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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

TENHO SAUDADES DOS MEUS PADRINHOS.


Tenho saudades da minha madrinha a queixar-se de alguma coisa enquanto lavava a loiça num alguidar. Não se queixava da loiça, apesar do muito que lhe custava manter-se de pé, queixava-se do inverno, maldito inverno, ou queixava-se da morte, esta vida não presta para nada, porque tinha morrido algum homem, que era tão novo, pouco mais de oitenta anos. Tenho saudades do toque de finados da igreja da minha terra. Ecoavam no adro, espalhavam-se por cima de todos os telhados e chegavam até ao campo, onde se dissolviam na aragem.
Tenho saudades do meu padrinho a carregar bolsos cheios de moedas de cinco escudos, que trocava por copos de vinho tinto nas tabernas. Até a dizer bom dia ou quaisquer palavras simples, era capaz de escolher expressões que acrescentavam humor e que nunca agrediam. As portas das tabernas eram sempre um buraco de sombra na cal. O cheiro do vinho estava entranhado nas paredes. Tenho saudades do barulho que fazia o vidro grosso dos copos vazios a bater no mármore. Às vezes, quando se chegava a essas vendas, não estava ninguém. Então, era preciso bater com a palma da mão no balcão e chamar.
Tenho saudades de ver a minha madrinha a pentear os cabelos fracos ao espelho do lavatório. Molhava os dentes do pente na água da bacia. Tenho saudades de caminhar ao lado do meu padrinho nas manhãs de verão, ao rés da parede, os dois cobertos pela sombra. Fazia-me perguntas engraçadas acerca das hortas onde eu e os outros rapazes sabíamos que havia boa fruta para roubar.
Através da distância do tempo, sou ainda capaz de ouvir as suas vozes. Enquanto escrevo estas palavras, ouço-os a repetirem frases que me disseram antes, quando estávamos no mesmo lugar, talvez sem entendermos completamente o enorme valor de estarmos juntos. Ouço o meu nome dito pelas suas vozes, pela maneira especial como cada um deles o dizia. Essa lembrança aumenta ainda mais as saudades. E, no entanto, espero que o futuro nunca me tire essa memória. Prefiro esquecer episódios, histórias, dias inteiros de cismas, do que deixar de ser capaz de ouvir a voz dos meus padrinhos. A minha madrinha a chamar-me, o meu padrinho a chamar-me.
Hoje, ter saudades desse tempo é espécie de uma felicidade enorme por tê-lo vivido, por saber como foi. Sinto falta dos meus padrinhos porque os tive, foram meus e, através das saudades que sinto em dias como hoje, continuam a ser meus padrinhos, mesmo que os sinos da minha terra já tenham tocado por eles há tantos anos.
Mesmo que fosse possível, nunca quereria deixar de sentir saudades dos meus padrinhos, esses velhos que me encheram a vida inteira com as suas certezas, com as suas dúvidas também, com a sabedoria e com os erros que fui capaz de aprender.
A saudade não é tristeza, é comoção.
A saudade é o que fica do amor quando perdemos todo o seu lado físico, deixámos de estar, deixámos de tocar, há uma barreira inultrapassável de espaço ou de tempo, mas o amor continua, permanece. A saudade é esse tipo de amor.
A saudade é o amor.


PORTUGAL MAGAZINE – José Luis Peixoto – Janeiro/2016

domingo, 1 de novembro de 2015

"Fátima podia ser melhor contada".



