domingo, 20 de março de 2016

Um exímio romance.


Jane Austen ainda tem os seus (poucos) detractores, que talvez lhe não perdoem (nem compreendam) que, a partir de uma tão limitada e doméstica ‘experiência de vida’, tenha escrito seis romances canónicos. Mas, duzentos anos após a sua morte, o que sobretudo surpreende é que a multidão de leitores (e de outros fanáticos admiradores) da autora de Persuasão não tenha parado de crescer. E a obra da escritora inglesa soma já uma tal quantidade de edições e traduções, de adaptações e versões (cinematográficas e televisivas), de estudos e teses, de citações e homenagens, de paródias e recriações (literárias e outras), que, quando eu soube que o romance de estreia de Helena Vasconcelos revisitava o “universo” de Austen, não consegui deixar de abordá-lo com alguma inquietação. Que depressa se revelou infundada. Não Há Tantos Homens Ricos Como Mulheres Bonitas Que os Mereçam é, no seu programa algo provocatório e na sua quase perfeita execução, um exímio romance (podem aproveitar a frase em futuras badanas).
A protagonista é uma jovem mulher da classe média lisboeta, com pais cientistas muito viajados e casa nas Avenidas Novas, que, “contrariando o espírito do tempo, decidiu seguir uma carreira dedicada ao estudo das Humanidades”. Não contente com isto, Ana Teresa, assim se chama a heroína, que “não apreciava o protagonismo tão definidor da sua época” e era “pouco dada a entusiasmos desnecessários”, decidira seguir o caminho “espinhoso” de “valorizar a sua própria banalidade”. Adiante se dirá que “ansiava por um casamento com um tipo normal, heterossexual de preferência, e imaginava uma vida tranquila e rotineira” (p. 140). Prosseguindo o retrato, sem perda de tempo nem divagações, Ana, “de acordo com os padrões” actuais, não seria uma “beldade” e “por ser discreta e bem-educada não constituía uma ameaça nem causava rivalidades incómodas”. Leitora “voraz”, que “aprendera quase tudo nos livros”, terá aprendido com Jane Austen que o “prazer sensato” não só é alcançável como é também desejável. E eis que a nossa austeniana heroína (Ana Teresa também quer ser feliz à sua maneira, e não lha falta sensibilidade, nem bom senso) duplamente, e com malícia, nos interpela e provoca: ao fazer da banalidade de uma vida doméstica imaginada um ideal (tão contrário às vaidades deste século) e ao propor-se guiar a sua mesma existência pela “filosofia expressa por Austen nos seus romances”. Tal fé na literatura talvez seja quixotesca, mas Ana Teresa, ironicamente, tem os pés e a imaginação bem assentes na terra e parte para Londres. Quer escrever uma tese sobre Austen e sobre a felicidade.
A primeira parte do romance, perfazendo dois terços das cerca de trezentas páginas do volume, trata das andanças da heroína por Inglaterra, em busca da vida e da obra de Jane Austen. A narração é feita na terceira pessoa, por um narrador insuspeito e seguro, com sobriedade e clareza, muito saudavelmente desprovidas de qualquer ênfase. Por tão raro, o feito até parece novidade. Correm paralelamente, a história de Ana e a de Jane. Nenhuma delas parasita a outra. E tal equilíbrio, em casos semelhantes, não é menos raro. As duzentas páginas passam num ápice.

