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quinta-feira, 2 de julho de 2015

Quadro de Paula Rego bate recorde em Londres.


The Cadet and his Sister licitado por 1,6 milhões de euros, um novo recorde para a artista portuguesa.
Um quadro de Paula Rego de 1988 foi arrematado nesta quarta-feira num leilão em Londres por 1,6 milhões de euros, um novo recorde da artista portuguesa.
The Cadet and his Sister (O cadete e a irmã), um acrílico sobre papel em tela, de 1988, aborda o tema da despedida, mostrando um cadete vestido com o uniforme do Colégio Militar, de partida para o combate, que se despede da irmã enquanto ela se ajoelha e ata os sapatos.
A composição remete para um importante acontecimento na vida pessoal da pintora portuguesa, porque, nesse mesmo ano, faleceu o seu marido, o também artista Victor Willing, de esclerose múltipla.
Esse ano foi igualmente importante na carreira de Paula Rego, pois passou a ser representada pela galeria Marlborough, em Londres, e foi objecto de uma retrospectiva na Serpentine Gallery, também em Londres.
Propriedade de um coleccionador privado americano, The Cadet and his Sister tinha uma estimativa inicial de entre 846 mil euros e 1,1 milhões de euros, mas acabou por ser arrematado por 1.614.795 euros, um novo recorde da artista, adiantou à agência Lusa fonte da Sotheby's, organizadora do leilão.O recorde anterior estava nos 865 mil euros e foi atingido em 2011 com a venda do quadro Looking back (1987) pela Christie's.
No leilão de quarta-feira, uma outra obra de Paula Rego, Looking Out (1997), um pastel sobre papel em suporte de alumínio, com estimativa entre 707 mil euros e 989 mil euros, foi arrematado por 1.360.941 euros.
Looking Out, criada por Paula Rego em 1997, faz parte de uma série de trabalhos da pintora inspirados no livro O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, a história de um jovem padre que mantém uma relação amorosa clandestina com uma empregada, Amélia.
Esta tela — emblemática de toda a obra de Paula Rego, em que denuncia a condição feminina — retrata Amélia, sozinha, debruçada na janela de uma casa, dando uma imagem de frustração e aprisionamento, enquanto espera o dia do parto.
Warhol também recordista
As obras faziam parte do Leilão de Arte Contemporânea da Sotheby's, que decorre entre hoje e amanhã e que tem obras de Francis Bacon, Lucien Freud e David Hockney.
One Dollar Bill (Silver Certificate), pintado por Andy Warhol em 1962, foi arrematado por 29,4 milhões de euros, o valor de venda mais alto de sempre de uma obra contemporânea num leilão em Londres.
A obra, uma reprodução de uma nota de dólar norte-americano, destaca-se por ser a única pintada à mão pelo artista conhecido pelos seus trabalhos de Pop Art e tinha uma estimativa de entre 18,4 milhões e 25,4 milhões de euros.
Outro recorde para um trabalho em papel foi estabelecido por Head of Gerda Bohm (1961), um retrato que o britânico Frank Auerbach pintou da prima Gerda, e que disparou de uma estimativa de entre 353 mil e 495 mil euros para um preço final de 3,1 milhões de euros.

O valor total obtido no primeiro dia de leilão foi, segundo a Sotheby's, de 130,4 milhões de libras (183,9 milhões de euros). (Jornal Público – 1 de Julho 2015)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Há cem anos o terramoto Orpheu virou do avesso a literatura portuguesa.


