sexta-feira, 15 de maio de 2015

Viagem ao princípio do mundo.


Se Eu Fosse Ladrão... Roubava, o filme-testamento de Paulo Rocha que agora, já postumamente, chega às salas de cinema, é o fim de uma obra iniciada na década de 1960 com duas obras-primas agora restauradas e também de regresso ao circuito comercial, Os Verdes Anos e Mudar de Vida. Dados a ver em conjunto, estes três filmes iluminam o círculo perfeito da obra do cineasta.
Faz um sentido especial a chegada ao circuito comercial, em simultâneo, do último filme de Paulo Rocha, Se Eu Fosse Ladrão… Roubava, e das suas duas primeiras longas-metragens, Os Verdes Anos e Mudar de Vida, estes dois títulos dados a ver em imaculadas versões recentemente restauradas pela Cinemateca Portuguesa com supervisão do realizador Pedro Costa.
E faz um sentido especial porque, se na obra de Paulo Rocha tudo se liga a tudo, e os seus filmes, mesmo espaçados no tempo, se estão sempre a reencontrar uns aos outros em rimas, ecos e repetições, Se Eu Fosse Ladrão… Roubava, que a dado passo o realizador não pode ter deixado de assumir como um verdadeiro “filme-testamento” ou “filme-súmula”, é uma obra inteiramente centrada nessas ligações, uma obra que atira luz sobre elas, e um filme que, em mais do que um sentido, volta incessantemente ao princípio – inclusive, e tratando da história do pai de Paulo Rocha, a uma origem familiar – para unir, num círculo perfeito, “fim” e “princípio”. Ora, fim e princípio duma obra, em circulo perfeito, é o que a exibição conjunta destes três filmes expõe, e propõe.
Manoel de Oliveira, por sua vez no seu “filme-testamento” há bem pouco tempo revelado publicamente (Visita ou Memórias e Confissões), refere a dado passo a sua admiração por Paulo Rocha, o cineasta português que mais apreciava. Não deixa, já agora, de ser justo notar o simbolismo latente no facto de a apresentação pública do filme de Rocha (depois de exibições no Festival de Locarno e na Cinemateca) suceder tão pouco tempo depois das primeiras exibições públicas deVisita..., como se isso reatasse um diálogo entre os dois. É certo que Rocha retribuía a estima de Oliveira, de quem foi assistente no Acto da Primavera e que talvez tenha sido, com António Reis, quem mais directamente reflectiu a importância matricial desse filme para o moderno cinema português.
Rocha foi um cineasta dos elementos, das tensões “telúricas”, da terra e do mar (como admiravelmente mostra, por exemplo, Mudar de Vida), mas também foi um cineasta da representação e do ritual, dados como chave para a “codificação” (ou “descodificação”) do real. A sua obra será sempre um bom ponto de partida para mostrar a diferença entre o que é ser “realista” (que Rocha foi sempre) e o que é ser “naturalista” (que Rocha nunca foi). A sua predilecção pelas formas da cultura japonesa – o cinema, o teatro, a pintura – mas também pela arte modernista (o seu filme sobre Amadeo de Souza-Cardoso, Máscara de Aço Contra Abismo Azul, feito em 1988) são outras manifestações precisas dessa diferenciação.