Regressada a heroína a Lisboa, há uma evidente alteração do tempo e do ritmo do romance, na segunda parte e na brevíssima terceira. Surge uma personagem secundária que em alguns segmentos assumirá, a partir daí, a narração. Esta personagem, um ex-professor de Filosofia Política que ganhou muito dinheiro escrevendo best-sellers (de ficção, certamente) sob pseudónimo, servirá também, mas não fundamentalmente, para ilustrar um olhar “misógino” sobre a autora de Orgulho e Preconceito. E também Marianne, a avó de Ana Teresa, que já conhecemos desde a primeira parte do romance, mulher que vem da geração das utopias e que preferiria que a neta “se entregasse a Shakespeare” e não à prudente (para não dizermos conformista) Austen, desata a contar a sua própria história. Esta inesperada dispersão de vozes narrativas desloca o horizonte da narração para uma antiga história de amor vivida por Marianne e agora, muitos anos depois, retomada. Culpa das “redes sociais”. Porque Marianne, não sendo austeniana, acredita em finais felizes. Esta mudança de foco induz também um olhar retrospectivo sobre certos episódios da primeira parte do livro. Há, porém, uma perceptível precipitação do romance em direcção ao seu fim. Que, embora caprichoso, não nos proíbe que imaginemos a nossa heroína, despachada a tese sobre Jane Austen e a felicidade e acomodando-se à vida lisboeta (“Quem disse que Lisboa é uma cidade bonita?”), não nos proíbe, dizíamos, que imaginemos a nossa heroína feliz. Pelo contrário. (Jornal Público – Mar.201)

terça-feira, 15 de março de 2016

Nicolau Breyner.


João Nicolau de Melo Breyner Lopes (* Serpa30 de julho de 1940 - † Lisboa, 14 de Março de 2016) foi um actor e realizador português.
Filho de Nicolau Moreira Lopes (1915 - 1965) e de Augusta Pereira da Silva de Melo Breyner Pereira (1920 - 23 de Maio de 2003), trineta do General Francisco José de Araújo de Lacerda Teixeira de Brito e 5.ª neta com duas bastardias do 3.º Senhor de Ficalho e da 1.ª Condessa de Ficalho.
É primo da escritora Sophia de Mello Breyner Andresen.
Foi casado primeira vez com Mafalda Maria de Alpoim Vieira Barbosa (12 de Dezembro de 1947), irmã de Carlos Barbosa, de quem se divorciou e de quem foi primeiro marido, sem geração.
Começou namoro com a atriz Sofia Sá da Bandeira em 1993, tendo sido casados entre 1996 e 2001, de quem foi segundo marido e de quem se divorciou, sem geração.
Viveu com Cláudia Fidalgo Ramos, filha do realizador e encenador Artur Ramos, mãe das suas duas filhas Mariana e Constança Fidalgo Ramos de Melo Breyner Lopes.
É casado, desde 24 de Junho de 2006, com Mafalda Gomes de Amorim Bessa, de quem é terceiro marido, sem geração.
Depois da infância em Serpa, no seio de uma família de proprietários agrícolas, mudou-se para Lisboa com os pais Sophie de Mello Breyner Estudou canto e integrou o coro da Juventude Musical Portuguesa, enquanto estudava no Liceu Camões. Depois, ingressou na Faculdade de Direito, com a ambição de se tornar diplomata. Depressa desistiu de Direito, optando por se diplomar no Conservatório Nacional, primeiro no curso de Canto e depois no de Teatro.
A sua estreia como ator dá-se quando ainda frequentava o Conservatório. Sob a direção de Ribeirinho, entra na peça Leonor Telles, de Marcelino Mesquita, levada à cena pelo Teatro Nacional Popular, que ocupava então o Teatro da Trindade. Seria no entanto pela interpretação de papéis cómicos, junto de Laura Alves, que se tornaria conhecido do grande público, revelando-se um dos mais bem sucedidos atores da sua geração. Em 2005 regressou ao teatro para interpretar o monólogo Esta Noite Choveu Prata, dePedro Bloch, produzido por Sérgio de Azevedo.
Após o 25 de abril de 1974 concebeu o seu primeiro programa televisivo, Nicolau no País das Maravilhas. Este programa tinha uma rábula chamada Senhor feliz e senhor contente, onde Nicolau lançaria um jovem alemão aspirante a humorista, Herman José. Em princípios da década de 1980 surge como ator e, simultaneamente, diretor de atores e co-autor do guião da primeira novela portuguesa, Vila Faia (1982). Segue-se a fundação da NBP Produções, hoje Plural Entertainment, a sua própria produtora de televisão, onde será administrador, produtor e realizador; atividades que fazem dele um verdadeiro precursor da indústria de ficção televisiva em Portugal.
Sem deixar a representação, concebeu as sitcoms Eu Show Nico e Euronico; e participou como ator noutras tantas (Gente Fina é Outra CoisaNico D'Obra; Reformado e Mal Pago; Santos da Casa; Aqui não Há Quem Viva); além de diversas séries (O Espelho dos Acácios; Verão Quente; Conde D'Abranhos; A Ferreirinha; João Semana; Quando os Lobos Uivam, Pedro e InêsEquadorMorangos com Açúcar, Barcelona, Cidade Neutral, Família Açoreana) e novelas (Fúria de ViverVingançaFlor do Mar, Meu Amor, Louco Amor, Jardins Proibidos, O Beijo do Escorpião).
Ao longo da sua carreira somou quase 50 participações no cinema, em filmes de cineastas de diversas gerações, como Augusto FragaPerdigão QueirogaHenrique CamposJosé Ernesto de SouzaHerlander PeyroteoArtur SemedoLuís Galvão Teles,Fernando LopesJorge Paixão da CostaAntónio Pedro VasconcelosRoberto FaenzaJoaquim LeitãoLeonel VieiraMário BarrosoJoão Botelho e Bille August. Uma das suas participações mais recentes é o filme Comboio Noturno Para Lisboa, adaptação do livro homónimo de Pascal Mercier, e que estreou em 2013. Pelas suas prestações no grande ecrã recebeu três Globos de Ouro para Melhor Ator, com Kiss Me (2004), O Milagre Segundo Salomé (2004) e Os Imortais (2003).