Na primeira metade do século XX português não houve escassez de revistas literárias importantes e duráveis, como a Águia (1910-1932) ou a Presença(1927-1940), para citar apenas duas. Mas é hoje surpreendentemente consensual que a mais influente e icónica de todas foi uma efémera publicação de que apenas saíram dois números no primeiro semestre de 1915. Chamou-se Orpheu e foi recebida pela imprensa da época com títulos como “Literatura de Manicómio”, “Os Poetas do Orpheu e os Alienistas” ou “Orpheu no Inferno”.
Decorrido um século, o centenário do lançamento do primeiro número deOrpheu, que terá saído da gráfica a 24 de Março de 1915, vai ser evocado por estes dias em colóquios, exposições, lançamentos, leituras públicas e outras iniciativas. Tudo somado, não é de mais, já que Orpheu não foi apenas um terramoto que deixou irreconhecível a paisagem literária portuguesa da época, foi também, enquanto gesto fundador do nosso modernismo, o início de uma aventura criativa que atravessou todo o século XX e que só agora começa a dar sinais de esgotamento. E foi ainda, sobretudo no seu segundo número, a materialização mais significativa da colaboração entre dois génios criativos: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Sem eles, poderia ter existido Orpheu, mas dificilmente estaríamos hoje a celebrar o seu centenário.
No plano académico, o momento mais significativo destas comemorações é o grande colóquio luso-brasileiro 100 Orpheu, que decorre em Lisboa, na Gulbenkian e no Centro Cultural de Belém, entre os dias 24 e 28, e que terá depois uma etapa brasileira em São Paulo, no final de Maio. Com pessoanos de várias gerações e proveniências, de Eduardo Lourenço ou Teresa Rita Lopes a Richard Zenith, Steffen Dix e Jerónimo Pizarro, o congresso começou com um aperitivo portuense na Fundação Eng.º António de Almeida, que inaugurou ontem o colóquio Orpheu e o Modernismo Português e a exposiçãoMemória d’Orpheu.
Na Biblioteca Nacional, abre no dia 24 a exposição Os Caminhos de Orpheu, organizada por Richard Zenith, que mostra o percurso da revista desde os seus antecedentes até às posteriores tentativas de Pessoa para ressuscitar o projecto. A par de muitos outros materiais que documentam a história deOrpheu, e não esquecendo a importância que as artes plásticas e gráficas tiveram no movimento, a exposição inclui vários papéis inéditos, incluindo documentos que demonstram que o envolvimento de Pessoa na produção do célebre número zero da revista Contemporânea, em 1915, foi muito mais decisivo do que se pensava.
Ocupando vários espaços da Casa Fernando Pessoa (CFP), inaugura-se a 25 a exposição Os Testamentos de Orpheu, de Pedro Proença. E a CFP está ainda a desenvolver com o Instituto Camões (IC) uma outra mostra – Nós, os de Orpheu –, que circulará em Portugal e na rede internacional do IC. E, a partir de 28 de Março, propõe-se fazer regressar Orpheu aos cafés onde o projecto foi pensado e discutido, convidando actores a ler textos que convoquem “o espírito do grupo” que fez a revista.

Mais discretas mas não menos importantes, duas iniciativas editoriais assinalam o centenário de Orpheu: 1915 – O Ano do Orpheu, com organização de Steffen Dix, uma belíssima edição da Tinta-da-China (a capa inspira-se no grafismo do segundo número de Orpheu). O livro acabou de ser lançado e reúne textos de mais de 20 investigadores, contextualizando o surgimento da revista, abordando as experiências afins noutras literaturas europeias e tratando individualmente os “órficos” mais relevantes. Em Abril, a Assírio & Alvim lançará, na colecção Pessoa Breve, o volume Sobre Orpheu e o Sensacionismo, co-organizado por Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. (Jornal Público)

sexta-feira, 7 de março de 2014

Quadro de Leonardo da Vinci vendido por mais de 50 milhões de euros.


