Mostrar mensagens com a etiqueta Do Mundo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Do Mundo. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Sozinha, uma mulher negra fez frente a 300 neonazis.


O que leva uma mulher a desafiar cerca de 300 neonazis? A protagonista desta história é Tess Asplund, uma mulher de 42 anos, com ascendência africana, cuja sua imagem se tornou viral depois de ter enfrentado sozinha, no último domingo, uma manifestação organizada pelo Movimento da Resistência Nórdica, na cidade de Borlänge, Suécia.
A imagem de Tess Asplund de punho erguido a enfrentar o grupo de extrema-direita está a correr o mundo. Entrevistada pelo jornal britânico The Guardian, Asplund conta que não reflectiu e agiu no momento. “Foi um impulso. Eu estava tão zangada, tive de sair para a rua”, confessa. “Só pensava: nem pensar, eles não podem marchar aqui. Nenhum nazi vai marchar aqui, não está correcto”.
Depois da manifestação, apanhou um comboio para Estocolmo e esqueceu o assunto. Segunda-feira percebeu que a foto estava a correr as redes sociais. Agora teme pelos seus 50 kgs de coragem que lhe parecem pouco quando pensa nos “grandes e loucos” membros do grupo de extrema-direita. “Talvez não o devesse ter feito, quero paz e sossego”, desabafa.
O medo não é em vão. Tess afirma que as acções daquele grupo lhe são familiares e conta que alguns dos seus amigos já foram atacados e obrigados a mudar de casa. A mulher já recebeu telefonemas anónimos a meio da noite onde pessoas lhe gritam do outro lado do auscultador. “É difícil falar sobre o ódio. Sinto vergonha por termos este problema. As autoridades dizem que é um país democrático. Mas estamos a falar de nazis! É horrível”, confessa.
A manifestação de domingo acontece numa altura em que os movimentos de extrema-direita estão a aumentar na Suécia, explica Daniel Poohl, editor daExpo, uma revista anti-racista sueca, à qual pertence o fotógrafo que captou a imagem viral.
O impacto da fotografia foi tal que os meios de comunicação suecos já a compararam a uma outra famosa imagem, capturada por Hans Runesson em 1985, e que ficou conhecida como “a senhora com a mala”. Na imagem, hoje com mais de três décadas, uma mulher usa a sua mala para bater numskinhead do partido neo-nazi sueco, dissolvido em 2009.
As sondagens mostram que os Democratas Suecos, um partido nacionalista, conservador e anti-imigração, conquistam 15% a 20% das intenções de voto dos eleitores e mantêm o poder no Parlamento, enquanto a proliferação do seu discurso se espalha por sites que incitam ao ódio. É no espectro mais extremista desta ideologia que encontramos o Movimento da Resistência Nórdica, explica Poohl.
“Vivemos numa Europa onde as ideias de extrema-direita se estão a tornar cada vez mais populares e também existe uma reacção contra elas”. “Vivemos dias em que as pessoas aguardam por algo que canalize esta necessidade de resistir à Europa que constrói muros e fronteiras contra refugiados, uma Europa com quem não podem cooperar mais. O gesto de Tess capturou um desses conflitos actuais”, analisa.
Recorde-se que a Suécia rejeitou, no início deste ano, a entrada de mais refugiados e migrantes da Ásia e Médio Oriente, alegando receio de que esta vaga ameace a segurança nacional, depois de se terem registado episódios de violência em centros de acolhimento de refugiados. Em Janeiro o país começou a recusar a entrada de migrantes sem documentos.
No último ano, as Nações Unidas consideraram que o país tem um problema específico de Afrofobia.

"O racismo foi normalizado na Suécia. Pensava que a Suécia em 2016 iria ser mais aberta, mas alguma coisa aconteceu”, lamenta Tess. “Espero que algo positivo resulte desta fotografia. Talvez aquilo que eu fiz se torne um símbolo de que qualquer pessoa pode fazer alguma coisa. Se uma pessoa o conseguiu, qualquer um consegue”, conclui. (Jornal Público)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Depois de Marrocos e do Egipto, também os Emirados Árabes Unidos interditam Exodus.