O que aconteceu entre maio e outubro de 1917 foi transformado no livro 'Em Teu Ventre'.
Por Leonardo Ralha
 A história de Lúcia, a menina que garantiu ter visto e falado com Nossa Senhora, é recontada por José Luís Peixoto no livro ‘Em Teu Ventre’ (Quetzal). O escritor garante à ‘Domingo’ que pretendeu gerar reflexão sobre um fenómeno que respeita.
Calcula como é que a sua mãe reagiria se aos dez anos lhe dissesse que tinha visto a Virgem Maria?
É uma pergunta curiosa, pois coloca o que aconteceu no campo do real. Muitas vezes, ignora-se algo fundamental: estamos a lidar com um acontecimento. Não depende da fé acreditar que três crianças, a mais velha com dez anos, afirmaram assistir à aparição de Nossa Senhora, a mãe de Jesus, numa azinheira, num campo do concelho de Ourém. Não consigo imaginar esse cenário na minha vida e não faço a mínima ideia do que a minha mãe poderia dizer – antes de pensar nela e na sua reação, penso no que eu era enquanto criança de dez anos e em como o Mundo era pouco nítido quando tinha essa idade.
A Galveias em que cresceu, nos anos 80, tinha algo em comum, por mais remoto, com a Fátima de 1917?
A primeira vez que fui a Fátima foi numa excursão da catequese. Galveias tem uma fundação, gerida pela Igreja Católica, o que faz com que tenha uma presença de freiras, que ministravam a catequese e iam à escola primária. A minha escola tinha, e ainda tem, um crucifixo na parede.
Como lhe apareceu a ideia de escrever a história daquela que viria a ser a irmã Lúcia e da sua família?
Interessei-me em ler um pouco mais sobre a história e tomei conhecimento de detalhes alheios àquilo que me fora transmitido. Aprendi a versão simplificada, mais comum, partilhada e, a meu ver, um pouco grosseira e infantil. Quase transformaram uma história concreta numa lenda pontuada por momentos que requerem fé. Quando li um pouco mais sobre a história, senti que podia ser melhor contada.
Houve algum momento em que tenha sentido medo de escrever sobre algo que diz tanto a tantas pessoas?
Da primeira à última palavra senti esse receio. Queria evitar transformar o livro numa provocação. Pelo contrário, a minha vontade era que pudesse propor reflexão, estimulando debate com respeito. Muitas vezes, quando se fala neste tema, tenta-se logo marcar uma posição quanto à fé. Sinto que há outras questões e que a fé é uma posição pessoal, até íntima, de cada um. Para passar à margem disso escolhi fontes que a Igreja Católica reconhece. As memórias da irmã Lúcia e o livro do padre João de Marchi. São textos com uma quantidade interessante de detalhes que me permitiram construir um livro, económico do ponto de vista da narrativa, mas que tenta retratar aquele período com realismo. Ao mesmo tempo, tive outra intenção, que não sei se ficou visível, mas foi importante: uma reflexão sobre a espiritualidade e o transcendente, que existe nas mais diversas formas, e faz sentido que cada um aceite. Esteve nos locais em que Lúcia e os primos Francisco e Jacinta viveram.
Sentiu algo especial?
Houve coisas que me tocaram bastante. Nomeadamente a forma como aquelas pessoas viveram. Atraiu-me mostrar a ruralidade, que muitas vezes Fátima simboliza. Nasci e cresci na ruralidade e acredito que esse Portugal ainda está presente, ainda que camuflado, em múltiplos traços daquilo que somos. E não me parece interessante que o rejeitemos por vergonha. Devemos procurar o que tem de positivo e aceitá-lo como parte daquilo que somos.
Compreende que, apesar de Fátima ser para muitos sinónimo de fé, haja quem a associe aos vendilhões do templo?
