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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Um triângulo que afinal é um quadrado.


Se for uma história de amor, "O Fim da Aventura", de Graham Greene, é uma história de amor que, no fundo, é sobre a fé. Embora também seja uma história de fé que, no fundo, é sobre o amor.
Oh, não há dúvida de que Sarah tinha outros amantes. Antes e depois de Bendrix - talvez até Dunstan, esse alto funcionário público, chefe de Henry, que não chegamos mais do que a entrever. Mas se o triângulo amoroso formado por Maurice Bendrix, Sarah Miles e o entediante marido desta, Henry, se torna a certa altura um quadrado, o quarto vértice não está ali para perder. Não podemos procurá-lo no mundo do concreto. Não podemos sequer tocar-lhe. Chamamos-lhe Deus porque é isso que ele é: o deus cristão, o deus do catolicismo, e é nas suas mãos, para desgraça de todos os demais, que Sarah coloca o coração.
A obra-prima de Graham Greene, publicada originalmente em 1951, regressa às livrarias no momento ideal, porque todos os momentos são ideais para os grandes marcos da literatura ocidental e do mundo. Traz agora a chancela da Dom Quixote, mas a mesma tradução e o mesmo prefácio com que Jorge de Sena o apresentou a Portugal, em 1953, com edição da Estúdios Cor.
Foi filmado duas vezes: a primeira em 1955, por Edward Dmytryk, com Deborah Kerr, Van Johnson e Peter Cushing nos principais papéis; e a segunda em 1999, por Neil Jordan, com Julianne Moore, Ralph Fiennes e Stephen Rea. Mas, embora a linguagem do cinema seja outra e cada obra contenha a sua integridade para lá da daquela em que se baseia, em nenhum dos casos atinge a visceralidade e - sobretudo - o dilema existencial do romance de Greene.
Na verdade, O Fim da Aventura não é uma história de amor, tanto quanto uma história de ódio. Isso mesmo declara Bendrix, logo no arranque da sua parte do jogo polifónico: "E assim é isto um memorial de ódio muito mais do que de amor." Se for uma história de amor, O Fim da Aventura é uma história de amor que, no fundo, é sobre a fé. Embora também seja uma história de fé que, no fundo, é sobre o amor.
De qualquer maneira, não tem princípio nem fim, como anunciam as magistrais palavras com que Graham Greene o abre: começa num momento que o autor escolhe arbitrariamente, ou (melhor ainda) lhe é imposto, como se uma mão lhe segurasse o braço. Porque também Deus é desprovido de origem e destino, e contar a sua história, a pobres-diabos de fraco entendimento como são os homens, exige a sempre vil convenção da técnica.
A intriga centra-se na relação clandestina entre Maurice, um escritor de razoável sucesso crítico e fracasso comercial, e Sarah, a mulher de um burocrata de que o primeiro se aproxima para preparar uma personagem do romance que tem em curso. Muito em breve, porém, deixam de ser as rotinas do funcionário público a preencher o seu dia-a-dia. Entrada em cena Sarah, arrebatadoramente bela, os amantes não tardam a consumar-se, num romance tórrido a que o blitz de Londres (1940-41) serve ao mesmo tempo de pano de fundo e de manobra de diversão.
De repente, porém, ela interrompe a relação. Maurice acabara de ficar parcialmente preso debaixo da porta de um apartamento que as bombas nazis haviam feito explodir. Ao levantar-se, atordoado, ele percebe que o amor se concluiu. E só dois anos de perda e luto depois, ao encontrar-se casualmente na rua com Henry, que lhe pede ajuda no despiste de eventuais derivas adúlteras da mulher, vem a contratar o detetive privado que fará luz, a ele e ao leitor, sobre a verdadeira natureza do fim da sua aventura.
A história é contada num mosaico de analepses e prolepses e alternando a consciência de Maurice com o diário de Sarah e fugas de diferentes perfis às interioridades de Henry, Parkis (o detetive privado) ou um certo Smythe, monstruosa figura física e dedicado prosélito ateísta, de métodos - bem vistas as coisas - não muito distintos dos dos contemporâneos vendedores do ama-te-a--ti-próprio e restantes bem-aventuranças do pós-modernismo desesperado.
Mas, se é indiscutível que constitui a sua mais bem conseguida experiência de interceção entre os muitos géneros que praticou - o romance de espionagem, o romance de entretenimento, o romance político, o romance polemista, o romance religioso -, a verdade é que nunca, nele, Graham Greene morde o seu próprio isco (quão tentador terá sido oferecer a Parkis o protagonismo de um desenlace inesperado, talvez motivado pelo amor também...), mantendo-se fiel ao plano: a impossibilidade daquele amor a partir da entrada do amante omnipotente em cena e, perante essa omnipotência, a inevitabilidade da fé, ainda que disfarçada do ódio mais demolidor e extenuante.
"Apanhei a fé como quem apanha uma doença", diz Sarah, numa carta deixada a Maurice. "Caí nos braços dela, como caíra nos do amor. Nunca amara como te amei a ti, e nunca acreditei em nada como acredito agora. Tenho a certeza. Nunca tinha tido uma certeza."
Um romance poderoso, útil para compreender a fé católica do século XXI como todas as fés antes e depois dela, e que nas edições anglo-saxónicas Greene dedica a Catherine (ou apenas "C.", no original britânico). Isto é: Lady Catherine Walston, sua afilhada e amante, e que, como Sarah Miles, em vez de deixar o marido, escolheu a santidade.

Sarah escolheu-a por amor. Talvez a realidade não tenha sido tão reconfortante. (DN – 13 Ago 2016)

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Há 17 novas presenças na Feira do Livro do Porto, incluindo a Livraria Lello.


Quando abrir as portas, no dia 2 de Setembro, a Feira do Livro do Porto vai ter 17 novas ofertas para quem passar pelos jardins do Palácio de Cristal, até ao dia 18. Entre as novidades está a Livraria Lello, que regressa à feira e se vai instalar, pela primeira vez, na Avenida das Tílias, desde que a Câmara do Porto assumiu, em 2014, a organização do evento.
Entre os 131 pavilhões que vão estar na feira deste ano há outros rostos novos, como a Chiado Editora, a Bubok, o jornal Público ou a Ordem dos Arquitectos. Ao todo estarão nos jardins do Palácio de Cristal, numa disposição muito semelhante à do ano passado, 69 editoras, 26 livrarias, 16 alfarrabistas, 12 instituições e oito distribuidoras.
Sob o tema “A Ligação”, a feira irá homenagear este ano o escritor Mário Cláudio e será acompanhada da habitual programação cultural, cuja apresentação está agendada para 23 de Agosto.
Este ano, outra das novidades da feira são os horários que, fruto dos resultados obtidos nos inquéritos feitos aos participantes e da percepção da autarquia da afluência do público, sofrerão alguns ajustes. Agora, se trabalha nas proximidades do Pavilhão Rosa Mota e gostaria de aproveitar a hora do almoço para comprar um livro, já o poderá fazer, porque a Feira do Livro vai passar a abrir as portas, diariamente, ao meio-dia. À noite, por outro lado, pode ter que antecipar um pouco a visita, pelo menos entre domingo e quinta-feira, já que ela vai fechar mais cedo uma hora, às 21h. Às sextas-feiras e sábado mantém-se o encerramento às 23h.
A Câmara do Porto assume sozinha a organização da Feira do Livro da cidade desde 2014, depois de uma ruptura com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) que, à semelhança do que ainda acontece em Lisboa, era também responsável pela organização da feira do Porto. Em anos anteriores já tinha havido uma série de conflitos entre a câmara e a APEL, o que levou a que, em 2013, a cidade nem sequer tivesse Feira do Livro, tendo organizado, em alternativa, um evento mais pequeno, o Letras na Avenida, na Avenida dos Aliados, onde a feira se instalara nos anos anteriores.

