerância à luz — estabelecem os vários leitmotiv que marcam a acção e os temas dos outros contos. EmVírgula, duas miúdas passam um Verão a fugir de casa e a embrenharem-se num matagal, os joelhos esfolados e os vestidos sujos, para espiarem uma mansão, de onde, todos os dias, emerge uma senhora elegante que empurra uma cadeira de rodas com um ser indistinto — semelhante a uma vírgula — embrulhado em mantas. Em O Qt-Longo — nome de um Síndrome relacionado com um certo tipo de taquiarritmia —, a dona da casa, durante uma festa, presencia a traição do marido com uma convidada. Tudo gira em torno desse momento em que o tempo pára, os sons são abafados, os copos se estilhaçam, os vidros cobrem o chão e o triângulo formado por marido, mulher e amante efectua uma espécie de dança grotesca que termina em tragédia, tal como acontece em Férias de Inverno, em que um casal parte para a Grécia e presencia um episódio de contornos sinistros. Num dos melhores contos, Como é que a irei reconhecer?, uma infeliz autora (ela própria?), incapaz de recusar o convite de uma comunidade de leitores numa cidade distante para falar da sua obra, passa pelos inconvenientes de uma hospitalidade dúbia — o seu anfitrião chama-se senhor Simister — num hotel à beira da estrada, depois de uma sessão pouco auspiciosa e perante uma plateia de zombies. Aliás, para Mantel, as personagens — fantasmas, vampiros, delinquentes, terroristas, ladrões, sequestradores, violadores e as suas vítimas, a criança paraplégica, a porteira aleijada, a escritora sonâmbula, a rapariga anoréctica, a estrangeira sequestrada, a mulher traída — são tão laboriosamente desenhadas como o espaço que as rodeia, sejam as escadas de um hotel, a divisão da casa em Jeddah onde a mobília se movimenta sozinha durante a noite, uma sala de pânico, o chão de uma cozinha, os consultórios em Harley Street, ou os canteiros de um jardim em que os botões de rosa se transformaram em borbotos castanhos e os carris de comboio a entrecruzarem-se na estação de Waterloo.

O conto que dá o título ao livro — situado no dia 6 de Agosto de 1983, quatro anos depois de Thatcher ganhar as eleições e apenas alguns meses antes do ataque terrorista do IRA, em Brighton, que realmente era destinado a matar a primeira-ministra — causou burburinho na Grã-Bretanha, por parte dos conservadores (Tories), ao ponto de um ex-deputado ter clamado contra a “fantasia deturpada e grotesca” da senhora (Dame) Mantel, a qual, no entanto, não deu sinais de se sentir minimamente afectada. (“Ainda hoje sinto o sangue a ferver de ódio contra Thatcher”, diz ela). Acrescente-se que estes dez contos, onde não se encontram vestígios de complacência, empatia, paciência ou compaixão, são extremamente imperfeitos; no entanto, o seu poder encantatório é fruto dessa estranha forma de narrar, sem fim nem princípio, a unidade quebrada e o equilíbrio instável. A autora não estabelece qualquer cumplicidade com o leitor, antes o atrai para um sorvedouro, em que a doença, a morte, a traição e o desleixo moral são habilmente reequilibrados por uma ironia exultante.
 Crítica corrigida: onde se lia Oliver Cromwell passou a ler-se Thomas Cromwell (Jornal Público)