Compreendo os dois lados. O livro foca-se nos meses das aparições, de maio a outubro de 1917, mas a história teve desenvolvimentos. Se tivesse terminado aí, a Igreja teria rejeitado as aparições. Só as aceitou em outubro de 1930. Até porque era um fenómeno que vinha do povo… E envolvia algo muito caro à Igreja Católica. No livro, o padre é a personagem mais cética. Isso é histórico. Foi narrado por diversas fontes, incluindo a irmã Lúcia. Hoje, ao visitarmos Fátima, encontramos muitas formas de viver o fenómeno e algumas chocam muitas sensibilidades. Nomeadamente as lembranças feitas na China. Logo no momento das aparições houve quem falasse na possibilidade de Fátima se tornar uma estância religiosa, como Lourdes, o que aconteceu. É um destino turístico, visitado por milhares de pessoas. Muitas das quais não são católicas. Umas irão movidas pela sua fé e outras pela curiosidade. Certamente que há atrações para umas e para outras.
O livro não tem descrições das aparições. Fez essa escolha por não conseguir acreditar?
Foi a estratégia que encontrei para não ter de tomar partido. Não por pudor de apresentar a minha posição, mas porque senti que desvirtuaria as minhas intenções. Preferi fixar--me naquilo que me causa menos dúvidas, pois são factos históricos e mesmo assim acredito que tragam surpresas. Não me parece de forma alguma que as famílias de Lúcia e dos primos fossem pobres, como não me parece que fossem uns sacrificados por serem pastores. Havia outras crianças com trabalhos muito mais pesados e vidas mais difíceis nessa época.
É, ou alguma vez foi, um membro da Igreja Católica Apostólica Romana?
Tenho dificuldade em responder. Não posso fazer essa afirmação de forma inequívoca, a não ser talvez em momentos da infância, quando estava na catequese e frequentava a missa semanalmente. A certa altura afastei--me da instituição, mas não tenho dúvidas de que a minha estrutura moral foi formada nesse contexto. A religiosidade é algo que herdamos e que molda critérios e visão. Não podendo afirmar que tenho devoção, também não posso afirmar que os princípios da Igreja Católica me são totalmente alheios. Cresci e formei-me nessa cultura. Não é sequer uma escolha.
Interessa-lhe saber o que os religiosos pensarão desta narrativa?
Bastante. Apreciei a oportunidade de apresentar o livro em Fátima, na presença de figuras ligadas ao culto mariano e ao Santuário. Não quis que o livro fosse agressivo para com uma fé que respeito. Tenho admiração por quem a tenha. As primeiras palavras do livro são "tudo começa pela esperança" e a esperança, além de sinónimo de fé, é essencial à vida.
A mãe de Lúcia, que desconfia das aparições desde o início, tem mais medo do desconhecido ou de estar a ser trocada por outra mãe?
Sinto que a mãe de Lúcia estaria a proteger a família. Mas do ponto de vista simbólico temos duas mães em paralelo: a idealizada e divina e a concreta, com fragilidades.
Tal como ‘Morreste-me’ era um livro em nome do pai, ‘Em Teu Ventre’ é um livro em nome da mãe?
Sem dúvida. No entanto, ao contrário do meu primeiro livro, que dizia respeito ao meu pai, em concreto, este propõe uma reflexão sobre as mães, à margem da minha. Apesar de uma das narradoras ser mãe do autor. É um jogo literário, que tem a ver com a mãe interior que cada um tem dentro de si, seja qual for a distância ou independentemente de estar viva ou não. É uma voz de apoio e de crítica que deixou dentro de nós. Essa mãe dirige-se ao criador daquele texto, e é, de certa forma, uma aparição. Faz aquilo que Lúcia disse que Nossa Senhora fez em Fátima, atravessando dimensões para se tornar visível.
Era capaz de escrever este livro se a irmã Lúcia ainda estivesse viva?
Não creio. É um livro escrito com distância em relação aos acontecimentos. Apesar de a irmã Lúcia não ter morrido há muito tempo, isso pesou na possibilidade de poder refletir e ficcionar o assunto.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

