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terça-feira, 12 de abril de 2016

Morreu o ator Francisco Nicholson.


O ator, dramaturgo e argumentista Francisco Nicholson morreu hoje, aos 77 anos, em casa.
Francisco António de Vasconcelos Nicholson começou a fazer teatro aos 14 anos, no antigo Liceu Camões, sob a direcção do encenador e poeta António Manuel Couto Viana, a convite do qual veio a pertencer ao Grupo da Mocidade, que integrou com Rui Mendes, Morais e Castro, Catarina Avelar e Mário Pereira, entre outros.
Foi autor e ator da primeira telenovela portuguesa Vila Faia, na qual contracenou ao lado de atores como Nicolau Breyner, recentemente falecido, Margarida Carpinteiro e Manuela Marle, entre outros.
Estudou em Paris, frequentando a Academia Charles Dullin, do Théatre Nacional Populaire, privando com grandes nomes do teatro francês, como Jean Vilar, Georges Wilson, Gerard Philipe.
"Ficará na história como um grande autor"
O humorista e ator Herman José manifestou hoje uma "profunda admiração" pelo trabalho realizado pelo seu "grande amigo" Francisco Nicholson.
"Era uma pessoa de quem gostava especialmente, tivemos um encontro mágico em 1978, numa peça dele com a Ivone Silva, e ficámos muito, muito amigos", lembrou à agência Lusa Herman José, contando que eram vizinhos em Azeitão.
"Há uma grande tristeza, mas ao mesmo tempo uma profunda admiração por ter conseguido tanto em quase oito décadas de vida", disse, convicto de que Francisco Nicholson "ficará na história como um grande autor, muito mais do que ator".
O humorista recordou também o "ótimo letrista de cantigas", que escreveu "imensos êxitos musicais ligeiros", que ainda permanecem na memória dos portugueses.
Uma das melhores memórias que guarda do seu amigo é quando fez recentemente o programa "Há tarde". "Já muito doente e com uma grande dificuldade de locomoção nunca disse que não a um convite. Esteve sempre presente quase como rindo-se das suas próprias incapacidades", lembrou.
Por outro lado, foi "um sobrevivente" na doença: "Como é que um duplo transplantado de fígado consegue viver até aos 77 anos? É uma coisa histórica".
"Um enorme lutador"
A direção da Casa do Artista lamentou hoje a morte do ator Francisco Nicholson, considerando que além de um grande homem do teatro, da televisão e das novelas era "um grande ser humano e um enorme lutador".
A assessora da direção da Casa do Artista lembrou que Francisco Nicholson foi um "dos fundadores" da instituição, juntamente com Armando Cortez, Manuela Maria, Raul Solnado.
Consternado pela morte do amigo "de há muitos anos", Conceição Carvalho lembrou que Francisco Nicholson foi "um enorme lutador e um homem de causas".
"O Francisco era um grande homem de teatro, de telenovelas, de televisão. Era um grande homem de cena", frisou.
Francisco Nicholson encontrava-se doente devido a complicações resultantes de um transplante hepático a que fora submetido há uns anos, referiu.
"Falei com ele há duas semanas e ele encontrava-se bastante cansado. Estava a entregar os pontos", disse.
O autor de Vila Faia
O ator e argumentista Tozé Martinho lembra que este "foi uma pessoa muito importante na história das telenovelas" em Portugal.
"Foi o autor da primeira novela (portuguesa) de grande impacto", disse à agência Lusa Tozé Martinho, aludindo à telenovela "Vila Faia", em que Francisco Nicholson, além de autor, desempenhou o papel de polícia, ao lado de atores como Nicolau Breyner, recentemente falecido, Margarida Carpinteiro e Manuela Marle, entre outros.
Tozé Martinho disse ser "com desgosto e pena" que vê partir Francisco Nicholson, "um grande amigo" e uma pessoa que "prezava muito".
"Um tipo fascinante"
O jornalista e escritor Mário Zambujal considera que se perdeu um homem do teatro que tinha uma capacidade "insubstituível".
"Era uma pessoa rara, de uma grande educação, de um talento enorme, com muito sentido de humor e muita graça", disse à Lusa Mário Zambujal.
Lamentando a morte do ator e argumentista de quem era amigo, Mário Zambujal lembrou que Francisco Nicholson era um homem "cheio de talento", que fez coisas "muito interessantes também no teatro musical" e que era "muito respeitado" por todos com quem trabalhou.
"Um homem multifacetado e de muitos talentos"
O ator e encenador Rui Mendes mostrou-se hoje consternado com a morte de Francisco Nicholson, um homem "multifacetado, com muitos talentos" e seu "grande amigo e companheiro de teatro" desde os bancos do Liceu Camões, em Lisboa.
"Era um homem multifacetado e tinha muitos talentos. Era um grande amigo, foi o meu companheiro de teatro, desde sempre, desde os bancos do liceu. Andamos no Liceu Camões, fomos companheiros de turma e foi aí que começamos a fazer teatro", disse Rui Mendes, à agência Lusa, acrescentando que ambos se estrearam no teatro profissional nos anos 50.
O ator explicou que Francisco Nicholson estava doente há "bastantes anos", mas que o seu estado de saúde se agravou nos últimos tempos.
"Considero que o Francisco Nicholson deve ter sido das pessoas que melhores telenovelas escreveram neste país durante uma certa época, pelo menos, as primeiras novelas", sublinhou Rui Mendes.
"Grande ator e escritor"
O cantor António Calvário lamentou hoje a morte de Francisco Nicholson, considerando-o um "grande ator e escritor" que se completava em tudo o que fazia.
"Por toda a convivência que tivemos, por tudo aquilo que foi como grande ator e escritor, quase que não tenho palavras para descrever uma pessoa tão completa", disse à agência Lusa o cantor, acrescentando que Francisco Nicholson era "um grande amigo" e "um belíssimo companheiro".
O cantor destacou também que Francisco Nicholson foi o autor da canção Oração que interpretou no primeiro festival da canção de 1964 e que obteve o primeiro lugar.
"Uma canção que atravessa todos estes tempos como um símbolo da primeira representação de Portugal na Eurovisão", afirmou. (DN – 12.Abr.2016)

terça-feira, 15 de março de 2016

Nicolau Breyner.


João Nicolau de Melo Breyner Lopes (* Serpa, 30 de julho de 1940 - † Lisboa, 14 de Março de 2016) foi um actor e realizador português.
Filho de Nicolau Moreira Lopes (1915 - 1965) e de Augusta Pereira da Silva de Melo Breyner Pereira (1920 - 23 de Maio de 2003), trineta do General Francisco José de Araújo de Lacerda Teixeira de Brito e 5.ª neta com duas bastardias do 3.º Senhor de Ficalho e da 1.ª Condessa de Ficalho.
É primo da escritora Sophia de Mello Breyner Andresen.
Foi casado primeira vez com Mafalda Maria de Alpoim Vieira Barbosa (12 de Dezembro de 1947), irmã de Carlos Barbosa, de quem se divorciou e de quem foi primeiro marido, sem geração.
Começou namoro com a atriz Sofia Sá da Bandeira em 1993, tendo sido casados entre 1996 e 2001, de quem foi segundo marido e de quem se divorciou, sem geração.
Viveu com Cláudia Fidalgo Ramos, filha do realizador e encenador Artur Ramos, mãe das suas duas filhas Mariana e Constança Fidalgo Ramos de Melo Breyner Lopes.
É casado, desde 24 de Junho de 2006, com Mafalda Gomes de Amorim Bessa, de quem é terceiro marido, sem geração.
Depois da infância em Serpa, no seio de uma família de proprietários agrícolas, mudou-se para Lisboa com os pais Sophie de Mello Breyner Estudou canto e integrou o coro da Juventude Musical Portuguesa, enquanto estudava no Liceu Camões. Depois, ingressou na Faculdade de Direito, com a ambição de se tornar diplomata. Depressa desistiu de Direito, optando por se diplomar no Conservatório Nacional, primeiro no curso de Canto e depois no de Teatro.
A sua estreia como ator dá-se quando ainda frequentava o Conservatório. Sob a direção de Ribeirinho, entra na peça Leonor Telles, de Marcelino Mesquita, levada à cena pelo Teatro Nacional Popular, que ocupava então o Teatro da Trindade. Seria no entanto pela interpretação de papéis cómicos, junto de Laura Alves, que se tornaria conhecido do grande público, revelando-se um dos mais bem sucedidos atores da sua geração. Em 2005 regressou ao teatro para interpretar o monólogo Esta Noite Choveu Prata, dePedro Bloch, produzido por Sérgio de Azevedo.
Após o 25 de abril de 1974 concebeu o seu primeiro programa televisivo, Nicolau no País das Maravilhas. Este programa tinha uma rábula chamada Senhor feliz e senhor contente, onde Nicolau lançaria um jovem alemão aspirante a humorista, Herman José. Em princípios da década de 1980 surge como ator e, simultaneamente, diretor de atores e co-autor do guião da primeira novela portuguesa, Vila Faia (1982). Segue-se a fundação da NBP Produções, hoje Plural Entertainment, a sua própria produtora de televisão, onde será administrador, produtor e realizador; atividades que fazem dele um verdadeiro precursor da indústria de ficção televisiva em Portugal.
Sem deixar a representação, concebeu as sitcoms Eu Show Nico e Euronico; e participou como ator noutras tantas (Gente Fina é Outra Coisa; Nico D'Obra; Reformado e Mal Pago; Santos da Casa; Aqui não Há Quem Viva); além de diversas séries (O Espelho dos Acácios; Verão Quente; Conde D'Abranhos; A Ferreirinha; João Semana; Quando os Lobos Uivam, Pedro e Inês, Equador, Morangos com Açúcar, Barcelona, Cidade Neutral, Família Açoreana) e novelas (Fúria de Viver, Vingança, Flor do Mar, Meu Amor, Louco Amor, Jardins Proibidos, O Beijo do Escorpião).
Ao longo da sua carreira somou quase 50 participações no cinema, em filmes de cineastas de diversas gerações, como Augusto Fraga, Perdigão Queiroga, Henrique Campos, José Ernesto de Souza, Herlander Peyroteo, Artur Semedo, Luís Galvão Teles,Fernando Lopes, Jorge Paixão da Costa, António Pedro Vasconcelos, Roberto Faenza, Joaquim Leitão, Leonel Vieira, Mário Barroso, João Botelho e Bille August. Uma das suas participações mais recentes é o filme Comboio Noturno Para Lisboa, adaptação do livro homónimo de Pascal Mercier, e que estreou em 2013. Pelas suas prestações no grande ecrã recebeu três Globos de Ouro para Melhor Ator, com Kiss Me (2004), O Milagre Segundo Salomé (2004) e Os Imortais (2003).

Morreu a 14 de Março de 2016 após ataque cardíaco.


sexta-feira, 20 de março de 2015

Há cem anos o terramoto Orpheu virou do avesso a literatura portuguesa.


Na primeira metade do século XX português não houve escassez de revistas literárias importantes e duráveis, como a Águia (1910-1932) ou a Presença(1927-1940), para citar apenas duas. Mas é hoje surpreendentemente consensual que a mais influente e icónica de todas foi uma efémera publicação de que apenas saíram dois números no primeiro semestre de 1915. Chamou-se Orpheu e foi recebida pela imprensa da época com títulos como “Literatura de Manicómio”, “Os Poetas do Orpheu e os Alienistas” ou “Orpheu no Inferno”.
Decorrido um século, o centenário do lançamento do primeiro número deOrpheu, que terá saído da gráfica a 24 de Março de 1915, vai ser evocado por estes dias em colóquios, exposições, lançamentos, leituras públicas e outras iniciativas. Tudo somado, não é de mais, já que Orpheu não foi apenas um terramoto que deixou irreconhecível a paisagem literária portuguesa da época, foi também, enquanto gesto fundador do nosso modernismo, o início de uma aventura criativa que atravessou todo o século XX e que só agora começa a dar sinais de esgotamento. E foi ainda, sobretudo no seu segundo número, a materialização mais significativa da colaboração entre dois génios criativos: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Sem eles, poderia ter existido Orpheu, mas dificilmente estaríamos hoje a celebrar o seu centenário.
No plano académico, o momento mais significativo destas comemorações é o grande colóquio luso-brasileiro 100 Orpheu, que decorre em Lisboa, na Gulbenkian e no Centro Cultural de Belém, entre os dias 24 e 28, e que terá depois uma etapa brasileira em São Paulo, no final de Maio. Com pessoanos de várias gerações e proveniências, de Eduardo Lourenço ou Teresa Rita Lopes a Richard Zenith, Steffen Dix e Jerónimo Pizarro, o congresso começou com um aperitivo portuense na Fundação Eng.º António de Almeida, que inaugurou ontem o colóquio Orpheu e o Modernismo Português e a exposiçãoMemória d’Orpheu.
Na Biblioteca Nacional, abre no dia 24 a exposição Os Caminhos de Orpheu, organizada por Richard Zenith, que mostra o percurso da revista desde os seus antecedentes até às posteriores tentativas de Pessoa para ressuscitar o projecto. A par de muitos outros materiais que documentam a história deOrpheu, e não esquecendo a importância que as artes plásticas e gráficas tiveram no movimento, a exposição inclui vários papéis inéditos, incluindo documentos que demonstram que o envolvimento de Pessoa na produção do célebre número zero da revista Contemporânea, em 1915, foi muito mais decisivo do que se pensava.
Ocupando vários espaços da Casa Fernando Pessoa (CFP), inaugura-se a 25 a exposição Os Testamentos de Orpheu, de Pedro Proença. E a CFP está ainda a desenvolver com o Instituto Camões (IC) uma outra mostra – Nós, os de Orpheu –, que circulará em Portugal e na rede internacional do IC. E, a partir de 28 de Março, propõe-se fazer regressar Orpheu aos cafés onde o projecto foi pensado e discutido, convidando actores a ler textos que convoquem “o espírito do grupo” que fez a revista.

Mais discretas mas não menos importantes, duas iniciativas editoriais assinalam o centenário de Orpheu: 1915 – O Ano do Orpheu, com organização de Steffen Dix, uma belíssima edição da Tinta-da-China (a capa inspira-se no grafismo do segundo número de Orpheu). O livro acabou de ser lançado e reúne textos de mais de 20 investigadores, contextualizando o surgimento da revista, abordando as experiências afins noutras literaturas europeias e tratando individualmente os “órficos” mais relevantes. Em Abril, a Assírio & Alvim lançará, na colecção Pessoa Breve, o volume Sobre Orpheu e o Sensacionismo, co-organizado por Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. (Jornal Público)

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Companhia de teatro vende revistas porno em vez de bilhetes para pagar menos IVA.


Com o IVA dos bilhetes de teatro taxado a 21% e o das revistas pornográficas apenas a 4%, a companhia de teatro "Primas de Riesgo" encontrou uma forma de contornar o imposto: vender revistas para adultos que servem de bilhete para as peças.
"Quando vimos que as revistas porno tinham um IVA muito baixo, pareceu-nos cómico e paradoxal", explicou a diretora da companhia de teatro, Karina Garantiva, em declarações ao jornal espanhol Publico, citadas pelo Diário de Notícias.
A experiência vai começar com a peça El mágico prodigioso, de Calderón, com estreia a 25 de novembro, em Madrid, e será limitada a 300 pessoas. As revistas/bilhetes podem ser adquiridas online, por telefone ou num quiosque de Madrid. 
Os interessados "vão ter de identificar-se e assinar um documento em que dizem que estão a realizar um donativo para uma campanha. Os resultados vão ser usados em estudos sociológicos para determinar como é possível que numa sociedade como a espanhola do século XXI, uma revista porno tenha um IVA mais reduzido do que uma peça de Calderón", acrescenta a responsável.
Ler mais: 
http://visao.sapo.pt/companhia-de-teatro-vende-revistas-porno-em-vez-de-bilhetes-para-pagar-menos-iva=f800079#ixzz3Hjmf2g2T



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Olhos nos olhos com o Chile de Pinochet.


Escuela, a peça de Guillermo Calderón que chegou esta sexta-feira a Lisboa via Próximo Futuro, é uma história secreta da violência muito latino-americana com que a esquerda chilena acreditou poder matar a ditadura de Pinochet à queima-roupa. Mas também é a história de um teatro disposto a fazer o que a democracia boicotou – justiça, e pelas suas próprias mãos. Por contraponto, e depois de tantas visitas, apetece perguntar ao teatro português: de que é que tu estás à espera?
Guillermo Calderón (Santiago do Chile, 1971) tinha dois anos em Setembro de 1973, quando o golpe liderado (mesmo que de óculos escuros) pelo general Augusto Pinochet mergulhou o Chile numa das muitas longas e aparentemente definitivas noites da segunda metade do século XX latino-americano – uma noite assombrada pelos passos cada vez mais indiscretos dos militares e pelos fantasmas cada vez mais numerosos dos mortos e dos desaparecidos que com o tempo passaram de tragédia a estatística, para citar outro grande teórico e praticante do extermínio em massa, o pai dos povos Josef Estaline.
Dois anos, justifica-se o mais internacional dos novos dramaturgos e encenadores chilenos, é idade mais do que insuficiente para que possa recordar-se do som e da fúria dos dias que se seguiram ao 11 de Setembro de 1973 – mas entretanto os dias passaram e transformaram-se em meses, em anos, em décadas, em vidas. Guillermo Calderón teve duas – uma em ditadura e outra, a mais recente, em democracia. Continua, agora que já passaram mais de 40 anos sobre o golpe que enterrou a experiência de governo popular de Salvador Allende, sem grandes certezas sobre qual delas lhe parece mais habitável, como confessou ao jornal La Segunda dias antes da estreia deEscuela em Janeiro de 2013, no festival Santiago A Mil: “De certa forma a democracia é mais cruel do que foi a ditadura, porque em última instância durante a ditadura pelo menos havia uma ilusão.”
Escuela, que chega a Lisboa esta sexta-feira via Próximo Futuro, o programa de cultura contemporânea da Gulbenkian (até segunda-feira, dia 8, no Teatro do Bairro), à frente de mais um pequeno contingente de teatro chileno, é a história dessa ilusão – à sombra devastadora da desilusão que se seguiu, pelo menos para os que, como as cinco personagens da peça de Calderón, acreditaram poder matar a ditadura de Pinochet à queima-roupa, sujando conscientemente as mãos na violência da guerra psicológica e no sangue da luta armada. Disso sim, Calderón já se recorda: “Na minha família havia pessoas que estavam comprometidas com a luta contra a ditadura militar. Eu estava a acabar o colégio [liceu] e fiz parte da geração dos movimentos estudantis, que no final dos anos 80 estavam extremamente activos. Confrontávamo-nos permanentemente com a violência policial nas manifestações – e ao mesmo tempo, paralelamente, muitos jovens estavam a preparar-se para a guerrilha, na clandestinidade. Mas nesses anos todos os chilenos estavam expostos à violência. Fazia parte do quotidiano: num dia morria uma pessoa, no outro rebentava uma bomba ao fundo da rua”, conta ao Ípsilon por telefone a partir de Santiago do Chile, cidade a que continua a regressar no final das suas agora bastante recorrentes estadias nos Estados Unidos e na Europa.

É como se não conseguisse sair dali – o Chile é o seu passado, e o passado marcou-o “para sempre”. Tornou-se no presente e no futuro de Guillermo Calderón, tanto quanto ele o vê daqui – olhos nos olhos, sem óculos escuros.


As personagens de Escuela nunca mostram a cara, como os militantes da extrema-esquerda do Chile dos anos 80.

Geração perdida
No caso de Escuela, não havia mesmo como escapar a esse passado – para assinalar os 40 anos do golpe de Estado, o festival Santiago a Mil encomendou-lhe uma obra que examinasse a ditadura, e que em certo sentido continuasse o trabalho iniciado mais subliminarmente uns anos antes, em peças como Neva(2007) ou Diciembre (2009), que também vimos por cá, e definitivamente assumido em Villa + Discurso (2011), a sua última visita ao Próximo Futuro. É um trabalho cada vez mais político e cada vez mais radical – a continuação de uma guerra, só que por outros meios. Não suporta a ideia de voltar a ver políticos pinochetistas, políticos “que são a encarnação do mal”, a saírem das suas peças em paz, e a irem beber um copo a seguir, como aconteceu depois de uma representação de Neva, a sua primeira reflexão sobre o papel do teatro em tempos de cólera como os da Guerra do Iraque (ou, no caso, da Revolução Russa). Foi por causa dessa visão infernal – a visão de um teatro absolutamente inútil, por ironia o próprio tema da peça – que decidiu “radicalizar” ainda mais o seu trabalho, contou ao New York Times: “Talvez isso me leve a um beco sem saída, porque haverá um momento em que não poderei ser mais radical. Mas esse episódio obrigou-me a ser mais abertamente político.” (Jornal Público)




sexta-feira, 6 de junho de 2014

Isabel Abreu lê Madame Bovary, de Gustav Flaubert.

(ver video em: http://www.publico.pt/multimedia/video/isabel-abreu-20140530-120318)

Isabel Abreu, actriz, descobriu que, aos 36 anos, é melhor leitora de Madame Bovary do que se tivesse lido o romance de Gustave Flaubert na altura em que lhe diziam que era a certa. Entre 7 e 15 de Junho, no teatro São Luiz, em Lisboa, Isabel Abreu é uma das intérpretes da encenação que Tiago Rodrigues criou a partir do romance e do julgamento por obscenidade que se seguiu à sua publicação, em 1857. (Jornal Público)

domingo, 6 de abril de 2014

Pedro Xavier vive em 1974 e tem uma página de Facebook.



O que escreveria no seu Facebook um jovem português em 1974? A convite do Teatro Maria Matos, um escritor criou essa personagem e está a contruir a sua história. Dia a dia.
"Saio da camioneta e a luz de Lisboa espanta-me como se a visse pela primeira vez. Mas nem esta luz nem a maresia conseguem disfarçar o cheiro a coisa velha e doente. Sou daqui mas aqui não pertenço." Isto escreveu Pedro Xavier na sua página de Facebook no dia 12 de março de 1974. Não, não nos enganámos na data. É claro que em 1974 não havia Facebook, mas... e se houvesse?
Esse foi o desafio que o Teatro Maria Matos, em Lisboa, fez a um escritor: que inventasse uma personagem, que lhe criasse uma página no Facebook e que imaginasse o que ele iria postar no mês que antecedeu a revolução de 25 de abril. A página está online e a história está a ser contada - por quem é o que se vai saber no fim, o teatro preferiu manter o autor no anonimato para que a atenção do público estivesse apenas focada apenas em Pedro Xavier. (Diário de Notícias - 06.04.2014)

segunda-feira, 17 de março de 2014

Portugal made in China.


Ping Pong Pau é o que o Teatro Experimental do Porto foi fazer à serra de Montemuro com os que lá estão. Depois de Gaia, onde fica até dia 27, a peça segue para Palmela, Braga e Évora, entre outras salas do país real.
Uma das primas teve essa ideia brilhante de transformar a serração que o avô deixou em herança na única loja de móveis do país em que o vendedor fala em verso (o que pode ser ridículo, “mas vai trazer montes de clientes quando passar no programa da manhã”). Um dos primos acha que isso é tudo “muito bonito”, mas não tão prioritário como pendurar uma coruja empalhada à porta “para manter os espíritos lá fora”. A outra prima concluiu, olhando para o manual de feng shui, que “a oficina está toda errada” e não irá descansar enquanto não mudar tudo de sítio. E o único primo que de facto sabe o que fazer com a carpintaria – o mesmo de sempre, móveis, ainda que não haja já quem os compre – está disposto a admitir que não tem unhas para competir com a Ikea (e que seria ainda mais suicida passar a fazer colheres de pau, desde que as lojas de chineses as vendem mais baratas do que a madeira).
Não é muito difícil perceber onde estamos em Ping Pong Pau, o espectáculo que o Teatro Experimental do Porto (TEP) e o Teatro do Montemuro apresentam até dia 27, de quarta a domingo, no Auditório Municipal de Gaia. É mesmo o país real, o país do ajustamento (ou seja, o país das carpintarias fechadas e da conversa fiada do empreendedorismo), e isso tanto vale para uma das maiores (e das mais endividadas) cidades do país, como esta onde a peça se estreou, como para o interior profundo, onde foi criada em cinco semanas de trabalho intensivo, a maioria das quais debaixo de vários centímetros de neve.
Tal como a serração que os quatro primos (Inês Pereira, Abel Duarte, Maria Teresa Barbosa e Eduardo Correia, por ordem de entrada em cena no parágrafo anterior) tentam recuperar, talvez Portugal não tenha salvação. “Não há solução para esta carpintaria, e por isso não há solução para este espectáculo. É normal eu não ter soluções para dar e limitar-me a apontar problemas. Mas neste caso é mais do que óbvio: não há futuro para uma serração numa aldeia do interior de Portugal”, diz Ricardo Alves, o autor da peça, que aqui adapta a acidez típica dos seus textos para a Palmilha Dentada, a companhia que tem sido a sua casa, “à gramática e à estética muito específicas” do Teatro do Montemuro. “Claro que, defeito meu”, acrescenta, “também quis pôr em Ping Pong Pau uma reflexão sobre as mudanças e as angústias do momento, sobre este drama de sermos terrivelmente periféricos e por isso obrigados a lidar com fenómenos de que só nos chegam ecos distantes”.
Alguns desses ecos vêm da Suécia, via Ikea (palavra que põe o único primo que sabe fazer móveis a uivar), outros vêm da China. São a maioria, neste espectáculo que esteve para se chamar Chinatown e em que tudo – título, texto, cenário, figurinos – concorre para criar uma banda sonora declaradamente achinesada, sublinha o encenador e director artístico do TEP, Gonçalo Amorim: “Queríamos fazer imaginar essa espécie de grande nuvem chinesa que paira por aí, por um lado como um papão assustador, por outro com uma aura de sabedoria que nos encanta também.”
No início, claro, não havia nada disso: apenas a “vaga ideia” de uma serração, que depois de trabalhada durante dois dias com o autor, em regime de laboratório, na serra de Montemuro, seguiu, como sempre nas criações da companhia de teatro local, “o seu caminho natural”, explica Eduardo Correia. É o processo habitual do Teatro do Montemuro, tal como é habitual o que acontece depois da estreia: um grande calendário de apresentações um pouco por todo o país real, que no caso passará por São Pedro do Sul (dia 28), Palmela (1 e 2 de Março), Vinhais (7 de Março), Campo Benfeito (10 a 21 de Março), Castro Daire (22 a 26 de Março), Braga (27 e 28 de Março) e Évora (2 e 3 de Maio).

À medida que vai assentando no palco, e fazendo o seu caminho pelo mesmo território periférico que de certa forma documenta, Ping Pong Pau também se transforma. Passando dessa “vaga ideia” de uma serração” a uma alegoria do próprio teatro, e desse gesto aparentemente condenado ao fracasso que é repetir a mesma coisa todas as noites (cada vez com mais cansaço, cada vez com mais olheiras, cada vez com mais sulcos no chão). Os primos que Ricardo Alves atirou para este Portugal made in China podem não conseguir salvar a serração, mas também podem morrer – ou, melhor ainda, podem divertir-se – a tentar. A realidade, diz o autor do texto, às vezes é “tão naïve quanto isto”. (Jornal Público – 15.03.2014)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Programa Próximo Futuro vai trazer a Lisboa artes e literatura do Sul de África.