Um tempo em conserva


Quando vemos hoje Os Verdes Anos (1963) ou Mudar de Vida (1966), há um apelo muito imediato. O do tempo que ficou “em conserva” nesses filmes, o retrato que eles propõem duma época específica de Portugal. A Lisboa cinzenta dos Verdes Anos, ainda a expandir-se pelo campo em volta, as ruas e os cafés, as vidas dos que vinham do campo para avançar pela cidade, como o sapateiro (Rui Gomes) e a sopeirinha (Isabel Ruth) que compõem o casal protagonista.
Em Mudar de Vida, que não deixa de ser de vários modos um “reflexo” do primeiro filme de Rocha, a província (a região de Ovar, a que o realizador estava familiarmente ligado), as vidas dos pescadores, a sombra da guerra colonial (de onde voltava o protagonista). Tudo isto, toda esta precisão (“sociológica”, se quisermos), o tempo não fez mais do que salientar e reforçar, e este sentido de justeza também é, obviamente, a marca de um grande cineasta.
Mas que não deve esconder outros aspectos, mormente a extraordinária construção dramatúrgica desses filmes, o modo como todos os seus elementos, sobretudo aqueles mais directamente arrancados ao “real” (por exemplo, em Mudar de Vida, a sequência da festa popular), se inserem numa progressão narrativa impecável, alimentada por pulsões e mais pulsões, invisíveis mas pressentidas, e frequentemente de sinal contrário – é essa violência, sanguínea, contraditória, inexplicável, que toma conta do final de Os Verdes Anos, por exemplo, esse filme que acabando embora com a morte é um filme pleno de vida. Nessa perspectiva, Mudar de Vida, sendo mais duro e mais árido do que Os Verdes Anos, é um filme mais optimista, a fazer bem jus ao título: a célebre fala final do protagonista, “ainda temos braços”, é uma promessa de vida, de futuro, um caminho de superação diametralmente oposto ao fechamento, dir-se-ia “subterrâneo”, para que tendem Os Verdes Anos.
Num caso como noutro, e como se verificaria ainda em muitos momentos da obra de Rocha (O Rio do Ouro sendo um caso evidente), esse outro aspecto fundamental da obra do realizador, e que muito directamente cria uma ligação com Acto... de Oliveira, aparece em pleno: o seu interesse pela cultura popular, pelas formas de expressão populares, dadas menos como “documentário” do que como “teatro”, sempre em sofisticação e ritualização. Se eu Fosse Ladrão… Roubava é espantoso, entre outras coisas, pela forma como traz isto para o centro do cinema de Paulo Rocha. 
Mais do que apenas “autobiografia”, e dada a presença nele de uma multitude de excertos de filmes do realizador, é quase um filme de “crítica” – e se não é caso inédito andará lá próximo, mas não nos lembramos de nenhum realizador (nem mesmo Godard, que tanto se tem citado e revisto nos seus últimos filmes) que tenha feito assim, desta maneira, um filme sobre a sua própria obra.
Mas na constante fusão entre a ficção filmada contemporaneamente (a história do pai de Rocha e do seu desejo de “mudar de vida” e partir para o Brasil) e os ecos, muito concretos, trazidos pelos excertos dos seus filmes, é como se o realizador propusesse essa questão, a da expressão popular (as canções, por exemplo), como centro emanador e inspirador do essencial da sua obra.
Assim articulados, não é sem espanto que percebemos que filmes que pareciam tão distantes como, por exemplo, Os Verdes Anos e O Rio do Ouro, se tocam porventura mais do que o que supúnhamos. Ou que entre o cansaço do protagonista de Mudar de Vida e o cansaço de Venceslau de Moraes em A Ilha dos Amores há mais em comum do que julgaríamos.

Se Eu Fosse Ladrão... Roubava é a análise filmada da obra de Rocha que ninguém fez, mas feita como só ele a podia fazer – sem auto-celebração, com ironia, e dando todo o destaque à matéria (actores, paisagens, canções) de que o seu cinema se fez. No fim, a despedida: “Não tenhas medo." Como se a morte fosse só o regresso ao princípio. (Jornal Público – 14.Maio.2015)

terça-feira, 12 de maio de 2015

Fotografias originais de Frida Kahlo pela primeira vez em Portugal.


