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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Há 17 novas presenças na Feira do Livro do Porto, incluindo a Livraria Lello.


Quando abrir as portas, no dia 2 de Setembro, a Feira do Livro do Porto vai ter 17 novas ofertas para quem passar pelos jardins do Palácio de Cristal, até ao dia 18. Entre as novidades está a Livraria Lello, que regressa à feira e se vai instalar, pela primeira vez, na Avenida das Tílias, desde que a Câmara do Porto assumiu, em 2014, a organização do evento.
Entre os 131 pavilhões que vão estar na feira deste ano há outros rostos novos, como a Chiado Editora, a Bubok, o jornal Público ou a Ordem dos Arquitectos. Ao todo estarão nos jardins do Palácio de Cristal, numa disposição muito semelhante à do ano passado, 69 editoras, 26 livrarias, 16 alfarrabistas, 12 instituições e oito distribuidoras.
Sob o tema “A Ligação”, a feira irá homenagear este ano o escritor Mário Cláudio e será acompanhada da habitual programação cultural, cuja apresentação está agendada para 23 de Agosto.
Este ano, outra das novidades da feira são os horários que, fruto dos resultados obtidos nos inquéritos feitos aos participantes e da percepção da autarquia da afluência do público, sofrerão alguns ajustes. Agora, se trabalha nas proximidades do Pavilhão Rosa Mota e gostaria de aproveitar a hora do almoço para comprar um livro, já o poderá fazer, porque a Feira do Livro vai passar a abrir as portas, diariamente, ao meio-dia. À noite, por outro lado, pode ter que antecipar um pouco a visita, pelo menos entre domingo e quinta-feira, já que ela vai fechar mais cedo uma hora, às 21h. Às sextas-feiras e sábado mantém-se o encerramento às 23h.
A Câmara do Porto assume sozinha a organização da Feira do Livro da cidade desde 2014, depois de uma ruptura com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) que, à semelhança do que ainda acontece em Lisboa, era também responsável pela organização da feira do Porto. Em anos anteriores já tinha havido uma série de conflitos entre a câmara e a APEL, o que levou a que, em 2013, a cidade nem sequer tivesse Feira do Livro, tendo organizado, em alternativa, um evento mais pequeno, o Letras na Avenida, na Avenida dos Aliados, onde a feira se instalara nos anos anteriores.

Desde 2014 que a feira se mudou para os jardins do Palácio de Cristal, onde tem recebido, segundo a autarquia, mais de 200 mil visitantes por ano. O período escolhido para a sua realização também foi alterado, passando de Maio para Setembro. O evento passou a ser marcado por um tema e pela homenagem a escritores marcantes da cidade, tendo-se centrado, no primeiro ano, na figura de Vasco Graça Moura (o tema era “Liberdade e Futuro”) e, no ano passado, de Agustina Bessa-Luís (“Felicidade”). Este ano o romancista portuense Mário Cláudio, vencedor de diferentes prémios, incluindo o Grande Prémio de Romance e Novela da APE/DGLAB 2014 com Retrato de Rapaz é o homenageado devendo, como tem sido habitual, uma tília baptizada simbolicamente com o seu nome. (Jornal Público – 10 Agosto 2016)

sexta-feira, 4 de março de 2016

Estes são os livros que deve ler antes dos 30.


Os jornalistas dos sites fizeram esta lista com base em alguns parâmetros: os seus gostos, a escolha de obras que promovessem o autoconhecimento, que ajudem a moldar uma visão do mundo que nos rodeia e que cimentem a base para uma carreira sólida.
Aqui fica a lista:
- ‘Meditações’, de Marco Aurélio;
- ‘O Mito de Sísifo’, de Albert Camus;
- ‘Crime e Castigo’, de Fiódor Dostoiévski;
- ‘Anna Karenina’, de Leo Tolstói;
- ‘O Principezinho’, de Antoine de Saint-Exupéry;
- ‘O Poder do Mito’, de Joseph Campbell;
- ‘Bhagavad-Gita’;
- ‘Sidarta’, de Hermann Hesse;
- Obras completas de Jalal ad-Din Muhammad Rumi;
- ‘O Ano do Pensamento Mágico’, de Joan Didion;
- ‘O Deus das Pequenas Coisas’, de Arundhati Roy;
- ‘Fun Home’, de Alison Bechdel;
- ‘Dentes Brancos’, de Zadie Smith;
- ‘A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao’, de Junot Díaz;
- ‘The Beggar Maid’, de Alice Munro;
- ‘O Estranho Mundo de Garp’, de John Irving;
- ‘Persépolis’, de Marjane Satrapi;
- ‘Between the World And Me’, de Ta-Nehisi Coates;
- ‘Primeiro Eles Mataram o Meu Pai’, de Loung Ung;
- 'The Truth', de Neil Strauss;
- ‘Iron John’, de Robert Bly;
- ‘A Chave do Sucesso’, de Malcolm Gladwell;
- ‘The Black Swan’, de Nassim Taleb;
- ‘O Milagre da Mente Alerta’, de Thich Nhat Hanh;
- ‘So Good They Can't Ignore You’, de Cal Newport;
- ‘The Intelligent Investor’, de Benjamin Graham;
- ‘Give and Take’, de Adam Grant;
- ‘The Power Broker’, de Robert A. Caro;
- ‘Fluir’, de Mihaly Csikszentmihalyi;
- ‘De Zero a Um’, de Peter Thiel;
- ‘Crossing the Unknown Sea’, de David Whyte;
- ‘Tiny Beautiful Things: Advice on Love and Life from Dear Sugar’, de Cheryl Strayed;

- ‘How Will You Measure Your Life?’, de Clayton M. Christensen.
Jornal I - 04.Mar.2016

quarta-feira, 2 de março de 2016

Nuno Costa Santos: uma estreia com muita bagagem.