AS PALAVRAS INVISÍVEIS.


Procuro o meu bloco de notas em lugares onde já procurei. Tenho a esperança que, desta vez, por qualquer milagre, possa estar lá. Não é um bloco extravagante, é preto e simples, vejo-o na memória enquanto procuro. Há aquilo para que olho, está à minha frente com todas as suas formas, e há este bloco de capa preta que quero encontrar e que é concreto na minha lembrança, como uma imagem projetada sobre aquilo que existe, como um slide antigo, e não adianta estender a mão para agarrá-lo, não está lá, os dedos atravessariam a luz dessa projeção colorida e imaterial.
Tento recordar a última vez que segurei o bloco de notas, ontem. Sei que estava em casa, isso é certo, mas apenas lembro a sensação viva de ter descoberto um bom lugar para o guardar. Talvez dentro de uma gaveta, talvez debaixo de alguma coisa, talvez entre dois livros que, naquele instante, me pareceram especialmente simbólicos. Escondi-o tão bem que, agora, nem eu próprio o consigo encontrar.
Conheço blocos de notas de grandes escritores, edições fac-similadas, póstumas. Os meus cadernos não são assim. Encho-me de pudor com a simples referência mental às anotações que faço: frases muito distantes de chegarem a verso, listas de tarefas, ideias sem forma, fragmentos meus, nus, inocentes, a exporem aquilo que não quero mostrar. Não são restos de mistério, não têm aquela imperfeição cuidadosa, perfeita. Aquelas páginas sou eu em cuecas, acabado de acordar, zombie; sou eu despenteado, camisola com nódoas, meias sem elástico; sou eu adormecido no sofá, diante da televisão acesa, a babar-me.
Na semana passada, estacionei o carro num lugar diferente. Entrei em casa, enchi a cabeça com as coisas de casa, dormi essa noite e, no dia seguinte, quando saí à rua, sobressaltei-me por não o encontrar no posto de todos os dias. Comecei a procurá-lo. A possibilidade mais insistente era: roubaram-me o carro. Apressei o passo e, quando já tinha o telefone na mão, lembrei-me daquele instante na véspera em que decidi estacionar num lugar diferente.
Escondido de mim, o meu bloco de notas, imóvel, discreto, abriga aquele pequeno mundo. Bastará folheá-lo para que essas palavras se soltem; estão lá, à espera, são como um segredo com corpo. O meu bloco de notas é como o corpo desse segredo.
Ainda assim, há diferenças fundamentais: esconder para sempre é tentar que algo nunca tivesse existido. Em coerência, a única forma de levar esse raciocínio até ao fim é morrer. Comparado com essas decisões, o meu bloco de notas, feito de papel barato, não é realmente o corpo de um segredo, é apenas o biombo que cobre esse corpo e, mesmo assim, é um biombo que permite transparências. Por sua vez, morrer com segredos, carregá-los no peito a vida inteira e morrer, nunca os partilhando com irmãos ou filhos, é um ato que questiona a própria morte. Conseguirá a morte ser suficientemente opaca para esconder esses segredos para sempre?
Um bilhete achado no interior de um livro antigo pode mudar tudo o que pensávamos sobre o nosso avô. Uma grande parte do passado ainda está para acontecer.
Além disso, os segredos retiram lógica ao mundo. Aquilo que se omite priva os outros de compreenderem as razões dos episódios a que assistem. Porque é que estás maldisposto? Por nada. Passa-se alguma coisa? Não, não se passa nada. Há algum problema? Não, não é nada.
Talvez encontre o bloco de notas quando já não estiver à espera. Então, quase de certeza, irá iluminar-se o instante em que decidi guardá-lo e as razões que me levaram a escolher esse lugar que, agora, me parece insuspeito. Será como quando não consigo recordar um nome ou uma data, faço um grande esforço de memória, mas nada. Depois, quando já não estou a pensar nisso, de repente, como um objeto que regressa à superfície, aparece-me na cabeça. Até posso acordar de noite com a força dessa lembrança.
Conformo-me, estou cansado de procurar, mas tenho pena. Nesse bloco, tinha anotado a ideia que ia desenvolver neste texto. Não consigo lembrar como era, só recordo que me entusiasmou, pareceu-me boa ideia, fiquei contente quando a tive.


José Luís Peixoto, in revista Visão

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Onde somos.