Há mais um país determinado a interditar a exibição de Exodus: Gods and Kings: os Emirados Árabes Unidos (EAU) anunciaram na terça-feira que o novo filme de Ridley Scott, um fresco bíblico sobre a longa jornada de Moisés e do povo judeu através do Egipto, não será exibido nas salas de cinema do país devido a "erros históricos e religiosos". "O filme nega que Moisés seja um profeta e redu-lo ao estatuto de um pregador pela paz", justificou o director do National Media Council dos EAU, Juma Obaid al-Leem, citado pela AFP, acrescentando que "a narrativa de Ridley Scott contraria a versão dos factos que está inscrita na Bíblia.
Depois de Marrocos e do Egipto, os EAU são o terceiro país a proibir a projecção de Exodus, uma produção que custou mais de 140 milhões de dólares (cerca de 115 milhões de euros) mas que rendeu já cerca de um sexto desse montante só no primeiro fim-de-semana de exibição nos Estados Unidos.
Embora seja um fenómeno relativamente raro nos EAU, a interdição de um filme está prevista na lei, nomeadamente nos casos em que haja ofensa à religião oficial do país, o islamismo. Esse é, de resto, um dos argumentos invocados pelo National Media Council para defender a decisão agora tomada: "Não permitimos a distorção das religiões (...). Quando se trata de filmes históricos ou religiosos, estamos atentos ao relato, que deve ser correcto, e temos o cuidado de impedir que as imagens possam ferir os sentimentos de terceiros", sublinhou al-Leem, explicando que Exodus viola um dos mandamentos mais irrevogáveis da religião muçulmana, que proibe expressamente a representação de Deus. "É perfeitamente normal que exprimamos as nossas reservas sobre um filme em cada mil", disse ainda o responsável, desvalorizando o impacto mediático deste acto de censura num país em que a esmagadora maioria da população (mais de 90% dos habitantes dos emirados são expatriados) não tem qualquer vínculo com a religião muçulmana.
Razões semelhantes foram invocadas no Egipto, onde o ministro da Cultura, Gaber Asfour, convocou uma conferência de imprensa na passada sexta-feira, 26, para informar que a comissão especial encarregue de aprovar a exibição deExodus se tinha decidido unanimemente pela sua interdição. Asfour, que presidiu pessoalmente aos trabalhos da comissão (composta, entre outros elementos, pelo director dos serviços de censura egípcios e por historiadores), alegou que o filme de Ridley Scott "faz de Moisés e dos judeus os construtores de pirâmides, contrariando a investigação histórica": "É um filme sionista por excelência. Apresenta os factos de um ponto de vista sionista e contém uma falsificação da história", disse à AFP. A comissão especial que avaliou o filme censurou particularmente a cena da divisão do Mar Vermelho: "No filme, Moisés tem uma espada e não um bastão, e a divisão das águas é atribuída a um fenómeno natural de avanço e recuo das marés", criticou Mohamed Afifi, chefe do Conselho Supremo para a Cultura.
Dias antes, em Marrocos, as salas de cinema de todo o país receberam indicações orais para desprogramar a exibição de Exodus, cuja estreia estava prevista para 24 de Dezembro. Argumentando que o filme tinha obtido um visto de exibição em condições perfeitamente legais, uma sala de cinema de Marraquexe, o Colisée, continuou a projectar o filme até sábado, dia em que o Centro de Cinematografia Marroquino (CCM) emitiu finalmente uma ordem escrita decretando a proibição do filme na sequência de uma decisão unânime de uma comissão de apreciação.
Tal como nos EAU, a violação dos preceitos islâmicos foi a razão invocada: "Ridley Scott representa Deus na figura de uma criança, no momento da revelação divina feita a Moisés. Essa representação física é um erro." Entretanto, em declarações à revista TelQuel, o director do CCM explicou que a interdição de Exodus se devia também a "motivos de segurança": "Viram o que se passou na Tunísia após a exibição do filme Persépolis. O turismo continua a ressentir-se disso até hoje", lembrou, aludindo à violência de islamistas radicais na sequência da difusão do filme de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud em Outubro de 2012 por uma cadeia privada tunisina. (Jornal Público – 02.Jan.2015)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Morreu o ator Robin Williams.



