sexta-feira, 26 de junho de 2015

Robert Capa a cores, agora na Europa.


Parece não haver dúvidas de que a última fotografia que Robert Capa (1913-1954) disparou, naquele malfadado dia 25 de Maio de 1954, na localidade vietnamita de Thai Binh, foi feita a preto-e-branco. Mas também é verdade que aquele que ficou para a História como “o maior repórter do mundo” tinha consigo duas máquinas fotográficas, como, de resto, acontecia desde há uma década no seu trabalho. E se a arte, a filosofia e a posteridade da criação fotográfica de Capa ficaram para sempre associadas ao preto-e-branco, desde aquele icónico instantâneo que registou o momento mesmo da morte do miliciano Federico Borrel nos arredores de Córdova, em 1936, no início da Guerra Civil em Espanha, também se sabe desde há algum tempo que o repórter nascido na Hungria também cultivou a cor.



A “revelação” surgiu, com alguma surpresa na altura, no final de 2013, quando o International Center of Photography, organismo fundado em 1974 pelo seu irmão Cornel, anunciou a realização de uma primeira exposição em Nova Iorque sobre essa faceta da obra de Robert Capa. Uma nova selecção dessas fotografias a cores – de um espólio com mais de quatro mil negativos – está agora a ser mostrada pela primeira vez na Europa, na cidade natal do repórter, no Robert Capa Center de Budapeste.
“Para o Governo húngaro, é essencial mostrar ao mundo o património fotográfico húngaro e mostrar a forma como a visão dos artistas húngaros influenciou a história do século XX”, disse Péter Hoppál, ministro da Cultura do país aquando da apresentação da exposição, citado pelas agências informativas.

Mas a verdade é que a fotografia de Capa escapa a qualquer apropriação ou fronteira. Mesmo quando, como acontece com a presente mostra de imagens, o repórter parece repousar em lugares e registos da vida mundana – as férias em família de Pablo Picasso ou Ernest Hemingway; a burguesia internacional nas estâncias de esqui nos Alpes suíços ou nas praias de França; os desfiles de moda em Paris com a Torre Eiffel em fundo; as stars de Hollywood captadas fora do plateau, incluindo Ingrid Bergman, de que se conhece o idílio frustrado com o fotógrafo… – bem distantes desse confronto físico entre a vida e a morte que Capa viveu e testemunhou nas frentes das grandes batalhas do século XX, da Guerra Civil de Espanha à Segunda Guerra Mundial, de Israel à Indochina... (Jornal Público)

sábado, 20 de junho de 2015

James Salter (1925-2015): “A nossa vida está sempre a ir embora”.