Este sol é português. Nasce lá na distância do cosmos, a milhares de quilómetros, mas aqui, esta alegria que toca a pele e a paisagem, que ilumina e aquece, é portuguesa. Podia mesmo ter passaporte, documento que guardaria no bolso e que apresentaria à passagem pelas fronteiras, diante do olhar circunspecto do polícia, a testá-lo na máquina, a escrever qualquer coisa no computador e a perguntar: vai em turismo?
O fado é universal. No auditório de qualquer continente, cantado por um homem ou por uma mulher, é universal. Acompanhado por aquela guitarra também universal, existe naquele lugar humano, onde as pessoas não têm nacionalidade. O fado circula livremente, não precisa de ser declarado como os produtos electrónicos. Depois de tirar o cinto, depois de descalçar os sapatos, o fado não apita na máquina dos metais. O fado existe em discos, mas os discos não são o fado. O fado existe na internet, mas a internet não é o fado. O fado é maior do que a internet, é mais universal.
Este vento é português. Não o vento das caravelas, esse já não existe, foi importante para quem lhe deu utilidade, mas gastou-se. A memória do vento das caravelas também é portuguesa, é património imaterial português. Mais concreto, no entanto, é este vento, soprado neste preciso instante. Tudo nele é português: o cheiro, a temperatura e até um certo silêncio. Este não é o único vento português, há muitos mais, com diferentes idades, velocidades e espessuras. No moinho ou na vela das pranchas de windsurf, no Cabo da Roca, ao longo do Douro ou nas ruas de Beja, vento raro, aragem nocturna, é sempre português.
A língua em que falo e escrevo é universal. A língua que a minha mãe começou a ensinar-me, sílaba a sílaba, é universal. Escrita, falada ou pensada, pode ser utilizada em qualquer ponto do planeta ou do universo. Repara no teu próprio exemplo: onde estás? Se estiveres a ler estas palavras traduzidas noutra língua, agradece ao tradutor e sabe que, desse modo, ainda mais se demonstra a universalidade desta expressão, desta matéria. Assim se revela a sua capacidade de movimento e adaptação, características primeiras daquilo que pode existir em todos os lugares e em todos os momentos.
Esta terra é portuguesa, a não ser que se encha baldes com ela, é para isso que servem as pás, e que se transporte em camiões ou em grandes navios através das fronteiras. Nesse caso, se tiver sido legitimamente adquirida, passará a ser terra desses países e, com muita probabilidade, continuará fértil. Assim, talvez se possa afirmar que esta terra é universal, a não ser que esteja debaixo dos meus pés, que sustente todo o peso da minha casa, a não ser que os meus mortos estejam enterrados e dissolvidos nela.
Sol e música, vento e língua, terra e tempo, somos aquilo que nos compõe. Respiramos ar que estava à nossa espera, que nos pertence, respiramo-nos a nós próprios. Da mesma forma, quando temos sede, bebemos água que se transforma em nós. São indefinidas e ambíguas as fronteiras entre nós e o mundo. Em todos os instantes, ao mesmo tempo, somos portugueses e universais.
por José Luís Peixoto

UP Magazine – TAP Air Portugal

quarta-feira, 16 de abril de 2014



Separadas pelo tempo e pelo espaço, a cidade de Istambul e a região da Capadócia são dois pilares fundamentais para entender o fascínio da Turquia. José Luís Peixoto voltou rendido, sem se importar com as perguntas que ficaram por responder. (In Revista “Volta ao Mundo”)

domingo, 13 de abril de 2014

A vontade e o mundo.