Desde 2014 que a feira se mudou para os jardins do Palácio de Cristal, onde tem recebido, segundo a autarquia, mais de 200 mil visitantes por ano. O período escolhido para a sua realização também foi alterado, passando de Maio para Setembro. O evento passou a ser marcado por um tema e pela homenagem a escritores marcantes da cidade, tendo-se centrado, no primeiro ano, na figura de Vasco Graça Moura (o tema era “Liberdade e Futuro”) e, no ano passado, de Agustina Bessa-Luís (“Felicidade”). Este ano o romancista portuense Mário Cláudio, vencedor de diferentes prémios, incluindo o Grande Prémio de Romance e Novela da APE/DGLAB 2014 com Retrato de Rapaz é o homenageado devendo, como tem sido habitual, uma tília baptizada simbolicamente com o seu nome. (Jornal Público – 10 Agosto 2016)

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Joel Neto, o "guardador da identidade da Terra Chã".


O Livro A Vida no Campo foi apresentado esta tarde em Lisboa. Fernando Alves, jornalista, leu uma carta aberta a Joel Neto em plena FNAC Chiado. E o autor comoveu-se, em Lisboa
A sala estava cheia e quente e ainda o trio sentado à mesa para onde todos os olhares convergiam não começara a falar. Hugo Gonçalves, da Marcador, começou a sessão de apresentação do livro A Vida no Campo, de Joel Neto - que junta um conjunto de textos publicados, diariamente, no Diário de Notícias: "Tal como Hemingway, [Joel Neto] consegue escrever com elegância sob pressão".
Hugo Gonçalves, que já fora camarada de redação de Joel Neto, agora no papel de editor destacou a literatura feita de pequenos nadas do açoriano que regressou às origens, na Ilha Terceira, há quatro anos: "O Joel só precisa de ver uma vaca a atravessar a estrada para escrever um romance". A plateia, mais-que-completa, riu-se. Joel também. Mal sabia o que viria a seguir.
O editor da Marcador seguia a sua "cábula eletrónica" e, quase a terminar, diria que Joel Neto encontrou, depois dos 30, "o amor e a paz de espírito e isso fez dele um escritor melhor."

O microfone - e o livro, estrategicamente colocado para as fotos e a transmissão vídeo em direto - mudou para a outra ponta da mesa. Fernando Alves, jornalista, contou-nos que "implorou a Joel Neto" para apresentar este livro, ainda ele não era livro, era um conjunto de textos publicados no Diário de Notícias. Que tinha "uma relação obsessiva" com aquelas crónicas do DN. "Ia aquela crónica como quem vai ao quarto dos pais", disse. "Ia às crónicas do Joel para me comover".
Depois Fernando Alves dirigiu-se, não à gorda plateia, mas ao autor, sentado à sua direita. E assim desfiou as folhas A4 em que trazia uma carta para Joel - que gostaria que também escutássemos.
O jornalista da TSF leu, então, uma espécie de metatexto do livro que ali se apresentava. Começou no início do livro, a dois dias do Equinócio, seguiu na peugada dos passos de Joel Neto, do cão Melville ("somos íntimos desse rafeiro dourado"), das gentes da Terra Chã: "Cada passagem é uma fajã".
Alves bebera as histórias de Joel com sofreguidão. Traz à salinha respirante e silenciosa o momento em que Joel Neto leva os seus leitores "para dentro de casa, para o único quarto sempre arrumado da casa, o quarto dos pais". Disse então Fernando Alves: "Não será este o único momento em que terei sido tomado por uma irresistível melancolia ou vontade de chorar". Lembrara-se do pai, no quarto dele em África, falar-lhe das constelações Cruzeiro do Sul ou o Sete Estrelo - que também está nas páginas de Joel.
Com estes textos diários (agora semanais, aos sábados) no DN e agora com o livro A Vida no Campo, Joel Neto transformou-se num guardião da memória. "Os teus textos são de alguém que não esquece" diria Alves a propósito do carteiro Emanuel, que citou Borges numa troca de piropos futebolísticos.
"Estás à escuta das palavras da tua ilha, esse magma primordial", disse-lhe o jornalista da rádio, que também quer escutar essas vozes. Alves confessou publicamente o desejo de seguir com o autor e o livro, Terra Chã fora, com o microfone a captar o som das vozes que pontuam o livro. Ouvir, por exemplo, o bombeiro que assistiu o avô de Joel quando este passou mal. Joel comove-se, com a discrição possível no centro dos olhares de uma sala cheia.
Joel, "guardador da identidade da Terra Chã", engoliu as lágrimas. Voltaria a olhar para Fernando e para a casa cheia. Mas o narrador voltaria às raízes das árvores e da família do autor (Joel Neto vive na casa que pertenceu ao avô). Às memórias em que se mexem a cada passeio ou na poda de árvores. Quando Fernando Alves se calou, Joel Neto não conseguia falar.
"É difícil explicar como tudo isto faz sentido". Tinha uma folha dobrada com agradecimentos que não conseguia fazer. Emocionou-se no coração de Lisboa - ele que se comove tanto nos Açores, como disse em entrevista ao DN.
Depois agradeceu à editora Marcador, à Booktailors, ao DN: "[o jornal] arriscou muito quando me pediu uma crónica, um exercício de estilo sobre o meu regresso insular."

A sessão terminou com uma longa fila para autógrafos. No sábado, às 23.00, Fernando Alves passa no seu programa da TSFZona Franca todas as músicas de A Vida no Campo. Se já estiver na Terra Chã, Joel Neto escutará no Roberts, o rádio com wi-fi, o único objeto que comprou no regresso aos Açores. (DN – 25 Maio 2016)


domingo, 20 de março de 2016

Um exímio romance.


Jane Austen ainda tem os seus (poucos) detractores, que talvez lhe não perdoem (nem compreendam) que, a partir de uma tão limitada e doméstica ‘experiência de vida’, tenha escrito seis romances canónicos. Mas, duzentos anos após a sua morte, o que sobretudo surpreende é que a multidão de leitores (e de outros fanáticos admiradores) da autora de Persuasão não tenha parado de crescer. E a obra da escritora inglesa soma já uma tal quantidade de edições e traduções, de adaptações e versões (cinematográficas e televisivas), de estudos e teses, de citações e homenagens, de paródias e recriações (literárias e outras), que, quando eu soube que o romance de estreia de Helena Vasconcelos revisitava o “universo” de Austen, não consegui deixar de abordá-lo com alguma inquietação. Que depressa se revelou infundada. Não Há Tantos Homens Ricos Como Mulheres Bonitas Que os Mereçam é, no seu programa algo provocatório e na sua quase perfeita execução, um exímio romance (podem aproveitar a frase em futuras badanas).
A protagonista é uma jovem mulher da classe média lisboeta, com pais cientistas muito viajados e casa nas Avenidas Novas, que, “contrariando o espírito do tempo, decidiu seguir uma carreira dedicada ao estudo das Humanidades”. Não contente com isto, Ana Teresa, assim se chama a heroína, que “não apreciava o protagonismo tão definidor da sua época” e era “pouco dada a entusiasmos desnecessários”, decidira seguir o caminho “espinhoso” de “valorizar a sua própria banalidade”. Adiante se dirá que “ansiava por um casamento com um tipo normal, heterossexual de preferência, e imaginava uma vida tranquila e rotineira” (p. 140). Prosseguindo o retrato, sem perda de tempo nem divagações, Ana, “de acordo com os padrões” actuais, não seria uma “beldade” e “por ser discreta e bem-educada não constituía uma ameaça nem causava rivalidades incómodas”. Leitora “voraz”, que “aprendera quase tudo nos livros”, terá aprendido com Jane Austen que o “prazer sensato” não só é alcançável como é também desejável. E eis que a nossa austeniana heroína (Ana Teresa também quer ser feliz à sua maneira, e não lha falta sensibilidade, nem bom senso) duplamente, e com malícia, nos interpela e provoca: ao fazer da banalidade de uma vida doméstica imaginada um ideal (tão contrário às vaidades deste século) e ao propor-se guiar a sua mesma existência pela “filosofia expressa por Austen nos seus romances”. Tal fé na literatura talvez seja quixotesca, mas Ana Teresa, ironicamente, tem os pés e a imaginação bem assentes na terra e parte para Londres. Quer escrever uma tese sobre Austen e sobre a felicidade.
A primeira parte do romance, perfazendo dois terços das cerca de trezentas páginas do volume, trata das andanças da heroína por Inglaterra, em busca da vida e da obra de Jane Austen. A narração é feita na terceira pessoa, por um narrador insuspeito e seguro, com sobriedade e clareza, muito saudavelmente desprovidas de qualquer ênfase. Por tão raro, o feito até parece novidade. Correm paralelamente, a história de Ana e a de Jane. Nenhuma delas parasita a outra. E tal equilíbrio, em casos semelhantes, não é menos raro. As duzentas páginas passam num ápice.