A notícia de que tinha sido identificado um quadro “novo” de Da Vinci (1452-1519) já era conhecida, pelo menos, desde a exposição que a National Gallery de Londres dedicara ao mestre do Renascimento, Leonardo da Vinci – Pintor da corte de Milão, entre Novembro de 2011 e Fevereiro de 2012. Depois dessa mostra, o pequeno quadro (65,6 x 45,5 cms.) representando CristoSalvator Mundi (c. 1500) fora também exibido, por empréstimo, no Museu de Arte de Dallas, nos EUA.
O que não se sabia, e agora foi noticiado pelo The New York Times, é que essa obra foi vendida, em Maio de 2013, num leilão da Sotheby’s em Nova Iorque, por uma soma entre os 75 e os 80 milhões de dólares (54,6 a 58,2 milhões de euros) a um comprador privado não identificado.
Esta quantia ganha ainda maior relevância quando se sabe que o mesmo quadro, cuja história está ainda por reconstituir no seu percurso completo, fora vendido, em 1958, em Inglaterra, na sequência de partilhas de descendentes de um aristocrata britânico, por… 45 libras esterlinas (perto de 55 euros).
No momento da venda, revelada no dia 3 de Março pelo diário norte-americano – e depois também noticiada pelo francês Le Monde –, esteSalvator Mundi pertencia a dois historiadores e negociantes de arte de Nova Iorque, Robert Simon e Alexander Parish, que o tinham adquirido, em meados da década de 2000, por um valor que também não foi quantificado.
De qualquer modo, estes dois sócios e especialistas em arte acabaram por merecer a mais-valia da sua convicção de que se estava, de facto, perante uma obra autógrafa de Da Vinci e não apenas de uma qualquer reprodução – que, neste caso, tinha sido mesmo atribuída a um aluno da oficina do mestre italiano, Giovanni Antonio Boltraffio (c. 1466-1516).
Quando adquiriram a tela, Simon e Parish acreditaram que a sua superfície, que mostrava sucessivas camadas de pintura e se encontrava bastante deteriorada, escondia o traço original do mestre. Para testarem essa sua convicção, submeteram o quadro a uma cuidada investigação, que envolveu dezena e meia de especialistas em Da Vinci, tanto dos EUA como de Inglaterra e de Itália, bem como instituições como a National Gallery de Londres e de Washington, o Metropolitan Museum de Nova Iorque e ainda as universidades de Florença e de Milão.
O veredicto final confirmou o prognóstico de Simon e Parish, e depois da exposição em Londres, o Museu de Arte de Dallas pediu o quadro emprestado para o exibir nessa cidade e, no final, quis mesmo adquiri-lo.
Segundo o NYT, o autor da revelação da venda de Salvator Mundi em Maio passado foi o negociante de arte londrino Anthony Crichton-Stuart, que comentou para o jornal nova-iorquino: “É preciso contrabalançar o seu estado de deficiente conservação com o facto de se tratar de uma obra de um dos nomes mágicos e mais significativos do cânone da arte ocidental, pelo que, nesse sentido, parece-me que o preço foi justo”.
Seguindo a tradição e o protocolo do negócio, a Sotheby’s recusou fazer qualquer comentário sobre a venda, e, ao NYT, Robert Simon limitou-se a dizer que a pintura de Da Vinci “já não se encontra disponível”.
Ao reconstituir a história possível do quadro - que representa um tema da iconografia cristã que Da Vinci e outros mestres da pintura trataram em diferentes momentos -, o Le Monde avança que ele terá pertencido ao rei de Inglaterra Carlos II (século XVII), tendo depois sido também propriedade do duque de Buckingham.

É importante lembrar que esta identificação e autenticação de uma obra de Da Vinci surge mais de um século depois da última, que tinha sido realizada relativamente ao grande mestre italiano, com a Virgem Benois (1475-78), pertencente à colecção do Museu Ermitage de São Petersburgo, na Rússia. (Jornal Público – Março 2014)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Christie's cancela leilão da colecção Miró.


A leiloeira Christie's anunciou esta tarde em comunicado que retirou as 85 obras de Joan Miró da colecção do Banco Português de Negócios do leilão que estava marcado para se iniciar esta noite.
"A venda da colecção dos 85 trabalhos de Joan Miró foi cancelada como resultado da disputa no tribunal português, do qual a Christie’s não é parte interessada”, escreve Matthew Paton, director de comunicação da leiloeira, no comunicado enviado ao PÚBLICO, explicando que apesar de o tribunal não ter impedido a venda desta noite, “as incertezas legais criadas por esta disputada significam que não somos capazes de oferecer com segurança estes trabalhos para venda”.
Na mesma nota, Matthew Paton explica que a Christie’s “tem a responsabilidade” de oferecer aos seus clientes as condições máximas de segurança nas transacções, o que significa que tanto a leiloeira como os interessados em comprar as obras “têm de ter a certeza legal que as podem transferir sem problema”.
“Uma vez que a decisão do tribunal questiona isto nesta altura, a Christie’s é obrigada a retirar as obras da venda”, escreve ainda o responsável da leiloeira, esperando que “as partes nesta disputa consigam resolver as suas diferenças no devido tempo”.
O Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa decidiu esta terça-feira de manhã que o leilão, marcado desde Novembro de 2013, se poderia realizar, admitindo no entanto que parte dos procedimentos legais a que a Lei de Bases do Património Cultural obriga não tinham sido cumpridos. As obras viajaram inclusive ilegalmente para Londres, onde estão expostas, não tendo nunca a Direcção-Geral do Património Cultural autorizado a sua saída. São estas as questões legais levantas nestes últimos dois dias que levaram a que a leiloeira retirasse as obras.
Lê-se no acórdão do tribunal que a “expedição das obras é manifestamente ilegal”, não sendo “necessário argumentação sofisticada para concluir que a realização do leilão pela leiloeira Christie's das obras de Joan Miró comprometeria gravemente o cumprimento dos deveres impostos" pela Lei de Bases do Património "e reduziria a nada a concretização dos deveres de protecção do património cultural".

