quarta-feira, 18 de maio de 2016

O programa "de apanhados" que apanhou a líder do BE em boa ação.



O quinto 'E Se Fosse Consigo' foi com Catarina Martins. Que fez tudo bem, dando uma lição de cidadania que é um inestimável tempo de antena. Conceição Lino, que dirige o programa, pergunta: "Ia discriminá-la porquê?"
"Até já me tinha esquecido de que isto tinha sucedido." Catarina Martins não fazia ideia de que o quinto episódio do programa E Se Fosse Consigo, da SIC, que passou nesta segunda-feira, a teria como protagonista. "Aconteceu há quase um ano. Ia gravar um tempo de antena para as legislativas no Jardim da Estrela, ia ter com a equipa, já atrasada, e vi aquela cena." A cena era, como é regra no programa, uma situação encenada, com atores: desta vez o tema era a violência no namoro e um rapaz estava a ser violento com uma rapariga, a tentar tirar-lhe o telemóvel. Catarina não fez como a maioria das pessoas que passava e fingia não ver: interveio, enfrentou o agressor e até chamou a polícia. Mas, depois de perceber que era um programa de TV, achou "que nunca me iriam passar a mim, que seria naturalmente eliminada".
Não foi, e Conceição Lino, a autora de E Se Fosse Consigo, diz que tal nunca lhe passou pela cabeça: "Só a vimos quando já estava a interagir com a rapariga e o rapaz mas nunca pusemos a hipótese de não passar a Catarina Martins. É um programa sobre discriminação e ia discriminá-la? Pode ser qualquer pessoa, e foi ela. Só foi muito bom para ela porque fez tudo certo."
Catarina Martins, que partilhou o programa no Facebook dando os parabéns à equipa, assume que "o conceito de apanhados é um conceito de que não gosto muito." Mas, prossegue, "este programa aumenta a censura social sobre determinados comportamentos. E é óbvio que se não houver censura social sobre certos comportamentos as coisas nunca mais mudam". E a reação das filhas, de 13 e 10 anos, fez-lhe perceber que "o programa funciona. Veem-no com muita atenção, debatem-no, é ponto de partida para discussões na escola". O facto de se ter atrasado para um compromisso e de se ter sentido numa situação de perigo - "Fiquei imensamente nervosa, porque a dada altura achei que ia também apanhar" - não a levou a reagir mal quando, no fim, lhe surgiu uma jornalista, de microfone em punho. "A miúda já tinha o telemóvel e ia embora e eu preparava-me para ir atrás dela quando aparece a Conceição Lino. Eu tinha chamado a polícia, que nunca mais aparecia, e de repente lembrei-me e disse-lhe. Ela disse que a polícia estava avisada."
Impressionante para a coordenadora do BE foi não ter havido ninguém, durante todo o tempo que a cena durou, a aproximar-se e a fazer o mesmo que ela. "Aquilo que mais me chocou foi que a dada altura a rapariga deixa cair o telefone e uma senhora que estava com o neto disse ao rapaz que estava ali o que ele queria. Veio ajudar o agressor. Inacreditável."
Essa situação não aparece no programa, diz Conceição Lino, porque a senhora em causa não estava no enquadramento. "Só ouvi a voz, não a vimos." Esclarece no entanto que, sendo uma regra pedir autorização às pessoas "apanhadas" para as mostrar no programa, já sucedeu pôr no ar algumas que não autorizaram. "A esmagadora maioria dá autorização e as que não dão eu respeito, mas posso mostrar resguardando a identidade - houve no episódio da homofobia uma pessoa que não autorizou mas que achei relevante mostrar."
Uma questão delicada do ponto de vista deontológico, como de resto são as encenações e a câmara oculta. Afinal, E Se Fosse Consigo é jornalismo? "Aquilo é uma observação da realidade. Quero testar a reação das pessoas; mas sobre a reação das pessoas não interfiro. Todos os assuntos que abordo, o que acontece no programa é jornalismo", responde Lino, que depois de um período a apresentar programas de entretenimento voltou a ter carteira de jornalista. "Porque, o que é que é jornalismo?"

A ideia, explica, "surgiu ao ver na net uma coisa sobre experiências sociais. Achei que podíamos fazer uma coisa desse tipo. Se isto levanta questões? Obviamente que me questiono. Mas de cada vez que chego ao fim de um programa sinto-me muito mais satisfeita por fazer isto do que estaria sendo porta-microfone." Considerando "o interesse público do programa evidente", confessa-se chocada com "o grau de indiferença" evidenciado pela maioria das pessoas nas situações encenadas. E por notar, por exemplo no programa sobre a violência no namoro, que a reação dos turistas era diferente da dos portugueses. Para melhor. (DN – 18.05.2016)

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