Morreu a 14 de Março de 2016 após ataque cardíaco.


sexta-feira, 4 de março de 2016

Estes são os livros que deve ler antes dos 30.


Os jornalistas dos sites fizeram esta lista com base em alguns parâmetros: os seus gostos, a escolha de obras que promovessem o autoconhecimento, que ajudem a moldar uma visão do mundo que nos rodeia e que cimentem a base para uma carreira sólida.
Aqui fica a lista:
- ‘Meditações’, de Marco Aurélio;
- ‘O Mito de Sísifo’, de Albert Camus;
- ‘Crime e Castigo’, de Fiódor Dostoiévski;
- ‘Anna Karenina’, de Leo Tolstói;
- ‘O Principezinho’, de Antoine de Saint-Exupéry;
- ‘O Poder do Mito’, de Joseph Campbell;
- ‘Bhagavad-Gita’;
- ‘Sidarta’, de Hermann Hesse;
- Obras completas de Jalal ad-Din Muhammad Rumi;
- ‘O Ano do Pensamento Mágico’, de Joan Didion;
- ‘O Deus das Pequenas Coisas’, de Arundhati Roy;
- ‘Fun Home’, de Alison Bechdel;
- ‘Dentes Brancos’, de Zadie Smith;
- ‘A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao’, de Junot Díaz;
- ‘The Beggar Maid’, de Alice Munro;
- ‘O Estranho Mundo de Garp’, de John Irving;
- ‘Persépolis’, de Marjane Satrapi;
- ‘Between the World And Me’, de Ta-Nehisi Coates;
- ‘Primeiro Eles Mataram o Meu Pai’, de Loung Ung;
- 'The Truth', de Neil Strauss;
- ‘Iron John’, de Robert Bly;
- ‘A Chave do Sucesso’, de Malcolm Gladwell;
- ‘The Black Swan’, de Nassim Taleb;
- ‘O Milagre da Mente Alerta’, de Thich Nhat Hanh;
- ‘So Good They Can't Ignore You’, de Cal Newport;
- ‘The Intelligent Investor’, de Benjamin Graham;
- ‘Give and Take’, de Adam Grant;
- ‘The Power Broker’, de Robert A. Caro;
- ‘Fluir’, de Mihaly Csikszentmihalyi;
- ‘De Zero a Um’, de Peter Thiel;
- ‘Crossing the Unknown Sea’, de David Whyte;
- ‘Tiny Beautiful Things: Advice on Love and Life from Dear Sugar’, de Cheryl Strayed;