“A ficção está acima da verdade. Num outro patamar moral e estético, artístico. A verdade na memória remete para uma verdade mais objectiva, algo que terá acontecido. Terá ele visto? Terá ele dito? Terei sentido? Será que fomos? Eu adoro a memória. A nossa vida acaba por ser só memória. Está sempre a ir embora a todo o tempo, a mudar.”
As palavras foram ditas no final de Abril deste ano por James Salter, a quem chamavam o escritor dos escritores. Foi numa entrevista sobre o seu último romance, e o primeiro que publicou em Portugal: Tudo o que Conta (Livros do Brasil), uma reflexão sobre a passagem do tempo a partir da perspectiva de um homem que não queria ter uma existência comum. A vida passou e esse homem olha para ela, reconstruindo-a com a memória. A memória que passa, que faz que o fez dizer : “a nossa vida está sempre a ir embora”.
A revista Lire considerou Tudo o que Conta o melhor romance estrangeiro publicado em França em 2014 e dedicou-lhe a capa. Pouco tempo antes, o jornal The New York Times escrevia que era um dos escritores essenciais da literatura norte-americana. James Salter morreu na madrugada de sexta-feira. Tinha feito 90 anos no passado dia 10 de Junho.
A voz algo trémula, os olhos de uma frontalidade que podia intimidar, sorriso desenhado no sobrolho, esperava na paragem a camioneta vinda de Nova Iorque. Em Bridgehampton, pequena vila de Long Island que multiplica a população no Verão, há uma rotina de província. A paragem do expresso que chega e parte mais ou menos de duas em duas horas é um ponto de encontro e de trocas. De encomendas, de abraços. Salter esperava a jornalista enquanto lia um livro: Do Lado de Swan, de Marcel Proust. Entrou depois no velho Saab e conduziu uns cinco minutos até à casa de madeira castanha onde vivia com a mulher, a jornalista Kay Eldredge. Era ali que continuava a escrever, diariamente, menos horas do que antes, mas num ritmo constante. Contos, ensaio, crítica, argumento, romance. Era um escritor de escrita lenta.
Tudo o que Conta demorou-lhe trinta anos e teve várias versões até lhe sair como queria. Foi fazendo outras coisas. Além da literatura, ensinava escrita. Desde 1956, ano em que se estreou com The Hunter, publicou seis romances, três colectâneas de contos, um livro de memórias — Burning the Days (1997) —, ensaios; escreveu quatro argumentos para cinema — onde se destaca o filme Downhill Racer, com Robert Redford, em 1966 —, um livro de poesia, e finalmente em 2013 apareceu com Tudo o que Conta. Talvez o exemplo mais brilhante da escrita de Salter.
“Não é um livro biográfico, mas tudo o que eu sei está aqui”, declarou então numa conversa em que tanto quanto responder a perguntas procurava respostas. Queria saber de novos autores, dos que chegam à Europa. E dos que a Europa tem e não chegam à América. E sobre a sua escrita dizia que não sabia bem. “Gostava de poder dizer qualquer coisa mágica”, continuava. Qualquer coisa sobre esse processo que, no seu caso, tinha qualquer coisa a ver com respiração, música, um ritmo, e com a leitura em voz alta do que ia fazendo. Seria harmonia? Ele levantou as mãos no ar, imitou o gesto de um maestro a marcar o compasso e repetiu: “Pam, Pam, Pam”, para depois cruzar as mãos e referir que não há magia ou milagre: “Dá muito trabalho.”
A escrita de James Salter, nome literário de James Horowitz, antigo coronel da força aérea norte-americana, continha uma clareza e elegância que muitos escritores admiravam. Graham Green, Vladimir Nabokov, Richard Ford, John Irving, Bret Easton Ellis, Jay McInerney elogiaram-lhe várias vezes a concisão, a palavra certeira, os recursos que permitiam que quase tudo o que dissesse parecesse simples e nessa simplicidade fosse avassalador. Michael Dirda escreveu um dia no The Washington Post que quando quer Salter “é capaz de nos partir o coração com uma frase”. Era também um caso exemplar em algo que não é literatura, mas determina um percurso literário: um escritor sem vendas raramente consegue ter importância, mesmo que a tenha. Salter tinha-a, mas os seus livros nunca foram best-sellers.

Foi pela literatura que James Salter deixou o exército. Natural de Passaic, estado de Nova Iorque, onde nasceu a 10 de Junho de 1925, filho de um vendedor de imobiliário, cresceu em Manhattan, fez o liceu numa escola privada no Bronx, onde foi colega de Jack Kerouac e, para fazer a vontade ao pai — um antigo militar —, estudou em West Point. Serviu no exército até 1957. Já tinha publicado The Hunters e queria tentar viver da literatura. Mudou de vida e de nome. Fala disso sentado numa poltrona junto à janela. Entrava uma luz de manhã de Primavera com chuva. Ele pousara na mesa em frente Do Lado de Swan. Voltava a livros antigos. Estava a descobrir alguns a que sempre se mostrara relutante. Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry era a sua última paixão literária. Lera-o no México, onde passava os invernos para escapar ao frio de Nova Iorque. “São livros formadores”, dissera, sem nunca se alongar nas suas coisas: a capacidade de observação, a atenção ao outro, os elogios. A lucidez da escrita é a mesma da conversa. (Jornal Público)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

NetFlix vem aí. Canais já pensam em novas formas de dar televisão.