A exposição de fotografias originais da pintora mexicana Frida Kahlo é apresentada pela primeira vez em Portugal, a partir de sexta-feira, em Cascais.
Intitulada "Fashion icon Frida Kahlo", a mostra, com curadoria de Astrid Sauer, estará patente no CascaisShopping, em Alcabideche, no concelho de Cascais, até 12 de Julho.
A exposição reúne 44 fotografias originais, que "são testemunho de eventos que marcaram não só a pintura e a vida artística de Frida Kahlo mas, sobretudo, a sua maneira de ser e o seu estilo único que influenciou decisivamente, e continua a influenciar, a moda", afirma a organização em comunicado enviado à Lusa.
Segundo a mesma fonte, este conjunto de fotografias "abre uma página da vida íntima da artista, apresenta Frida Kahlo em momentos privados e públicos e revelam a personalidade de uma artista mas, ainda mais, de uma mulher que se tornou o símbolo da força e independência do universo feminino".
As fotografias percorrem as diferentes fases de crescimento da artista mexicana, desde a infância até à idade adulta, e captaram "momentos passados com o seu marido, o artista plástico Diego Rivera, encontros em família e de convívio com os seus amigos".
As fotos de "dimensões variadas" vão estar expostas numa estrutura criada de raiz pelo ateliê de arquitetura LikeArchitects, "que permite apreciar, de uma forma envolvente e quase intimista, os vários registos fotográficos que caracterizam os momentos mais marcantes da vida da artista".
As fotografias, de autoria de Lola Alvarez Bravo, Manuel Alvarez Bravo, Florence Arquin, Lucienne Bloch, Imogen Cunningham, Guillermo Dávila, Gisèle Freund, Héctor García, Juan Guzman, Fritz Henle, Guillermo Kahlo, Leo Matiz, Nickolas Muray, Victor Reyes, Bernard Silberstein, Carl Van Vechten e Edward Weston, fazem parte de uma colecção privada.
Da exposição fazem parte "filmagens de modelos contemporâneos, em 'super slow-motion', que incorporam o estilo contemporâneo da artista, associando-se uma mostra de moda, inspirada no estilo" de Frida Kahlo.
Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón nasceu no dia 06 de Julho de 1907, na cidade de Coyoacàn, nos arredores da capital federal mexicana.
A pintora associou-se desde o início aos ideais da Revolução Mexicana de 1910, a ponto de indicar muitas vezes esta data como a do seu nascimento.
Aos seis anos foi vítima de poliomielite, que tornou a sua perna esquerda mais curta que a direita e, aos 18 anos, um acidente de viação deixou-a quase sem vida, com a coluna vertebral, bacia, a perna e pé direito partidos. Enquanto recuperava no hospital começou a pintar, acabando por se tornar uma artista de referência apreciada fora das fronteiras mexicanas, facto para o qual muito contribuiu a admiração do escritor surrealista francês André Breton.
Kahlo, que expôs nos Estados Unidos e em França, foi a primeira sul-americana a vender um quadro por um milhão de dólares.
A artista plástica que, por duas vezes, se casou com o muralista e propagandista político de Esquerda Diego Rivera, morreu no dia 13 de Julho de 1954, na sua cidade natal, vítima de uma broncopneumonia, depois de, no ano anterior, ter sido sujeita à amputação de uma perna.

Lusa/SOL – 11.Maio.2015

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Cantinflas. Ainda nos rimos com este mexicano?


Durante um mês, a partir de hoje, o mexicano que conquistou o mundo vai estar em destaque. Cinema, exposição e debates num ciclo para conhecer a fundo este humorista.
Nos próximos dias vamos todos perceber se a memória de Cantinflas está datada ou não. Se nos dias de hoje o humor da personagem mexicana que conquistou o mundo ainda é capaz de chegar a novos públicos. A embaixada do México oferece à cidade de Lisboa um Ciclo de Cine Mexicano dedicado ao ator Mario Moreno, o mítico ator que se fundiu com a personagem. De amanhã a 4 de junho, o Instituto Cervantes será a casa de Cantinflas numa série de projeções com legendas em português das imortais comédias.

Os filmes escolhidos nesta homenagem a Moreno vão desde 1940 a 1967, tentando construir um arco cronológico. Tudo começa com Cantinflas em Calças Pardas (1940), de Juan Bustillo Oro, a primeira longa em que Moreno começava a confundir-se com a personagem. Uma história de identidades trocadas em que Cantinflas é tratado como um rei. O ciclo prossegue no dia 12 com um dos clássicos de Cantinflas: O Gendarme Desconhecido (1941), o primeiro realizado pelo cineasta preferido de Moreno, Michel M. Delgado. A partir daqui, a fama deste tipo de humor familiar e profundamente humano tornava-se global. (DN - &.Maio.2015)


quarta-feira, 29 de abril de 2015

The end” para mais um cinema em Lisboa: o Fonte Nova.


