sábado, 16 de abril de 2016

Professor atravessa rio a nado há 20 anos para dar aulas.


Um homem de 40 anos, professor, atravessa diariamente a nado um rio na Índia para poder dar aulas numa localidade vizinha, mas mal servida de transportes. O ritual repete-se há 20 anos.
Abdul Mallik começou a dar aulas em 1992 em Malappuram, no estado de Kerala, no sul da Índia. A escola em que foi colocado ficava numa localidade a 12 quilómetros, separada por um rio. No início da carreira, o professor primário recorria ao serviço de autocarros, mas este revelou-se sempre pouco eficaz.
Abdul tinha de se levantar de madrugada, apanhar vários autocarros até chegar à escola. O percurso demorava em média três horas e, segundo relata, muitas vezes não conseguia entrar nos transportes por estarem cheios ou por serem suprimidos.
Fez contas à vida e concluiu que de sua casa ao rio demorava dez minutos a pé. Depois, era atravessar o rio e mais um quilómetro a pé a andar até à sua escola. E acabou mesmo por colocar este plano em prática.

Com o auxílio de uma câmara de ar de um pneu de automóvel velho, a lancheira com o almoço e um saco com roupa para se trocar após a travessia do rio, por sinal bem poluído, Abdul Mallik começou esta rotina diária há 20 anos. Por dedicação aos seus alunos.

Em entrevista a uma televisão local, divulgada nas redes sociais esta sexta-feira, explica que a sua decisão de atravessar diariamente o rio a nado não foi tomada por uma questão de poupança, mas sim pelo facto de a Índia ser um país com graves problemas de abandono escolar. Abdul conta que com o seu exemplo "quer dar mais motivação" aos alunos da AMLP School para prosseguirem os seus estudos. (JN – 16.Abr.2016)

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Cristiano Ronaldo - superstar.


Hat-trick de Ronaldo coloca Real nas meias finais da Champions
Com uma desvantagem de 2-0, o Real Madrid sabia que iria ter de suar para vencer o Wolfsburgo na 2.ª mão dos quartos de final da Liga dos Campeões. E foi isso que fez. Mas quando se tem Cristiano Ronaldo na equipa, tudo se torna mais fácil.
O português brilhou esta terça-feira no Bernabéu. Aos 16 e 17 minutos, Ronaldo colocou os adeptos do Real num autêntico delírio, depois de igualar a eliminatória. Com estes dois golos a confiança da formação treinada por Zidane estava já no seu auge e isso refletiu-se na segunda parte.
O Real Madrid partiu para cima do Wolfsburgo, à procura do golo que sentenciaria a eliminatória. E quem mais poderia aparecer neste momento decisivo? Cristiano Ronaldo, está claro.
O camisola sete, na cobrança de um livre direto, consumou a remontada e carimbou a passagem dos 'blancos' às meias finais da Liga dos Campeões. (Noticias ao Minuto – 13 de Abril 2016)


terça-feira, 12 de abril de 2016

Morreu o ator Francisco Nicholson.