- ‘How Will You Measure Your Life?’, de Clayton M. Christensen.
Jornal I - 04.Mar.2016

quarta-feira, 2 de março de 2016

Nuno Costa Santos: uma estreia com muita bagagem.


Entramos no primeiro romance de Nuno Costa Santos, Céu Nublado com Boas Abertas, sabendo que há realidade e ficção nas suas páginas. Como discernir uma da outra é uma questão, mas uma questão que interessa pouco para a fruição da obra. A contra-capa adverte-nos tenuemente para este caminhar na fronteira; as epígrafes dão a receita: “Talvez a literatura seja isso: inventar outra vida que bem poderia ser a nossa”, Enrique Vila-Matas;“There’s no longer such thing as fiction or non fiction”, David Shields.
Nuno Costa Santos pode apresentar-se como a personagem dos Simpsons Troy McClure: Talvez se lembrem dele pelos livros de poesia, de crónicas, de contos, pela biografia de Fernando Assis Pacheco, pelos blogues, pelos programas de rádio, de televisão. Ou seja, no caso de Nuno Costa Santos, quando se fala num primeiro romance não se fala de inexperiência. Nascido em 1974, a escrita faz parte da sua vida desde há muitos anos e esse percurso terá sido, arriscamos, fundamental para um primeiro romance tão seguro.
Logo na primeira página, somos brindados com uma fotografia antiga de um casal: os avós do narrador. (Ou deveremos dizer autor?) Já perto do final, na página 197, o mesmo casal volta a surgir, com a mesa roupa, quase a mesma posição, mas expressões faciais diferentes: uma outra fotografia da mesma sessão de estúdio? A assinatura, que parece identificar o estúdio de fotografia, é diferente nas duas fotos. Terão tirado fotos em estúdios diferentes no mesmo dia? É um mistério que o romance não deslinda.
Este recurso às imagens, recorrente sem ser exagerado, aliado a umas poucas páginas lidas, remete-nos logo para W. G. Sebald, o grande mestre alemão da mistura entre ficção e realidade. Somos introduzidos logo à história do avô, João Pereira da Costa, o tal da fotografia, cujas memórias escritas o narrador encontra. Do meio desses papéis cai uma nota: “se tiver um descendente que se interesse pela escrita, peço-lhe para ir a São Miguel e trazer no regresso um conjunto de histórias do presente da ilha.”
Esta é a missão que o narrador empreende: visitar a sua ilha natal de São Miguel e nela buscar histórias, satisfazendo o pedido de um avô que já morreu. O romance divide-se entre estes dois tempos, o da deambulação do narrador pela ilha e o da história do seu avô, tentando curar-se da tuberculose num sanatório do Caramulo, rememorada através dos escritos que deixou. Este é um mecanismo muito caro a Sebald: um narrador vagueando pela paisagem e evocando histórias passadas.
É no presente da narrativa que Nuno Costa Santos se distancia do escritor alemão. Embora o tom melancólico e o ritmo ondulante da acção – que parece atingir um narrador passivo, como quem se deixa molhar pelas ondas sem vontade de entrar no mar ou de afastar-se da rebentação – ainda remetam para a escrita sebaldiana, a natureza das histórias encontradas na ilha é o afastamento face a este pai literário, é o grito de independência do autor.
O golpe de mestre de Nuno Costa Santos está aqui, na forma como coloca este narrador a procurar as histórias que o avô lhe pediu que procurasse. Porque, na verdade, a procura é muito escassa: a maioria das histórias vai ao encontro e de encontro a este narrador; e começam logo no avião que o leva de Lisboa aos Açores. Sem reacção do narrador, este vê-se envolvido num enredo com traficantes de droga locais, pacotes de cocaína que dão à costa em vários pontos da ilha, uma rapariga que anuncia massagens num jornal local e um velejador traficante francês. Pelo meio há outras desventuras com personagens, no mínimo, caricatas.
Como ensina Dinis Machado, devemos perguntar sempre: qual é o lado mais cómico disto? O lado mais cómico disto é precisamente aquela melancolia apática do narrador perante as situações extraordinárias que o envolvem. Em duas narrações sem paralelos aparentes – a do avô tuberculoso no Caramulo e a do neto metido com traficantes em São Miguel – surge uma ligação, pela diferença: a inversão do efeito esperado das duas narrativas. Não é que a história do avô seja puramente cómica, mas a forma como descreve as situações e reage aos seus azares tem laivos de humor. E o neto, vivendo coisas mirabolantes, parece acometido de uma doença profunda, uma tuberculose da alma.
Da história do avô, não esperamos grandes surpresas. Se ele abandona os Açores em busca da cura no Caramulo, logo depois de se casar, já supomos que se curará e regressará, porque se não fosse assim não teria filhos e não teria o neto que narra o romance. Da história do neto, não sabemos o que esperar, nem é expectável que o saibamos, nem é pretendido pelo autor. O curioso, em mais uma inversão do previsto, é que ficamos mais ávidos pelo desenlace da história do avô do que pela do neto.