Um dia, vou cansar-me de querer conhecer o mundo. Nessa altura, talvez me pareça estranho que alguém saia de casa, deixe o morninho, para discutir preços com taxistas ou olhar para ementas de restaurantes onde não percebe uma única palavra.
 Às vezes, parece-me que conheço demasiados caminhos. Para ir a certos lugares, não tenho de pensar. Entro no carro e a minha cabeça ocupa-se de qualquer assunto que, naquele momento me pareça importante. Conheço tão bem esses caminhos que quase me surpreendo quando chego ao destino. Às vezes, quero ir a lugares ligeiramente diferentes, distraio-me por um momento e, quando reparo, já estou a fazer esses caminhos de novo. O hábito enganou-me. Então, preciso de voltar atrás, raramente necessito de GPS para encontrar a direcção certa.
Viajar seja para onde for, querer conhecer o mundo, é acreditar que todas as ruas fazem parte de um labirinto mas que não é possível perdermo-nos nele. Está-se sempre em algum lugar. A rosa dos ventos pode ser colocada em qualquer sentido, continuará sempre a ser uma rosa dos ventos.
 Na Tailândia, nenhuma comida tem o sabor das sopas da minha mãe. Na Amazónia, nenhuma paisagem se parece com os campos à volta da terra onde nasci. Nas ruas de Helsínquia, ninguém entende a língua em que penso e eu, estrangeiro, tenho dificuldade até de distinguir palavras na amálgama de sons que essas pessoas dizem quando vão, por exemplo, a conversar nos transportes públicos.
 Um dia vou cansar-me dessa surpresa. Conheço bem o conforto do meu sofá, com mantas em fevereiro, onde poderia passar tardes inteiras a ver programas da televisão portuguesa, com anúncios portugueses, com as notícias portuguesas a começarem à hora certa: pip, pip, piiii. Sei bem o que é atender o telefonema de um amigo que me diz: vem cá. Sei bem o que é poder ir ter com ele naquele momento, estar ao lado dele depois de minutos. Também sei o que é sentir que os amigos deixaram de ligam. A pouco e pouco, convencem-se de que nunca estou, nunca posso, não vale a pena ligar, não vale a pena insistir.
 Sim, um dia vou cansar-me de querer conhecer o mundo, mas hoje ainda não é esse dia. Sinto uma espécie de tontura só de começar a conceber todos os lugares onde posso ir. Tenho os sentidos ávidos por tudo aquilo que me espera. Não tenho qualquer receio de estar sozinho, sem mapa, no centro de Singapura, numa avenida de Caracas, diante de uma paisagem do Alasca. Anseio por esse momento.
 Quero aterrar em todos os aeroportos do mundo, quero conversar por gestos com gente de todos os países, quero provar o sal de todos os oceanos, senti-lo a cristalizar-se na pele. É muito fácil que chegue um dia em que deixe de acreditar em tudo o que acredito agora. A vida é composta por materiais bastante mais transitórios do que estamos dispostos a admitir. Mas, até lá, sempre que esteja diante de uma ementa onde não perceba uma palavra, continuarei a fechar os olhos e a pedir a primeira coisa onde deixe cair o meu indicador.

José Luís Peixoto, in Revista Volta ao Mundo (Abril 2014)

terça-feira, 1 de abril de 2014

Conta lá a história das bibliotecas itinerantes.