Ao fim de 20 anos, a Medeia Filmes deixa de explorar as salas de um dos últimos centros comerciais de bairro em Lisboa. Futuro do espaço ainda é incerto.
The end, fin, fine. A última sessão dos cinemas Fonte Nova, na freguesia lisboeta de Benfica, já tem data marcada: 21 de maio. É nesse dia que termina o contrato que, até aqui, unia a administração do centro comercial com o mesmo nome à Medeia Filmes, responsável pela exploração das três salas nos últimos 20 anos.
O futuro do espaço que as salas ocupam no centro comercial ainda é incerto. Ao Observador, uma responsável da administração do centro preferiu não fazer comentários para já, remetendo para mais tarde um anúncio do que vai ali existir. Já Paulo Branco, da Medeia, desconfia que os projetores não venham a ser mais ligados no Fonte Nova. “Querem aproveitar aquele espaço para outras valências”, diz o programador, explicando que não houve conflito entre as partes na tomada desta decisão.
“As frequências [de espectadores] já eram muito reduzidas”, afirma Paulo Branco, para quem “já nem se justificava a existência daquelas salas ali”, sobretudo porque a não muita distância se situa o centro comercial Colombo, também com exibição cinematográfica, em nove salas comerciais e modernas. É lá, aliás, que se situa a única sala com tecnologia Imax do país.
A Medeia Filmes explora as três salas do cinema Fonte Nova desde 1995, quando o centro comercial estava a completar dez anos de existência. Apesar de ser um espaço frequentado da freguesia de Benfica, o Fonte Nova ressentiu-se com a inauguração do Colombo, e o cinema foi-se tornando cada vez mais frequentado por cinéfilos em busca de uma programação alternativa e periférica.

“Sempre mantivemos as salas para não prejudicar o centro comercial”, admite Paulo Branco, cuja exibidora fica agora com apenas dois espaços em Lisboa: o Monumental, com programação regular, e o Espaço Nimas, mais vocacionado para ciclos temáticos. O cinema King, também da Medeia, encerrou em novembro de 2013. Os quatro funcionários do Fonte Nova vão ser transferidos para as outras duas salas. (Observador.pt)

sábado, 18 de abril de 2015

O novo trailer do novo Star Wars: “Chewie, estamos em casa”.


Vê-se, pela primeira vez, Harrison Ford como um Han Solo envelhecido, ao lado do seu co-piloto no Millenium Falcon, Chewbacca, o wookie.
A voz de Luke Skywalker, mais Han Solo, Chewbacca, acrobacias do Millenium Falcon e uma máscara destruída de Darth Vader. É o que J.J. Abrams mostra no segundo trailer de Star Wars: The Force Awakens, divulgado nesta quinta-feira.
Se o primeiro apenas tinha mostrado apenas as caras novas da série, estes 1m59s já fazem a ponte com o passado. Vê-se, pela primeira vez, Harrison Ford como um Han Solo envelhecido, ao lado do seu co-piloto no Millenium Falcon, Chewbacca, o wookie.
A voz de Luke Skywalker (Mark Hamill) serve como fundo para estas novas imagens do sétimo capítulo da saga criada por George Lucas e que tem estreia mundial marcada para 18 de Dezembro próximo.

Já dá para perceber que neste novo Star Wars vamos ter novos Jedi, Lordes Sith, sabres de luz, X-Wings, e, muito provavelmente, o regresso do Império. Depois das três prequelas que pouco fizeram pela série, este The Force Awakens parece cada vez mais um regresso ao espírito da trilogia original. Como diz Han Solo para Chewie neste trailer: “Estamos em casa.” (Jornal Público – 18.Abr.2015)

domingo, 12 de abril de 2015

A EDUCAÇÃO QUE TEMOS ROUBA DOS JOVENS A CONSCIÊNCIA, O TEMPO E A VIDA.