Céu Nublado com Boas Abertas não é viciante, mas é viciante. O fio do passado, antigo e datado, empolga-nos, ao passo que o fio do presente, actual e imprevisível, embala-nos. É de todo este jogo diegético, da mestria narrativa com que Nuno Costa Santos aguenta a ficção e a não-ficção, no seu registo Sebald-urbano-depressivo, que se faz um notável romance de estreia. Nota-se que é uma estreia com muita bagagem, de alguém que se preparou para esta maratona com muitas corridas à volta do quarteirão. (Jornal Público – 26.Fev.2016)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Marinha encontrou caça-minas afundado na I Guerra ao largo de Cascais.


A Marinha anunciou nesta terça-feira ter encontrado os destroços do caça-minas Roberto Ivens, afundado em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, ao largo de Cascais, preparando-se agora para recolher imagens para estudo arqueológico.
“No ano em que se assinala o centenário da entrada de Portugal na Primeira Grande Guerra, a detecção e recolha de informação relativa a este navio reveste-se de um especial interesse histórico”, destaca a Marinha, numa nota.
Segundo uma fonte da Marinha, o incidente com o Roberto Ivens estava retratado, “mas aproveitou-se uma missão com um navio hidrográfico para fazer uma busca”, tendo sido detectados e identificados na segunda-feira os destroços do caça-minas, a cerca de quatro milhas náuticas (oito quilómetros) a sul da entrada da barra do Porto de Lisboa, com recurso a um sonar lateral.
“Agora vamos com o ROV (remotely operated vehicle), o equipamento que permite recolher imagens em profundidade, ver o estado em que está e podemos avaliar a hipótese de o [fazer] reflutuar e recuperar os destroços. Vamos ver como vamos evoluir”, acrescentou a mesma fonte.
A detecção do antigo arrastão afundado foi feita pelos elementos da lanchaAndrómeda, com uma equipa do Instituto Hidrográfico e um elemento do Instituto de História Contemporânea.
De acordo com a Marinha, no dia 26 de Julho de 1917, pelas 15h15, o caça-minas Roberto Ivens, antigo arrastão Lordelo, requisitado em 1916 no âmbito da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial, embateu contra uma mina fundeada por um submarino inimigo e afundou-se a cerca de 12 milhas (24 quilómetros) a sul de Cascais.
Este acidente causou a morte de 15 elementos da guarnição, entre eles o comandante, primeiro-tenente Raul Alexandre Cascais, de três sargentos e de 11 praças, ficando ainda ferido o capitão da marinha mercante Francisco António Biaia.
Sete sobreviventes foram recolhidos pelo rebocador Bérrio.
Em comunicado, o Ministério da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior lembra que o caça-minas foi o primeiro navio da Armada Portuguesa a “perder-se durante a Grande Guerra”.
O destroço do caça-minas agora localizado está “numa posição distinta daquela onde a documentação oficial o apontava como perdido”, refere o ministério.