O Estado esperava arrecadar com esta venda cerca de 35 milhões de euros, segundo a avaliação da leiloeira. No entanto, como é habitual nestas situações, no contrato celebrado entre a Christie’s e a Parvalorem e Parups, sociedades criadas no âmbito do Ministério das Finanças para recuperar créditos do BPN e que são proprietárias das obras, existe uma cláusula que pressupõe o pagamento de uma indemnização caso o leilão não aconteça. Não sendo conhecido este contrato, lê-se no acórdão do tribunal que neste caso "a Parvalorem, S.A. por força do contrato celebrado, constituir-se-á na obrigação de indemnizar a Christie’s em montante cujo valor se situará entre os 4,7 milhões e os 5 milhões de euros”. Uma vez que foi a própria leiloeira a cancelar o leilão não se sabe se esta cláusula se aplicará. (Jornal Público - 04.02.2014)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O Museu de Arte Antiga tem mais um Menino Jesus feminino e encantador de Josefa de Óbidos.


Não é difícil imaginá-la no seu universo feminino, fora da oficina, rodeada de crianças que não eram suas, talvez na cozinha, a fazer bolos ou a escolher os frutos e flores que mais tarde haveria de pintar. Não é difícil imaginar alguém a chamar-lhe tia Josefa, diz Anísio Franco, conservador do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), frente à obra que acaba de ser exposta. É um Menino Jesus Peregrino que Josefa de Óbidos terá pintado já no auge da sua carreira — invulgar para uma mulher do século XVII —, nas décadas de 1660 ou 70, que reúne uma série de traços característicos da sua obra, femininos.
A incorporação deste Menino Jesus no acervo que já inclui 15 pinturas da artista que nasceu em Sevilha e escolheu fixar-se em Óbidos vai permitir ao museu “mostrar mais uma tipologia que, não sendo única em Josefa de Óbidos, não estava ainda presente na colecção do MNAA”, explica Anísio Franco, um dos conservadores.
Quem percorre hoje este museu de Lisboa encontra duas das naturezas-mortas que a tornaram tão popular (Com Taça de Cristal e Com Caixas e Potes), um Menino Jesus Salvador do Mundo, uma Adoração dos Pastores e um Casamento Místico de Santa Catarina em ambiente doméstico, com a Virgem sobre um estrado, com um cesto de costura aos pés. Estas obras chegaram à colecção da Rua das Janelas Verdes em vários momentos e algumas pertenceram aos reis D. Fernando e D. Luís. Nas futuras galerias de pintura e escultura portuguesa, que deverão ser inauguradas no terceiro piso, no final de 2014, voltarão a estar expostas, ao lado do novo Menino Jesus, que está hoje no MNAA graças a um depósito, por dois anos (renovável), segundo o vice-director, José Alberto Seabra Carvalho.
A obra, que foi a leilão em Setembro do ano passado sem que fosse vendida, pertence à família Roque de Pinho Patrício, que pouco depois decidiu propor ao museu que a expusesse, o que, dada à sua qualidade, foi aceite.
As tentativas para deixar obras em depósito no museu são muitas, mas são poucas as que se concretizam. A explicação, diz Anísio Franco, é simples: “As pessoas vêm, de boa vontade, confiar ao museu aquilo que acham ser um tesouro, mas o que acontece na maioria das vezes é que as obras só são tesouros num contexto familiar.”
“O Menino está sozinho, com o bordão e a cabaça dos peregrinos de Santiago, e parece, à primeira vista, muito inocente. Mas, quando começamos a reparar nos detalhes da roupa, que são muitos, percebemos que esta criança sabe exactamente o que lhe vai acontecer.”
Anísio Franco, conservador do Museu Nacional de Ar
Entre 2005 e 2012 — os dados mais recentes —, o MNAA recebeu cinco depósitos de pintura ou mobiliário de particulares, como o Retrato de Jácome Ratton (século XIX), de Thomas Lawrence, que pertence à Fundação Calouste Gulbenkian. Mas as doações e os legados no mesmo período atingem os “milhares” de peças. Só a colecção Francisco Castro Pina, que chegou em 2011, tem mais de três mil, com destaque para ourivesaria, têxteis e cerâmica portuguesa e oriental. Por que razão fazem doações e não deixam em depósito?
“Não temos essa tradição. E acho que também há o receio, por parte dos donos, de que o Estado classifique os bens e que isso dificulte a sua transacção futura.” Um receio que, garante o conservador do museu, não se justifica em casos como este: “Uma Josefa de Óbidos, um Malhoa ou um Columbano têm é valor cá. Fora do nosso mercado dizem muito pouco aos coleccionadores.”