Regressada a heroína a Lisboa, há uma evidente alteração do tempo e do ritmo do romance, na segunda parte e na brevíssima terceira. Surge uma personagem secundária que em alguns segmentos assumirá, a partir daí, a narração. Esta personagem, um ex-professor de Filosofia Política que ganhou muito dinheiro escrevendo best-sellers (de ficção, certamente) sob pseudónimo, servirá também, mas não fundamentalmente, para ilustrar um olhar “misógino” sobre a autora de Orgulho e Preconceito. E também Marianne, a avó de Ana Teresa, que já conhecemos desde a primeira parte do romance, mulher que vem da geração das utopias e que preferiria que a neta “se entregasse a Shakespeare” e não à prudente (para não dizermos conformista) Austen, desata a contar a sua própria história. Esta inesperada dispersão de vozes narrativas desloca o horizonte da narração para uma antiga história de amor vivida por Marianne e agora, muitos anos depois, retomada. Culpa das “redes sociais”. Porque Marianne, não sendo austeniana, acredita em finais felizes. Esta mudança de foco induz também um olhar retrospectivo sobre certos episódios da primeira parte do livro. Há, porém, uma perceptível precipitação do romance em direcção ao seu fim. Que, embora caprichoso, não nos proíbe que imaginemos a nossa heroína, despachada a tese sobre Jane Austen e a felicidade e acomodando-se à vida lisboeta (“Quem disse que Lisboa é uma cidade bonita?”), não nos proíbe, dizíamos, que imaginemos a nossa heroína feliz. Pelo contrário. (Jornal Público – Mar.201)

sexta-feira, 4 de março de 2016

Estes são os livros que deve ler antes dos 30.


Os jornalistas dos sites fizeram esta lista com base em alguns parâmetros: os seus gostos, a escolha de obras que promovessem o autoconhecimento, que ajudem a moldar uma visão do mundo que nos rodeia e que cimentem a base para uma carreira sólida.
Aqui fica a lista:
- ‘Meditações’, de Marco Aurélio;
- ‘O Mito de Sísifo’, de Albert Camus;
- ‘Crime e Castigo’, de Fiódor Dostoiévski;
- ‘Anna Karenina’, de Leo Tolstói;
- ‘O Principezinho’, de Antoine de Saint-Exupéry;
- ‘O Poder do Mito’, de Joseph Campbell;
- ‘Bhagavad-Gita’;
- ‘Sidarta’, de Hermann Hesse;
- Obras completas de Jalal ad-Din Muhammad Rumi;
- ‘O Ano do Pensamento Mágico’, de Joan Didion;
- ‘O Deus das Pequenas Coisas’, de Arundhati Roy;
- ‘Fun Home’, de Alison Bechdel;
- ‘Dentes Brancos’, de Zadie Smith;
- ‘A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao’, de Junot Díaz;
- ‘The Beggar Maid’, de Alice Munro;
- ‘O Estranho Mundo de Garp’, de John Irving;
- ‘Persépolis’, de Marjane Satrapi;
- ‘Between the World And Me’, de Ta-Nehisi Coates;
- ‘Primeiro Eles Mataram o Meu Pai’, de Loung Ung;
- 'The Truth', de Neil Strauss;
- ‘Iron John’, de Robert Bly;
- ‘A Chave do Sucesso’, de Malcolm Gladwell;
- ‘The Black Swan’, de Nassim Taleb;
- ‘O Milagre da Mente Alerta’, de Thich Nhat Hanh;
- ‘So Good They Can't Ignore You’, de Cal Newport;
- ‘The Intelligent Investor’, de Benjamin Graham;
- ‘Give and Take’, de Adam Grant;
- ‘The Power Broker’, de Robert A. Caro;
- ‘Fluir’, de Mihaly Csikszentmihalyi;
- ‘De Zero a Um’, de Peter Thiel;
- ‘Crossing the Unknown Sea’, de David Whyte;
- ‘Tiny Beautiful Things: Advice on Love and Life from Dear Sugar’, de Cheryl Strayed;

- ‘How Will You Measure Your Life?’, de Clayton M. Christensen.
Jornal I - 04.Mar.2016

quarta-feira, 2 de março de 2016

Nuno Costa Santos: uma estreia com muita bagagem.