“A localização permite aprofundar o conhecimento sobre a presença e o papel da Marinha durante o período conturbado da Grande Guerra e, simultaneamente, lança um novo olhar sobre a real dimensão da ameaça submarina alemã em águas territoriais portuguesas”, sublinha o Ministério da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior. (Jornal Público – 24.Fev.2016)


sábado, 20 de fevereiro de 2016

A escritora que só quis publicar um livro mas pode ter três.


Mataram a Cotovia' foi o único romance de Harper Lee durante décadas. No ano passado descobriram no seu espólo o 'Vai e Põe a Sentinela'. Mas parece que há mais um na arca.
A otícia correu o mundo em segundos: "Harper Lee morreu". A única diferença no modo de a revelar aos seus leitores ou admiradores esteve nas fotografias escolhidas para ilustrar este capítulo final da vida de uma das mais míticas escritoras norte-americanas. Que se celebrizou por ser autora de um único livro, que continua a vender milhões de exemplares todos os anos e atravessou várias gerações de leitores: Mataram a Cotovia, ou Não Matem a Cotovia, segundo as traduções.
Tal como as muitas histórias que envolveram o secretismo que Harper Lee exigiu para a sua vida, também esta de ser autora de um único livro tem várias versões. Ou seja, só houve a Cotovia durante décadas, até que no ano passado a sua advogada, Tonja Carter, desencantou o manuscrito original de Vai e Põe uma Sentinela. Que se passa num tempo após o "único" romance - porque o editor a obrigou a refazer -, e o deu para publicação apesar de não serem muito claros os contornos sobre a autorização da própria escritora. Pelo menos esta é a versão de quem reconhece que Harper Lee estava distante deste mundo há já algum tempo; incapaz de perceber o negócio literário em marcha, e incapaz de contrariar a principal decisão da sua vida literária: não publicar um segundo livro.
Nelle, como era conhecida por muitos, nasceu em Monroeville, no estado do Alabama, em abril de 1926. Entre os amigos de infância estava um vizinho que se tornou famoso, Truman Capote, e que lhe deu algumas dores de cabeça quando a contratou para a investigação do crime que retratou no seu best-seller A Sangue Frio, mas a quem não deu nome nos créditos. A amizade praticamente acabou por aí, depois de terem convivido na cidade que mais impressionou a jovem do interior: Nova Iorque. Onde Harper Lee conhece o compositor da Broadway, Michael Martin Brown, que, apreciador do seu talento, decide financiar a futura escritora durante um ano para que se dedicasse exclusivamente à escrita. E foi o sucesso em livro, em filme e em adaptações teatrais.
Mataram a Cotovia é uma história que se mantém atual e que os mais recentes conflitos racistas nos Estados Unidos evocam demasiadas vezes, mesmo que o romance se passasse na década de 30, numa povoação do interior onde o jovem advogado Scout Finch e o seu pai, Atticus, são indicados pelo juiz para defenderem um negro acusado de violar uma jovem branca. Quanto ao polémico Vai e Põe uma Sentinela, a história que dá continuação ao cenário de Mataram a Cotovia, o problema é o de a personagem Atticus ser retratada como tendo ideias racistas. O que já não agradara décadas antes ao editor de Harper Lee, nem atualmente à maior parte dos leitores da sequela.