Serviço de TV por internet chega em outubro, a partir de 7,99 euros. Mais um operador que irá pôr os outros players a emitir os conteúdos no PC, smartphone, tablet ou smart TV.
A chegada do NetFlix, em outubro deste ano, irá obrigar os players do mercado da televisão a encontrar novas formas de distribuir os seus conteúdos. Esta é a principal ideia defendida, ao DN/Dinheiro Vivo por vários responsáveis do setor.
O diretor de programação da RTP, Nuno Artur Silva, diz que a chegada deste serviço de distribuição de conteúdos através da internet era "inevitável". Mas "positiva, porque vai obrigar a uma maior disponibilidade de conteúdos e diferentes formas de distribuição".
Isso mesmo defende Nuno Santos, observador atento do mercado da televisão nos artigos que publica ao domingo no DN, que diz que o NetFlix "obrigará todos os players do mercado a acelerar a reflexão que estão a fazer sobre como distribuir os conteúdos."
Para o também diretor de conteúdos da Multichoice (maior plataforma de TV do continente africano), "as novas plataformas são outro instrumento para as televisões".
É também a opinião de Luís Mergulhão, CEO do Omnicom Media Group, que aponta o caso da Media Capital (que detém a TVI), que anunciou recentemente uma plataforma online com a programação do último mês.
Este, tal como outros operadores, já perceberam que "há muitos portugueses a subscreverem conteúdos pagos pela internet, com acesso mais rápido, e que não passam pelos canais aéreos ou de cabo", explica o CEO de um dos maiores grupos de compra de espaço publicitário nos media.
Embora não venha revolucionar o meio, o "NetFlix irá fazer que se perceba que Meo e Nos não estão sozinhos neste meio, nem que têm o exclusivo dos conteúdos de entretenimento", reforça o responsável.
Em comunicado o NetFlix anuncia que, "a partir do outono, os utilizadores de internet em Portugal vão poder fazer a assinatura da NetFlix e assistir a uma ampla seleção de séries de TV e filmes em alta definição ou até mesmo em Ultra HD 4K, em quase todos os ecrãs ligados à internet."
Daí que Luís Mergulhão insista: "O NetFlix é mais um um operador numa oferta cada vez maior", mas sem revoluções. Como a internet permite um acesso rápido, este operador "vai acelerar os conteúdos pagos através de diversas plataformas", remata.
Já no caso do operador público RTP, o NetFlix vem lançar novos desafios. Para Nuno Artur Silva, "uma coisa é disponibilizar conteúdos, outra é ter de escolher programação". Por outro lado, irá fazer a divisão entre fluxo televisivo e stock. "Antigamente tudo coexistia nos canais - séries, filmes, even-tos -, hoje há cada vez mais uma separação", assinala o diretor de programas da RTP.
O NetFlix vai, aponta Artur Silva, "tornar obsoletas conversas como a comparação de shares entre canais", além de "nos fazer pensar como vão sobreviver os canais abertos, nomeadamente o posicionamento do canal público". Mas o seu antecessor, Nuno Santos, indica uma pista: "A TV free-to-air ainda é e será o grande polo de investimento publicitário, até porque o NetFlix não tem um modelo baseado em publicidade." Isso mesmo assume o NetFlix em comunicado: "Os assinantes podem ver, fazer pausas e retomar as séries e os filmes, através de vários dispositivos, sempre sem publicidade ou compromisso de permanência."
Ainda que a marca seja "aspiracional" e que, "por norma, os portugueses sejam muito recetivos a "inovações"", Nuno Santos destaca que "o conteúdo é a chave, mesmo com um preço atrativo".
Em França, o serviço-base do NetFlix custa 7,99 euros. Para dois ecrãs o custo é de 8,99 euros e para quatro ecrãs em alta definição o preço é de 11,99 euros.
Isto para conteúdos que incluem séries originais como o Demolidor da Marvel, Sense8, Bloodline, Grace and Frankie, Unbreakable Kimmy Schmidt ou Marco Polo; documentários como Virunga, Mission Blue ou Chef"s Table; bem como vários especiais de stand-up comedy. A oferta NetFlix inclui também programação infantil e filmes originais. E todos os programas serão legendados em português.
"Este é mais um passo para a "complexificação" de um mundo que já é interessante", remata Nuno Artur Silva.

O DN/Dinheiro Vivo tentou o contacto com o Meo, Nos e Vodafone, outros concorrentes do Netflix, mas não obteve qualquer resposta até à hora de fecho desta edição. (DN/Dinheiro Vivo)

sexta-feira, 5 de junho de 2015

10 truques do Google que provavelmente não conhece.