Entramos no primeiro romance de Nuno Costa Santos, Céu Nublado com Boas Abertas, sabendo que há realidade e ficção nas suas páginas. Como discernir uma da outra é uma questão, mas uma questão que interessa pouco para a fruição da obra. A contra-capa adverte-nos tenuemente para este caminhar na fronteira; as epígrafes dão a receita: “Talvez a literatura seja isso: inventar outra vida que bem poderia ser a nossa”, Enrique Vila-Matas;“There’s no longer such thing as fiction or non fiction”, David Shields.
Nuno Costa Santos pode apresentar-se como a personagem dos Simpsons Troy McClure: Talvez se lembrem dele pelos livros de poesia, de crónicas, de contos, pela biografia de Fernando Assis Pacheco, pelos blogues, pelos programas de rádio, de televisão. Ou seja, no caso de Nuno Costa Santos, quando se fala num primeiro romance não se fala de inexperiência. Nascido em 1974, a escrita faz parte da sua vida desde há muitos anos e esse percurso terá sido, arriscamos, fundamental para um primeiro romance tão seguro.
Logo na primeira página, somos brindados com uma fotografia antiga de um casal: os avós do narrador. (Ou deveremos dizer autor?) Já perto do final, na página 197, o mesmo casal volta a surgir, com a mesa roupa, quase a mesma posição, mas expressões faciais diferentes: uma outra fotografia da mesma sessão de estúdio? A assinatura, que parece identificar o estúdio de fotografia, é diferente nas duas fotos. Terão tirado fotos em estúdios diferentes no mesmo dia? É um mistério que o romance não deslinda.
Este recurso às imagens, recorrente sem ser exagerado, aliado a umas poucas páginas lidas, remete-nos logo para W. G. Sebald, o grande mestre alemão da mistura entre ficção e realidade. Somos introduzidos logo à história do avô, João Pereira da Costa, o tal da fotografia, cujas memórias escritas o narrador encontra. Do meio desses papéis cai uma nota: “se tiver um descendente que se interesse pela escrita, peço-lhe para ir a São Miguel e trazer no regresso um conjunto de histórias do presente da ilha.”
Esta é a missão que o narrador empreende: visitar a sua ilha natal de São Miguel e nela buscar histórias, satisfazendo o pedido de um avô que já morreu. O romance divide-se entre estes dois tempos, o da deambulação do narrador pela ilha e o da história do seu avô, tentando curar-se da tuberculose num sanatório do Caramulo, rememorada através dos escritos que deixou. Este é um mecanismo muito caro a Sebald: um narrador vagueando pela paisagem e evocando histórias passadas.
É no presente da narrativa que Nuno Costa Santos se distancia do escritor alemão. Embora o tom melancólico e o ritmo ondulante da acção – que parece atingir um narrador passivo, como quem se deixa molhar pelas ondas sem vontade de entrar no mar ou de afastar-se da rebentação – ainda remetam para a escrita sebaldiana, a natureza das histórias encontradas na ilha é o afastamento face a este pai literário, é o grito de independência do autor.
O golpe de mestre de Nuno Costa Santos está aqui, na forma como coloca este narrador a procurar as histórias que o avô lhe pediu que procurasse. Porque, na verdade, a procura é muito escassa: a maioria das histórias vai ao encontro e de encontro a este narrador; e começam logo no avião que o leva de Lisboa aos Açores. Sem reacção do narrador, este vê-se envolvido num enredo com traficantes de droga locais, pacotes de cocaína que dão à costa em vários pontos da ilha, uma rapariga que anuncia massagens num jornal local e um velejador traficante francês. Pelo meio há outras desventuras com personagens, no mínimo, caricatas.
Como ensina Dinis Machado, devemos perguntar sempre: qual é o lado mais cómico disto? O lado mais cómico disto é precisamente aquela melancolia apática do narrador perante as situações extraordinárias que o envolvem. Em duas narrações sem paralelos aparentes – a do avô tuberculoso no Caramulo e a do neto metido com traficantes em São Miguel – surge uma ligação, pela diferença: a inversão do efeito esperado das duas narrativas. Não é que a história do avô seja puramente cómica, mas a forma como descreve as situações e reage aos seus azares tem laivos de humor. E o neto, vivendo coisas mirabolantes, parece acometido de uma doença profunda, uma tuberculose da alma.
Da história do avô, não esperamos grandes surpresas. Se ele abandona os Açores em busca da cura no Caramulo, logo depois de se casar, já supomos que se curará e regressará, porque se não fosse assim não teria filhos e não teria o neto que narra o romance. Da história do neto, não sabemos o que esperar, nem é expectável que o saibamos, nem é pretendido pelo autor. O curioso, em mais uma inversão do previsto, é que ficamos mais ávidos pelo desenlace da história do avô do que pela do neto.

Céu Nublado com Boas Abertas não é viciante, mas é viciante. O fio do passado, antigo e datado, empolga-nos, ao passo que o fio do presente, actual e imprevisível, embala-nos. É de todo este jogo diegético, da mestria narrativa com que Nuno Costa Santos aguenta a ficção e a não-ficção, no seu registo Sebald-urbano-depressivo, que se faz um notável romance de estreia. Nota-se que é uma estreia com muita bagagem, de alguém que se preparou para esta maratona com muitas corridas à volta do quarteirão. (Jornal Público – 26.Fev.2016)

domingo, 9 de agosto de 2015

O que andamos a ler enquanto molhamos os pés.


Em tempo de férias, são muitos os que aproveitam para pôr as leituras em dia, em todo o mundo. Nos EUA, Harper Lee domina os tops. A Rapariga no Comboio, de Paula Hawkins, está um pouco por toda a parte e Portugal não é exceção...
Portugal fica de fora, por um desfasamento editorial remendado nos próximos meses, do alcance intercontinental - Londres, Paris, Nova Iorque - de dois dos maiores êxitos editoriais que o verão testemunha e, até certo ponto, apadrinha: a versão masculina das peripécias eróticas mais faladas nos últimos anos, com a autora E.L. James a esticar a corda em Grey (As Cinquenta Sombras de Grey narradas por Christian), sucesso comum aos três polos referidos, e o regresso de Scout e Atticus Finch pela mão de Harper Lee em Go Set a Watchman, comandante segura das listas de mais vendidos em paragens anglófonas. Tal como cá, a versão francesa está agendada para o outono. Tanto nas Ilhas Britânicas como nos Estados Unidos, a veterana parceira de Truman Capote alcança uma improvável dobradinha: aproveitando o empurrão de uma sequela escrita antes (é mesmo assim, por estranho que pareça) e o 50.º aniversário da publicação original, Mataram a Cotovia regressa às listas de mais vendidos. O que não pode deixar de saudar-se; haja algo de mais duradouro do que as fugazes levezas estivais.

Em Portugal, além de Hawkins e dos comboios, de Enders e dos intestinos, da chegada em crescendo de Johanna Basford e O Jardim Secreto (o "pinte você mesmo", outra vez), de Green e das cidades, pode entrar-se pelo território muito abrangente da não ficção. E isso pode acontecer em velocidade com Running - Muito mais do Que Correr, de José Soares, manual de exaltação das vantagens e das ramificações da corrida na nossa vida de todos os dias. Nota: levar a vida a correr não é uma variante contemplada. Juntam-se-lhe uma investigação, um alerta e um testemunho. Respetivamente, o diver-tido, esclarecedor e comparti-mentado à medida da concentração estival Puxar a Brasa à Nossa Sardinha, da jornalista Andreia Vale, que parte em busca da origem e do devir de expressões que utilizamos na nossa linguagem corrente; Dicionário de Erros Frequentes da Língua, de Manuel Monteiro, pode mostrar-se um auxiliar poderoso para baixar o nível das consecutivas agressões ao património que mais vezes utilizamos; O Que Vejo e não Esqueço, de Catarina Furtado, narrativa rigorosa - e nem por isso menos suscetível de prender e cativar - de uma vida que vai muito além daquilo que lhe conhecemos na sua profissão e nas suas artes. A honestidade não afeta a envolvência; a emoção não minora a justiça. Para alguns (não para todos), uma belíssima surpresa. (DN - 9.Agosto.2015)

sábado, 20 de junho de 2015

James Salter (1925-2015): “A nossa vida está sempre a ir embora”.