Entramos no primeiro romance de Nuno Costa Santos, Céu Nublado com Boas Abertas, sabendo que há realidade e ficção nas suas páginas. Como discernir uma da outra é uma questão, mas uma questão que interessa pouco para a fruição da obra. A contra-capa adverte-nos tenuemente para este caminhar na fronteira; as epígrafes dão a receita: “Talvez a literatura seja isso: inventar outra vida que bem poderia ser a nossa”, Enrique Vila-Matas;“There’s no longer such thing as fiction or non fiction”, David Shields.
Nuno Costa Santos pode apresentar-se como a personagem dos Simpsons Troy McClure: Talvez se lembrem dele pelos livros de poesia, de crónicas, de contos, pela biografia de Fernando Assis Pacheco, pelos blogues, pelos programas de rádio, de televisão. Ou seja, no caso de Nuno Costa Santos, quando se fala num primeiro romance não se fala de inexperiência. Nascido em 1974, a escrita faz parte da sua vida desde há muitos anos e esse percurso terá sido, arriscamos, fundamental para um primeiro romance tão seguro.
Logo na primeira página, somos brindados com uma fotografia antiga de um casal: os avós do narrador. (Ou deveremos dizer autor?) Já perto do final, na página 197, o mesmo casal volta a surgir, com a mesa roupa, quase a mesma posição, mas expressões faciais diferentes: uma outra fotografia da mesma sessão de estúdio? A assinatura, que parece identificar o estúdio de fotografia, é diferente nas duas fotos. Terão tirado fotos em estúdios diferentes no mesmo dia? É um mistério que o romance não deslinda.
Este recurso às imagens, recorrente sem ser exagerado, aliado a umas poucas páginas lidas, remete-nos logo para W. G. Sebald, o grande mestre alemão da mistura entre ficção e realidade. Somos introduzidos logo à história do avô, João Pereira da Costa, o tal da fotografia, cujas memórias escritas o narrador encontra. Do meio desses papéis cai uma nota: “se tiver um descendente que se interesse pela escrita, peço-lhe para ir a São Miguel e trazer no regresso um conjunto de histórias do presente da ilha.”
Esta é a missão que o narrador empreende: visitar a sua ilha natal de São Miguel e nela buscar histórias, satisfazendo o pedido de um avô que já morreu. O romance divide-se entre estes dois tempos, o da deambulação do narrador pela ilha e o da história do seu avô, tentando curar-se da tuberculose num sanatório do Caramulo, rememorada através dos escritos que deixou. Este é um mecanismo muito caro a Sebald: um narrador vagueando pela paisagem e evocando histórias passadas.
É no presente da narrativa que Nuno Costa Santos se distancia do escritor alemão. Embora o tom melancólico e o ritmo ondulante da acção – que parece atingir um narrador passivo, como quem se deixa molhar pelas ondas sem vontade de entrar no mar ou de afastar-se da rebentação – ainda remetam para a escrita sebaldiana, a natureza das histórias encontradas na ilha é o afastamento face a este pai literário, é o grito de independência do autor.
O golpe de mestre de Nuno Costa Santos está aqui, na forma como coloca este narrador a procurar as histórias que o avô lhe pediu que procurasse. Porque, na verdade, a procura é muito escassa: a maioria das histórias vai ao encontro e de encontro a este narrador; e começam logo no avião que o leva de Lisboa aos Açores. Sem reacção do narrador, este vê-se envolvido num enredo com traficantes de droga locais, pacotes de cocaína que dão à costa em vários pontos da ilha, uma rapariga que anuncia massagens num jornal local e um velejador traficante francês. Pelo meio há outras desventuras com personagens, no mínimo, caricatas.
Como ensina Dinis Machado, devemos perguntar sempre: qual é o lado mais cómico disto? O lado mais cómico disto é precisamente aquela melancolia apática do narrador perante as situações extraordinárias que o envolvem. Em duas narrações sem paralelos aparentes – a do avô tuberculoso no Caramulo e a do neto metido com traficantes em São Miguel – surge uma ligação, pela diferença: a inversão do efeito esperado das duas narrativas. Não é que a história do avô seja puramente cómica, mas a forma como descreve as situações e reage aos seus azares tem laivos de humor. E o neto, vivendo coisas mirabolantes, parece acometido de uma doença profunda, uma tuberculose da alma.
Da história do avô, não esperamos grandes surpresas. Se ele abandona os Açores em busca da cura no Caramulo, logo depois de se casar, já supomos que se curará e regressará, porque se não fosse assim não teria filhos e não teria o neto que narra o romance. Da história do neto, não sabemos o que esperar, nem é expectável que o saibamos, nem é pretendido pelo autor. O curioso, em mais uma inversão do previsto, é que ficamos mais ávidos pelo desenlace da história do avô do que pela do neto.

Céu Nublado com Boas Abertas não é viciante, mas é viciante. O fio do passado, antigo e datado, empolga-nos, ao passo que o fio do presente, actual e imprevisível, embala-nos. É de todo este jogo diegético, da mestria narrativa com que Nuno Costa Santos aguenta a ficção e a não-ficção, no seu registo Sebald-urbano-depressivo, que se faz um notável romance de estreia. Nota-se que é uma estreia com muita bagagem, de alguém que se preparou para esta maratona com muitas corridas à volta do quarteirão. (Jornal Público – 26.Fev.2016)

sábado, 20 de fevereiro de 2016

A escritora que só quis publicar um livro mas pode ter três.


Mataram a Cotovia' foi o único romance de Harper Lee durante décadas. No ano passado descobriram no seu espólo o 'Vai e Põe a Sentinela'. Mas parece que há mais um na arca.
A otícia correu o mundo em segundos: "Harper Lee morreu". A única diferença no modo de a revelar aos seus leitores ou admiradores esteve nas fotografias escolhidas para ilustrar este capítulo final da vida de uma das mais míticas escritoras norte-americanas. Que se celebrizou por ser autora de um único livro, que continua a vender milhões de exemplares todos os anos e atravessou várias gerações de leitores: Mataram a Cotovia, ou Não Matem a Cotovia, segundo as traduções.
Tal como as muitas histórias que envolveram o secretismo que Harper Lee exigiu para a sua vida, também esta de ser autora de um único livro tem várias versões. Ou seja, só houve a Cotovia durante décadas, até que no ano passado a sua advogada, Tonja Carter, desencantou o manuscrito original de Vai e Põe uma Sentinela. Que se passa num tempo após o "único" romance - porque o editor a obrigou a refazer -, e o deu para publicação apesar de não serem muito claros os contornos sobre a autorização da própria escritora. Pelo menos esta é a versão de quem reconhece que Harper Lee estava distante deste mundo há já algum tempo; incapaz de perceber o negócio literário em marcha, e incapaz de contrariar a principal decisão da sua vida literária: não publicar um segundo livro.
Nelle, como era conhecida por muitos, nasceu em Monroeville, no estado do Alabama, em abril de 1926. Entre os amigos de infância estava um vizinho que se tornou famoso, Truman Capote, e que lhe deu algumas dores de cabeça quando a contratou para a investigação do crime que retratou no seu best-seller A Sangue Frio, mas a quem não deu nome nos créditos. A amizade praticamente acabou por aí, depois de terem convivido na cidade que mais impressionou a jovem do interior: Nova Iorque. Onde Harper Lee conhece o compositor da Broadway, Michael Martin Brown, que, apreciador do seu talento, decide financiar a futura escritora durante um ano para que se dedicasse exclusivamente à escrita. E foi o sucesso em livro, em filme e em adaptações teatrais.
Mataram a Cotovia é uma história que se mantém atual e que os mais recentes conflitos racistas nos Estados Unidos evocam demasiadas vezes, mesmo que o romance se passasse na década de 30, numa povoação do interior onde o jovem advogado Scout Finch e o seu pai, Atticus, são indicados pelo juiz para defenderem um negro acusado de violar uma jovem branca. Quanto ao polémico Vai e Põe uma Sentinela, a história que dá continuação ao cenário de Mataram a Cotovia, o problema é o de a personagem Atticus ser retratada como tendo ideias racistas. O que já não agradara décadas antes ao editor de Harper Lee, nem atualmente à maior parte dos leitores da sequela.

Avise-se que com a morte da escritora, Tonja Carter ainda poderá provocar uma nova alteração na biografia da autora de um único livro, já que correm rumores de que entre o Mataram a Cotovia e Vai e Põe a Sentinela existirá um terceiro romance. A advogada não se quis comprometer com essa possibilidade mas confirmou que uma equipa de peritos iria "examinar e autenticar" todos os documentos que foram encontrados no cofre com o espólio de Harper Lee. (DN – 20 Fev 2016)

domingo, 27 de dezembro de 2015

Os mais belos livros do ano.