Avise-se que com a morte da escritora, Tonja Carter ainda poderá provocar uma nova alteração na biografia da autora de um único livro, já que correm rumores de que entre o Mataram a Cotovia e Vai e Põe a Sentinela existirá um terceiro romance. A advogada não se quis comprometer com essa possibilidade mas confirmou que uma equipa de peritos iria "examinar e autenticar" todos os documentos que foram encontrados no cofre com o espólio de Harper Lee. (DN – 20 Fev 2016)

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Fomos descobrir a que soará a nova viagem de Medeiros/Lucas.


Sintetizadores que dançam com o frenesi do “electro-chaabi” do Cairo. Guitarras tricotadas com esmero, atentas aos movimentos umas das outras. Uma voz, voz cheia, que se ergue entre instrumentação esparsa, convocando memórias do Robert Wyatt que se descobria a solo. Apontamentos electrónicos e instrumentação orgânica. Ouvimo-lo nos estúdios Golden Pony, Sé de Lisboa nas proximidades. É ali que Medeiros/Lucas preparam o sucessor do belíssimo Mar Aberto, álbum de destaque na discografia nacional de 2015
Enquanto os dedos sábios do produtor Eduardo Vinhas acertam o volume das tarolas ou corrigem a textura das percussões, Pedro Lucas serve de guia. Ouvimo-lo: “É como se os navegantes tivessem aportado no norte de África e depois descessem ao Mali, viajassem até à Etiópia e subissem até à Turquia e aos Balcãs”. Mar Aberto era viagem trágico-romântica-marítima criada por dois açorianos (Pedro Lucas, o inventor do Experimentar Na M’Incomoda, e Carlos Medeiros, o cantor cujo álbum O Cantar Na M’Incomoda, editado em 1998, inspirou o projecto de Lucas) inspirados nos sonhos de Cervantes.Terra do Corpo, como o título logo indicia, é de outra natureza. Alargam-se fronteiras e procura-se, explica Lucas, “o mais imediato, as primeiras ideias e as primeiras intuições”. Encontra-se também um co-conspirador, chamemos-lhe assim, decisivo para o que será o álbum a editar no final de Março – em Abril chegarão os concertos de apresentação.
“Músicos procuram escritor”, escreveu Lucas no mail que enviou a João Pedro Porto. Descobrira o escritor açoriano ao ler uma crónica de Valter Hugo Mãe no PÚBLICO e arriscou. Lucas e Carlos Medeiros queriam as palavras do autor de Porta Azul para Macau na sua música e o escritor, depois de ouvir a música de Mar Aberto, empenhou-se em oferecê-las. Todas as letras de Terra do Corpo foram escritas de raiz para o álbum, inspiradas pelos sons que Lucas ia compondo e aprimoradas ao sabor da voz e métrica de Medeiros. “Não há uma canção que represente o álbum”, aponta Pedro Lucas. “Nesse sentido”, pela diversidade estética, “estará mais próximo do primeiro de Experimentar Na M’Incomoda [criado sobre recolhas de música tradicional açoriana]”.

Terra do Corpo contará com convidados como Tó Trips e Rui Carvalho, com o contrabaixista Carlos Barretto, Selma Uamusse ou António Costa, vocalista dos Ermo. Como “residentes” da banda, para além de Medeiros e Lucas, encontramos Ian Carlo Mendoza, Luis Lucena e Augusto Macedo. Há pouco mar e os Açores já só se vislumbram, com esforço, muito ao longe. Mantém-se o principal. A ideia de um romantismo encantatório fundado nesse felicíssimo encontro entre a poesia que brota da voz de Carlos Medeiros e a música que Pedro Lucas descobre em si. (Jornal Público – 12 Fev 2016)