“A ficção está acima da verdade. Num outro patamar moral e estético, artístico. A verdade na memória remete para uma verdade mais objectiva, algo que terá acontecido. Terá ele visto? Terá ele dito? Terei sentido? Será que fomos? Eu adoro a memória. A nossa vida acaba por ser só memória. Está sempre a ir embora a todo o tempo, a mudar.”
As palavras foram ditas no final de Abril deste ano por James Salter, a quem chamavam o escritor dos escritores. Foi numa entrevista sobre o seu último romance, e o primeiro que publicou em Portugal: Tudo o que Conta (Livros do Brasil), uma reflexão sobre a passagem do tempo a partir da perspectiva de um homem que não queria ter uma existência comum. A vida passou e esse homem olha para ela, reconstruindo-a com a memória. A memória que passa, que faz que o fez dizer : “a nossa vida está sempre a ir embora”.
A revista Lire considerou Tudo o que Conta o melhor romance estrangeiro publicado em França em 2014 e dedicou-lhe a capa. Pouco tempo antes, o jornal The New York Times escrevia que era um dos escritores essenciais da literatura norte-americana. James Salter morreu na madrugada de sexta-feira. Tinha feito 90 anos no passado dia 10 de Junho.
A voz algo trémula, os olhos de uma frontalidade que podia intimidar, sorriso desenhado no sobrolho, esperava na paragem a camioneta vinda de Nova Iorque. Em Bridgehampton, pequena vila de Long Island que multiplica a população no Verão, há uma rotina de província. A paragem do expresso que chega e parte mais ou menos de duas em duas horas é um ponto de encontro e de trocas. De encomendas, de abraços. Salter esperava a jornalista enquanto lia um livro: Do Lado de Swan, de Marcel Proust. Entrou depois no velho Saab e conduziu uns cinco minutos até à casa de madeira castanha onde vivia com a mulher, a jornalista Kay Eldredge. Era ali que continuava a escrever, diariamente, menos horas do que antes, mas num ritmo constante. Contos, ensaio, crítica, argumento, romance. Era um escritor de escrita lenta.
Tudo o que Conta demorou-lhe trinta anos e teve várias versões até lhe sair como queria. Foi fazendo outras coisas. Além da literatura, ensinava escrita. Desde 1956, ano em que se estreou com The Hunter, publicou seis romances, três colectâneas de contos, um livro de memórias — Burning the Days (1997) —, ensaios; escreveu quatro argumentos para cinema — onde se destaca o filme Downhill Racer, com Robert Redford, em 1966 —, um livro de poesia, e finalmente em 2013 apareceu com Tudo o que Conta. Talvez o exemplo mais brilhante da escrita de Salter.
“Não é um livro biográfico, mas tudo o que eu sei está aqui”, declarou então numa conversa em que tanto quanto responder a perguntas procurava respostas. Queria saber de novos autores, dos que chegam à Europa. E dos que a Europa tem e não chegam à América. E sobre a sua escrita dizia que não sabia bem. “Gostava de poder dizer qualquer coisa mágica”, continuava. Qualquer coisa sobre esse processo que, no seu caso, tinha qualquer coisa a ver com respiração, música, um ritmo, e com a leitura em voz alta do que ia fazendo. Seria harmonia? Ele levantou as mãos no ar, imitou o gesto de um maestro a marcar o compasso e repetiu: “Pam, Pam, Pam”, para depois cruzar as mãos e referir que não há magia ou milagre: “Dá muito trabalho.”
A escrita de James Salter, nome literário de James Horowitz, antigo coronel da força aérea norte-americana, continha uma clareza e elegância que muitos escritores admiravam. Graham Green, Vladimir Nabokov, Richard Ford, John Irving, Bret Easton Ellis, Jay McInerney elogiaram-lhe várias vezes a concisão, a palavra certeira, os recursos que permitiam que quase tudo o que dissesse parecesse simples e nessa simplicidade fosse avassalador. Michael Dirda escreveu um dia no The Washington Post que quando quer Salter “é capaz de nos partir o coração com uma frase”. Era também um caso exemplar em algo que não é literatura, mas determina um percurso literário: um escritor sem vendas raramente consegue ter importância, mesmo que a tenha. Salter tinha-a, mas os seus livros nunca foram best-sellers.

Foi pela literatura que James Salter deixou o exército. Natural de Passaic, estado de Nova Iorque, onde nasceu a 10 de Junho de 1925, filho de um vendedor de imobiliário, cresceu em Manhattan, fez o liceu numa escola privada no Bronx, onde foi colega de Jack Kerouac e, para fazer a vontade ao pai — um antigo militar —, estudou em West Point. Serviu no exército até 1957. Já tinha publicado The Hunters e queria tentar viver da literatura. Mudou de vida e de nome. Fala disso sentado numa poltrona junto à janela. Entrava uma luz de manhã de Primavera com chuva. Ele pousara na mesa em frente Do Lado de Swan. Voltava a livros antigos. Estava a descobrir alguns a que sempre se mostrara relutante. Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry era a sua última paixão literária. Lera-o no México, onde passava os invernos para escapar ao frio de Nova Iorque. “São livros formadores”, dissera, sem nunca se alongar nas suas coisas: a capacidade de observação, a atenção ao outro, os elogios. A lucidez da escrita é a mesma da conversa. (Jornal Público)

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Acampar com histórias e "show cooking" na Feira do Livro de Lisboa.


A 85.ª edição da Feira do Livro de Lisboa, que decorre de 28 de Maio a 14 de Junho, vai ter novidades. Acampamento com histórias para crianças, conferências com oradores internacionais e um "show cooking".
Conferências com convidados internacionais, um auditório “com uma cozinha equipada” - para ali se realizarem apresentações de livros de gastronomia - e várias noites dedicadas às crianças com uma nova actividade, Acampar com histórias, são algumas das novidades da 85.ª edição da Feira do Livro, que decorre de 28 de Maio a 14 de Junho no Parque Eduardo VII, em Lisboa.
Esta edição conta com um total de 271 pavilhões (mais 21 do que o ano passado) e também com um número recorde de participantes: são 123 os inscritos nesta feira do livro (mais 23 do que em 2014).
Na conferência de imprensa que decorreu esta terça-feira à tarde no Parque Eduardo VII, onde já se podem ver montados os pavilhões coloridos das diversas editoras, o presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), João Alvim, referiu que em 2014 o número de visitantes da Feira do Livro de Lisboa foi de 532 mil e que a expectativa da APEL “é sempre a de se ultrapassar" o número de visitantes do ano anterior. “Ambicionamos [este ano] chegar aos 600 mil visitantes, com os [novos] espaços de lazer, a programação e se as condições meteorológicas forem favoráveis”, acrescentou.
Por sua vez, Bruno Pacheco, secretário-geral da APEL, lembrou que este ano os visitantes podem contar com “mais de mil iniciativas durante os 18 dias da feira, aproximadamente mais 100 do que no ano anterior". Haverá mais locais de restauração e o novo espaço "show cooking" - com um auditório localizado à entrada da feira junto ao Marquês de Pombal onde haverá “uma cozinha equipada” - permitirá que ali decorram apresentações de livros de gastronomia e culinária. 
Entre as novidades mais entusiasmantes deste ano na feira inclui-se a iniciativa Noites Happy Readers: Acampar com Histórias mas para a qual já terminaram as inscrições. É dedicada aos mais pequenos, dos 8 aos 12 anos, e os participantes vão passar uma noite “rodeados de livros, histórias e letras”, tal como explicou Susana Silvestre, da rede de Bibliotecas Municipais de Lisboa. Esta actividade que se repete em seis noites – 19 e 30 de Maio, 5, 6, 12 e 13 de Junho - vai permitir que 120 crianças, que já foram seleccionadas após inscrição e o pagamento no site da APEL, façam uma visita guiada pela feira entre muitos livros e actividades, jantem e acampem durante a noite na Estufa Fria de Lisboa.
Logo após a cerimónia de inauguração da 85.ª edição da Feira do Livro de Lisboa, quinta-feira às 16h, inicia-se o primeiro de três ciclos de conferências às quintas-feiras com convidados internacionais dedicadas ao debate de temas ligados à indústria europeia do livro. A primeira conferência é sobre os direitos de autor/pirataria e contará com a presença do presidente da Federação Europeia de Editores, Pierre Dutilleul, no dia 28 de Maio.
A segunda conferência será dedicada à Lei do Preço Fixo e terá a participação de Kyra Dreher, co-presidente da Federação Europeia e Internacional de Livreiros (4 de Junho) e por fim, Richard Charkin, presidente da Associação Internacional de Editores irá estar na feira no dia 11 de Junho a discutir os constrangimentos internacionais aos direitos de autor e à luta contra a pirataria. Durante os 18 dias da feira irá decorrer ainda o I Encontro LiterárioNós e os livros, e a Fundação Francisco Manuel dos Santos vai promover um ciclo de onze debates sobre a economia portuguesa, o parlamento e o ensino, entre outros temas.
A Feira do Livro de Lisboa está aberta de segunda a quinta-feira das 12h30 às 23h, às sexta-feiras e vésperas de feriados das 12h30 às 24h, aos sábados das 11h às 24h e aos domingos e feriados das 11h às 23h.