Vencedor do Óscar por «O Bom Rebelde» e protagonista de filmes marcantes ao longo de 30 anos, Robin Williams morreu aos 63 anos. Suspeita-se que a morte, por asfixia, tenha sido um suicídio.
Robin Williams morreu esta segunda-feira de manhã aos 63 anos. Vários órgãos de comunicação social norte-americana adiantaram tratar-se de suicídio. Embora a sua representante não tenha ido tão longe, o comunicado oficial refere que o ator «estava a lutar contra uma grave depressão. Esta é uma trágica e súbita perda. A família respeitosamente pede para que seja respeitada a sua privacidade durante o seu luto neste momento muito difícil». De acordo com o comunicado do chefe de polícia de Marin County, suspeita-se de «suicídio por asfixia».
Susan Schneider, a sua esposa, de quem se separara durante algum tempo, enviou também um comunicado: «Esta manhã perdi o meu marido e o meu melhor amigo, enquanto o mundo perdeu um dos seus mais amados artistas e seres humanos. Estou completamente de coração partido. Em nome da família de Robin, pedimos privacidade durante este nosso tempo de profunda tristeza. Conforme ele é recordado, a nossa esperança é que o foco não seja na morte do Robin, mas nos inúmeros momentos de alegria e riso que ele deu a milhões de pessoas.»
Na década de 70 e inícios de 80, Williams teve uma forte dependência do álcool e da cocaína, que ultrapassou na sequência do nascimento do primeiro filho e do susto com a morte por «overdose» do amigo John Belushi. Vinte anos depois recaiu no vício do álcool, o que o levou a internar-se em 2006 numa clínica de reabilitação, algo que voltaria a fazer em janeiro deste ano, no que indicou ser apenas uma pausa para repouso no meio de uma agenda carregada de trabalho.
O ator tem por estrear uma comédia do circuito independente, «Merry Friggin’ Christmas», com Lauren Graham e Oliver Platt, a 7 de novembro, e «À Noite, No Museu 3», onde volta a ser o presidente Theodore Roosevelt ao lado de Ben Stiller, a 19 de dezembro. Sem data estão «Boulevard», um drama de Dito Montiel, e a comédia britânica «Absolutely Anything», de Terry Jones, com Simon Pegg e Kate Beckinsale, onde dá voz a um cão. Tinha também assinado contrato para voltar a ser Mrs. Doubtfire na continuação do seu grande êxito de 1993, novamente dirigido por Chris Columbus.
Um ícone que viveu intensamente entre a comédia e o drama
Nascido a 21 de julho de 1951, foi bolseiro na prestigiada Julliard School de Nova Iorque ao mesmo tempo que servia em bares e fazia o circuito de «stand-up» nos clubes noturnos ao lado de parceiros como Eddie Murphy, Jerry Seinfeld ou Jon Stewart. «A comédia é o meu oxigénio», diria muito mais tarde.
Em 1977, estreou-se na televisão e tornou-se logo um fenómeno. Significativamente, como um extraterrestre em «Mork and Mindy». A personagem surgira primeiro em dois episódios de «Happy Days» e um dos seus atores, Henry Winkler, em declarações ao Hollywood Reporter, recordou o talento incontrolável e como a sua única tarefa se tornou «manter uma cara séria», observando que os argumentos subsequentes de «Mork e Mink» eram 15 páginas mais curtos, com notas que frequentemente referiam «Robin vai fazer alguma coisa aqui».
A passagem para o grande ecrã deu-se em 1980 com uma adaptação dos «comics» sobre o marinheiro que come espinafres para ter força: os resultados de «Popeye» não foram felizes, não obstante o seu talento e a presença de Robert Altman atrás das câmaras. Pelo contrário, todos repararam quando foi o excêntrico escritor em «O Estranho Mundo de Garp», dois anos mais tarde, ao lado de Glenn Close, que se tornaria um dos títulos mais importantes da sua carreira.