Fim do ano é tempo de balanço. E eu abalanço-me aqui a escolher os livros mais belos do ano. São todos óptimas prendas de Natal de última hora. Como não há bela sem senão, o seu preço é maior do que a média. Pois que a sugestão de livros mais dispendiosos fique como um sinal do desaperto do cinto. Ouço dizer que vem aí a reposição gradual dos salários e da sobretaxa de IRS. Fico, como toda a gente, satisfeito com o anúncio e mais disposto a abrir, nas livrarias, os cordões à bolsa. O certo é que, conforme me lembram os pontuais extractos, o meu banco ainda não sabe desse fim da austeridade. Mas eu quero lá saber se, ao comprar um belo livro para mim ou para oferecer, o saldo fica mais baixo... Investir em belos livros é investir na beleza e a beleza é sempre consoladora. A ordem é a alfabética do apelido dos autores (o título parcialmente em inglês indica que a edição é bilingue).
– Pepe Brix, Os Últimos Heróis. The Last Heroes, Matéria-Prima Edições. Este livro de fotografias ilustra a odisseia dos pescadores portugueses a bordo do arrastão Joana Francesa, um dos últimos bacalhoeiros nacionais, nos mares frigidíssimos da Terra Nova. Em parte saiu na National Geographic Portugal de Fevereiro passado. Mas a reportagem, alargada e em grande, é outra coisa. Passei a olhar o bacalhau com outros olhos. Patrocínio da Riberalves e apoio do Museu Marítimo de Ílhavo, que exibe um aquário de bacalhaus.
– Hélder Carita e António Homem Cardoso, A Casa Senhorial em Portugal. Modelos, Tipologias, Programas Interiores e Equipamento, Leya. Lançado há dias numa das casas senhoriais mais belas de Portugal, o Palácio dos Marqueses de Fronteira, em Lisboa, um historiador de arte e um dos fotógrafos portugueses mais conhecidos mostram, sob a égide da Associação Portuguesa de Casas Antigas, o exterior e o interior de algumas dessas mansões. Os autores já nos tinham dado edições de luxo como Oriente e Ocidente nos Interiores em Portugal (Civilização) e Tratado da Grandeza dos Jardins de Portugal (Círculo de Leitores) e esta é mais uma, para se sobrepor a elas na mesa do café.
– Miguel Claro, Dark Sky. Alqueva. O Destino das Estrelas. A Star Destination, Centro.Atlântico.pt. Neste Ano Internacional Da Luz (notícia de última hora: vai, em Portugal, ser estendido até Junho) um livro de um astrofotógrafo português de reputação internacional que documenta a Reserva “Dark Sky” do Alqueva, a primeira reserva mundial certificada como Destino Turístico Starlight. Imagens avassaladoras que nos vêm de longe vistas do grande lago alentejano!
– Umberto Eco, História das Terras e dos Lugares Lendários, Gradiva. O historiador e escritor italiano, autor de O Nome da Rosa, brinda-nos com mais uma das suas belas obras, que junta erudição e rica iconografia. Quem gostou da História da Beleza ou da História do Feio ou ainda de A Vertigem das Listas (todos eles saídos na Difel) não pode perder este roteiro dos lugares maiores que a pródiga imaginação humana criou.
– Mário Ruivo (coordenação), Do Mar Oceano ao Mar Português. From the Mar Oceano to the Portuguese Sea, Edições CTT e Centro Nacional de Cultura. Um renomado cientista do mar português coordenou, para este cuidado volume dos Correios de Portugal (como é timbre desta instituição), um conjunto de textos ricamente ilustrados sobre a nossa antiga e íntima relação com o mar, que vão da história à gastronomia. Inclui uma colecção de selos.
– Peter Sís, O Piloto e o Principezinho. A vida de Antoine de Saint-Exupéry,Jacareca. Um autor premiado de livros infantis encanta-nos com o extraordinário design de uma biografia do autor de O Principezinho (que, pesem embora os seus 72 anos, permanece actualíssimo, como mostra a sua recente adaptação ao cinema em desenhos animados). Eu já conhecia aÁrvore da Vida, a biografia de Darwin distinguida como melhor álbum ilustrado do ano pelo The New York Times, mas com o novo livro fiquei rendido ao artista norte-americano nascido na Checoslováquia.
– Vários, O Círculo Delaunay. The Delaunay Circle, Centro de Arte Moderna, Gulbenkian. Ainda no Ano da Luz é publicado o catálogo de uma extraordinária exposição de Sonia e Robert Delaunay, o casal de pintores franceses (ela vinda da Ucrânia) que em Junho de 1915 se estabeleceu em Vila do Conde para fugir aos horrores da guerra que grassava na Europa, tendo convivido com pintores como Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana e José de Almada Negreiros. Lembro que Sonia Delaunay foi alvo de uma exposição recente na Tate Modern em Londres. Para ficar espantado com as suas composições de cor, basta ir à Fundação Gulbenkian à exposição comissariada por Ana Vasconcelos.
Boas leituras e Boas Festas!

Professor universitário (tcarlos@uc.pt) - Jornal Público - 27.Sez.2015

domingo, 9 de agosto de 2015

O que andamos a ler enquanto molhamos os pés.


Em tempo de férias, são muitos os que aproveitam para pôr as leituras em dia, em todo o mundo. Nos EUA, Harper Lee domina os tops. A Rapariga no Comboio, de Paula Hawkins, está um pouco por toda a parte e Portugal não é exceção...
Portugal fica de fora, por um desfasamento editorial remendado nos próximos meses, do alcance intercontinental - Londres, Paris, Nova Iorque - de dois dos maiores êxitos editoriais que o verão testemunha e, até certo ponto, apadrinha: a versão masculina das peripécias eróticas mais faladas nos últimos anos, com a autora E.L. James a esticar a corda em Grey (As Cinquenta Sombras de Grey narradas por Christian), sucesso comum aos três polos referidos, e o regresso de Scout e Atticus Finch pela mão de Harper Lee em Go Set a Watchman, comandante segura das listas de mais vendidos em paragens anglófonas. Tal como cá, a versão francesa está agendada para o outono. Tanto nas Ilhas Britânicas como nos Estados Unidos, a veterana parceira de Truman Capote alcança uma improvável dobradinha: aproveitando o empurrão de uma sequela escrita antes (é mesmo assim, por estranho que pareça) e o 50.º aniversário da publicação original, Mataram a Cotovia regressa às listas de mais vendidos. O que não pode deixar de saudar-se; haja algo de mais duradouro do que as fugazes levezas estivais.

Em Portugal, além de Hawkins e dos comboios, de Enders e dos intestinos, da chegada em crescendo de Johanna Basford e O Jardim Secreto (o "pinte você mesmo", outra vez), de Green e das cidades, pode entrar-se pelo território muito abrangente da não ficção. E isso pode acontecer em velocidade com Running - Muito mais do Que Correr, de José Soares, manual de exaltação das vantagens e das ramificações da corrida na nossa vida de todos os dias. Nota: levar a vida a correr não é uma variante contemplada. Juntam-se-lhe uma investigação, um alerta e um testemunho. Respetivamente, o diver-tido, esclarecedor e comparti-mentado à medida da concentração estival Puxar a Brasa à Nossa Sardinha, da jornalista Andreia Vale, que parte em busca da origem e do devir de expressões que utilizamos na nossa linguagem corrente; Dicionário de Erros Frequentes da Língua, de Manuel Monteiro, pode mostrar-se um auxiliar poderoso para baixar o nível das consecutivas agressões ao património que mais vezes utilizamos; O Que Vejo e não Esqueço, de Catarina Furtado, narrativa rigorosa - e nem por isso menos suscetível de prender e cativar - de uma vida que vai muito além daquilo que lhe conhecemos na sua profissão e nas suas artes. A honestidade não afeta a envolvência; a emoção não minora a justiça. Para alguns (não para todos), uma belíssima surpresa. (DN - 9.Agosto.2015)

sábado, 20 de junho de 2015

James Salter (1925-2015): “A nossa vida está sempre a ir embora”.


