quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Portugal - Um dia de cada vez.



O retrato do Portugal em crise que vive por detrás dos montes, num documentário ao estilo de João Canijo, cheio de histórias para contar.
 efeitos devastadores da grave crise económica são um tema urgente no cinema português, numa compreensível vinculação do artista ao seu tempo, à sua circunstância e ao mundo em redor. Tal transparece de forma gritante n'As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes; tal como neste Portugal - Um Dia de Cada Vez, de João Canijo e Anabela Moreira, a primeira parte de um longo projeto que pretende fazer uma espécie de radiografia de um país em crise. Os registos são distintos e, de alguma forma, complementares. Miguel Gomes opta por um realismo onírico, passe-se a contradição, em que a fantasia e a realidade convivem lado a lado, com cruzamentos ocasionais, e muitas vezes ao serviço de um experimentalismo narrativo e cinematográfico. Canijo e Moreira optam por um estilo mais clássico, num documentário mais cru, objetivo e eficaz. Portugal - Um dia de Cada Vez confronta-nos com pedaços de realidade não filtrada (na aparência) de famílias de aldeias e vilas do interior transmontano.
Os realizadores mostra-nos que esse documentarismo de proximidade manifesta-se numa forma íntima de contar histórias. E, como acontece sempre com João Canijo, o registo é profundamente cinematográfico e artístico, afastando-se radicalmente, por exemplo, da assinalável experiência televisiva da série de documentários Portugal, Um Retrato Social.
Tal acontece por uma questão de postura, em que se dá a primazia ao cinema e sua subjetividade inerente, e não a uma responsabilidade científica que obriga a escolher casos exemplares sociologicamente pertinentes. O filme de Canijo e Moreira obedece antes a preceitos artísticos e estilísticos e não científicos.
Logo à partida há uma opção por um estilo de documentário não participante, em que as personagens comportam-se como personagens de ficção, abstraindo-se da câmara, dando-nos a sensação de que estar perante a sua vida sem artificialismos. Tão pouco há uma contextualização narrativa em voz off ou através de separadores. Tal como havia feito através da montagem de imagens de arquivo em Fantasia Lusitana, aqui as imagens falam por si, sem recursos a qualquer subterfúgio para além da edição.
Por outro lado, dentro da aparente abrangência de retratos, que vai desde uma escola de província onde se aprende francês, à romena que trabalha na vinha em redor de Vila Nova de Foz Côa, permanece o fascínio pelo universo feminino, que é uma imagem de marca de João Canijo ao longo de quase toda a sua filmografia. Também este Portugal - Um Dia de Cada Vez é um filme de mulheres, em que os homens aparecem como meros figurantes das suas história. Certamente há uma inquietação sobre a profundidade do universo feminino, mas talvez também haja neste caso a intenção de fazer sobressair a ideia de mátria, tão forte também no Portugal contemporâneo.

retirado de: https://www.google.pt/?gws_rd=ssl#q=jornal+de+Letras

domingo, 1 de novembro de 2015

"Fátima podia ser melhor contada".