Os programadores do Google estão sempre a inovar e, de vez em quando, criam uns truques que nem sempre são do conhecimento geral. Há jogos escondidos, há atalhos muito práticos e, até, algumas inutilidades só porque sim... Veja os 10 truques que descobrimos:

1. Funciona como cronómetro

Está a trabalhar e precisa de um lembrete para fazer um telefonema ou para sair a tempo de ir buscar os miúdos à escola. Pode usar o Google como cronómetro. Só tem de usar a frase "set timer to x minutes (and x seconds)" substituindo o "x" pelos minutos e segundos que desejar.

2. Procurar num só site

Por vezes, queremos encontrar determinado assunto que sabemos que lemos em determinado site, mas a busca no Google por palavras dá um milhão de resultados e o que procuramos não está à vista. O código para procurar apenas dentro do site que queremos é simples. Por exemplo, para pesquisar apenas no Dinheiro Vivo tudo o que já se publicou sobre "impostos", escreva no Google "site: Dinheiro Vivo impostos".

3. Saber estado do voo

Está atrasado, não sabe se chega a tempo do voo e também não sabe se vale a pena correr porque pode haver atrasos? Bem, o Google também lhe diz como está o estado do seu voo. Experimente: o voo Porto-Lisboa com a Ryanair tem o código FR1671. É só introduzir o código no Google e fica a saber.

4. Decidir o que comer

Será que a pizza engorda mais do que um hamburguer? Em caso de dúvida, é só digitar "pizza vs hamburguer" no Google e terá imediatamente o quadro nutricional dos dois alimentos para comparação. Tudo o que quiser diigitar terá de ser em inglês, embora no caso do exemplo, as palavras sejam iguais em português.

5. Previsão do tempo

É claro que há uma imensidão de sites que lhe dizem a previsão do tempo, mas se estiver com pressa o Google dá uma ajuda. É só digitar o nome da cidade seguido de "forecast" (previsão, em inglês) e o resultado é instantâneo.

6. Alimentar a nostalgia com jogos

Este truque estava bem escondido pelos engenheiros brincalhões do Google. Sabia que se escrever "Atari Breakout" na pesquisa de imagens do Google, pode matar saudades do velhinho jogo de consola? No Google há ainda outro jogo escondido: escreva "zerg rush" e divirta-se a "matar" os zeros antes que lhe "comam" os resultados...

7. Conversões instantâneas

Quilómetros para milhas, gramas para onças, euros para dólares, libras para euros e outras conversões chatas e traiçoeiras já não precisam de cálculos complicados. Mais uma vez, terá de saber os termos em inglês para digitar, mas o Google dá-lhe o resultado num segundo. Tente "meters to miles" (metros para milhas) ou "grams to pounds" (gramas para onças), "euro to dollar" (euro para dólar) ou "pounds to euro" (libras para euros), para citar apenas algumas das conversões mais frequentes.

8. Tradução rápida

Para textos maiores, existe o Google Translate, mas quando queremos apenas uma frase ou uma expressão mais rapidamente, é só escrever, por exemplo, "portuguese to japanese" e surgem os campos onde poderá escrever a expressão em português do lado esquerdo e obter o resultado em japonês do lado direito. Ou vice-versa, copiou uma expressão em japonês, cola do lado direito e obtém o resultado em português.

9. Inclinar o ecrã

Não, não é um truque prático, mas sempre diz algo do sentido de humor dos programadores do Google. Escreva "tilt" e veja o que sucede ao ecrã.

10. Controlar o sol


É daquelas informações que pode dar trabalho a encontrar: saber, por exemplo, a que horas está a nascer o dia e a que horas é o pôr do sol no nosso destino de férias. O Google responde imediatamente. É só escrever "sunrise in (nome da cidade)" ou "sunset in (nome da cidade)". Experimente. (DN-Dinheiro Vivo – 5.Jun.2015)

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Acampar com histórias e "show cooking" na Feira do Livro de Lisboa.