“A ficção está acima da verdade. Num outro patamar moral e estético, artístico. A verdade na memória remete para uma verdade mais objectiva, algo que terá acontecido. Terá ele visto? Terá ele dito? Terei sentido? Será que fomos? Eu adoro a memória. A nossa vida acaba por ser só memória. Está sempre a ir embora a todo o tempo, a mudar.”
As palavras foram ditas no final de Abril deste ano por James Salter, a quem chamavam o escritor dos escritores. Foi numa entrevista sobre o seu último romance, e o primeiro que publicou em Portugal: Tudo o que Conta (Livros do Brasil), uma reflexão sobre a passagem do tempo a partir da perspectiva de um homem que não queria ter uma existência comum. A vida passou e esse homem olha para ela, reconstruindo-a com a memória. A memória que passa, que faz que o fez dizer : “a nossa vida está sempre a ir embora”.
A revista Lire considerou Tudo o que Conta o melhor romance estrangeiro publicado em França em 2014 e dedicou-lhe a capa. Pouco tempo antes, o jornal The New York Times escrevia que era um dos escritores essenciais da literatura norte-americana. James Salter morreu na madrugada de sexta-feira. Tinha feito 90 anos no passado dia 10 de Junho.
A voz algo trémula, os olhos de uma frontalidade que podia intimidar, sorriso desenhado no sobrolho, esperava na paragem a camioneta vinda de Nova Iorque. Em Bridgehampton, pequena vila de Long Island que multiplica a população no Verão, há uma rotina de província. A paragem do expresso que chega e parte mais ou menos de duas em duas horas é um ponto de encontro e de trocas. De encomendas, de abraços. Salter esperava a jornalista enquanto lia um livro: Do Lado de Swan, de Marcel Proust. Entrou depois no velho Saab e conduziu uns cinco minutos até à casa de madeira castanha onde vivia com a mulher, a jornalista Kay Eldredge. Era ali que continuava a escrever, diariamente, menos horas do que antes, mas num ritmo constante. Contos, ensaio, crítica, argumento, romance. Era um escritor de escrita lenta.
Tudo o que Conta demorou-lhe trinta anos e teve várias versões até lhe sair como queria. Foi fazendo outras coisas. Além da literatura, ensinava escrita. Desde 1956, ano em que se estreou com The Hunter, publicou seis romances, três colectâneas de contos, um livro de memórias — Burning the Days (1997) —, ensaios; escreveu quatro argumentos para cinema — onde se destaca o filme Downhill Racer, com Robert Redford, em 1966 —, um livro de poesia, e finalmente em 2013 apareceu com Tudo o que Conta. Talvez o exemplo mais brilhante da escrita de Salter.
“Não é um livro biográfico, mas tudo o que eu sei está aqui”, declarou então numa conversa em que tanto quanto responder a perguntas procurava respostas. Queria saber de novos autores, dos que chegam à Europa. E dos que a Europa tem e não chegam à América. E sobre a sua escrita dizia que não sabia bem. “Gostava de poder dizer qualquer coisa mágica”, continuava. Qualquer coisa sobre esse processo que, no seu caso, tinha qualquer coisa a ver com respiração, música, um ritmo, e com a leitura em voz alta do que ia fazendo. Seria harmonia? Ele levantou as mãos no ar, imitou o gesto de um maestro a marcar o compasso e repetiu: “Pam, Pam, Pam”, para depois cruzar as mãos e referir que não há magia ou milagre: “Dá muito trabalho.”
A escrita de James Salter, nome literário de James Horowitz, antigo coronel da força aérea norte-americana, continha uma clareza e elegância que muitos escritores admiravam. Graham Green, Vladimir Nabokov, Richard Ford, John Irving, Bret Easton Ellis, Jay McInerney elogiaram-lhe várias vezes a concisão, a palavra certeira, os recursos que permitiam que quase tudo o que dissesse parecesse simples e nessa simplicidade fosse avassalador. Michael Dirda escreveu um dia no The Washington Post que quando quer Salter “é capaz de nos partir o coração com uma frase”. Era também um caso exemplar em algo que não é literatura, mas determina um percurso literário: um escritor sem vendas raramente consegue ter importância, mesmo que a tenha. Salter tinha-a, mas os seus livros nunca foram best-sellers.

Foi pela literatura que James Salter deixou o exército. Natural de Passaic, estado de Nova Iorque, onde nasceu a 10 de Junho de 1925, filho de um vendedor de imobiliário, cresceu em Manhattan, fez o liceu numa escola privada no Bronx, onde foi colega de Jack Kerouac e, para fazer a vontade ao pai — um antigo militar —, estudou em West Point. Serviu no exército até 1957. Já tinha publicado The Hunters e queria tentar viver da literatura. Mudou de vida e de nome. Fala disso sentado numa poltrona junto à janela. Entrava uma luz de manhã de Primavera com chuva. Ele pousara na mesa em frente Do Lado de Swan. Voltava a livros antigos. Estava a descobrir alguns a que sempre se mostrara relutante. Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry era a sua última paixão literária. Lera-o no México, onde passava os invernos para escapar ao frio de Nova Iorque. “São livros formadores”, dissera, sem nunca se alongar nas suas coisas: a capacidade de observação, a atenção ao outro, os elogios. A lucidez da escrita é a mesma da conversa. (Jornal Público)

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Acampar com histórias e "show cooking" na Feira do Livro de Lisboa.


A 85.ª edição da Feira do Livro de Lisboa, que decorre de 28 de Maio a 14 de Junho, vai ter novidades. Acampamento com histórias para crianças, conferências com oradores internacionais e um "show cooking".
Conferências com convidados internacionais, um auditório “com uma cozinha equipada” - para ali se realizarem apresentações de livros de gastronomia - e várias noites dedicadas às crianças com uma nova actividade, Acampar com histórias, são algumas das novidades da 85.ª edição da Feira do Livro, que decorre de 28 de Maio a 14 de Junho no Parque Eduardo VII, em Lisboa.
Esta edição conta com um total de 271 pavilhões (mais 21 do que o ano passado) e também com um número recorde de participantes: são 123 os inscritos nesta feira do livro (mais 23 do que em 2014).
Na conferência de imprensa que decorreu esta terça-feira à tarde no Parque Eduardo VII, onde já se podem ver montados os pavilhões coloridos das diversas editoras, o presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), João Alvim, referiu que em 2014 o número de visitantes da Feira do Livro de Lisboa foi de 532 mil e que a expectativa da APEL “é sempre a de se ultrapassar" o número de visitantes do ano anterior. “Ambicionamos [este ano] chegar aos 600 mil visitantes, com os [novos] espaços de lazer, a programação e se as condições meteorológicas forem favoráveis”, acrescentou.
Por sua vez, Bruno Pacheco, secretário-geral da APEL, lembrou que este ano os visitantes podem contar com “mais de mil iniciativas durante os 18 dias da feira, aproximadamente mais 100 do que no ano anterior". Haverá mais locais de restauração e o novo espaço "show cooking" - com um auditório localizado à entrada da feira junto ao Marquês de Pombal onde haverá “uma cozinha equipada” - permitirá que ali decorram apresentações de livros de gastronomia e culinária. 
Entre as novidades mais entusiasmantes deste ano na feira inclui-se a iniciativa Noites Happy Readers: Acampar com Histórias mas para a qual já terminaram as inscrições. É dedicada aos mais pequenos, dos 8 aos 12 anos, e os participantes vão passar uma noite “rodeados de livros, histórias e letras”, tal como explicou Susana Silvestre, da rede de Bibliotecas Municipais de Lisboa. Esta actividade que se repete em seis noites – 19 e 30 de Maio, 5, 6, 12 e 13 de Junho - vai permitir que 120 crianças, que já foram seleccionadas após inscrição e o pagamento no site da APEL, façam uma visita guiada pela feira entre muitos livros e actividades, jantem e acampem durante a noite na Estufa Fria de Lisboa.
Logo após a cerimónia de inauguração da 85.ª edição da Feira do Livro de Lisboa, quinta-feira às 16h, inicia-se o primeiro de três ciclos de conferências às quintas-feiras com convidados internacionais dedicadas ao debate de temas ligados à indústria europeia do livro. A primeira conferência é sobre os direitos de autor/pirataria e contará com a presença do presidente da Federação Europeia de Editores, Pierre Dutilleul, no dia 28 de Maio.
A segunda conferência será dedicada à Lei do Preço Fixo e terá a participação de Kyra Dreher, co-presidente da Federação Europeia e Internacional de Livreiros (4 de Junho) e por fim, Richard Charkin, presidente da Associação Internacional de Editores irá estar na feira no dia 11 de Junho a discutir os constrangimentos internacionais aos direitos de autor e à luta contra a pirataria. Durante os 18 dias da feira irá decorrer ainda o I Encontro LiterárioNós e os livros, e a Fundação Francisco Manuel dos Santos vai promover um ciclo de onze debates sobre a economia portuguesa, o parlamento e o ensino, entre outros temas.
A Feira do Livro de Lisboa está aberta de segunda a quinta-feira das 12h30 às 23h, às sexta-feiras e vésperas de feriados das 12h30 às 24h, aos sábados das 11h às 24h e aos domingos e feriados das 11h às 23h.