O ator, dramaturgo e argumentista Francisco Nicholson morreu hoje, aos 77 anos, em casa.
Francisco António de Vasconcelos Nicholson começou a fazer teatro aos 14 anos, no antigo Liceu Camões, sob a direcção do encenador e poeta António Manuel Couto Viana, a convite do qual veio a pertencer ao Grupo da Mocidade, que integrou com Rui Mendes, Morais e Castro, Catarina Avelar e Mário Pereira, entre outros.
Foi autor e ator da primeira telenovela portuguesa Vila Faia, na qual contracenou ao lado de atores como Nicolau Breyner, recentemente falecido, Margarida Carpinteiro e Manuela Marle, entre outros.
Estudou em Paris, frequentando a Academia Charles Dullin, do Théatre Nacional Populaire, privando com grandes nomes do teatro francês, como Jean Vilar, Georges Wilson, Gerard Philipe.
"Ficará na história como um grande autor"
O humorista e ator Herman José manifestou hoje uma "profunda admiração" pelo trabalho realizado pelo seu "grande amigo" Francisco Nicholson.
"Era uma pessoa de quem gostava especialmente, tivemos um encontro mágico em 1978, numa peça dele com a Ivone Silva, e ficámos muito, muito amigos", lembrou à agência Lusa Herman José, contando que eram vizinhos em Azeitão.
"Há uma grande tristeza, mas ao mesmo tempo uma profunda admiração por ter conseguido tanto em quase oito décadas de vida", disse, convicto de que Francisco Nicholson "ficará na história como um grande autor, muito mais do que ator".
O humorista recordou também o "ótimo letrista de cantigas", que escreveu "imensos êxitos musicais ligeiros", que ainda permanecem na memória dos portugueses.
Uma das melhores memórias que guarda do seu amigo é quando fez recentemente o programa "Há tarde". "Já muito doente e com uma grande dificuldade de locomoção nunca disse que não a um convite. Esteve sempre presente quase como rindo-se das suas próprias incapacidades", lembrou.
Por outro lado, foi "um sobrevivente" na doença: "Como é que um duplo transplantado de fígado consegue viver até aos 77 anos? É uma coisa histórica".
"Um enorme lutador"
A direção da Casa do Artista lamentou hoje a morte do ator Francisco Nicholson, considerando que além de um grande homem do teatro, da televisão e das novelas era "um grande ser humano e um enorme lutador".
A assessora da direção da Casa do Artista lembrou que Francisco Nicholson foi um "dos fundadores" da instituição, juntamente com Armando Cortez, Manuela Maria, Raul Solnado.
Consternado pela morte do amigo "de há muitos anos", Conceição Carvalho lembrou que Francisco Nicholson foi "um enorme lutador e um homem de causas".
"O Francisco era um grande homem de teatro, de telenovelas, de televisão. Era um grande homem de cena", frisou.
Francisco Nicholson encontrava-se doente devido a complicações resultantes de um transplante hepático a que fora submetido há uns anos, referiu.
"Falei com ele há duas semanas e ele encontrava-se bastante cansado. Estava a entregar os pontos", disse.
O autor de Vila Faia
O ator e argumentista Tozé Martinho lembra que este "foi uma pessoa muito importante na história das telenovelas" em Portugal.
"Foi o autor da primeira novela (portuguesa) de grande impacto", disse à agência Lusa Tozé Martinho, aludindo à telenovela "Vila Faia", em que Francisco Nicholson, além de autor, desempenhou o papel de polícia, ao lado de atores como Nicolau Breyner, recentemente falecido, Margarida Carpinteiro e Manuela Marle, entre outros.
Tozé Martinho disse ser "com desgosto e pena" que vê partir Francisco Nicholson, "um grande amigo" e uma pessoa que "prezava muito".
"Um tipo fascinante"
O jornalista e escritor Mário Zambujal considera que se perdeu um homem do teatro que tinha uma capacidade "insubstituível".
"Era uma pessoa rara, de uma grande educação, de um talento enorme, com muito sentido de humor e muita graça", disse à Lusa Mário Zambujal.
Lamentando a morte do ator e argumentista de quem era amigo, Mário Zambujal lembrou que Francisco Nicholson era um homem "cheio de talento", que fez coisas "muito interessantes também no teatro musical" e que era "muito respeitado" por todos com quem trabalhou.
"Um homem multifacetado e de muitos talentos"
O ator e encenador Rui Mendes mostrou-se hoje consternado com a morte de Francisco Nicholson, um homem "multifacetado, com muitos talentos" e seu "grande amigo e companheiro de teatro" desde os bancos do Liceu Camões, em Lisboa.
"Era um homem multifacetado e tinha muitos talentos. Era um grande amigo, foi o meu companheiro de teatro, desde sempre, desde os bancos do liceu. Andamos no Liceu Camões, fomos companheiros de turma e foi aí que começamos a fazer teatro", disse Rui Mendes, à agência Lusa, acrescentando que ambos se estrearam no teatro profissional nos anos 50.
O ator explicou que Francisco Nicholson estava doente há "bastantes anos", mas que o seu estado de saúde se agravou nos últimos tempos.
"Considero que o Francisco Nicholson deve ter sido das pessoas que melhores telenovelas escreveram neste país durante uma certa época, pelo menos, as primeiras novelas", sublinhou Rui Mendes.
"Grande ator e escritor"
O cantor António Calvário lamentou hoje a morte de Francisco Nicholson, considerando-o um "grande ator e escritor" que se completava em tudo o que fazia.
"Por toda a convivência que tivemos, por tudo aquilo que foi como grande ator e escritor, quase que não tenho palavras para descrever uma pessoa tão completa", disse à agência Lusa o cantor, acrescentando que Francisco Nicholson era "um grande amigo" e "um belíssimo companheiro".
O cantor destacou também que Francisco Nicholson foi o autor da canção Oração que interpretou no primeiro festival da canção de 1964 e que obteve o primeiro lugar.
"Uma canção que atravessa todos estes tempos como um símbolo da primeira representação de Portugal na Eurovisão", afirmou. (DN – 12.Abr.2016)

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O amor, um apartamento e um cão.


Ruth e Alex, Richard Loncraine
É um daqueles filmes sobre os quais não há muito a dizer e, ainda assim, habita num crepúsculo de afabilidade. Não mexe com o espetador, mas a sua placidez tem qualquer coisa de genuíno, na representação de um casal junto há 40 anos no mesmo apartamento, em Brooklyn. O par, formado pelos respeitados veteranos Morgan Freeman e Diane Keaton (ela que já nos habituou à presença constante em comédias pouco relevantes), não representa mais do que isto mesmo: dois atores de justa química a oferecerem um retrato modesto da vida conjunta, numa relação de tantos anos.

O único enredo - muito ligeiro - que faz deter a câmara sobre este quotidiano morno é a iminência de uma mudança de casa, que coincide com uma ida do cão ao veterinário, e consequente operação. Coisas pequenas, singelas, sem brilho narrativo. Um fim de semana pontuado por alguma revisitação do passado, de recordações desse outro tempo de uma América segregadora, que lhes dificultou a união - como aquela que se vê em Adivinha Quem Vem Jantar (1967), com Sidney Poitier, que surge na memória como uma obra a que devemos regressar. (DN – 7 Abril 2016)


quarta-feira, 30 de março de 2016

Tráfico humano: uma menina, a realidade de milhões.



Lakshmi tinha 13 anos quando foi levada da sua aldeia nos Himalaias, com a promessa de um bom trabalho na casa de uma família indiana. Ao chegar a Calcutá, o cenário que encontrou era tudo menos o que lhe foi prometido a si e à sua família: viu-se confinada às quatro paredes de um quarto da Hapinness House, um bordel onde foi brutalizada durante anos a fio sem escapatória possível. A história de Lakshmi não é real, mas representa em muito as histórias dos milhões de meninas que todos os anos são raptadas para tráfico sexual. “Sold” é o filme que lhes dá voz e que promete pôr o mundo a pensar sobre o drama do tráfico humano.
Já há uns meses escrevi aqui sobre a hedionda realidade das “Escravas do Poder”, revelada em livro pela escritora, ativista e investigadora mexicana, Lydia Cacho. As ligações tentaculares do tráfico humano parecem estender-se a um sem fim de indústrias, desde o turismo à pornografia, contrabando, venda de órgãos e terrorismo. Um tipo de crime que atravessa o mundo inteiro, totalmente impune, invisível aos cidadãos e ignorado por políticos que fingem não ver. Ou que dependem desta grande rede para manter a sua vida de ostentação. “Sold” conta tudo isso.
Falar deste tema é essencial. Ao contrário do que muitos pensam, a escravatura continua a ser um problema dos nossos tempos. Os números não mentem: mais de vinte milhões de pessoas sofrem atualmente nas malhas do tráfico de seres humanos, sendo que o trabalho forçado e a escravidão sexual são dois dos maiores destinos de quem é raptado. No segundo caso, mais de 2 milhões de crianças fazem parte do rol de vítimas. E em mais de 98% das situações de tráfico sexual, as meninas e as mulheres são os alvos escolhidos.
CERCA DE 500 DÓLARES POR CRIANÇA
Há quase um ano, aquando do terramoto que assolou o Nepal, as autoridades competentes lançaram um alerta global para a necessidade de ação célere para evitar raptos massivos de crianças no país. Estima-se que todos os anos cerca de 15 mil meninas e adolescentes sejam levadas, com destino aos bordéis indianos. No Nepal, por cada criança estima-se que um traficante receba cerca de quinhentos dólares. Um crime abominável transformado em negócio para muitos dos que vivem em países subdesenvolvidos.
Lakshmi não é uma menina real, mas a sua personagem e todas as suas vivências ao longo do filme foram criadas com a ajuda de ONG’s que se dedicam precisamente a esta área de trabalho. Os relatos das inúmeras vítimas resgatadas da teia do tráfico humano serviram de inspiração para o enredo, que conta ainda com a inclusão da história real de Lisa Kristine (interpretada por Gillian Anderson), uma famosa fotógrafa que tem dedicado a sua carreira a abordar temas fraturantes como a escravidão dos tempos modernos
Baseado no livro de Patricia McCormick com o mesmo nome, o filme é realizado por Jeffrey D. Brown e conta com nomes como Emma Thompson – eterna voz ativa na luta pelos direitos das mulheres - na produção. Parte das receitas vão ser direcionadas para organizações que se dedicam a resgatar, reabilitar e devolver à vida vítimas de tráfico humano na Índia e no Nepal.