Editado por Isabel Coutinho (Jornal Público –Maio.2015)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Há cem anos o terramoto Orpheu virou do avesso a literatura portuguesa.


Na primeira metade do século XX português não houve escassez de revistas literárias importantes e duráveis, como a Águia (1910-1932) ou a Presença(1927-1940), para citar apenas duas. Mas é hoje surpreendentemente consensual que a mais influente e icónica de todas foi uma efémera publicação de que apenas saíram dois números no primeiro semestre de 1915. Chamou-se Orpheu e foi recebida pela imprensa da época com títulos como “Literatura de Manicómio”, “Os Poetas do Orpheu e os Alienistas” ou “Orpheu no Inferno”.
Decorrido um século, o centenário do lançamento do primeiro número deOrpheu, que terá saído da gráfica a 24 de Março de 1915, vai ser evocado por estes dias em colóquios, exposições, lançamentos, leituras públicas e outras iniciativas. Tudo somado, não é de mais, já que Orpheu não foi apenas um terramoto que deixou irreconhecível a paisagem literária portuguesa da época, foi também, enquanto gesto fundador do nosso modernismo, o início de uma aventura criativa que atravessou todo o século XX e que só agora começa a dar sinais de esgotamento. E foi ainda, sobretudo no seu segundo número, a materialização mais significativa da colaboração entre dois génios criativos: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Sem eles, poderia ter existido Orpheu, mas dificilmente estaríamos hoje a celebrar o seu centenário.
No plano académico, o momento mais significativo destas comemorações é o grande colóquio luso-brasileiro 100 Orpheu, que decorre em Lisboa, na Gulbenkian e no Centro Cultural de Belém, entre os dias 24 e 28, e que terá depois uma etapa brasileira em São Paulo, no final de Maio. Com pessoanos de várias gerações e proveniências, de Eduardo Lourenço ou Teresa Rita Lopes a Richard Zenith, Steffen Dix e Jerónimo Pizarro, o congresso começou com um aperitivo portuense na Fundação Eng.º António de Almeida, que inaugurou ontem o colóquio Orpheu e o Modernismo Português e a exposiçãoMemória d’Orpheu.
Na Biblioteca Nacional, abre no dia 24 a exposição Os Caminhos de Orpheu, organizada por Richard Zenith, que mostra o percurso da revista desde os seus antecedentes até às posteriores tentativas de Pessoa para ressuscitar o projecto. A par de muitos outros materiais que documentam a história deOrpheu, e não esquecendo a importância que as artes plásticas e gráficas tiveram no movimento, a exposição inclui vários papéis inéditos, incluindo documentos que demonstram que o envolvimento de Pessoa na produção do célebre número zero da revista Contemporânea, em 1915, foi muito mais decisivo do que se pensava.
Ocupando vários espaços da Casa Fernando Pessoa (CFP), inaugura-se a 25 a exposição Os Testamentos de Orpheu, de Pedro Proença. E a CFP está ainda a desenvolver com o Instituto Camões (IC) uma outra mostra – Nós, os de Orpheu –, que circulará em Portugal e na rede internacional do IC. E, a partir de 28 de Março, propõe-se fazer regressar Orpheu aos cafés onde o projecto foi pensado e discutido, convidando actores a ler textos que convoquem “o espírito do grupo” que fez a revista.

Mais discretas mas não menos importantes, duas iniciativas editoriais assinalam o centenário de Orpheu: 1915 – O Ano do Orpheu, com organização de Steffen Dix, uma belíssima edição da Tinta-da-China (a capa inspira-se no grafismo do segundo número de Orpheu). O livro acabou de ser lançado e reúne textos de mais de 20 investigadores, contextualizando o surgimento da revista, abordando as experiências afins noutras literaturas europeias e tratando individualmente os “órficos” mais relevantes. Em Abril, a Assírio & Alvim lançará, na colecção Pessoa Breve, o volume Sobre Orpheu e o Sensacionismo, co-organizado por Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. (Jornal Público)

sábado, 14 de março de 2015

Tragam os corpos!


Rolam cabeças e ninguém está a salvo, nos romances e nos contos de Hilary Mantel. A sua peculiar atracção pelos cenários labirínticos e violentos, onde a intriga e as distorções da realidade são colocadas como armadilhas no decorrer de acontecimentos aparentemente banais, faz dela uma escritora peculiar, hábil na manipulação de personagens, situações e ambientes que deixam um rasto amargo mas sinistramente cómico. Depois de uma já longa carreira literária, e do compreensível sucesso de Wolf Hall e Bring up the Bodies (O Livro Negro, em português), dois romances históricos de uma trilogia — que ficará completa neste ano (2015) — em torno da figura de Thomas Cromwell e que lhe valeram dois prémios Booker, Mantel resolveu publicar estas histórias, demonstrando, como uma malabarista demoníaca e travessa, a capacidade para abordar os temas clássicos — casamento, família e sexo, diferenças entre géneros e classes — de uma forma, no mínimo, bizarra. Na realidade, Mantel está tão perfeitamente à vontade na movediça, perigosa e viciosa corte de Henrique VIII como no ambiente inseguro e repleto de ciladas do que tem sido o universo caótico das últimas décadas.
Nestes contos, comparáveis aos do seu contemporâneo Ian McEwan no que diz respeito ao que existe de macabro, sombrio e desviante no ser humano, Mantel mostra ser, também, uma discípula de Edgar Allan Poe, quando traz para o quotidiano um ambiente de permanente ameaça, irracionalidade e ambiguidade.
As narrativas são bastante curtas e a autora confere-lhes um carácter pessoal, não no sentido estritamente autobiográfico mas sim como se tudo o que descreve fosse uma anedota privada, algures num espaço paralelo, tanto temporal como físico, distorcido pela imprevisibilidade e observado a partir de uma visão desfocada e alucinatória. O primeiro conto, Desculpe incomodar, é um bom exemplo: relatado na primeira pessoa, remete para acontecimentos passados quando Mantel viveu com o marido em Jeddah, na Arábia Saudita. A autora descreve o ambiente claustrofóbico, a impossibilidade de sair livremente, a incompreensão perante regras conviviais absurdas, as barreiras numa sociedade com duras regras e muito pouco tolerante para com as mulheres. O ar abafado, as baratas no chuveiro, as janelas entaipadas, as importunas visitas de um homem demasiado amigável — esta intromissão reflecte-se na do sniper do IRA que invade e ocupa uma casa para ter um bom ângulo de ataque à primeira-ministra, no último conto —, as maleitas que a atingem — dores de cabeça, tonturas, intolerância à luz — estabelecem os vários leitmotiv que marcam a acção e os temas dos outros contos. EmVírgula, duas miúdas passam um Verão a fugir de casa e a embrenharem-se num matagal, os joelhos esfolados e os vestidos sujos, para espiarem uma mansão, de onde, todos os dias, emerge uma senhora elegante que empurra uma cadeira de rodas com um ser indistinto — semelhante a uma vírgula — embrulhado em mantas. Em O Qt-Longo — nome de um Síndrome relacionado com um certo tipo de taquiarritmia —, a dona da casa, durante uma festa, presencia a traição do marido com uma convidada. Tudo gira em torno desse momento em que o tempo pára, os sons são abafados, os copos se estilhaçam, os vidros cobrem o chão e o triângulo formado por marido, mulher e amante efectua uma espécie de dança grotesca que termina em tragédia, tal como acontece em Férias de Inverno, em que um casal parte para a Grécia e presencia um episódio de contornos sinistros. Num dos melhores contos, Como é que a irei reconhecer?, uma infeliz autora (ela própria?), incapaz de recusar o convite de uma comunidade de leitores numa cidade distante para falar da sua obra, passa pelos inconvenientes de uma hospitalidade dúbia — o seu anfitrião chama-se senhor Simister — num hotel à beira da estrada, depois de uma sessão pouco auspiciosa e perante uma plateia de zombies. Aliás, para Mantel, as personagens — fantasmas, vampiros, delinquentes, terroristas, ladrões, sequestradores, violadores e as suas vítimas, a criança paraplégica, a porteira aleijada, a escritora sonâmbula, a rapariga anoréctica, a estrangeira sequestrada, a mulher traída — são tão laboriosamente desenhadas como o espaço que as rodeia, sejam as escadas de um hotel, a divisão da casa em Jeddah onde a mobília se movimenta sozinha durante a noite, uma sala de pânico, o chão de uma cozinha, os consultórios em Harley Street, ou os canteiros de um jardim em que os botões de rosa se transformaram em borbotos castanhos e os carris de comboio a entrecruzarem-se na estação de Waterloo.

O conto que dá o título ao livro — situado no dia 6 de Agosto de 1983, quatro anos depois de Thatcher ganhar as eleições e apenas alguns meses antes do ataque terrorista do IRA, em Brighton, que realmente era destinado a matar a primeira-ministra — causou burburinho na Grã-Bretanha, por parte dos conservadores (Tories), ao ponto de um ex-deputado ter clamado contra a “fantasia deturpada e grotesca” da senhora (Dame) Mantel, a qual, no entanto, não deu sinais de se sentir minimamente afectada. (“Ainda hoje sinto o sangue a ferver de ódio contra Thatcher”, diz ela). Acrescente-se que estes dez contos, onde não se encontram vestígios de complacência, empatia, paciência ou compaixão, são extremamente imperfeitos; no entanto, o seu poder encantatório é fruto dessa estranha forma de narrar, sem fim nem princípio, a unidade quebrada e o equilíbrio instável. A autora não estabelece qualquer cumplicidade com o leitor, antes o atrai para um sorvedouro, em que a doença, a morte, a traição e o desleixo moral são habilmente reequilibrados por uma ironia exultante.
 Crítica corrigida: onde se lia Oliver Cromwell passou a ler-se Thomas Cromwell (Jornal Público)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

8 razões para ler (livros a sério).


Com a evolução tecnológica, a maioria das pessoas decidiram deixar os livros nas estantes. Os mais novos só querem saber das novas tecnologias e os adultos dizem que não têm tempo para ler (mas a verdade é que muitos vão no comboio ou no metro agarrados ao tablet ou ao smartphone e não a uma obra literária).
A Time decidiu fazer uma lista de oito razões para deixar os e-books, as sms, os chats e os comentários nas redes sociais e optar por livros a sério. Pode ser que lhe dê alguma motivação…
As pessoas que lêem são mais inteligentes: Dr. Seuss escreveu “Quanto mais leres, mais coisas saberás. Quanto mais aprenderes, a mais sítios irás”. Sabia que um livro infantil expõe a criança a mais palavras do que um programa de televisão? É esta a conclusão de um estudo da Universidade de Berkeley, EUA. Estar exposto a novos vocábulos não só faz com que aprendam a ler melhor, mas também permite alcançar resultados mais altos em testes de inteligência.  Para além disso, é essencial que opte por um livro e não um ecrã – ler num dispositivo faz com que fiquemos entre 20 a 30% mais lento, lê-se num estudo da Universidade do Texas.
Ler faz bem ao cérebro: Tal como fazer jogging ajuda a melhorar o sistema cardiovascular, ler regularmente ajuda a melhorar a memória, explica um estudo publicado na Neurology. 
Tornamo-nos mais empáticos: Uma boa leitura pode fazer com que seja mais fácil aproximarmo-nos de outros. Alguns livros, principalmente os de ficção, ajudam-nos a ‘ler’ as emoções daqueles que nos rodeiam com uma maior facilidade, explica uma investigação publicada no site Science.
Folhear ajuda a concentrar: Por incrível que pareça, mudar de página ajuda-nos a contextualizar melhor aquilo que estamos a ler, o que pode proporcionar um melhor entendimento e uma maior compreensão da obra que lemos, explica um texto publicado na Wired.
Pode ajuda a prevenir a Doença de Alzheimer: Quem lê, joga xadrez e faz puzzles tem uma menor probabilidade de vir a desenvolver Alzheimer quando comparando com aqueles que não praticam actividades tão estimulantes, explica um estudo publicado no site da Proceedings of the National Academy of Sciences.
Ajuda a relaxar: Um estudo realizado na Universidade de Sussex mostra que ler ajuda a reduzir o stress em 68%. “Não importa que livro lê. Ao ‘perder-se’ num bom enredo, consegue esquecer as preocupações do dia-a-dia e passa algum tempo a explorar o imaginário do autor da obra” explicou o neuropsiquiatra David Lewis ao jornal Telegraph.
Ajuda a adormecer: Se fizer da leitura nocturna um hábito, o seu corpo perceber que, depois de ler algumas páginas, está na altura de ‘desligar’, explica uma investigação da Mayo Clinic. Ler um livro faz mais pelo seu sono do que um computador ou um tablet – a luz emitida pelos ecrãs faz com que esteja acordado durante mais tempo.
Ler é ‘contagiante’: A maioria dos pais gostava que os filhos lessem mais, mas a verdade é que não fazem muito para que isso aconteça – a maioria deixa de lhes ler histórias quando eles aprendem a ler. Um novoestudo  divulgado pela editora Scholastic mostra que ler em voz alta para as crianças  durante a primária ajuda-as a tornarem-se verdadeiros amantes de literatura. Ou seja, não deixe de lhes ler histórias à noite. Esse hábito só lhes vai fazer bem no futuro.

Retirado de: http://www.sol.pt/noticia/122277

domingo, 28 de dezembro de 2014

Um Big Brother ilustrado para a era Snowden.

Alguns livros são intemporais, outros são oportunos. Um livro que seja as duas coisas aos mesmo tempo é mais raro, mas depois das revelações de Edward Snowden, o ex-assalariado da CIA que mostrou ao mundo como o governo americano espia toda a gente – os seus próprios cidadãos, chefes de Estado, nações rivais e nações cordiais –, as vendas de 1984, de George Orwell, dispararam na Amazon.
Publicado em 1949, o clássico de Orwell é uma distopia sobre um Estado totalitário que controla tudo e todos – não só as acções, mas também os pensamentos e os desejos dos seus cidadãos. Para alguns, a realidade revelada por Snowden é orwelliana; para outros, Orwell mal podia imaginar o estado a que as coisas iriam chegar.
É isso que escreve o editor do The Guardian Alan Rusbridger, um dos jornalistas que teve acesso a Snowden e escreveu sobre as suas revelações em primeira mão, no prefácio de uma nova edição ilustrada de 1984, publicada pela inglesa Folio Society que, desde 1947, faz questão de fazer livros bonitos com grande literatura (Ulisses de Joyce, O Monte dos Vendavais e Shakespeare tiveram o mesmo tratamento visual).

A edição conta com ilustrações de Jonathan Burton. A capa é o rosto inquietante do Big Brother, olhando-nos onde quer que estejamos. (Jornal Público)

domingo, 16 de novembro de 2014

Senhoras e senhores, apresentamo-vos o "padeiro dos livros".


Nove mil livros e 30 anos depois, Alberto Casiraghi, poeta, pintor, músico, construtor de violinos e impressor, tem a sua primeira exposição em Portugal. Chama-se "9000 Formas da Felicidade: as edições Pulcinoelefante".

Uma gravura baseada no famoso quadro de Goya, "Três de Maio de 1808 em Madrid", assinada por Luciano Ragozzino. Fotografias de Marylin Monroe coladas sobre uma mão de papel e uma fotografia também da atriz, provavelmente recortada de um jornal ou revista, com números pintados sobre o papel. Um poema de Rainer Maria Rilke, o poeta alemão, escrito em italiano. Três fotografias de Alda Merini (1931-2009), a escritora italiana que teve a admiração de artistas como Pasolini, Salvatore Quasimodo e Giorgio Manganelli, e foi vencedora em 2003 do Premio Librex Montale, que reconhece poetas italianos contemporâneos. É ela, aliás, que assina alguns dos livros expostos (mas já lá vamos).
Mais à frente, entra-se no chamado "Núcleo: Alberto em Portugal". Uma fotografia a preto e branco de Manuel Alegre, vestido de fato. E um desenho de um homem deitado com uma monumental letra "M" junto à sua cabeça, parecendo decapitá-lo, e que segundo o programa da exposição é do livro de Alberto Pimenta, o escritor português, feito e escrito por ele. Miguel Martins, Luís Manuel Gaspar, Manuel de Freitas. Outros nomes da poesia portuguesa contemporânea que aparecem destacados. O 91 da exposição é de Vasco Graça Moura, é de 2013, e tem uma dedicatória sua na capa que diz assim: "Na verdade, o poema é um ruído modelado de gente".
Chama-se "9000 Formas de Felicidade: as edições Pulcinoelefante", é dedicada a Alberto Casiraghi, poeta, pintor, músico, construtor de violinos e impressor, e inaugurou no final de outubro na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, onde fica até 31 de janeiro.
É a primeira exposição em Portugal dedicada a Alberto, que prefere, no entanto, ser conhecido como o "padeiro de livros", e o "único padeiro que trabalha durante o dia". Há uma boa razão para isto: desde 1992, tem feito, em média, mais de um livro por dia. Atualmente, são mais de nove mil.
Os livros "belos e simples" do mestre Alberto
Em 1982, depois de ter sido despedido da tipografia onde trabalhava, uma grande casa em Milão que imprimia jornais, Alberto Casiraghi decidiu construir a sua própria oficina, a que deu o nome de Pulcinoelefante. Fê-lo em casa, na cidade de Osnago, em Itália, onde nasceu. Fala-se muito dessa tarde ventosa e de um primeiro livro dado à estampa nesse dia: "Una Lirica. Una Immagine", de um escritor chamado Marco Carnà. No ano seguinte, 1983, foram lançados mais quatro livros, três com textos do próprio Casiraghi (assinados, não sabemos, se por ele, se por um dos seus três pseudónimos) e o outro da autoria de Gaetano Neri, também ilustrados por Carnà, em conjunto com Pierluigi Puliti e Gianni Maura. Em 1984, sete, e no ano seguinte, nove. Ao fim dos primeiros dez anos, estavam feitos 236 livros, ou 236 "pulcinos", nome por que são chamados.
Mas o que são, afinal, os "pulcinos"? A descrição oficial diz assim: são quatro ou seis folhas de papel Hahnemühle, tamanho A4, dobradas em A5. Contêm um aforismo ou um pequeno poema impresso em carateres móveis, e uma ilustração, que tanto pode ser uma impressão digital dos desenhos de Alberto, uma xilografia, águas-fortes, litografias, fotografias, colagens, desenhos e pinturas com todas as técnicas, ready-made, esculturas, entre outras intervenções. As tiragens vão de 15 exemplares a 30 ou 35, numerados sequencialmente.
A descrição não-oficial é esta que nos traz Catarina Figueiredo Cardoso, comissária da exposição, e responsável por outros projectos anteriores na área da edição independente e livros de artista. Distingue nos "pulcinos" a "beleza e a aparente simplicidade". Do ponto de vista tipográfico, assegura que são "impecavelmente bem feitos". "O que torna o Alberto diferente é a consistência da sua prática e a mestria com que a utiliza. Há muitos problemas na utilização dos tipos móveis: gastam-se, partem-se, as máquinas desafinam e avariam, todo o material envolvido é caro e a sua utilização é difícil e implica muita prática. Ora o Alberto tem tudo: foi tipógrafo de tarimba, tem imensos tipos, tem a máquina e sabe concertá-la se for preciso. É por isso que ele se distingue dos restantes impressores".