Quando ouvimos este psiquiatra chileno de 75 anos, temos a sensação de estarmos diante de Jean-Jacques Rousseau do nosso tempo. Ele nos conta que esteve bastante adormecido até os anos 60, quando se mudou para os EUA, se tornou discípulo de Fritz Perls, um dos grandes terapeutas do século XX, e passou a integrar a equipe de terapeutas do Instituto Esalen da Califórnia. A partir deste momento passou a ter profundas experiências no mundo terapêutico e espiritual. Entrou em contato com o Sufismo e tornou-se um dos introdutores do Eneagrama no Ocidente. Ele também bebeu do budismo tibetano e do zen.
Claudio Naranjo tem dedicado sua vida à pesquisa e ao ensino em universidades como Harvard e Berkeley. Fundou o programa SAT, uma integração de Gestalt-terapia, o Eneagrama e Meditação para enriquecer a formação de terapeutas  professores. Neste momento, lança um alerta contundente: ou mudamos a educação ou o mundo vai afundar.
- Você diz que para mudar o mundo é preciso mudar a educação. Qual é o problema da educação e qual é a sua proposta?
- O problema da educação não é de forma alguma o que os educadores pensam que é. Acreditam que os alunos não querem mais o que eles tem a oferecer. Aos alunos vão querer forçar uma educação irrelevante e estes se defendem com distúrbios de atenção e com a desmotivação. Eu acho que a educação não está a serviço da evolução humana, mas sim a produção ou socialização. Esta educação serve para adestrar as pessoas de geração em geração, a fim de continuar a ser mais um manipulado pelos cordeiros da mídia. Este é um grande mal social. Você quer usar a educação como uma maneira de embutir na mente das pessoas uma maneira de ver as coisas que irá atender ao sistema e a burocracia. Nossa maior necessidade é evoluir na educação, para que as pessoas sejam o que elas poderiam ser.
A crise da educação não é uma crise entre as muitas crises que temos, uma vez que a educação é o cerne do problema. O mundo está em uma profunda crise porque não temos uma educação para a consciência. Nós temos uma educação de uma forma que está roubando as pessoas de sua consciência, seu tempo e sua vida.
O modelo de desenvolvimento econômico de hoje tem ofuscado o desenvolvimento da pessoa.
- Como seria uma educação para a qual sejamos seres completos?
- A educação ensina as pessoas a passar por exames, não em pensar por si mesmas. É um exame que não se mede a compreensão, mede-se então a capacidade de repetir. É ridículo, se perde uma grande quantidade de energia! Ao invés de uma educação para a informação, precisamos de uma educação que aborde o aspecto emocional e uma educação da mente profunda. Para mim parece que estamos presos entre uma alternativa idiota, que é a educação secular e uma educação autoritária que é a educação religiosa tradicional. Está tudo bem separar o Estado e a Igreja mas, por exemplo, a Espanha, tem descartado o espírito, como se religião e espírito fossem a mesma coisa. Precisamos que a educação também atenda à mente profunda
- Quando você fala sobre a espiritualidade e a mente profunda o que quer dizer exatamente?
Tem a ver com a própria consciência. Tem a ver com essa parte da mente da qual depende o sentido da vida. Se está educando as pessoas sem este sentido. Tampouco é uma educação de valores, porque a educação de valores é demasiadamente retórica e intelectual. Os valores deveriam ser cultivados através de um processo de transformação pessoal e esta transformação está longe da educação atual.
A educação deve também incluir um aspecto terapêutico. O desenvolvimento pessoal não pode ser separado do crescimento emocional. Os jovens estão muito danificados afetiva e emocionalmente pelo fato de que o mercado de trabalho esta absorvendo os pais que não têm mais disponibilidade para os filhos. Há muita carência amorosa e muitos desequilíbrios nas crianças. Não pode aprender intelectualmente uma pessoa que está emocionalmente danificado.
O lado terapêutico tem muito a ver com resgatar na pessoa a liberdade, a espontaneidade e a capacidade de satisfazer seus próprios desejos. O mundo civilizado é um mundo domesticado e tanto a formação como a criança são instrumentos desta domesticação. Temos uma civilização doente que os artistas perceberam há muito tempo e agora cada vez mais pensadores, percebem também.
-A educação parece interessada apenas em desenvolver as pessoas racionais. Que outras partes mais poderiam ser desenvolvidas?
-Eu coloco ênfase de que somos seres com três cérebros: temos cabeça (cérebro intelectual), coração (cérebro emocional) e intestino (cérebro visceral ou instintivo). A civilização está intimamente ligada à tomada do poder pelo cérebro racional. No momento em que os homens predominaram no controle político, cerca de 6000 anos atrás, se instaura o que chamamos de civilização. E não é só o domínio masculino e nem só o domínio da razão, mas também a razão instrumental e prática, que se associa com a tecnologia;  é este predomínio da razão instrumental sob o afeto e a sabedoria instintiva que nos tem empobrecidos. A plenitude só pode viver em uma pessoa que tem os três cérebros ordenados e coordenados. Deste meu ponto de vista, precisamos de uma educação para os seres com três cérebros. Uma educação que poderia ser chamada de holística ou integral. Se vamos educar a pessoa como um todo, devemos ter em mente que a pessoa não é apenas razão.