Um Menino Jesus ibérico.

No caso deste Menino Jesus Peregrino, justificava-se “em pleno” a integração no acervo, quer pela temática, quer pelo rigor da execução. Presente em todas as exposições importantes que foram dedicadas a Josefa de Óbidos, dos anos 1940 até à de 1991, “a mais completa e com reatribuições”, esta pintura reflecte uma “tradição iconográfica muito ibérica”. Um iberismo que Anísio Franco justifica com o facto de este Jesus ainda criança estar representado com uma série de símbolos que por hábito são associados aos peregrinos a Santiago de Compostela, na Galiza. “O Menino está sozinho, com o bordão e a cabaça dos peregrinos de Santiago, e parece, à primeira vista, muito inocente. Mas, quando começamos a reparar nos detalhes da roupa, que são muitos, percebemos que esta criança sabe exactamente o que lhe vai acontecer.”
O conservador refere-se aos símbolos da Paixão de Cristo que estão bordados na gola da capa — os dados associados à traição, a lança que o matou ou a esponja embebida em vinagre de onde terá bebido — e presentes em alguns dos adereços que usa, como o pano de Verónica (véu com que Jesus limpa o rosto a caminho da crucificação), o chapéu com a coroa de espinhos e um medalhão em que está inscrito INRI (acrónimo em latim para “Jesus de Nazaré Rei dos Judeus”, que viria a ser usado na placa que encima a cruz do calvário).
Tudo isto pintado, acrescenta o especialista do MNAA, com “o característico toque feminino da Josefa de Óbidos”. E em que é que consiste esse “toque feminino”? Numa atenção aos pormenores muito particular, nas margaridas que coloca aos pés deste Menino de longos cabelos loiros aos caracóis, de grandes rosáceas e “olhos meigos”, explica. É tudo feito com muito cuidado no tratamento da luz e dos panejamentos, diz Anísio Franco, falando da “singularidade” da artista no contexto da pintura que se fazia em Portugal. “O professor Manuel do Rio-Carvalho [historiador de arte] dizia que a Josefa pintava meninos como quem pintava bolinhos [que tantas vezes aparecem nas suas naturezas-mortas] e bolinhos como quem pintava meninos” — tudo muito minucioso e com “grande doçura”: "As suas pinturas são, efectivamente, encantadoras."

Uma mulher singular.