A técnica que nasceu na China antes de Cristo
O primeiro sistema de impressão a partir de tipos móveis (letras, símbolos e sinais de pontuação individuais), feito em porcelana chinesa, é atribuído a Bi Sheng (990-1051 AD), e terá sido criado por volta de 1040 A.D., na China. Quando, cerca de 200 anos depois, a técnica começou a ser usada na Coreia, os tipos móveis passaram a ser feitos em metal. "Jikji" (1377), ou "Antologia de ensinamentos zen pelos grandes sacerdotes budistas", documento budista coreano, é o mais antigo livro imprimido com o uso desta técnica, título que a UNESCO confirmou em 2001, tendo incluído o livro no programa "Memory of the World", destinado a preservar documentos e arquivos de grande valor histórico.
Por volta de 1450, os tipos móveis voltariam à mó de cima (eram caros e exigiam muita mão-de-obra e isso teve consequências), com a impressão da Bíblia por Johannes Gutenberg, na Europa, a partir de um sistema que o próprio inventou, e que superava em larga medida os antigos modelos. Como se passou para a impressão em línguas europeias (número mais limitado de carateres), a técnica tornou-se rentável e foi, dito de uma forma abreviada, um sucesso. Mais tarde, já no século XIX, com a invenção da composição mecânica e seus sucessores, acabaria por entrar em declínio.

Cabras, coelhas e galinhas, e máquinas grandalhonas
Numa das fotografias dos livros em exposição, Alberto surge acompanhado de uma cabra. Ao vê-la, lembramo-nos das imagens do editor e tipógrafo, arrumadas em vídeos (no youtube), que nos trazem essa outra realidade de um quintal cheio de cabras e coelhos e galinhas, e uma casa aparentemente pequena cheia de máquinas grandalhonas que já ninguém parece saber ao certo para que servem, e livros, muitos livros, atrás das portas de vidro dos armários altos ou ali mesmo à mão de semear.
É nessa casa que Alberto continua a receber visitas, artistas, poetas e ilustradores, que ali vão "para lhe ditarem os textos e ajudarem a fazer os livros, cortar o papel e coser as páginas", explica Catarina. E foi também nessa casa que recebeu a escritora italiana de que falávamos, Alda Merini, amiga e colaboradora. Catorze dos 110 livros expostos são dela. Parece pouco, mas há outra história por detrás disto, que podemos arriscar, embora com palavras que não são nossas, contar assim: "A amizade e consequente colaboração com Alda Merini conduziram ao aumento alucinante no número de livros produzidos, e à enorme projeção de Alberto e da sua editora em Itália, nos Estados Unidos e no Japão". A escritora deu, ainda segundo essas páginas que acompanham a exposição, "uma dimensão inesperada à Pulcinoelefante".
O mestre Alberto em Portugal
Em 2013, Alberto vinha pela primeira vez a Portugal, a convite de Catarina. "Achei importante dar a conhecer aos meus amigos portugueses que se dedicam à edição a obra de um dos expoentes da arte da composição tipográfica com tipos móveis".
Nesse ano, fez um workshop no Homem do Saco, um dos ateliers que, segundo Catarina, continua a dedicar-se à técnica de impressão em tipos móveis. A outra é a Oficina do Cego, também em Lisboa. Desse workshop resultaram quatro "pulcinos" sob a supervisão direta de Alberto, que deram aos tipógrafos e artistas portugueses envolvidos (alguns têm agora expostos os livros que fizeram) a motivação necessária para, a partir daí, dedicarem-se à "criação de edições artísticas inovadores e imaginativas que os singularizam no panorama da edição independente."
Mas a ligação de Alberto a Portugal é bem mais antiga. Em 1993, fazia o primeiro livro de um escritor português. É lançar um palpite e acertar, senão à primeira, pelo menos à segunda. Sim, foi mesmo de Fernando Pessoa, mas esse não está entre os que viajaram de Itália para Portugal. Vai ter de ficar para a próxima.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Modiano: um escritor longe dos "grandes alaridos".


O editor Manuel Alberto Valente, responsável pela publicação em Portugal de várias obras de Patrick Modiano, hoje laureado com o Nobel da Literatura, sublinha a sua escrita subtil, "como uma música". Tal como o autor, que prefere geralmente manter-se longe dos holofotes.
"Nunca o conheci pessoalmente, é um homem muito avesso a viagens e a encontros sociais. Convidei-o várias vezes a vir a Portugal, para os lançamentos dos livros, mas nunca foi possível. Mas conheci-o através das leituras, já nos anos 80", conta Manuel Alberto Valente, satisfeito mas não completamente surpreendido com este Nobel. "Sempre achei que era uma voz completamente distinta no panorama da literatura europeia e que, mais cedo ou mais tarde, seria reconhecido." O primeiro livro que editou de Patrick Modiano foi Domingos de Agosto, ainda na Dom Quixote. Depois publicou-o na Asa e mais recentemente na Porto Editora.
O que mais distingue este escritor, diz Manuel Alberto Valente, é a sua temática: "Praticamente aborda sempre o mesmo tema, que é a memória e a importância que a memória tem na vida do ser humano, o que conduz para um subtema também recorrente, que é a ocupação de Paris durante a Segunda Guerra Mundial." O editor dá como exemplo disto mesmo o romance Dora Bruder. "A obra gira sempre em torno desta obsessão com a memória, esta é a sua marca criativa mais pessoal."
Além disso, sublinha, a crítica francesa também costuma referir-se ao seu estilo de escrita como uma "pequena música". "Não é um autor de grandes alaridos. A sua escrita é antes como uma música suave. É uma voz muito elegante, subtil e discreta. Não é um autor que atraia multidões, está muito longe do troar de tambores que caracteriza muita da literatura contemporânea", comenta.

Quanto a novas edições em Portugal de Modiano, Manuel Alberto Valente não pode avançar quando haverá: "Espero que tenhamos oportunidade de continuar a revelar as obras deste autor" (DN-09.10.2014)


domingo, 5 de outubro de 2014

Em Lisboa, Pamuk diz que "a Europa precisa de ter uma discussão séria sobre os seus valores".


Na sua primeira visita oficial a Portugal, para receber um prémio que reconhece o seu contributo para o património cultural europeu, o Nobel da Literatura deixou um recado: “A herança cultural europeia não se deve limitar à preservação dos seus monumentos, mas também à preservação dos seus valores fundamentais”
O escritor turco Orhan Pamuk defendeu esta sexta-feira em Lisboa que “a Europa precisa de ter uma discussão séria sobre os seus valores fundamentais”. O Nobel da Literatura de 2006, autor de uma obra literária sobre a procura de uma identidade turca, dividida entre o Ocidente e o Oriente, entre modernidade europeia e tradição muçulmana, recebeu esta noite o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural na Fundação Calouste Gulbenkian, com um discurso em que prestou tributo à tradição cultural europeia, mas que terminou com uma nota crítica.
“A herança cultural europeia não se deve limitar à preservação dos seus monumentos, mas também à preservação dos seus valores fundamentais”, disse o escritor, na sua primeira visita oficial a Portugal. “E temos de ter uma discussão séria sobre esses valores fundamentais.”
Pareceu claro que era um recado para a Europa – não por acaso, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, estava presente na primeira fila – embora Pamuk não tenha especificado o que queria dizer com isso, talvez para não correr o risco de soar pouco diplomático. Mas o que Pamuk quis dizer terá talvez a ver com o que respondeu numa entrevista em Dezembro do ano passado, quando um jornalista colombiano lhe perguntou se se sentia europeu. “Não sei. Não penso nesses termos. Em primeiro lugar, sinto-me turco. E um turco tanto se sente europeu como não europeu. Acredito numa Europa que não se baseia no cristianismo, mas no Renascimento, na modernidade, na ‘liberdade, igualdade, fraternidade’. Essa é a minha Europa. Acredito nessas coisas e quero fazer parte delas. Mas se a Europa é a civilização cristã, lamento: nós, turcos, não queremos entrar.”
No debate sobre a hipotética entrada da Turquia na União Europeia, Pamuk – um turco cosmopolita e laico que se autodefine como um “muçulmano, mas apenas no sentido cultural” – emergiu como um intérprete do diálogo entre civilizações. Daniel Cohn-Bendit disse que foi Pamuk quem o ajudou a “perceber a importância de a Turquia aderir à União Europeia”. Até mesmo o ex-Presidente americano George Bush se referiu à obra do escritor como “uma ponte entre culturas”, notando que ela mostra como “pessoas noutros continentes e civilizações” são “exactamente como nós”.