O que aconteceu entre maio e outubro de 1917 foi transformado no livro 'Em Teu Ventre'.
Por Leonardo Ralha
 A história de Lúcia, a menina que garantiu ter visto e falado com Nossa Senhora, é recontada por José Luís Peixoto no livro ‘Em Teu Ventre’ (Quetzal). O escritor garante à ‘Domingo’ que pretendeu gerar reflexão sobre um fenómeno que respeita.
Calcula como é que a sua mãe reagiria se aos dez anos lhe dissesse que tinha visto a Virgem Maria?
É uma pergunta curiosa, pois coloca o que aconteceu no campo do real. Muitas vezes, ignora-se algo fundamental: estamos a lidar com um acontecimento. Não depende da fé acreditar que três crianças, a mais velha com dez anos, afirmaram assistir à aparição de Nossa Senhora, a mãe de Jesus, numa azinheira, num campo do concelho de Ourém. Não consigo imaginar esse cenário na minha vida e não faço a mínima ideia do que a minha mãe poderia dizer – antes de pensar nela e na sua reação, penso no que eu era enquanto criança de dez anos e em como o Mundo era pouco nítido quando tinha essa idade.
A Galveias em que cresceu, nos anos 80, tinha algo em comum, por mais remoto, com a Fátima de 1917?
A primeira vez que fui a Fátima foi numa excursão da catequese. Galveias tem uma fundação, gerida pela Igreja Católica, o que faz com que tenha uma presença de freiras, que ministravam a catequese e iam à escola primária. A minha escola tinha, e ainda tem, um crucifixo na parede.
Como lhe apareceu a ideia de escrever a história daquela que viria a ser a irmã Lúcia e da sua família?
Interessei-me em ler um pouco mais sobre a história e tomei conhecimento de detalhes alheios àquilo que me fora transmitido. Aprendi a versão simplificada, mais comum, partilhada e, a meu ver, um pouco grosseira e infantil. Quase transformaram uma história concreta numa lenda pontuada por momentos que requerem fé. Quando li um pouco mais sobre a história, senti que podia ser melhor contada.
Houve algum momento em que tenha sentido medo de escrever sobre algo que diz tanto a tantas pessoas?
Da primeira à última palavra senti esse receio. Queria evitar transformar o livro numa provocação. Pelo contrário, a minha vontade era que pudesse propor reflexão, estimulando debate com respeito. Muitas vezes, quando se fala neste tema, tenta-se logo marcar uma posição quanto à fé. Sinto que há outras questões e que a fé é uma posição pessoal, até íntima, de cada um. Para passar à margem disso escolhi fontes que a Igreja Católica reconhece. As memórias da irmã Lúcia e o livro do padre João de Marchi. São textos com uma quantidade interessante de detalhes que me permitiram construir um livro, económico do ponto de vista da narrativa, mas que tenta retratar aquele período com realismo. Ao mesmo tempo, tive outra intenção, que não sei se ficou visível, mas foi importante: uma reflexão sobre a espiritualidade e o transcendente, que existe nas mais diversas formas, e faz sentido que cada um aceite. Esteve nos locais em que Lúcia e os primos Francisco e Jacinta viveram.
Sentiu algo especial?
Houve coisas que me tocaram bastante. Nomeadamente a forma como aquelas pessoas viveram. Atraiu-me mostrar a ruralidade, que muitas vezes Fátima simboliza. Nasci e cresci na ruralidade e acredito que esse Portugal ainda está presente, ainda que camuflado, em múltiplos traços daquilo que somos. E não me parece interessante que o rejeitemos por vergonha. Devemos procurar o que tem de positivo e aceitá-lo como parte daquilo que somos.
Compreende que, apesar de Fátima ser para muitos sinónimo de fé, haja quem a associe aos vendilhões do templo?
Compreendo os dois lados. O livro foca-se nos meses das aparições, de maio a outubro de 1917, mas a história teve desenvolvimentos. Se tivesse terminado aí, a Igreja teria rejeitado as aparições. Só as aceitou em outubro de 1930. Até porque era um fenómeno que vinha do povo… E envolvia algo muito caro à Igreja Católica. No livro, o padre é a personagem mais cética. Isso é histórico. Foi narrado por diversas fontes, incluindo a irmã Lúcia. Hoje, ao visitarmos Fátima, encontramos muitas formas de viver o fenómeno e algumas chocam muitas sensibilidades. Nomeadamente as lembranças feitas na China. Logo no momento das aparições houve quem falasse na possibilidade de Fátima se tornar uma estância religiosa, como Lourdes, o que aconteceu. É um destino turístico, visitado por milhares de pessoas. Muitas das quais não são católicas. Umas irão movidas pela sua fé e outras pela curiosidade. Certamente que há atrações para umas e para outras.
O livro não tem descrições das aparições. Fez essa escolha por não conseguir acreditar?
Foi a estratégia que encontrei para não ter de tomar partido. Não por pudor de apresentar a minha posição, mas porque senti que desvirtuaria as minhas intenções. Preferi fixar--me naquilo que me causa menos dúvidas, pois são factos históricos e mesmo assim acredito que tragam surpresas. Não me parece de forma alguma que as famílias de Lúcia e dos primos fossem pobres, como não me parece que fossem uns sacrificados por serem pastores. Havia outras crianças com trabalhos muito mais pesados e vidas mais difíceis nessa época.
É, ou alguma vez foi, um membro da Igreja Católica Apostólica Romana?
Tenho dificuldade em responder. Não posso fazer essa afirmação de forma inequívoca, a não ser talvez em momentos da infância, quando estava na catequese e frequentava a missa semanalmente. A certa altura afastei--me da instituição, mas não tenho dúvidas de que a minha estrutura moral foi formada nesse contexto. A religiosidade é algo que herdamos e que molda critérios e visão. Não podendo afirmar que tenho devoção, também não posso afirmar que os princípios da Igreja Católica me são totalmente alheios. Cresci e formei-me nessa cultura. Não é sequer uma escolha.
Interessa-lhe saber o que os religiosos pensarão desta narrativa?
Bastante. Apreciei a oportunidade de apresentar o livro em Fátima, na presença de figuras ligadas ao culto mariano e ao Santuário. Não quis que o livro fosse agressivo para com uma fé que respeito. Tenho admiração por quem a tenha. As primeiras palavras do livro são "tudo começa pela esperança" e a esperança, além de sinónimo de fé, é essencial à vida.
A mãe de Lúcia, que desconfia das aparições desde o início, tem mais medo do desconhecido ou de estar a ser trocada por outra mãe?
Sinto que a mãe de Lúcia estaria a proteger a família. Mas do ponto de vista simbólico temos duas mães em paralelo: a idealizada e divina e a concreta, com fragilidades.
Tal como ‘Morreste-me’ era um livro em nome do pai, ‘Em Teu Ventre’ é um livro em nome da mãe?
Sem dúvida. No entanto, ao contrário do meu primeiro livro, que dizia respeito ao meu pai, em concreto, este propõe uma reflexão sobre as mães, à margem da minha. Apesar de uma das narradoras ser mãe do autor. É um jogo literário, que tem a ver com a mãe interior que cada um tem dentro de si, seja qual for a distância ou independentemente de estar viva ou não. É uma voz de apoio e de crítica que deixou dentro de nós. Essa mãe dirige-se ao criador daquele texto, e é, de certa forma, uma aparição. Faz aquilo que Lúcia disse que Nossa Senhora fez em Fátima, atravessando dimensões para se tornar visível.
Era capaz de escrever este livro se a irmã Lúcia ainda estivesse viva?
Não creio. É um livro escrito com distância em relação aos acontecimentos. Apesar de a irmã Lúcia não ter morrido há muito tempo, isso pesou na possibilidade de poder refletir e ficcionar o assunto.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Marilyn e outros lá de casa, atrás da lente.