Ao sistema convém que cada pessoa não esteja em contato consigo mesma e nem que pense por si mesma. Por mais que se levante a bandeira da democracia, ela tem muito medo que as pessoas tenham uma voz e estejam conscientes. A classe política não está disposta a investir em educação.
- A educação nos faz mergulhar em um mar de conceitos que nos separam da realidade e nos aprisiona em nossa própria mente. Como se pode sair desta prisão?
Esta é uma grande questão e é uma questão necessária no mundo educacional. A ideia de que o conceitual é uma prisão requer uma certa experiência de que a vida é mais que isto. Para quem já tem interesse em sair da prisão intelectual, é muito importante ter disciplina para parar a mente, ter a disciplina do silêncio, como praticado em todas as tradições espirituais: cristianismo, budismo, yoga, xamanismo… Parar os diálogos internos em todas as tradições do desenvolvimento humano tem sido visto como algo muito importante. A pessoa precisa se alimentar de coisas a mais do que conceitos. A educação quer aprisionar a pessoa em um lugar onde ela é submetida a uma educação conceitual forçada, como se não houvesse outra coisa na vida. É muito importante, por exemplo, a beleza… A capacidade de reverência, admiração, veneração, de devoção. Isto não tem a ver necessariamente com uma religião ou um sistema de crenças. É uma parte importante da vida interior que está se perdendo, da mesma forma que estão perdendo belas áreas da superfície da Terra, a medida que se constrói e se urbaniza.
- Precisamente quero saber sua opinião sobre a crise ecológica que vivemos.
Ela é uma crise muito evidente, é a ameaça mais tangível de todas. Você pode facilmente prever que, com o aquecimento global, com o envenenamento dos oceanos e outros desastres que estão acontecendo, muitas pessoas não poderão sobreviver.
Estamos vivendo graças ao petróleo e consumimos mais recursos do que a terra produz. É uma contagem regressiva. Quando ficarmos sem o combustível, será um desastre para o mundo tecnológico que temos.
As pessoas que chamamos primitivas como os índios têm uma maneira de tratar a natureza que não vem do sentido utilitário. Na ecologia, na economia e em outras coisas, temos dispensado a consciência e trabalhado apenas com argumentos racionais que estão nos levando ao desastre. A crise ecológica só pode ser interrompida com uma mudança pelo coração, com a verdadeira transformação que só um processo educativo pode dar. Com isto, eu não tenho muita fé nas terapias ou religiões. Só uma educação holística poderia evitar a deterioração da mente e do planeta.
- Poderiamos dizer que você encontrou um equilíbrio em sua vida nesse momento?
-Eu diria que mais e mais, apesar de eu não ter terminado a jornada. Eu sou uma pessoa com muita satisfação, a satisfação de ajudar o mundo que estou. Vivo feliz, se é que se pode ser feliz nesta situação trágica em que todos nós estamos.
-A partir de sua experiência, da sua carreira e sua maturidade, como você processa a questão da morte?
-Em todas as tradições espirituais são aconselhados a viver com a morte ao lado. Você tem que chegar a essa evidência de que somos mortais e que levar a morte a sério não será tão vaidoso. Não tens tanto medo das coisas pequenas, quando tens uma coisa grande que te preocupas mais. Acredito que a morte só é superada para aqueles que de alguma forma morrem antes de morrer. Um tem que morrer para a parte mortal, para a parte que não transcende. Aqueles que tem tempo e suficiente dedicação e que vão suficientemente longe nesta viagem interior, finalmente encontram seu verdadeiro eu. E este ser interior ou este ser que é um, é algo que não tem tempo e que dá a uma pessoa uma certa paz ou um sentimento de invulnerabilidade. Estamos tão absortos em nossas vidas diárias, em nossos pensamentos de alegria, tristeza, etc … Nós não estamos em nós, não temos conhecimento de quem somos. Para isso, precisamos estar muito sintonizados com a nossa experiência de tempo. Esta é a condição humana, estamos vivendo no passado e no futuro, é o aspecto horizontal de nossas vidas. Mas desatentos para a dimensão vertical da nossa vida, para o aspecto mais alto e mais profundo, e este é nosso espírito e nosso ser e a chave para o acesso é o aqui e o agora.
Às vezes a gente vai estar em busca do ‘Ser’ e às vezes ficamos confusos em busca de outras coisas menos importantes, como a glória.

http://estaremsi.com.br/a-educacao-que-temos-rouba-dos-jovens-a-consciencia-o-tempo-e-a-vida/

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Português.


Este texto é da autoria de Teolinda Gersão.
Escritora, Professora Catedrática aposentada da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
(escreveu-o depois de ajudar os netos a estudar Português, e colocou-o no Facebook)
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete”: “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados; almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa. No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo visto, no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer, dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática.