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terça-feira, 12 de janeiro de 2016
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Morreu o pianista e compositor de jazz Paul Bley.
Natural
do Canadá, é descrito como "um dos mais criativos improvisadores da
história do jazz moderno".
O
pianista canadiano Paul Bley morreu no domingo, aos 83 anos, revelou hoje a
editora discográfica ECM Records, que o descreveu como "um dos mais
criativos improvisadores da história do jazz moderno".
Paul
Bley, que atuou várias vezes em Portugal, nasceu em 1932, em Montreal, onde
formou o primeiro grupo de jazz, aos 13 anos, mas pouco depois mudou-se para os
Estados Unidos, para prosseguir estudos e consolidar uma carreira que se
estende por sete décadas.
"Bley
envolveu-se naquilo que mais tarde ficou conhecido como 'free jazz', embora
nessa altura tenha sentido que a estética desse jazz primordial podia e devia
ser incluído numa nova e revolucionária corrente artística", sublinha a
editora ECM num texto publicado na página oficial.
Paul
Bley também mostrou desde cedo um "interesse pioneiro" sobbre as
potencialidades dos sintetizadores e piano elétrico, como refere a editora, que
lhe valeu um reconhecimento até pela Sociedade Americana de Física, pela
adaptação de sintetizadores áudio para uma apresentação ao vivo, em 1969.
O
músico, casado com a compositora Carla Bley, tem o nome associado a outros
nomes fundamentais do jazz, como Ornette Coleman, Charlie Parker, Charles
Mingus, Art Blakey e Chet Baker, e participou em mais de uma centena de álbuns.
O
primeiro álbum a solo foi editado nos anos 1970, precisamente pela ECM. O
último saiu em 2014, intitulado "Play Blue", gravado ao vivo em 2008,
no Festival de Jazz de Oslo.
Entre
as atuações De Paul Bley em Portugal, a solo ou com diferentes formações,
conta-se a presença em trio, em 1997, e os concertos a solo, em Lisboa, em
2000, no Centro Cultural de Belém, e em 2009, na Culturgest.
Nesse ano, quando foi anunciado
o concerto, o crítico e compositor Manuel Jorge Veloso escrevia na programação
da Culturgest: "Com a possível excepção de um Miles Davis, ele foi dos
poucos músicos de jazz que sempre estiveram na primeira fila das grandes
mudanças qualitativas do jazz, permitindo-lhe a sua inteligência e
sensibilidade estética integrar acontecimentos musicais de teor e significado
muito diverso". (DN – 6.Jan.2016)
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
A tradição ainda é o que era... na praia de Carvavelos.
Centenas de pessoas
cumpriram a tradição com mais de 50 anos e tomaram o primeiro banho de mar do
ano
Apesar do forte vento e
agitação marítima, centenas de pessoas juntaram-se ao início da manhã na praia
de Carcavelos, em Lisboa, para o primeiro banho do ano, cumprindo uma tradição
com mais de meio século.
Trajados de pai e mãe
natal, de prisioneiro 33 (alusivo ao número do prédio onde vive o
ex-primeiro-ministro José Sócrates, que esteve detido em prisão domiciliária,
depois de ter cumprido a prisão preventiva em Évora), ou vestindo imitações de
fatos de banho antigos ou de bandeiras de Portugal e de clubes desportivos,
dezenas de pessoas venceram o frio e vento e mergulharam no agitado mar de
Carcavelos.
Na praia, os bombeiros
estavam de prevenção e, junto à zona escolhida para mergulhos, alguns homens
tocavam acordeão, junto a umas bancas montadas recheadas com frango assado,
bolinhos, batatas fritas ou vinho tinto e pão. (DN-1 Janeiro 2016)
domingo, 27 de dezembro de 2015
Os mais belos livros do ano.
Fim
do ano é tempo de balanço. E eu abalanço-me aqui a escolher os livros mais
belos do ano. São todos óptimas prendas de Natal de última hora. Como não há
bela sem senão, o seu preço é maior do que a média. Pois que a sugestão de
livros mais dispendiosos fique como um sinal do desaperto do cinto. Ouço dizer
que vem aí a reposição gradual dos salários e da sobretaxa de IRS. Fico, como
toda a gente, satisfeito com o anúncio e mais disposto a abrir, nas livrarias,
os cordões à bolsa. O certo é que, conforme me lembram os pontuais extractos, o
meu banco ainda não sabe desse fim da austeridade. Mas eu quero lá saber se, ao
comprar um belo livro para mim ou para oferecer, o saldo fica mais baixo...
Investir em belos livros é investir na beleza e a beleza é sempre consoladora.
A ordem é a alfabética do apelido dos autores (o título parcialmente em inglês
indica que a edição é bilingue).
–
Pepe Brix, Os Últimos Heróis. The Last Heroes, Matéria-Prima Edições. Este
livro de fotografias ilustra a odisseia dos pescadores portugueses a bordo do
arrastão Joana Francesa, um dos últimos bacalhoeiros nacionais, nos mares
frigidíssimos da Terra Nova. Em parte saiu na National Geographic Portugal de
Fevereiro passado. Mas a reportagem, alargada e em grande, é outra coisa. Passei
a olhar o bacalhau com outros olhos. Patrocínio da Riberalves e apoio do Museu
Marítimo de Ílhavo, que exibe um aquário de bacalhaus.
–
Hélder Carita e António Homem Cardoso, A Casa Senhorial em Portugal.
Modelos, Tipologias, Programas Interiores e Equipamento, Leya. Lançado há
dias numa das casas senhoriais mais belas de Portugal, o Palácio dos Marqueses
de Fronteira, em Lisboa, um historiador de arte e um dos fotógrafos portugueses
mais conhecidos mostram, sob a égide da Associação Portuguesa de Casas Antigas,
o exterior e o interior de algumas dessas mansões. Os autores já nos tinham
dado edições de luxo como Oriente e Ocidente nos Interiores em Portugal (Civilização)
e Tratado da Grandeza dos Jardins de Portugal (Círculo de Leitores) e
esta é mais uma, para se sobrepor a elas na mesa do café.
–
Miguel Claro, Dark Sky. Alqueva. O Destino das Estrelas. A Star
Destination, Centro.Atlântico.pt. Neste Ano Internacional Da Luz (notícia
de última hora: vai, em Portugal, ser estendido até Junho) um livro de um astrofotógrafo
português de reputação internacional que documenta a Reserva “Dark Sky” do
Alqueva, a primeira reserva mundial certificada como Destino Turístico
Starlight. Imagens avassaladoras que nos vêm de longe vistas do grande lago
alentejano!
–
Umberto Eco, História das Terras e dos Lugares Lendários, Gradiva. O
historiador e escritor italiano, autor de O Nome da Rosa, brinda-nos
com mais uma das suas belas obras, que junta erudição e rica iconografia. Quem
gostou da História da Beleza ou da História do Feio ou
ainda de A Vertigem das Listas (todos eles saídos na Difel) não pode
perder este roteiro dos lugares maiores que a pródiga imaginação humana criou.
–
Mário Ruivo (coordenação), Do Mar Oceano ao Mar Português. From the Mar
Oceano to the Portuguese Sea, Edições CTT e Centro Nacional de Cultura. Um
renomado cientista do mar português coordenou, para este cuidado volume dos
Correios de Portugal (como é timbre desta instituição), um conjunto de textos
ricamente ilustrados sobre a nossa antiga e íntima relação com o mar, que vão
da história à gastronomia. Inclui uma colecção de selos.
–
Peter Sís, O Piloto e o Principezinho. A vida de Antoine de Saint-Exupéry,Jacareca.
Um autor premiado de livros infantis encanta-nos com o extraordinário design de
uma biografia do autor de O Principezinho (que, pesem embora os seus
72 anos, permanece actualíssimo, como mostra a sua recente adaptação ao cinema
em desenhos animados). Eu já conhecia aÁrvore da Vida, a biografia de Darwin
distinguida como melhor álbum ilustrado do ano pelo The New York
Times, mas com o novo livro fiquei rendido ao artista norte-americano nascido
na Checoslováquia.
–
Vários, O Círculo Delaunay. The Delaunay Circle, Centro de Arte
Moderna, Gulbenkian. Ainda no Ano da Luz é publicado o catálogo de uma
extraordinária exposição de Sonia e Robert Delaunay, o casal de pintores
franceses (ela vinda da Ucrânia) que em Junho de 1915 se estabeleceu em Vila do
Conde para fugir aos horrores da guerra que grassava na Europa, tendo convivido
com pintores como Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana e José de Almada
Negreiros. Lembro que Sonia Delaunay foi alvo de uma exposição recente na Tate
Modern em Londres. Para ficar espantado com as suas composições de cor, basta
ir à Fundação Gulbenkian à exposição comissariada por Ana Vasconcelos.
Boas
leituras e Boas Festas!
Professor
universitário (tcarlos@uc.pt) - Jornal Público - 27.Sez.2015
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Portugal - Um dia de cada vez.
O
retrato do Portugal em crise que vive por detrás dos montes, num documentário
ao estilo de João Canijo, cheio de histórias para contar.
efeitos
devastadores da grave crise económica são um tema urgente no cinema português,
numa compreensível vinculação do artista ao seu tempo, à sua circunstância e ao
mundo em redor. Tal transparece de forma gritante n'As Mil e Uma Noites, de
Miguel Gomes; tal como neste Portugal - Um Dia de Cada Vez, de João Canijo e
Anabela Moreira, a primeira parte de um longo projeto que pretende fazer uma
espécie de radiografia de um país em crise. Os registos são distintos e, de
alguma forma, complementares. Miguel Gomes opta por um realismo onírico,
passe-se a contradição, em que a fantasia e a realidade convivem lado a lado,
com cruzamentos ocasionais, e muitas vezes ao serviço de um experimentalismo
narrativo e cinematográfico. Canijo e Moreira optam por um estilo mais
clássico, num documentário mais cru, objetivo e eficaz. Portugal - Um dia de
Cada Vez confronta-nos com pedaços de realidade não filtrada (na aparência) de
famílias de aldeias e vilas do interior transmontano.
Os realizadores mostra-nos que
esse documentarismo de proximidade manifesta-se numa forma íntima de contar
histórias. E,
como acontece sempre com João Canijo, o registo é profundamente cinematográfico
e artístico, afastando-se radicalmente, por exemplo, da assinalável experiência
televisiva da série de documentários Portugal, Um Retrato Social.
Tal acontece por uma questão de
postura, em que se dá a primazia ao cinema e sua subjetividade inerente, e não
a uma responsabilidade científica que obriga a escolher casos exemplares
sociologicamente pertinentes. O
filme de Canijo e Moreira obedece antes a preceitos artísticos e estilísticos e
não científicos.
Logo à partida há uma opção por
um estilo de documentário não participante, em que as personagens comportam-se
como personagens de ficção, abstraindo-se da câmara, dando-nos a sensação de
que estar perante a sua vida sem artificialismos. Tão pouco há uma contextualização
narrativa em voz off ou através de separadores. Tal como havia feito através da
montagem de imagens de arquivo em Fantasia Lusitana, aqui as imagens falam por
si, sem recursos a qualquer subterfúgio para além da edição.
Por outro lado, dentro da
aparente abrangência de retratos, que vai desde uma escola de província onde se
aprende francês, à romena que trabalha na vinha em redor de Vila Nova de Foz
Côa, permanece o fascínio pelo universo feminino, que é uma imagem de marca de
João Canijo ao longo de quase toda a sua filmografia. Também este Portugal - Um Dia de
Cada Vez é um filme de mulheres, em que os homens aparecem como meros figurantes
das suas história. Certamente há uma inquietação sobre a profundidade do
universo feminino, mas talvez também haja neste caso a intenção de fazer
sobressair a ideia de mátria, tão forte também no Portugal contemporâneo.
retirado de: https://www.google.pt/?gws_rd=ssl#q=jornal+de+Letras
domingo, 1 de novembro de 2015
"Fátima podia ser melhor contada".
O
que aconteceu entre maio e outubro de 1917 foi transformado no livro 'Em Teu
Ventre'.
Por Leonardo Ralha
A história de Lúcia, a menina que garantiu ter
visto e falado com Nossa Senhora, é recontada por José Luís Peixoto no livro
‘Em Teu Ventre’ (Quetzal). O escritor garante à ‘Domingo’ que pretendeu gerar
reflexão sobre um fenómeno que respeita.
Calcula
como é que a sua mãe reagiria se aos dez anos lhe dissesse que tinha visto a
Virgem Maria?
É uma pergunta curiosa,
pois coloca o que aconteceu no campo do real. Muitas vezes, ignora-se algo
fundamental: estamos a lidar com um acontecimento. Não depende da fé acreditar
que três crianças, a mais velha com dez anos, afirmaram assistir à aparição de
Nossa Senhora, a mãe de Jesus, numa azinheira, num campo do concelho de Ourém.
Não consigo imaginar esse cenário na minha vida e não faço a mínima ideia do
que a minha mãe poderia dizer – antes de pensar nela e na sua reação, penso no
que eu era enquanto criança de dez anos e em como o Mundo era pouco nítido
quando tinha essa idade.
A
Galveias em que cresceu, nos anos 80, tinha algo em comum, por mais remoto, com
a Fátima de 1917?
A primeira vez que fui
a Fátima foi numa excursão da catequese. Galveias tem uma fundação, gerida pela
Igreja Católica, o que faz com que tenha uma presença de freiras, que
ministravam a catequese e iam à escola primária. A minha escola tinha, e ainda
tem, um crucifixo na parede.
Como
lhe apareceu a ideia de escrever a história daquela que viria a ser a irmã Lúcia
e da sua família?
Interessei-me em ler um
pouco mais sobre a história e tomei conhecimento de detalhes alheios àquilo que
me fora transmitido. Aprendi a versão simplificada, mais comum, partilhada e, a
meu ver, um pouco grosseira e infantil. Quase transformaram uma história
concreta numa lenda pontuada por momentos que requerem fé. Quando li um pouco
mais sobre a história, senti que podia ser melhor contada.
Houve
algum momento em que tenha sentido medo de escrever sobre algo que diz tanto a
tantas pessoas?
Da primeira à última
palavra senti esse receio. Queria evitar transformar o livro numa provocação.
Pelo contrário, a minha vontade era que pudesse propor reflexão, estimulando
debate com respeito. Muitas vezes, quando se fala neste tema, tenta-se logo
marcar uma posição quanto à fé. Sinto que há outras questões e que a fé é uma
posição pessoal, até íntima, de cada um. Para passar à margem disso escolhi
fontes que a Igreja Católica reconhece. As memórias da irmã Lúcia e o livro do
padre João de Marchi. São textos com uma quantidade interessante de detalhes
que me permitiram construir um livro, económico do ponto de vista da narrativa,
mas que tenta retratar aquele período com realismo. Ao mesmo tempo, tive outra
intenção, que não sei se ficou visível, mas foi importante: uma reflexão sobre
a espiritualidade e o transcendente, que existe nas mais diversas formas, e faz
sentido que cada um aceite. Esteve nos locais em que Lúcia e os primos
Francisco e Jacinta viveram.
Sentiu
algo especial?
Houve coisas que me
tocaram bastante. Nomeadamente a forma como aquelas pessoas viveram. Atraiu-me
mostrar a ruralidade, que muitas vezes Fátima simboliza. Nasci e cresci na
ruralidade e acredito que esse Portugal ainda está presente, ainda que
camuflado, em múltiplos traços daquilo que somos. E não me parece interessante
que o rejeitemos por vergonha. Devemos procurar o que tem de positivo e
aceitá-lo como parte daquilo que somos.
Compreende
que, apesar de Fátima ser para muitos sinónimo de fé, haja quem a associe aos
vendilhões do templo?
Compreendo os dois
lados. O livro foca-se nos meses das aparições, de maio a outubro de 1917, mas
a história teve desenvolvimentos. Se tivesse terminado aí, a Igreja teria
rejeitado as aparições. Só as aceitou em outubro de 1930. Até porque era um
fenómeno que vinha do povo… E envolvia algo muito caro à Igreja Católica. No
livro, o padre é a personagem mais cética. Isso é histórico. Foi narrado por
diversas fontes, incluindo a irmã Lúcia. Hoje, ao visitarmos Fátima,
encontramos muitas formas de viver o fenómeno e algumas chocam muitas
sensibilidades. Nomeadamente as lembranças feitas na China. Logo no momento das
aparições houve quem falasse na possibilidade de Fátima se tornar uma estância
religiosa, como Lourdes, o que aconteceu. É um destino turístico, visitado por
milhares de pessoas. Muitas das quais não são católicas. Umas irão movidas pela
sua fé e outras pela curiosidade. Certamente que há atrações para umas e para
outras.
O
livro não tem descrições das aparições. Fez essa escolha por não conseguir
acreditar?
Foi a estratégia que
encontrei para não ter de tomar partido. Não por pudor de apresentar a minha
posição, mas porque senti que desvirtuaria as minhas intenções. Preferi
fixar--me naquilo que me causa menos dúvidas, pois são factos históricos e
mesmo assim acredito que tragam surpresas. Não me parece de forma alguma que as
famílias de Lúcia e dos primos fossem pobres, como não me parece que fossem uns
sacrificados por serem pastores. Havia outras crianças com trabalhos muito mais
pesados e vidas mais difíceis nessa época.
É,
ou alguma vez foi, um membro da Igreja Católica Apostólica Romana?
Tenho dificuldade em
responder. Não posso fazer essa afirmação de forma inequívoca, a não ser talvez
em momentos da infância, quando estava na catequese e frequentava a missa
semanalmente. A certa altura afastei--me da instituição, mas não tenho dúvidas
de que a minha estrutura moral foi formada nesse contexto. A religiosidade é
algo que herdamos e que molda critérios e visão. Não podendo afirmar que tenho
devoção, também não posso afirmar que os princípios da Igreja Católica me são
totalmente alheios. Cresci e formei-me nessa cultura. Não é sequer uma escolha.
Interessa-lhe
saber o que os religiosos pensarão desta narrativa?
Bastante. Apreciei a
oportunidade de apresentar o livro em Fátima, na presença de figuras ligadas ao
culto mariano e ao Santuário. Não quis que o livro fosse agressivo para com uma
fé que respeito. Tenho admiração por quem a tenha. As primeiras palavras do
livro são "tudo começa pela esperança" e a esperança, além de
sinónimo de fé, é essencial à vida.
A
mãe de Lúcia, que desconfia das aparições desde o início, tem mais medo do
desconhecido ou de estar a ser trocada por outra mãe?
Sinto que a mãe de
Lúcia estaria a proteger a família. Mas do ponto de vista simbólico temos duas
mães em paralelo: a idealizada e divina e a concreta, com fragilidades.
Tal
como ‘Morreste-me’ era um livro em nome do pai, ‘Em Teu Ventre’ é um livro em
nome da mãe?
Sem dúvida. No entanto,
ao contrário do meu primeiro livro, que dizia respeito ao meu pai, em concreto,
este propõe uma reflexão sobre as mães, à margem da minha. Apesar de uma das
narradoras ser mãe do autor. É um jogo literário, que tem a ver com a mãe
interior que cada um tem dentro de si, seja qual for a distância ou
independentemente de estar viva ou não. É uma voz de apoio e de crítica que
deixou dentro de nós. Essa mãe dirige-se ao criador daquele texto, e é, de
certa forma, uma aparição. Faz aquilo que Lúcia disse que Nossa Senhora fez em
Fátima, atravessando dimensões para se tornar visível.
Era
capaz de escrever este livro se a irmã Lúcia ainda estivesse viva?
Não creio. É um livro
escrito com distância em relação aos acontecimentos. Apesar de a irmã Lúcia não
ter morrido há muito tempo, isso pesou na possibilidade de poder refletir e
ficcionar o assunto.
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
Marilyn e outros lá de casa, atrás da lente.
A exposição Sam Shaw: 60 Anos de Fotografia revela
uma espécie de caleidoscópio do século XX. Inaugura esta sexta-feira no Centro
Cultural de Cascais.
Não há
como fugir. Sam Shaw será sempre aquele que captou Marilyn Monroe e o seu
vestido esvoaçante sobre um respiradouro do metro de Nova Iorque. Estavam na
rodagem do filme O Pecado
Mora ao Lado (1955) e
Marilyn posava para Sam, que tanto haveria de a fotografar. Tanto que há uma
sala só dela na exposição Sam
Shaw: 60 Anos de Fotografia, que hoje inaugura no Centro Cultural de
Cascais. Marilyn, de roupão vestido, olha-nos de uma janela com a cara assente
na mão direita. Sorri, mas não lhe conseguimos decifrar o rosto. Marilyn de
calças de ganga. "Hoje toda a gente usa jeans. Ela contou ao Sam que as
vestia, ia nadar no oceano - vivia na Califórnia - com elas vestidas, depois
punha-se ao sol e deixava-se secar ao sol para que elas ficassem justas ao corpo."
Chama-lhe
Sam, mas é sua neta. Melissa Stevens está em Cascais para assistir à montagem e
inauguração da mostra que junta 200 fotografias do avô. Pouco depois da sua
morte, em 1999, dedicou-se aos seus arquivos. Aqueles que guardam - ainda -
Marilyn numa banheira. "Sam foi buscá-la. Não me lembro qual era o evento.
Ela estava atrasada, estava toda a gente à espera. Ela estava na banheira, a
tomar um banho cheio de gelo. Fazia-o muitas vezes para pôr o corpo firme antes
de se vestir e aparecer em público", diz Melissa recordando uma das muitas
histórias que o avô Sam lhe contou.
Percorrer as
salas dos 60 anos de fotografia daquele homem de bigode e gabardine vestida (é
assim que, numa das salas, surge a fotografar Audrey Hepburn) é como olhar para
um caleidoscópio do século em que viveu, tantas são as suas personagens que
captou. "Tirava uma fotografia a toda a gente que conhecia.Se não
estivesse a trabalhar tinha pelo menos uma câmara, se estivesse a trabalhar
tinha quatro." E foi com uma ou quatro que Sam Shaw captou Sophia Loren
deitada, de cabeça apoiada no braço que revela uma axila por depilar. Ou John
Wayne com o seu chapéu de cowboy em contraluz. Ou, por fim, Marlon
Brando de camisa rasgada ajoelhado aos pés de "Stella" (basta a
fotografia para que recordemos o grito) no filme de Elia Kazan, Um Elétrico Chamado Desejo (1951). (DN – 11.Set.2015)
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