Às vezes, dou por mim a falar nisso perante uma plateia que me olha como se estivesse a dar notícias de um mundo meio real, meio imaginário. Não preciso de pensar muito no que estou a dizer porque, por preguiça, utilizo quase sempre as mesmas palavras, basta-me seguir o desejo de exotismo que encontro nos olhos que me fixam. Então, parece-me, sou um pouco como aqueles escritores africanos ou sul-americanos a quem se exige episódios coloridos, personagens singulares, anedotas, contos com moral.
Ainda assim, cada vez mais raramente, acontece estar alguém na sala que também conheceu essas bibliotecas, que também lá esteve. Então, de repente, as palavras voltam a ganhar significado, enchem-se. Ouço essa pessoa contar as suas memórias e, durante aquele instante, somos irmãos no olhar. As descrições têm préstimo, mas há uma presença muito mais funda, invisível, há a certeza de que, afinal, aquele tempo e aquele lugar existiram mesmo. Até eu já começava a duvidar.
As fitas adesivas coladas nas lombadas eram reais.
Uma vez por mês, ao fim da tarde, a carrinha Citroën chegava ao terreiro de Galveias, calhava-nos as quartas-feiras. Ficava estacionada em frente da cooperativa. Em Galveias, depois do 25 de Abril, o clube dos ricos passou a sede da cooperativa. Quando eu chegava, vindo dos lados do São João, já havia outros rapazes e raparigas à volta da carrinha.
Impressionava-me a quantidade de livros. Precisava de me esticar para chegar às prateleiras mais altas e, por isso, parecia-me que não tinham fim. O senhor Dinis conduzia a carrinha, recebia os papéis preenchidos com os códigos dos livros que requisitávamos, foi então que aprendi esse verbo, e era dentista. Eu conhecia-o da sala de espera, aquele cheiro antissético, onde aguardava a minha mãe e as minhas irmãs. Encontrei-o no ano passado na biblioteca de Abrantes, tirámos uma fotografia juntos. Aproveito para lhe enviar um abraço. Espero que esteja a ler estas palavras, com saúde.
Levávamos sempre a quantidade máxima de livros. E, sim, é verdade aquilo que costumo dizer: líamos muito depressa os que tínhamos e, depois, íamos trocando entre nós até ao regresso da biblioteca no mês seguinte.
Esse era também o tempo das sessões de cinema do Inatel no centro paroquial e na casa do povo. Foi dessa forma que, em Galveias, desci a ladeira, passei pela travessa da fonte e cheguei a casa com o rosto incendiado pelo Apocalipse Now. Foi também assim que assisti ao Baile, de Ettore Scola, sentado em cadeiras de tábua dura exatamente como aquelas em que assistia a bailes no salão da sociedade filarmónica. Poderia agora dar muitos outros exemplos.
Conheço as crianças de Galveias. Há dois anos, estive na escola onde também eu aprendi a ler e vejo-as na rua quando lá vou. No entanto, se quero identificá-las, tenho de perguntar-lhes quem são os seus pais. Nos sábados de manhã, ouve-se muito menos crianças a brincar do que no meu tempo. No ano passado, na minha terra, morreram mais de cinquenta pessoas e nasceram apenas duas.
As crianças de Galveias são iguais às de antes. Sinto pena que tenham menos do que eu tinha há quase trinta anos. Não se evoluiu. Na formação e na vida, a televisão não substitui a leitura e o cinema.
Ao falar de bibliotecas itinerantes aos meus filhos ou a essas crianças, sinto que sou como o meu pai quando me contava histórias da sua infância. Eu sabia que se tinham passado com ele mas, para mim, esse conhecimento era muito vago, pareciam lendas. No entanto, esse tempo era tão concreto como este. Um dia, este tempo, hoje de manhã, ontem, este preciso momento, será contado pelos meus filhos e por essas crianças com o mesmo tom com que agora falo de bibliotecas itinerantes. Naquele tempo, dirão. E aquele tempo será isto, tão concreto, tão prosaico, tão isento de magia. Estes objetos sem graça serão esse incrível futuro.
Eu, que estou aqui neste instante, também estava lá, a cheirar aqueles livros, a subir para a carrinha, a escutar a voz do doutor Dinis. Por isso, ainda que use as mesmas palavras até à exaustão, hei de continuar a repetir esta história. Sempre. É a minha história.
Ler mais: 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"Os mais frágeis têm de ser protegidos, e não largados à sua sorte"



 É escritor, alentejano de gema, e de alma. José Luís Peixoto é um alentejano irrequieto e falador, à procura de um lugar no mundo. José Saramago disse dele: "É um homem que sabe escrever". Escreve a vida. Escreve todos os dias. É obsessivo neste processo. O que o move? O Amor. Discorda de forma radical com a forma como o governo vê a sociedade. "Os mais frágeis têm de ser protegidos, e não largados à sua sorte", diz. "Conversas com Vida" de 7 de Fevereiro de 2014.
Retirado de: http://videos.sapo.pt/uHpzMl7IDUcOctm0uVfL

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Entrevista a José Luís Peixoto - “Manifesto contra a Crise – Compromisso com a Ciência, a Cultura e as Artes em Portugal” .


O escritor José Luís Peixoto é um dos subscritores do “Manifesto contra a Crise – Compromisso com a Ciência, a Cultura e as Artes em Portugal”.


Apoiado por 131 intelectuais, o documento defende a criação de condições para que os talentos se fixem em Portugal, ou então no estrangeiro, mas ao serviço do seu país. 
Nesta entrevista conduzida pelo jornalista Nuno Rodrigues, José Luís Peixoto afirma que a área do saber é sempre castigada num contexto de crise e dificuldades generalizadas.


- See more at: http://www.rtp.pt/antena1/index.php?t=Entrevista-a-Jose-Luis-Peixoto.rtp&article=7354&visual=11&tm=16&headline=13#sthash.zXovm2Ym.dpuf

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Luta de classes.