A 85.ª edição da Feira do Livro de Lisboa, que decorre de 28 de Maio a 14 de Junho, vai ter novidades. Acampamento com histórias para crianças, conferências com oradores internacionais e um "show cooking".
Conferências com convidados internacionais, um auditório “com uma cozinha equipada” - para ali se realizarem apresentações de livros de gastronomia - e várias noites dedicadas às crianças com uma nova actividade, Acampar com histórias, são algumas das novidades da 85.ª edição da Feira do Livro, que decorre de 28 de Maio a 14 de Junho no Parque Eduardo VII, em Lisboa.
Esta edição conta com um total de 271 pavilhões (mais 21 do que o ano passado) e também com um número recorde de participantes: são 123 os inscritos nesta feira do livro (mais 23 do que em 2014).
Na conferência de imprensa que decorreu esta terça-feira à tarde no Parque Eduardo VII, onde já se podem ver montados os pavilhões coloridos das diversas editoras, o presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), João Alvim, referiu que em 2014 o número de visitantes da Feira do Livro de Lisboa foi de 532 mil e que a expectativa da APEL “é sempre a de se ultrapassar" o número de visitantes do ano anterior. “Ambicionamos [este ano] chegar aos 600 mil visitantes, com os [novos] espaços de lazer, a programação e se as condições meteorológicas forem favoráveis”, acrescentou.
Por sua vez, Bruno Pacheco, secretário-geral da APEL, lembrou que este ano os visitantes podem contar com “mais de mil iniciativas durante os 18 dias da feira, aproximadamente mais 100 do que no ano anterior". Haverá mais locais de restauração e o novo espaço "show cooking" - com um auditório localizado à entrada da feira junto ao Marquês de Pombal onde haverá “uma cozinha equipada” - permitirá que ali decorram apresentações de livros de gastronomia e culinária. 
Entre as novidades mais entusiasmantes deste ano na feira inclui-se a iniciativa Noites Happy Readers: Acampar com Histórias mas para a qual já terminaram as inscrições. É dedicada aos mais pequenos, dos 8 aos 12 anos, e os participantes vão passar uma noite “rodeados de livros, histórias e letras”, tal como explicou Susana Silvestre, da rede de Bibliotecas Municipais de Lisboa. Esta actividade que se repete em seis noites – 19 e 30 de Maio, 5, 6, 12 e 13 de Junho - vai permitir que 120 crianças, que já foram seleccionadas após inscrição e o pagamento no site da APEL, façam uma visita guiada pela feira entre muitos livros e actividades, jantem e acampem durante a noite na Estufa Fria de Lisboa.
Logo após a cerimónia de inauguração da 85.ª edição da Feira do Livro de Lisboa, quinta-feira às 16h, inicia-se o primeiro de três ciclos de conferências às quintas-feiras com convidados internacionais dedicadas ao debate de temas ligados à indústria europeia do livro. A primeira conferência é sobre os direitos de autor/pirataria e contará com a presença do presidente da Federação Europeia de Editores, Pierre Dutilleul, no dia 28 de Maio.
A segunda conferência será dedicada à Lei do Preço Fixo e terá a participação de Kyra Dreher, co-presidente da Federação Europeia e Internacional de Livreiros (4 de Junho) e por fim, Richard Charkin, presidente da Associação Internacional de Editores irá estar na feira no dia 11 de Junho a discutir os constrangimentos internacionais aos direitos de autor e à luta contra a pirataria. Durante os 18 dias da feira irá decorrer ainda o I Encontro LiterárioNós e os livros, e a Fundação Francisco Manuel dos Santos vai promover um ciclo de onze debates sobre a economia portuguesa, o parlamento e o ensino, entre outros temas.
A Feira do Livro de Lisboa está aberta de segunda a quinta-feira das 12h30 às 23h, às sexta-feiras e vésperas de feriados das 12h30 às 24h, aos sábados das 11h às 24h e aos domingos e feriados das 11h às 23h.

Editado por Isabel Coutinho (Jornal Público –Maio.2015)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

A China de Jia Zhang-Ke em três tempos.