Sucederam-se filmes de qualidade muito desigual como «Os Sobreviventes», «Um Russo em Nova Iorque»(uma primeira viragem dramática), «Clube Paraíso» e «A Brigada do Reumático», até que se dá a viragem com «Bom Dia, Vietname», com Barry Levinson a controlar e tirar o melhor partido do seu explosivo talento como Adrian Cronauer, o indomável animador radiofónico das forças armadas em Saigão. Obteve uma nomeação para o Óscar de Melhor Ator, acontecimento pouco comum para o género.
Robin Williams tornou-se mais exigente com os argumentos. Do encontro com Peter Weir, realizador conhecido pelo seu rigor, resulta o segundo filme a que sempre estará associado, «O Clube dos Poetas Mortos»: ele era John Keatin, o novo professor de literatura inglesa que chegava ao colégio interno de Welton em 1959 e se tornava o «capitão» que revelava aos seus jovens estudantes poetas como Keats, Byron e Walt Whitman, abrindo-lhes novos horizontes para existências que pareciam pré-estabelecidas. O mesmo sucedeu na vida real com muitos dos que o viram: tornou-se um fenómeno cultural (em Portugal esteve mais de um ano em exibição nas salas) e revelou atores como Ethan Hawke, Robert Sean Leonard e Josh Charles, bem como o talento dramático de Williams, novamente nomeado para o Óscar. «Carpe diem. Agarrem o momento, rapazes. Tornem as vossas vidas extraordinárias» tornou-se um lema de vida para gerações de espetadores.
A presença secundária em «Despertares» (90), de Penny Marshall, ao lado de Robert De Niro, e depois com Jeff Bridges em «O Rei Pescador» (91), de Terry Gilliam, e que foi a sua terceira nomeação para o Óscar, consolidam o estatuto enquanto ator e estrela de cinema.
O sucesso banalizou um talento único
Uma segunda fase da carreira, com o regresso à comédia e a dominar grande parte das atenções, começa com três inesperados e sonantes fracassos comerciais de Roger Donaldson, Steven Spielberg e Barry Levinson, «Um Sedutor em Apuros» (90), «Hook» (91) e «Toys - Fabricante de Sonhos» (92), este um projeto muito pessoal. No entanto, ao mesmo tempo, é justo dizer que o impacto do seu trabalho vocal como génio em «Aladdin» (92) se revelou determinante no lento processo de recuperação da animação da Disney, que começara com «A Pequena Sereia» (89), continuaria com «A Bela e O Monstro» e culminaria em «O Rei Leão» (94), não obstante uma posterior zanga com o estúdio por causa da partilha de receitas, bem como no lançamento do movimento de colocar estrelas de cinema a dar voz a personagens de animação.
«Papá Para Sempre», em que era um pai desempregado que se torna uma competente governanta inglesa para estar mais perto dos filhos após um processo de divórcio, afirma-se como o outro marco importante: ali está o louco talentoso, o génio do improviso e a super estrela da comédia. De certa forma, nas irregulares comédias que se seguiram esteve completamente à solta para combinar esses elementos e apesar de vários terem sido bem sucedidos, a alquimia perfeita só se repetiria quando tinha um realizador capaz de controlar os exageros, como sucedeu com Mike Nichols em «Casa de Doidas», em que o papel mais expansivo até foi entregue a Nathan Lane.
Assim, a uma muito elogiada participação dramática na série «Departamento de Homicídios» para Barry Levinson seguiram-se títulos como «Jumanji», «Nove Meses» (cuja presença caricatural antecipava o tom de muitos dos papéis após a mudança de século) ou «Jack», que muitos não perdoam a Francis Ford Coppola.
Em 1997, quando os melhores momentos dramáticos pareciam ter ficado para trás e parecia reduzido a filmes como o desastroso «O Dia dos Pais», ao lado do amigo Billy Cristal, ou «Flubber - O Professor Distraído», surgiu «O Bom Rebelde», onde era um terapeuta que ajudava a personagem problemática interpretada por Matt Damon. E na época como agora, o Óscar recebido como ator secundário foi entendido como uma compensação pelos títulos anteriormente que lhe tinham valido nomeações.