Na época, e apesar de uma clientela fiel, ainda que “restrita e muito regional”, esta artista que se formara na oficina do pai, o pintor Baltazar Gomes Figueira, não tinha a mesma projecção de outros colegas de profissão e havia até quem a acusasse de erros de perspectiva elementares. Anísio Franco lembra que não era comum no antigo regime uma mulher solteira, sem descendência directa e, ainda por cima, capaz de se sustentar. “Isso devia incomodar muita gente.”
Justas ou não as críticas, certo é que a pintora conquistou um lugar na cultura portuguesa, sendo muito popular no seu tempo, mas também no século XIX, quando o mercado da arte nacional começou a funcionar. Primeiro, explica o conservador, começou por ajudar o pai nas grandes encomendas de Coimbra — ainda hoje é discutível a autoria de algumas das obras por causa dessa proximidade — e por trabalhar para uma certa “corte de Aldeia” (à volta de Óbidos há muitas obras dispersas); séculos depois, “todas as boas famílias queriam ter uma natureza-morta da Josefa na sala de jantar”...
A questão da autoria à volta de Josefa de Óbidos e de Gomes Figueira tem sido muito trabalhada por Vítor Serrão, historiador de arte que tem estudado a obra dos dois pintores. “É claro que gostávamos de saber muito mais sobre ela, mas isso pode passar, como defende Vítor Serrão, por saber mais sobre o pai.”
Josefa nasceu em Sevilha quando Baltazar Gomes Figueira lá trabalhava, foi apadrinhada por um importante pintor espanhol da época, Francisco Herrera, e começou por copiar os modelos que encontrava na oficina do pai, alguns de Francisco de Zurbarán, que ele terá chegado a conhecer. “Ela aprende em segunda mão, é verdade, mas não é em nada menor do que o pai”, defende o conservador do MNAA. “Podemos dizer que Baltazar Gomes Figueira tinha outro mundo, outra relação com os modelos, eventualmente mais informada, mas Josefa soube desenvolver a sua própria maneira de pintar.”
Obras como o Menino Jesus Peregrino ou a Sagrada Família (1664), que pertencia ao Convento de Santa Cruz do Buçaco e que ardeu na última noite de Consoada, eram encomendas recorrentes. Destinavam-se a uma “devoção doméstica, na intimidade”, embora a primeira exiba claras marcas de luxo e a segunda seja muito mais contida, como convém a uma pintura destinada à casa religiosa de uma ordem que professa a pobreza (no caso, a dos monges carmelitas descalços). Outra das diferenças, sublinha Anísio Franco, é o facto de a pintura agora no MNAA não ter sido sujeita a intervenções de restauro de fundo, ao contrário da que foi completamente destruída no convento: “O requinte nos efeitos lumínicos é absolutamente evidente, porque neste Menino Jesus a pintura está toda cá, o que já não se passava com a do Buçaco, muito intervencionada. Isto não quer dizer, no entanto, que a perda daquela Sagrada Família não seja um desastre patrimonial.”
A investigação sobre as causas que levaram ao incêndio no convento de 24 para 25 de Dezembro estão ainda a decorrer, disse nesta quarta-feira ao PÚBLICO o presidente da Fundação Mata do Buçaco, responsável pelo edifício, sendo agora da responsabilidade do Ministério Público.

As obras para corrigir as infiltrações na cobertura que terão estado na origem do curto-circuito que levou ao desaparecimento da pintura ainda não começaram, porque os técnicos estão a estudar ainda o que fazer, acrescentou Fernando Correia: “Todas as diligências estão em curso mas, antes de qualquer intervenção, é preciso ouvir os especialistas em património. É o que estamos a fazer." (Jornal Público)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Morreu o pintor Nadir Afonso, mestre da abstracção geométrica.