O filme de Jia Zhang-Ke distingue-se por dar a ver os temas e interrogações da evolução da sociedade chinesa.
É bem verdade que o cinema nos ajuda a reavaliar as medidas do tempo. Por vezes, refletindo sobre conjunturas presentes de perturbante dramatismo, como acontece em Sicario, do canadiano Dennis Villeneuve, apostado em renovar um género - o thriller em torno das guerras da droga na fronteira México/EUA - muito explorado pela produção americana. Outras vezes, baralhando aquelas medidas e, no limite, questionando os sentidos e valores da nossa existência. Assim acontece em mais dois títulos marcantes da competição de Cannes: Mountains May Depart, do chinês Jia Zhang-Ke, e Youth, do italiano Paolo Sorrentino.
Este último e o projeto desenvolvido por Sorrentino logo após a consagração do seu anterior A Grande Beleza, Oscar de melhor filme estrangeiro de 2014. Agora, rodeou-se de um elenco invulgar - em que se destacam os veteraníssimos Michael Caine, Harvey Keitel e Jane Fonda - por assim dizer celebrando a sua internacionalização. Falado em língua inglesa, Youth ironiza o seu título (Juventude), afinal para propor uma viagem amarga e doce pelos sobressaltos do envelhecimento. E porque várias personagens estão ligadas ao mundo do cinema, o filme adquire os contornos de um requiem por um tempo primitivo do espetáculo - Sorrentino não será Fellini, mas e um legítimo herdeiro do seu trabalho.

O caso de Jia Zhang-Ke é mais arriscado e desconcertante. A sua dramatização do tempo envolve um inesperado efeito que apetece classificar de "ficção científica", embora tratado através de um elaborado realismo. Assim, começamos por conhecer dois rapazes e a rapariga com que ambos querem namorar - está-se em 1999 e a perspetiva do novo milénio alimenta a utopia de uma vida diferente. (DN – 21.Maio,2015)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Viagem ao princípio do mundo.


Se Eu Fosse Ladrão... Roubava, o filme-testamento de Paulo Rocha que agora, já postumamente, chega às salas de cinema, é o fim de uma obra iniciada na década de 1960 com duas obras-primas agora restauradas e também de regresso ao circuito comercial, Os Verdes Anos e Mudar de Vida. Dados a ver em conjunto, estes três filmes iluminam o círculo perfeito da obra do cineasta.
Faz um sentido especial a chegada ao circuito comercial, em simultâneo, do último filme de Paulo Rocha, Se Eu Fosse Ladrão… Roubava, e das suas duas primeiras longas-metragens, Os Verdes Anos e Mudar de Vida, estes dois títulos dados a ver em imaculadas versões recentemente restauradas pela Cinemateca Portuguesa com supervisão do realizador Pedro Costa.
E faz um sentido especial porque, se na obra de Paulo Rocha tudo se liga a tudo, e os seus filmes, mesmo espaçados no tempo, se estão sempre a reencontrar uns aos outros em rimas, ecos e repetições, Se Eu Fosse Ladrão… Roubava, que a dado passo o realizador não pode ter deixado de assumir como um verdadeiro “filme-testamento” ou “filme-súmula”, é uma obra inteiramente centrada nessas ligações, uma obra que atira luz sobre elas, e um filme que, em mais do que um sentido, volta incessantemente ao princípio – inclusive, e tratando da história do pai de Paulo Rocha, a uma origem familiar – para unir, num círculo perfeito, “fim” e “princípio”. Ora, fim e princípio duma obra, em circulo perfeito, é o que a exibição conjunta destes três filmes expõe, e propõe.
Manoel de Oliveira, por sua vez no seu “filme-testamento” há bem pouco tempo revelado publicamente (Visita ou Memórias e Confissões), refere a dado passo a sua admiração por Paulo Rocha, o cineasta português que mais apreciava. Não deixa, já agora, de ser justo notar o simbolismo latente no facto de a apresentação pública do filme de Rocha (depois de exibições no Festival de Locarno e na Cinemateca) suceder tão pouco tempo depois das primeiras exibições públicas deVisita..., como se isso reatasse um diálogo entre os dois. É certo que Rocha retribuía a estima de Oliveira, de quem foi assistente no Acto da Primavera e que talvez tenha sido, com António Reis, quem mais directamente reflectiu a importância matricial desse filme para o moderno cinema português.
Rocha foi um cineasta dos elementos, das tensões “telúricas”, da terra e do mar (como admiravelmente mostra, por exemplo, Mudar de Vida), mas também foi um cineasta da representação e do ritual, dados como chave para a “codificação” (ou “descodificação”) do real. A sua obra será sempre um bom ponto de partida para mostrar a diferença entre o que é ser “realista” (que Rocha foi sempre) e o que é ser “naturalista” (que Rocha nunca foi). A sua predilecção pelas formas da cultura japonesa – o cinema, o teatro, a pintura – mas também pela arte modernista (o seu filme sobre Amadeo de Souza-Cardoso, Máscara de Aço Contra Abismo Azul, feito em 1988) são outras manifestações precisas dessa diferenciação.