Em defesa das pessoas normais
Atribuído pela primeira vez no ano passado ao escritor italiano Claudio Magris, cuja obra é notória pela sua deambulação cultural (como a de Pamuk), o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, no valor de dez mil euros, é uma iniciativa da organização europeia de defesa do património Europa Nostra em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Clube Português de Imprensa, com o objectivo de distinguir um cidadão europeu que, ao longo da sua carreira, tenha contribuído para a divulgação, defesa e promoção do património cultural e dos ideais europeus.
O presidente do Centro Nacional de Cultura e membro do júri, Guilherme de Oliveira Martins, notou que a atribuição do prémio a Pamuk teve em conta “o cidadão apaixonado pela defesa do património cultural, mais do que o grande romancista”, embora o seu discurso tenha sido dominado por referências e citações constantes do último romance do escritor, O Museu da Inocência(ed. Presença), publicado em 2008.
Pamuk confessou-se “lisonjeado e honrado” pela atribuição do prémio, que lhe foi entregue pelo secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier.
Falando em inglês, o escritor lembrou como concebeu um romance e um museu ao mesmo tempo, referindo-se a O Museu da Inocência, ficção sobre um homem que colecciona todos os objectos tocados pela mulher que amou e que perdeu e ao edifício com o mesmo nome que abriu em Istambul, a cidade onde nasceu e onde vive, com objectos que foi juntando para o processo de escrita do livro e que é hoje, também, um museu sobre a vida quotidiana da classe média turca na segunda metade do século XX.
“Os verdadeiros romances centram-se em pessoas normais, no seu dia-a-dia”, disse. Com a entrada na modernidade, a literatura deixou de se interessar pelos reis e poderosos para se ocupar da história de pessoas simples, como se fossem reis – Joyce fê-lo em Ulisses, notou. Pamuk defendeu que os museus deviam fazer o mesmo. “Deixem de prestar atenção à nação e aos reis e dediquem-se aos pequenos detalhes das nossas vidas quotidianas. É por isso que defendo que precisamos de pequenos museus”, disse.

Nesta segunda edição do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, foi também atribuído um prémio especial de carreira ao historiador de arte José-Augusto França por ter “fomentado a tomada de consciência e o sentimento de orgulho relativamente à arte portuguesa, relacionando-a com a cultura europeia e mundial”. O júri distinguiu ainda o jornalista holandês Pieter Steinz com uma menção especial pela criação de uma enciclopédia de ícones culturais europeus. (Jornal Público)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Feira do Livro. O regresso a bom Porto, agora em Setembro.


O evento, que este ano homenageia Vasco Graça Moura, arranca amanhã na Invicta. São mais de cem pavilhões nos Jardins do Palácio de Cristal
A Feira do Livro do Porto começa amanhã, mas há mais de um mês que os pavilhões estão esgotados. Com as editoras a ocupar todos os cantos dos Jardins do Palácio de Cristal, a última actualização dava conta da instalação de 106 stands de editoras, alfarrabistas e livrarias. Pela primeira vez em mais de 80 anos, a organização da Feira do Livro deste ano é da inteira responsabilidade da câmara municipal, pondo um ponto final num dossiê que parecia não ter solução e pôs em risco a organização do certame, acabando por adiar a sua realização para Setembro.
Mas voltemos aos livros, que esses não entram em confusões. Além de um programa que inclui debates, exposições, concertos e ciclos de cinema, as obras a preço de saldo estarão concentradas na Avenida das Tílias, o eixo mais marcante do parque, ladeado pela Biblioteca Municipal Almeida Garrett, onde estão marcados alguns dos eventos. O primeiro acontece logo dia 11 com uma homenagem a Vasco Graça Moura, "uma figura que a cidade [...] jamais poderá esquecer", nas palavras do vereador da Cultura, e a quem vai ser dedicada, "simbolicamente, uma tília", que fará parte do jardim a partir desse dia. O escritor e político vai ser a figura central do evento, em torno do qual se vai realizar a primeira das Quintas de Leitura, uma sessão "com música e um cordão de leitura", durante a qual serão recordados alguns textos de Graça Moura.
Apesar de os livros se manterem a personagem principal da feira, a organização apostou em actividades paralelas que complementam a venda e dão o mote aos temas centrais do evento: "Liberdade" e "Futuro". Assim, as Spoken Words apresentam-se como a novidade deste ano, num cruzamento da palavra com a performance, num ciclo que conta com a presença de músicos como Capicua, Adolfo Luxúria Canibal, Osso Vaidoso ou Chullage.
O cinema não foi esquecido e está previsto um ciclo programado em torno do livro enquanto personagem de filmes, incluindo obras de realizadores como Truffaut, Dreyer, Oliveira ou Vicente Minnelli. Para dia 10 está marcado um ciclo dedicado ao realizador e escritor Pier Paolo Pasolini, acompanhado por uma exposição de fotografia, em torno da qual serão apresentados debates sobre a sua obra.
Para as mesas de debate foram chamados nomes do panorama literário, como Gonçalo M. Tavares, José Pacheco Pereira, Pedro Mexia, Manuel Alegre, Rita Ferro, Francisco José Viegas, Richard Zenith, Helena Vasconcelos, Clara Ferreira Alves, Valter Hugo Mãe, Gonçalo Cadilhe e Mário Cláudio, entre outros.
Algumas das actividades ligadas ao evento não se irão cingir às fronteiras do jardim, estando prevista a deslocalização de exposições e oficinas para a Rua Miguel Bombarda, o quarteirão das galerias de arte do Porto.
A entrada é livre e a feira está acessível de segunda a sexta, dias em que abre às 16h, e ao fim-de-semana, aberta desde o meio-dia. Os pavilhões encerram as portas às 22h, de domingo a quinta-feira, e uma hora mais tarde às sextas-feiras e sábados. A Câmara Municipal do Porto já assegurou a realização da Feira do Livro em 2015, centrada na figura de Agustina Bessa-Luís. O espaço deve manter-se o mesmo, até porque a autarquia admite que a opção pelo Palácio de Cristal não foi alheia à proximidade da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, cujo auditório irá permitir ao pelouro da Cultura "transformar a Feira do Livro num dos grandes festivais literários realizados em Portugal". (Jornal I – 04.09.2014)