Já com alguns grandes prémios na bagagem, “Sold” chega às salas de cinema em abril e é um daqueles filmes que todos nós deveríamos ver. Não pela bizarria da história, mas sim pelo alerta que ela transmite focando a realidade vivida por tantas crianças mundo fora. A forma como uma vida pode não ter valor algum e a simplicidade com que se ludibria alguém que vive na pobreza. Factor que – como diria Lydia Cacho - “é não só um campo fértil, como o motor de sementeira de escravas e escravos no mundo.”

Expresso.sapo.pt – 29.Mar.2016

quarta-feira, 23 de março de 2016

Sherlock Holmes em manga e inspirado em Cumberbatch.


O detetive criado por Arthur Conan Doyle em 1887 tem mais uma face. A edição em inglês de Sherlock: A Study in Pink, série que começou há quatro anos no Japão, está prevista para junho
Feito a partir de Sherlock, a série da BBC que começou em 2010 e tem como protagonistas Benedict Cumberbatch no papel de Sherlock Homes e Martin Freeman como Dr. John Watson, a banda desenhada japonesa, Sherlock: A Study in Pink, tem edição em inglês marcada para junho.
O nome da série em manga japonesa é, aliás, o título do primeiro episódio da série britânica que, como tem acontecido desde 1887 - ano em que Arthur Conan Doyle criou o famoso detetive -, reinventa Sherlock Homes.
Editada pela Titan Comics, a série de manga, criada pelo ilustrador Jay, apareceu no Japão há quatro anos, onde foi publicada pela revista Young Ace. Depois de muito tempo a circular na internet com traduções improvisadas, os leitores de língua inglesa vão, finalmente, ter acesso a uma tradução fixada e publicada.
"É muito interessante ver algo tão britânico reinterpretado em manga japonesa", declarou o editor da Titan Comics, Andrew James, ao jornal Guardian. "Continua dinâmico e cheio de ação, mas, comparado com a banda desenhada americana, há frequentemente uma calma e uma reflexão acerca da manga."

Esta não é a primeira vez que a própria editora Titan Comics mostra Sherlock Homes. Os leitores já o tinham visto lidar com vampiros e extraterrestres na série de banda desenhada Further Adventures of Sherlock Holmes. Na que chega neste verão,Sherlock: A Study in Pink, cada álbum da série terá, como bónus, capas de diferentes artistas, adianta o site io9. (DN – 23.Mar.2016)

domingo, 20 de março de 2016

Um exímio romance.