Um tempo em conserva


Quando vemos hoje Os Verdes Anos (1963) ou Mudar de Vida (1966), há um apelo muito imediato. O do tempo que ficou “em conserva” nesses filmes, o retrato que eles propõem duma época específica de Portugal. A Lisboa cinzenta dos Verdes Anos, ainda a expandir-se pelo campo em volta, as ruas e os cafés, as vidas dos que vinham do campo para avançar pela cidade, como o sapateiro (Rui Gomes) e a sopeirinha (Isabel Ruth) que compõem o casal protagonista.
Em Mudar de Vida, que não deixa de ser de vários modos um “reflexo” do primeiro filme de Rocha, a província (a região de Ovar, a que o realizador estava familiarmente ligado), as vidas dos pescadores, a sombra da guerra colonial (de onde voltava o protagonista). Tudo isto, toda esta precisão (“sociológica”, se quisermos), o tempo não fez mais do que salientar e reforçar, e este sentido de justeza também é, obviamente, a marca de um grande cineasta.
Mas que não deve esconder outros aspectos, mormente a extraordinária construção dramatúrgica desses filmes, o modo como todos os seus elementos, sobretudo aqueles mais directamente arrancados ao “real” (por exemplo, em Mudar de Vida, a sequência da festa popular), se inserem numa progressão narrativa impecável, alimentada por pulsões e mais pulsões, invisíveis mas pressentidas, e frequentemente de sinal contrário – é essa violência, sanguínea, contraditória, inexplicável, que toma conta do final de Os Verdes Anos, por exemplo, esse filme que acabando embora com a morte é um filme pleno de vida. Nessa perspectiva, Mudar de Vida, sendo mais duro e mais árido do que Os Verdes Anos, é um filme mais optimista, a fazer bem jus ao título: a célebre fala final do protagonista, “ainda temos braços”, é uma promessa de vida, de futuro, um caminho de superação diametralmente oposto ao fechamento, dir-se-ia “subterrâneo”, para que tendem Os Verdes Anos.
Num caso como noutro, e como se verificaria ainda em muitos momentos da obra de Rocha (O Rio do Ouro sendo um caso evidente), esse outro aspecto fundamental da obra do realizador, e que muito directamente cria uma ligação com Acto... de Oliveira, aparece em pleno: o seu interesse pela cultura popular, pelas formas de expressão populares, dadas menos como “documentário” do que como “teatro”, sempre em sofisticação e ritualização. Se eu Fosse Ladrão… Roubava é espantoso, entre outras coisas, pela forma como traz isto para o centro do cinema de Paulo Rocha. 
Mais do que apenas “autobiografia”, e dada a presença nele de uma multitude de excertos de filmes do realizador, é quase um filme de “crítica” – e se não é caso inédito andará lá próximo, mas não nos lembramos de nenhum realizador (nem mesmo Godard, que tanto se tem citado e revisto nos seus últimos filmes) que tenha feito assim, desta maneira, um filme sobre a sua própria obra.
Mas na constante fusão entre a ficção filmada contemporaneamente (a história do pai de Rocha e do seu desejo de “mudar de vida” e partir para o Brasil) e os ecos, muito concretos, trazidos pelos excertos dos seus filmes, é como se o realizador propusesse essa questão, a da expressão popular (as canções, por exemplo), como centro emanador e inspirador do essencial da sua obra.
Assim articulados, não é sem espanto que percebemos que filmes que pareciam tão distantes como, por exemplo, Os Verdes Anos e O Rio do Ouro, se tocam porventura mais do que o que supúnhamos. Ou que entre o cansaço do protagonista de Mudar de Vida e o cansaço de Venceslau de Moraes em A Ilha dos Amores há mais em comum do que julgaríamos.

Se Eu Fosse Ladrão... Roubava é a análise filmada da obra de Rocha que ninguém fez, mas feita como só ele a podia fazer – sem auto-celebração, com ironia, e dando todo o destaque à matéria (actores, paisagens, canções) de que o seu cinema se fez. No fim, a despedida: “Não tenhas medo." Como se a morte fosse só o regresso ao princípio. (Jornal Público – 14.Maio.2015)