Editado por Isabel Coutinho (Jornal Público –Maio.2015)

sábado, 14 de março de 2015

Tragam os corpos!


Rolam cabeças e ninguém está a salvo, nos romances e nos contos de Hilary Mantel. A sua peculiar atracção pelos cenários labirínticos e violentos, onde a intriga e as distorções da realidade são colocadas como armadilhas no decorrer de acontecimentos aparentemente banais, faz dela uma escritora peculiar, hábil na manipulação de personagens, situações e ambientes que deixam um rasto amargo mas sinistramente cómico. Depois de uma já longa carreira literária, e do compreensível sucesso de Wolf Hall e Bring up the Bodies (O Livro Negro, em português), dois romances históricos de uma trilogia — que ficará completa neste ano (2015) — em torno da figura de Thomas Cromwell e que lhe valeram dois prémios Booker, Mantel resolveu publicar estas histórias, demonstrando, como uma malabarista demoníaca e travessa, a capacidade para abordar os temas clássicos — casamento, família e sexo, diferenças entre géneros e classes — de uma forma, no mínimo, bizarra. Na realidade, Mantel está tão perfeitamente à vontade na movediça, perigosa e viciosa corte de Henrique VIII como no ambiente inseguro e repleto de ciladas do que tem sido o universo caótico das últimas décadas.
Nestes contos, comparáveis aos do seu contemporâneo Ian McEwan no que diz respeito ao que existe de macabro, sombrio e desviante no ser humano, Mantel mostra ser, também, uma discípula de Edgar Allan Poe, quando traz para o quotidiano um ambiente de permanente ameaça, irracionalidade e ambiguidade.
As narrativas são bastante curtas e a autora confere-lhes um carácter pessoal, não no sentido estritamente autobiográfico mas sim como se tudo o que descreve fosse uma anedota privada, algures num espaço paralelo, tanto temporal como físico, distorcido pela imprevisibilidade e observado a partir de uma visão desfocada e alucinatória. O primeiro conto, Desculpe incomodar, é um bom exemplo: relatado na primeira pessoa, remete para acontecimentos passados quando Mantel viveu com o marido em Jeddah, na Arábia Saudita. A autora descreve o ambiente claustrofóbico, a impossibilidade de sair livremente, a incompreensão perante regras conviviais absurdas, as barreiras numa sociedade com duras regras e muito pouco tolerante para com as mulheres. O ar abafado, as baratas no chuveiro, as janelas entaipadas, as importunas visitas de um homem demasiado amigável — esta intromissão reflecte-se na do sniper do IRA que invade e ocupa uma casa para ter um bom ângulo de ataque à primeira-ministra, no último conto —, as maleitas que a atingem — dores de cabeça, tonturas, intolerância à luz — estabelecem os vários leitmotiv que marcam a acção e os temas dos outros contos. EmVírgula, duas miúdas passam um Verão a fugir de casa e a embrenharem-se num matagal, os joelhos esfolados e os vestidos sujos, para espiarem uma mansão, de onde, todos os dias, emerge uma senhora elegante que empurra uma cadeira de rodas com um ser indistinto — semelhante a uma vírgula — embrulhado em mantas. Em O Qt-Longo — nome de um Síndrome relacionado com um certo tipo de taquiarritmia —, a dona da casa, durante uma festa, presencia a traição do marido com uma convidada. Tudo gira em torno desse momento em que o tempo pára, os sons são abafados, os copos se estilhaçam, os vidros cobrem o chão e o triângulo formado por marido, mulher e amante efectua uma espécie de dança grotesca que termina em tragédia, tal como acontece em Férias de Inverno, em que um casal parte para a Grécia e presencia um episódio de contornos sinistros. Num dos melhores contos, Como é que a irei reconhecer?, uma infeliz autora (ela própria?), incapaz de recusar o convite de uma comunidade de leitores numa cidade distante para falar da sua obra, passa pelos inconvenientes de uma hospitalidade dúbia — o seu anfitrião chama-se senhor Simister — num hotel à beira da estrada, depois de uma sessão pouco auspiciosa e perante uma plateia de zombies. Aliás, para Mantel, as personagens — fantasmas, vampiros, delinquentes, terroristas, ladrões, sequestradores, violadores e as suas vítimas, a criança paraplégica, a porteira aleijada, a escritora sonâmbula, a rapariga anoréctica, a estrangeira sequestrada, a mulher traída — são tão laboriosamente desenhadas como o espaço que as rodeia, sejam as escadas de um hotel, a divisão da casa em Jeddah onde a mobília se movimenta sozinha durante a noite, uma sala de pânico, o chão de uma cozinha, os consultórios em Harley Street, ou os canteiros de um jardim em que os botões de rosa se transformaram em borbotos castanhos e os carris de comboio a entrecruzarem-se na estação de Waterloo.

O conto que dá o título ao livro — situado no dia 6 de Agosto de 1983, quatro anos depois de Thatcher ganhar as eleições e apenas alguns meses antes do ataque terrorista do IRA, em Brighton, que realmente era destinado a matar a primeira-ministra — causou burburinho na Grã-Bretanha, por parte dos conservadores (Tories), ao ponto de um ex-deputado ter clamado contra a “fantasia deturpada e grotesca” da senhora (Dame) Mantel, a qual, no entanto, não deu sinais de se sentir minimamente afectada. (“Ainda hoje sinto o sangue a ferver de ódio contra Thatcher”, diz ela). Acrescente-se que estes dez contos, onde não se encontram vestígios de complacência, empatia, paciência ou compaixão, são extremamente imperfeitos; no entanto, o seu poder encantatório é fruto dessa estranha forma de narrar, sem fim nem princípio, a unidade quebrada e o equilíbrio instável. A autora não estabelece qualquer cumplicidade com o leitor, antes o atrai para um sorvedouro, em que a doença, a morte, a traição e o desleixo moral são habilmente reequilibrados por uma ironia exultante.
 Crítica corrigida: onde se lia Oliver Cromwell passou a ler-se Thomas Cromwell (Jornal Público)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Helen Macdonald venceu o Costa para Livro do Ano com a história do seu açor.