Jane Austen ainda tem os seus (poucos) detractores, que talvez lhe não perdoem (nem compreendam) que, a partir de uma tão limitada e doméstica ‘experiência de vida’, tenha escrito seis romances canónicos. Mas, duzentos anos após a sua morte, o que sobretudo surpreende é que a multidão de leitores (e de outros fanáticos admiradores) da autora de Persuasão não tenha parado de crescer. E a obra da escritora inglesa soma já uma tal quantidade de edições e traduções, de adaptações e versões (cinematográficas e televisivas), de estudos e teses, de citações e homenagens, de paródias e recriações (literárias e outras), que, quando eu soube que o romance de estreia de Helena Vasconcelos revisitava o “universo” de Austen, não consegui deixar de abordá-lo com alguma inquietação. Que depressa se revelou infundada. Não Há Tantos Homens Ricos Como Mulheres Bonitas Que os Mereçam é, no seu programa algo provocatório e na sua quase perfeita execução, um exímio romance (podem aproveitar a frase em futuras badanas).
A protagonista é uma jovem mulher da classe média lisboeta, com pais cientistas muito viajados e casa nas Avenidas Novas, que, “contrariando o espírito do tempo, decidiu seguir uma carreira dedicada ao estudo das Humanidades”. Não contente com isto, Ana Teresa, assim se chama a heroína, que “não apreciava o protagonismo tão definidor da sua época” e era “pouco dada a entusiasmos desnecessários”, decidira seguir o caminho “espinhoso” de “valorizar a sua própria banalidade”. Adiante se dirá que “ansiava por um casamento com um tipo normal, heterossexual de preferência, e imaginava uma vida tranquila e rotineira” (p. 140). Prosseguindo o retrato, sem perda de tempo nem divagações, Ana, “de acordo com os padrões” actuais, não seria uma “beldade” e “por ser discreta e bem-educada não constituía uma ameaça nem causava rivalidades incómodas”. Leitora “voraz”, que “aprendera quase tudo nos livros”, terá aprendido com Jane Austen que o “prazer sensato” não só é alcançável como é também desejável. E eis que a nossa austeniana heroína (Ana Teresa também quer ser feliz à sua maneira, e não lha falta sensibilidade, nem bom senso) duplamente, e com malícia, nos interpela e provoca: ao fazer da banalidade de uma vida doméstica imaginada um ideal (tão contrário às vaidades deste século) e ao propor-se guiar a sua mesma existência pela “filosofia expressa por Austen nos seus romances”. Tal fé na literatura talvez seja quixotesca, mas Ana Teresa, ironicamente, tem os pés e a imaginação bem assentes na terra e parte para Londres. Quer escrever uma tese sobre Austen e sobre a felicidade.
A primeira parte do romance, perfazendo dois terços das cerca de trezentas páginas do volume, trata das andanças da heroína por Inglaterra, em busca da vida e da obra de Jane Austen. A narração é feita na terceira pessoa, por um narrador insuspeito e seguro, com sobriedade e clareza, muito saudavelmente desprovidas de qualquer ênfase. Por tão raro, o feito até parece novidade. Correm paralelamente, a história de Ana e a de Jane. Nenhuma delas parasita a outra. E tal equilíbrio, em casos semelhantes, não é menos raro. As duzentas páginas passam num ápice.

Regressada a heroína a Lisboa, há uma evidente alteração do tempo e do ritmo do romance, na segunda parte e na brevíssima terceira. Surge uma personagem secundária que em alguns segmentos assumirá, a partir daí, a narração. Esta personagem, um ex-professor de Filosofia Política que ganhou muito dinheiro escrevendo best-sellers (de ficção, certamente) sob pseudónimo, servirá também, mas não fundamentalmente, para ilustrar um olhar “misógino” sobre a autora de Orgulho e Preconceito. E também Marianne, a avó de Ana Teresa, que já conhecemos desde a primeira parte do romance, mulher que vem da geração das utopias e que preferiria que a neta “se entregasse a Shakespeare” e não à prudente (para não dizermos conformista) Austen, desata a contar a sua própria história. Esta inesperada dispersão de vozes narrativas desloca o horizonte da narração para uma antiga história de amor vivida por Marianne e agora, muitos anos depois, retomada. Culpa das “redes sociais”. Porque Marianne, não sendo austeniana, acredita em finais felizes. Esta mudança de foco induz também um olhar retrospectivo sobre certos episódios da primeira parte do livro. Há, porém, uma perceptível precipitação do romance em direcção ao seu fim. Que, embora caprichoso, não nos proíbe que imaginemos a nossa heroína, despachada a tese sobre Jane Austen e a felicidade e acomodando-se à vida lisboeta (“Quem disse que Lisboa é uma cidade bonita?”), não nos proíbe, dizíamos, que imaginemos a nossa heroína feliz. Pelo contrário. (Jornal Público – Mar.201)