A exposição Sam Shaw: 60 Anos de Fotografia revela uma espécie de caleidoscópio do século XX. Inaugura esta sexta-feira no Centro Cultural de Cascais.
Não há como fugir. Sam Shaw será sempre aquele que captou Marilyn Monroe e o seu vestido esvoaçante sobre um respiradouro do metro de Nova Iorque. Estavam na rodagem do filme O Pecado Mora ao Lado (1955) e Marilyn posava para Sam, que tanto haveria de a fotografar. Tanto que há uma sala só dela na exposição Sam Shaw: 60 Anos de Fotografia, que hoje inaugura no Centro Cultural de Cascais. Marilyn, de roupão vestido, olha-nos de uma janela com a cara assente na mão direita. Sorri, mas não lhe conseguimos decifrar o rosto. Marilyn de calças de ganga. "Hoje toda a gente usa jeans. Ela contou ao Sam que as vestia, ia nadar no oceano - vivia na Califórnia - com elas vestidas, depois punha-se ao sol e deixava-se secar ao sol para que elas ficassem justas ao corpo."
Chama-lhe Sam, mas é sua neta. Melissa Stevens está em Cascais para assistir à montagem e inauguração da mostra que junta 200 fotografias do avô. Pouco depois da sua morte, em 1999, dedicou-se aos seus arquivos. Aqueles que guardam - ainda - Marilyn numa banheira. "Sam foi buscá-la. Não me lembro qual era o evento. Ela estava atrasada, estava toda a gente à espera. Ela estava na banheira, a tomar um banho cheio de gelo. Fazia-o muitas vezes para pôr o corpo firme antes de se vestir e aparecer em público", diz Melissa recordando uma das muitas histórias que o avô Sam lhe contou.

Percorrer as salas dos 60 anos de fotografia daquele homem de bigode e gabardine vestida (é assim que, numa das salas, surge a fotografar Audrey Hepburn) é como olhar para um caleidoscópio do século em que viveu, tantas são as suas personagens que captou. "Tirava uma fotografia a toda a gente que conhecia.Se não estivesse a trabalhar tinha pelo menos uma câmara, se estivesse a trabalhar tinha quatro." E foi com uma ou quatro que Sam Shaw captou Sophia Loren deitada, de cabeça apoiada no braço que revela uma axila por depilar. Ou John Wayne com o seu chapéu de cowboy em contraluz. Ou, por fim, Marlon Brando de camisa rasgada ajoelhado aos pés de "Stella" (basta a fotografia para que recordemos o grito) no filme de Elia Kazan, Um Elétrico Chamado Desejo (1951). (DN – 11.Set.2015)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Tati - A eles a liberdade.


Tati não depositava muita confiança na capacidade dos adultos para saberem existir livremente. O sopro anárquico estava reservado para as crianças e para os animais, criaturas que não reconheciam barreiras. Em O Meu Tio esta ideia surge limpidamente exposta: os únicos que saltitam alegremente entre os espaços delimitados do “antigo” e do “moderno” sem ficarem presos em nenhum são um grupo de crianças e uma matilha. E Hulot, claro, filmado como espécie de “inconsciência” que guardou um toque de infância e, porque não?, uma medida de animalidade. (Jornal Público – Ipsilon – 21.Agosto.2015)


domingo, 9 de agosto de 2015

O que andamos a ler enquanto molhamos os pés.


Em tempo de férias, são muitos os que aproveitam para pôr as leituras em dia, em todo o mundo. Nos EUA, Harper Lee domina os tops. A Rapariga no Comboio, de Paula Hawkins, está um pouco por toda a parte e Portugal não é exceção...
Portugal fica de fora, por um desfasamento editorial remendado nos próximos meses, do alcance intercontinental - Londres, Paris, Nova Iorque - de dois dos maiores êxitos editoriais que o verão testemunha e, até certo ponto, apadrinha: a versão masculina das peripécias eróticas mais faladas nos últimos anos, com a autora E.L. James a esticar a corda em Grey (As Cinquenta Sombras de Grey narradas por Christian), sucesso comum aos três polos referidos, e o regresso de Scout e Atticus Finch pela mão de Harper Lee em Go Set a Watchman, comandante segura das listas de mais vendidos em paragens anglófonas. Tal como cá, a versão francesa está agendada para o outono. Tanto nas Ilhas Britânicas como nos Estados Unidos, a veterana parceira de Truman Capote alcança uma improvável dobradinha: aproveitando o empurrão de uma sequela escrita antes (é mesmo assim, por estranho que pareça) e o 50.º aniversário da publicação original, Mataram a Cotovia regressa às listas de mais vendidos. O que não pode deixar de saudar-se; haja algo de mais duradouro do que as fugazes levezas estivais.

Em Portugal, além de Hawkins e dos comboios, de Enders e dos intestinos, da chegada em crescendo de Johanna Basford e O Jardim Secreto (o "pinte você mesmo", outra vez), de Green e das cidades, pode entrar-se pelo território muito abrangente da não ficção. E isso pode acontecer em velocidade com Running - Muito mais do Que Correr, de José Soares, manual de exaltação das vantagens e das ramificações da corrida na nossa vida de todos os dias. Nota: levar a vida a correr não é uma variante contemplada. Juntam-se-lhe uma investigação, um alerta e um testemunho. Respetivamente, o diver-tido, esclarecedor e comparti-mentado à medida da concentração estival Puxar a Brasa à Nossa Sardinha, da jornalista Andreia Vale, que parte em busca da origem e do devir de expressões que utilizamos na nossa linguagem corrente; Dicionário de Erros Frequentes da Língua, de Manuel Monteiro, pode mostrar-se um auxiliar poderoso para baixar o nível das consecutivas agressões ao património que mais vezes utilizamos; O Que Vejo e não Esqueço, de Catarina Furtado, narrativa rigorosa - e nem por isso menos suscetível de prender e cativar - de uma vida que vai muito além daquilo que lhe conhecemos na sua profissão e nas suas artes. A honestidade não afeta a envolvência; a emoção não minora a justiça. Para alguns (não para todos), uma belíssima surpresa. (DN - 9.Agosto.2015)

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Quadro de Paula Rego bate recorde em Londres.


The Cadet and his Sister licitado por 1,6 milhões de euros, um novo recorde para a artista portuguesa.
Um quadro de Paula Rego de 1988 foi arrematado nesta quarta-feira num leilão em Londres por 1,6 milhões de euros, um novo recorde da artista portuguesa.
The Cadet and his Sister (O cadete e a irmã), um acrílico sobre papel em tela, de 1988, aborda o tema da despedida, mostrando um cadete vestido com o uniforme do Colégio Militar, de partida para o combate, que se despede da irmã enquanto ela se ajoelha e ata os sapatos.
A composição remete para um importante acontecimento na vida pessoal da pintora portuguesa, porque, nesse mesmo ano, faleceu o seu marido, o também artista Victor Willing, de esclerose múltipla.
Esse ano foi igualmente importante na carreira de Paula Rego, pois passou a ser representada pela galeria Marlborough, em Londres, e foi objecto de uma retrospectiva na Serpentine Gallery, também em Londres.
Propriedade de um coleccionador privado americano, The Cadet and his Sister tinha uma estimativa inicial de entre 846 mil euros e 1,1 milhões de euros, mas acabou por ser arrematado por 1.614.795 euros, um novo recorde da artista, adiantou à agência Lusa fonte da Sotheby's, organizadora do leilão.O recorde anterior estava nos 865 mil euros e foi atingido em 2011 com a venda do quadro Looking back (1987) pela Christie's.
No leilão de quarta-feira, uma outra obra de Paula Rego, Looking Out (1997), um pastel sobre papel em suporte de alumínio, com estimativa entre 707 mil euros e 989 mil euros, foi arrematado por 1.360.941 euros.
Looking Out, criada por Paula Rego em 1997, faz parte de uma série de trabalhos da pintora inspirados no livro O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, a história de um jovem padre que mantém uma relação amorosa clandestina com uma empregada, Amélia.
Esta tela — emblemática de toda a obra de Paula Rego, em que denuncia a condição feminina — retrata Amélia, sozinha, debruçada na janela de uma casa, dando uma imagem de frustração e aprisionamento, enquanto espera o dia do parto.
Warhol também recordista
As obras faziam parte do Leilão de Arte Contemporânea da Sotheby's, que decorre entre hoje e amanhã e que tem obras de Francis Bacon, Lucien Freud e David Hockney.
One Dollar Bill (Silver Certificate), pintado por Andy Warhol em 1962, foi arrematado por 29,4 milhões de euros, o valor de venda mais alto de sempre de uma obra contemporânea num leilão em Londres.
A obra, uma reprodução de uma nota de dólar norte-americano, destaca-se por ser a única pintada à mão pelo artista conhecido pelos seus trabalhos de Pop Art e tinha uma estimativa de entre 18,4 milhões e 25,4 milhões de euros.
Outro recorde para um trabalho em papel foi estabelecido por Head of Gerda Bohm (1961), um retrato que o britânico Frank Auerbach pintou da prima Gerda, e que disparou de uma estimativa de entre 353 mil e 495 mil euros para um preço final de 3,1 milhões de euros.

O valor total obtido no primeiro dia de leilão foi, segundo a Sotheby's, de 130,4 milhões de libras (183,9 milhões de euros). (Jornal Público – 1 de Julho 2015)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Robert Capa a cores, agora na Europa.


Parece não haver dúvidas de que a última fotografia que Robert Capa (1913-1954) disparou, naquele malfadado dia 25 de Maio de 1954, na localidade vietnamita de Thai Binh, foi feita a preto-e-branco. Mas também é verdade que aquele que ficou para a História como “o maior repórter do mundo” tinha consigo duas máquinas fotográficas, como, de resto, acontecia desde há uma década no seu trabalho. E se a arte, a filosofia e a posteridade da criação fotográfica de Capa ficaram para sempre associadas ao preto-e-branco, desde aquele icónico instantâneo que registou o momento mesmo da morte do miliciano Federico Borrel nos arredores de Córdova, em 1936, no início da Guerra Civil em Espanha, também se sabe desde há algum tempo que o repórter nascido na Hungria também cultivou a cor.



A “revelação” surgiu, com alguma surpresa na altura, no final de 2013, quando o International Center of Photography, organismo fundado em 1974 pelo seu irmão Cornel, anunciou a realização de uma primeira exposição em Nova Iorque sobre essa faceta da obra de Robert Capa. Uma nova selecção dessas fotografias a cores – de um espólio com mais de quatro mil negativos – está agora a ser mostrada pela primeira vez na Europa, na cidade natal do repórter, no Robert Capa Center de Budapeste.
“Para o Governo húngaro, é essencial mostrar ao mundo o património fotográfico húngaro e mostrar a forma como a visão dos artistas húngaros influenciou a história do século XX”, disse Péter Hoppál, ministro da Cultura do país aquando da apresentação da exposição, citado pelas agências informativas.

Mas a verdade é que a fotografia de Capa escapa a qualquer apropriação ou fronteira. Mesmo quando, como acontece com a presente mostra de imagens, o repórter parece repousar em lugares e registos da vida mundana – as férias em família de Pablo Picasso ou Ernest Hemingway; a burguesia internacional nas estâncias de esqui nos Alpes suíços ou nas praias de França; os desfiles de moda em Paris com a Torre Eiffel em fundo; as stars de Hollywood captadas fora do plateau, incluindo Ingrid Bergman, de que se conhece o idílio frustrado com o fotógrafo… – bem distantes desse confronto físico entre a vida e a morte que Capa viveu e testemunhou nas frentes das grandes batalhas do século XX, da Guerra Civil de Espanha à Segunda Guerra Mundial, de Israel à Indochina... (Jornal Público)