O arquitecto e pintor Nadir Afonso morreu esta quarta-feira aos 93 anos. Nadir Afonso estava internado no Hospital de Cascais.
Nadir Afonso, que foi um dos introdutores da abstracção geométrica em Portugal, pintou até ao final da sua vida.
“É um dos pioneiros da abstracção geométrica em Portugal, juntamente com Fernando Lanhas e Joaquim Rodrigo. Fazem parte da primeira geração que procurou resgatar no país um verdadeiro processo modernista que ficou sempre adiado depois da morte de Amadeo de Souza Cardoso”, diz Pedro Lapa, director do Museu Berardo, em Lisboa.
Nadir Afonso morreu esta quarta-feira, pouco depois de fazer 93 anos, noHospital de Cascais, disse à agência Lusa a família.
Depois de ter vivido a infância em Chaves, onde nasceu a 4 de Dezembro de 1920, Nadir Afonso mudou-se para o Porto onde foi estudar Arquitectura em 1938 na Escola de Belas-Artes. Estudou também em França, na escola Beaux-Arts de Paris, onde chega em 1946.
Foi da sua geração a figura que mais frutos colheu dos contactos com a vanguarda internacional: “Viveu em Paris. Trabalhou com Le Corbusier, foi colega do [compositor] Xenákis, que também foi arquitecto, foi amigo e colega de Vasarely. Também trabalhou com o Niemeyer em São Paulo. Expôs na Galeria Denise René, centro das vanguardas construtivistas do pós-guerra em Paris.”
Foi depois do período brasileiro, entre 1952 e 1954, que Nadir Afonso decidiu abandonar definitivamente a arquitectura para se dedicar em exclusivo à pintura.
No período das décadas de 1940 e 1950, distante de Portugal, “realiza uma obra por vezes mal avaliada na extensão, complexidade e actualidade das suas propostas". "É ele que faz a primeira pintura cinética em Portugal”, continua Pedro Lapa, referindo-se ao objecto cinético Espacillimité (1956). Por último, Lapa refere os muitos livros que escreveu e publicou, “desenvolvendo uma actividade de teorização e reflexão ímpar no contexto dos artistas portugueses das sua geração”.
Em 2010, o Museu do Chiado dedicou a Nadir Afonso uma extensa exposição, intitulada Sem Limites, com cerca de cem obras. O artista morreu, contudo, sem ver inaugurada a sede da fundação com o seu nome.
Em Chaves e com um projecto do arquitecto Siza Vieira orçado em nove milhões de euros, a Fundação Nadir Afonso teve data de inauguração marcada para Julho deste ano. Em Setembro de 2012 o Governo anunciou que o estatuto de utilidade pública fora retirado ao projecto. Nessa altura, Siza Vieira lamentou ao PÚBLICO a  “espantosa velocidade com que se tomam posições a meio das obras, deixando de lado os compromissos assumidos”: "A noção que isto dá é a de um barco à deriva, e a afundar-se. E deixamos o país em ruínas", criticou.

Esta quarta-feira o arquitecto disse à imprensa ser “um desgosto” Nadir Afonso não chegar a inaugurar a fundação onde a sua obra ficaria exposta. Já na nota de pesar que remeteu à imprensa em seu nome e do Governo, o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, escreveu: "Nadir Afonso é uma figura de proa das artes portuguesas, um artista que, através dos seus ideais e ao longo de décadas, estabeleceu uma linguagem pioneira na pintura portuguesa do seu tempo. [...] Enquanto arquiteto, pintor ou pensador, Nadir Afonso conseguiu sempre representar Portugal e as artes portuguesas ao mais alto nível em todo o mundo." (Jornal Público – 11.12.2013)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Quadro de Norman Rockwell atinge valor recorde.


Uma obra do popular pintor americano Norman Rockwell, considerada uma das suas mais representativas, atingiu hoje um valor recorde em leilões de trabalhos deste artista plástico que viveu entre 1894 e 1978. Intitulado Saying Grace foi arrematado por 33,9 milhões de euros (46 milhões de dólares).
O quadro foi à praça num leilão da Sotheby's, em Nova Iorque, com mais duas obras daquele que é considerado o pintor que melhor retratou a América profunda, das pequenas cidades e do mundo rural.
Intitulado Saying Grace, o quadro alcançou a soma de 57 milhões de dólares ( 33,9 milhões de euros) enquanto o recorde de uma obra de Rockwell estava nos 15,6 milhões de dólares (11,3 milhões de euros) num leilão de 2006.
A imagem foi capa do Saturday Evening Post, para o qual Rockwell era assíduo colaborador, e data de 1951.
Em 1955 foi considerada a obra mais popular de Rockwell numa sondagem entre os leitores daquela publicação.
Outra obra de Rockwell, The Gossips, foi vendida por 8,45 milhões de dólares (6 milhões de euros); e a terceira, Walking to Church, alcançou a verba de 3,2 milhões de dólares (2,3 milhões de euros). (DN – 06.12.2013)