Não contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contrário, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.
 A cultura é usada como símbolo de status por alguns, alfinete de lapela, botão de punho. A raridade é condição indispensável desse exibicionismo. Só pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa colecção de símbolos é descrita com pronúncia mais ou menos afectada e tem o objectivo de definir socialmente quem a enumera.
 Para esses indivíduos raros, a cultura é caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, convém não haver misturas. Conheço melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no início da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escritórios for vista a ler um determinado livro nos transportes públicos, os snobs que assistam a essa imagem são capazes de enjeitá-lo na hora. Começarão a definir essa obra como "leitura de empregadas de limpeza" (com muita probabilidade utilizarão um sinónimo mais depreciativo para descrevê-las).
 Este exemplo aplica-se em qualquer outra área cultural que possa chegar a muita gente: música, cinema, televisão, etc. Aquilo que mais surpreende é que estes "argumentos", esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indivíduos supostamente cultos, e só em escassas ocasiões é denunciada como discriminadora do ponto de vista sexual ou social.
 Isso são livros de gaja, dizem eles. Às vezes, para cúmulo, há mesmo mulheres que dizem: isso são livros de gaja.
A raiz da minha cultura não pertence ao elitismo. Tenho orgulho das minhas origens, do meu avô pastor, do meu pai carpinteiro, como outros têm orgulho dos seus longos nomes compostos.
Depois de um trabalho que encerre convicções profundas, que tenha em conta os princípios da sua área artística, que seja consciente da história dessa área e que faça uma proposta coerente e inovadora, acredito na divulgação o mais ampla possível.
 Esconder uma obra em tiragens de 300 exemplares não lhe acrescenta um grama de valor artístico. Quando essa falta de divulgação resulta de uma escolha, pressupõe, quase sempre, falta de consideração pelo público, a crença de que um público mais vasto seria incapaz de entender tamanha sofisticação.
 Acredito que a poesia pode ser publicada em caixinhas de fósforos, escrita com trincha ou spray nas paredes, impressa em t-shirts, afixada no facebook. Em qualquer um desses lugares, será diferente, mas em todos continuará a ser poesia.

É ridícula a ideia de que a divulgação deturpa. A banalização é sempre tarefa de quem banaliza e não do objecto banalizado. Quem não for capaz de convocar os seus sentidos e a sua razão para apreciar uma determinada obra, apenas por acreditar que se encontra muito difundida, tem problemas graves ao nível do espírito crítico e da isenção mais básica. Esse é um daqueles casos em que se aconselha a lavagem de olhos. É aí que reside a deturpação.
 Admiro o povo ao qual pertenço. Não o povo mitificado, admiro o povo quotidiano. Gosto de ir a feiras. Gosto de comer frango assado com as mãos. Devo tanto à cultura deste povo como devo a Dostoiévski. Há alguns meses, a personagem de uma telenovela citou um poema escrito por mim. Toda a gente da minha rua viu e ouviu. A minha mãe ficou orgulhosa e eu também.
 Chamo-me José ou, se preferirem, Zé. Desprezo o elitismo. O verbo não é exagerado, adequa-se bem ao que sinto.
Hei-de sempre divulgar o meu trabalho na máxima dimensão das minhas capacidades. Devo esse esforço à convicção que tenho naquilo que escolhi dizer. Fico feliz se vejo os meus livros disponíveis em supermercados, estações de correios, bombas de gasolina ou bibliotecas públicas.
Aquilo que faço não existe sozinho, precisa de alguém que lhe dê sentido, o seu próprio sentido e interpretação pessoal. Se uma árvore cair sozinha na floresta, sem ninguém por perto, será que faz barulho? Por esse motivo, o esforço de divulgação é também uma mostra de respeito para com essas pessoas, é um sinal da minha crença nelas e no seu valor. Exactamente como estas palavras, que existem porque estás a lê-las.
Escrevo romances, a minha força de vontade é enorme. Tenho 38 anos, conto estar por cá durante bastante tempo. Tenho ainda muito por fazer. Habituem-se. Não tenho medo.

José Luís Peixoto, in revista Visão (Maio de 2013)