Em 2013, o Programa Gulbenkian Próximo Futuro dedica o seu festival de verão ao sul de África. Pensamento e literatura, arte pública, exposições de fotografia, música, cinema, teatro e dança, a partir de 21 de junho.
 Duas décadas após o fim do Apartheid na África do Sul, o Programa Gulbenkian Próximo Futuro faz um ponto da situação e dedica o essencial da sua programação de verão às ideias e à criação artística contemporânea dos países do sul de África. Pensamento e literatura, arte pública, exposições de fotografia, música, cinema, teatro e dança, a partir de 21 de junho, na Fundação Gulbenkian, mas também no São Luiz Teatro Municipal e no Teatro do Bairro, parceiros nesta programação.
 O fim do Apartheid foi um acontecimento que teve repercussões por toda a África e, muito em particular, na região da África Austral. Cerca de duas décadas depois, qual é o panorama nestes países? Que melhorias houve? Que dinâmicas existem? Que frustrações se acumulam? Que perspetivas há para o próximo futuro?
 Instalações no Jardim, debates e exposições de fotografia
A programação arranca no dia 21 de junho, com a inauguração de várias instalações espalhadas pelo jardim. É também no jardim que às 19h tem lugar a primeira sessão da Festa da Literatura e do Pensamento do Sul de África, que decorre ao longo deste fim-de-semana (21 a 23 junho) e onde serão debatidos vários temas dos quais o primeiro é “O Estado das Artes”. No dia 21 de junho, pelas 22h, haverá ainda a inauguração de duas exposições no Edifício Sede da Fundação Gulbenkian: a 9ª Edição dos Encontros de Fotografia de Bamako e Present Tense – Fotografia do sul da África. As exposições ficarão patentes até dia 1 de setembro.
 Ciclo de cinema e concertos no Anfiteatro ao ar livre
Na abertura da ‘Cinemateca Próximo Futuro’ será apresentado em estreia mundial “Cadjigue”, a mais recente obra de ficção do realizador guineense Sana Na N’Hada, e na sessão seguinte Filipa César (Portugal) apresenta a sua trilogia evocativa de Amílcar Cabral e do cinema guineense, um trabalho composto por três ensaios cinematográficos de curta duração: “Conakry”, “Cacheu” e “Cuba”. Na mesma sessão, é apresentado em estreia no nosso país o documentário “Sem Flash. Homenagem a Ricardo Rangel (1924-2009)”. Nas sessões seguintes será projetado um conjunto de filmes de ficção, de não ficção e filmes experimentais, que abordam questões como sexualidade, identidade, tradição, transformação e cultura dos jovens.
 Dois concertos completam a programação do Próximo Futuro no Anfiteatro ao ar livre: os Jagwa Music, um coletivo da Tanzânia que desde o ano passado tem vindo a eletrizar o público dos grandes festivais de verão europeus, e Konkoma, um projeto com músicos do Gana e do Reino Unido que mistura afro-funk, jazz, soul e ritmos tradicionais africanos.
 Espetáculos de dança e teatro no São Luiz e no Teatro do Bairro

No São Luiz Teatro Municipal mostram-se trabalhos dos coreógrafos moçambicanos Panaíbra Gabriel Canda e Horácio Macuácua, mas também teatro do Brasil, com a adaptação ao palco do livro de Clarice Lispector “Outra Hora da Estrela”. A 7 de julho, estreia ainda no São Luiz “África Fantasma II”, do encenador português João Samões, com Joana Bárcia e Miguel Borges como intérpretes. O teatro chileno, que habitualmente marca presença no Próximo Futuro, estará representado pelo encenador Cristián Plana, que apresenta a peça Velório Chileno no Teatro do Bairro.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

domingo, 24 de março de 2013

A Visita da Velha Senhora.


A peça de Dürrenmatt (1956), encenada por Nuno Cardoso, sobre uma “cidade arruinada que espera a visita da mulher mais rica do mundo para encontrar o seu resgate económico”.
Um texto do dramaturgo suíço que, volvidos 56 anos, assenta muito bem à realidade portuguesa, e se centra na figura de Claire Zachanassian, “a face do dinheiro, fria e determinada”.
Numa produção para duas companhias (a Companhia Maior e a Ao Cabo Teatro) e dois teatros (o S. Luiz e o do Centro Cultural Vila Flor), um conjunto de actores constrói “um espectáculo a escala que já não é habitual, nestes tempos de todas as crises” com a ideia de trazer a palco “um mecanismo, negro e cómico, de questionamento de nós próprios”. (jornal Público – 24.03.2013)