Quando o seu pai morreu, Helen Macdonald comprou um açor. H is for Hawk conta essa história pessoal.
Não é um guia de como treinar o seu açor mas é sobre isso que trata o livro de Helen Macdonald que lhe valeu o Prémio Costa para Livro do Ano, uma das distinções mais prestigiadas no Reino Unido. H is for Hawk no início do mês já tinha sido premiado na categoria de melhor biografia e foi considerado pelo júri como uma obra maravilhosa e impossível de se esquecer. Em Novembro, H is for Hawk já tinha dado à escritora britânica o prémio literário Samuel Johnson na categoria de não-ficção.
H for Hawk é  um livro que explora o luto, o amor e a natureza. É a história de como Helen Macdonald, uma académica britânica, ultrapassou a morte do pai ao dedicar-se a um açor que comprou a um criador escocês. É a experiência pessoal da escritora que encontrou na ave uma forma de ocupar a sua cabeça.
Ao The Guardian, o escritor Robert Harris, que presidiu ao júri do prémio Costa, disse que H is for Hawk é um livro que não se esquece. “Todos concordámos que era maravilhoso, a sua prosa é maravilhosa, tem músculo e é precisa como um bisturi”, defendeu o presidente do júri. “Há alguns livros que vencem prémios porque se impõem mas depois o público parece não gostar muito. Já este é um livro que eu acho que toda a gente vai gostar”, destacou ainda o escritor.
Helen Macdonald bateu a britânica Ali Smith que era apontada como uma das grandes favoritas com o livro que tinha vencido na categoria de romance, How to Be Both, em que cruza a história de uma adolescente que perdeu a mãe e a de Francesco del Cossa, pintor renascentista. Concorriam ainda Jonathan Edwards que venceu na poesia com My Family and Other Superheroes; Emma Healey que foi premiada na categoria de primeira obra (Elizabeth is Missing) e Kate Saunders com o livro infantil Five Children on the Western Front. Agora H for Hawk foi considerada o Melhor Livro de 2014, valendo à escritora 30 mil libras (cerca de 40 mil euros) – o valor monetário do Prémio Costa.
À BBC, a escritora que é também investigadora associada do departamento de História e Filosofia da Ciência da Universidade de Cambridge mostrou-se surpreendida, explicando que quando escreveu H is for Hawk não considerou que alguém o viesse a querer ler por ser “um livro muito estranho”. “Estou tão agradecida ao júri”, disse Helen Macdonald. “Estou absolutamente encantada, surpresa e estupefacta, é maravilhoso”, reagiu a escritora, que além de investigadora é também ilustradora e naturalista.
Sobre o livro, Macdonald definiu-o como uma “carta de amor à Inglaterra rural”. “E a tudo o que perdemos e estamos a perder.” Foi a forma que a britânica encontrou para lidar com a morte do pai em 2007 e para ir de encontro a uma paixão de infância – ainda em criança dizia que queria ser falcoeira. É por isso à Reuters Helen Macdonald explicou que esta foi a “verdadeira despedida” do seu pai. “Foi catártico e não achei que fosse.”
A autora explica o sucesso inesperado de H is for Hawk com a longa tradição que existe no Reino Unido de livros sobre as relações de pessoas com a natureza e os animais. “Este pássaro que as pessoas pensam ser um símbolo de selvageria e ferocidade é na verdade tanto uma criatura assassina como algo que brinca com o gatinho e vê televisão comigo”, contou Macdonald, explicando que a obra não é apenas biográfica. Ao mesmo tempo que a escritora escreve a sua história, narra também a vida do escritor T.H. White, que em 1951 publicou The Goshawk, livro onde contava as suas experiências de treinar aves.
Criados em 1971, com a designação de Whitbread Book Awards, os prémios Costa, limitados a autores radicados no Reino Unido ou na Irlanda, e patrocinados desde 2006 pela cadeia de lojas de café e cafetarias Costa Coffee (uma subsidiária da Whitbread), são atribuídos em cinco categorias: romance, primeiro romance, poesia, biografia e livro infantil. Cada um dos escolhidos é premiado com cinco mil libras (6,7 mil euros), e um deles é depois escolhido como o livro do ano. No ano passado, o vencedor do Prémio Costa foi Nathan Filer com The Shock of the Fall, publicado em Portugal pela Relógio D'Água com o título O Choque da Queda. (Jornal Público)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

8 razões para ler (livros a sério).


Com a evolução tecnológica, a maioria das pessoas decidiram deixar os livros nas estantes. Os mais novos só querem saber das novas tecnologias e os adultos dizem que não têm tempo para ler (mas a verdade é que muitos vão no comboio ou no metro agarrados ao tablet ou ao smartphone e não a uma obra literária).
A Time decidiu fazer uma lista de oito razões para deixar os e-books, as sms, os chats e os comentários nas redes sociais e optar por livros a sério. Pode ser que lhe dê alguma motivação…
As pessoas que lêem são mais inteligentes: Dr. Seuss escreveu “Quanto mais leres, mais coisas saberás. Quanto mais aprenderes, a mais sítios irás”. Sabia que um livro infantil expõe a criança a mais palavras do que um programa de televisão? É esta a conclusão de um estudo da Universidade de Berkeley, EUA. Estar exposto a novos vocábulos não só faz com que aprendam a ler melhor, mas também permite alcançar resultados mais altos em testes de inteligência.  Para além disso, é essencial que opte por um livro e não um ecrã – ler num dispositivo faz com que fiquemos entre 20 a 30% mais lento, lê-se num estudo da Universidade do Texas.
Ler faz bem ao cérebro: Tal como fazer jogging ajuda a melhorar o sistema cardiovascular, ler regularmente ajuda a melhorar a memória, explica um estudo publicado na Neurology. 
Tornamo-nos mais empáticos: Uma boa leitura pode fazer com que seja mais fácil aproximarmo-nos de outros. Alguns livros, principalmente os de ficção, ajudam-nos a ‘ler’ as emoções daqueles que nos rodeiam com uma maior facilidade, explica uma investigação publicada no site Science.
Folhear ajuda a concentrar: Por incrível que pareça, mudar de página ajuda-nos a contextualizar melhor aquilo que estamos a ler, o que pode proporcionar um melhor entendimento e uma maior compreensão da obra que lemos, explica um texto publicado na Wired.
Pode ajuda a prevenir a Doença de Alzheimer: Quem lê, joga xadrez e faz puzzles tem uma menor probabilidade de vir a desenvolver Alzheimer quando comparando com aqueles que não praticam actividades tão estimulantes, explica um estudo publicado no site da Proceedings of the National Academy of Sciences.
Ajuda a relaxar: Um estudo realizado na Universidade de Sussex mostra que ler ajuda a reduzir o stress em 68%. “Não importa que livro lê. Ao ‘perder-se’ num bom enredo, consegue esquecer as preocupações do dia-a-dia e passa algum tempo a explorar o imaginário do autor da obra” explicou o neuropsiquiatra David Lewis ao jornal Telegraph.
Ajuda a adormecer: Se fizer da leitura nocturna um hábito, o seu corpo perceber que, depois de ler algumas páginas, está na altura de ‘desligar’, explica uma investigação da Mayo Clinic. Ler um livro faz mais pelo seu sono do que um computador ou um tablet – a luz emitida pelos ecrãs faz com que esteja acordado durante mais tempo.
Ler é ‘contagiante’: A maioria dos pais gostava que os filhos lessem mais, mas a verdade é que não fazem muito para que isso aconteça – a maioria deixa de lhes ler histórias quando eles aprendem a ler. Um novoestudo  divulgado pela editora Scholastic mostra que ler em voz alta para as crianças  durante a primária ajuda-as a tornarem-se verdadeiros amantes de literatura. Ou seja, não deixe de lhes ler histórias à noite. Esse hábito só lhes vai fazer bem no futuro.

Retirado de: http://www.sol.pt/noticia/122277