Com exceção de «Patch Adams» (98), a grande maioria dos filmes que se seguiram à consagração artística, entre ambiciosos e banais, foram auto-indulgentes e pouco acrescentaram. Pelo contrário, alguns, como «Para Além do Horizonte» e «O Homem Bicentenário», foram mesmo notórios e caríssimos fracassos comerciais que marcaram o início de um lento declínio que infelizmente grandes interpretações em «One Hour Photo - Câmara Indiscreta» (02), «Insomnia» e «Smoochy», não por acaso as suas mais pessimistas, não conseguiram contrariar. Entre muitas presenças secundárias a roçar a caricatura que não faziam justiça ao seu legado, destacam-se «Happy Feet», um sucesso da animação, e a interpretação secundária como o presidente Eisenhower em «O Mordomo».
Em 2013, regressou à televisão com «The Crazy Ones», cancelada ao fim da primeira temporada a 10 de Maio. «The Angriest Man in Brooklyn», de Phil Alden Robinson, o último filme a estrear em vida, estreia em Portugal a 9 de outubro.
Nuno Antunes
(retirado de : http://cinema.sapo.pt/atualidade/noticias/morreu-o-ator-robin-williams)


quarta-feira, 16 de abril de 2014



Separadas pelo tempo e pelo espaço, a cidade de Istambul e a região da Capadócia são dois pilares fundamentais para entender o fascínio da Turquia. José Luís Peixoto voltou rendido, sem se importar com as perguntas que ficaram por responder. (In Revista “Volta ao Mundo”)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O perdão de Filomena.


"Filomena" conta uma história real. Conta muitas coisas. De dois mundos em coabitação fugaz - o do jornalista e assessor político retirado sem glória, que se prepara para escrever um livro sobre a história da Rússia, e duma simples mulher do povo, com gostos literários mais prosaicos. Do amor e da perda dum filho. Da culpa e das pazes que queremos fazer com a nossa própria história quando o fim se aproxima. Mas "Filomena" fala, antes de tudo, de um conflito moral fundamental nas nossas vidas. A partir duma história de abuso de que a Igreja Católica em geral e a Igreja irlandesa em particular está cheia.
Filomena engravidou sem ser casada. Na conservadoríssima Irlanda de 1952. Coberto da vergonha que o julgamento social impunha, um pai que amava mais a sua imagem do que a sua filha, entregou-a a um convento. Por lá pariu e trabalhou durante quatro anos para pagar as despesas. O seu filho foi, como os filhos de todas as jovens mães que ali estavam, entregue para adopção famílias abastadas que compraram as crianças. Sem a sua autorização, claro. Ou seja, o seu filho foi-lhe roubado. O resto não conto, para não estragar.
Apesar de nunca me deixar de sentir esmagado pela crueldade que o conservadorismo extremo carrega em si, não me preparo para um manifesto anticlerical. De crimes estão cheios todos os templos, mas também todas instituições de poder. Ainda mais uma instituição milenar. Ainda mais uma instituição que, por natureza, escapa ao escrutínio público. Ainda mais uma instituição que exige obediência e se move no território da fé.
"Filomena" fala duma coisa muito mais interessante do que qualquer julgamento histórico duma instituição demasiado grande para caber num só texto. Fala do confronto entre o sofrimento extremo de um individuo e a vontade e preservar uma instituição que o explica como pessoa. Como julgar os que moldaram o que somos pode ser ainda mais violento do que nos julgarmos a nós próprios. Na realidade, pode ser exatamente a mesma coisa. Por isso compreendo tão bem aqueles que, chegados ao fim da vida, se recusam a negar tudo aquilo em que acreditaram e todas as instituições a que pertenceram, por mais evidente que tenham sido os seus erros. Pedir que neguemos toda a sua vida é exigir demais a quem é apenas humano.
Pelo menos esta é a parte do filme de Stephen Frears que mais me interessa. Porque retira à obediência a visão simplista de quem pensa que ela resulta apenas da anulação do indivíduo. Como se o lugar de onde vimos e onde estivemos não fizesse parte da nossa individualidade. Ainda mais quando essa obediência, que nos faz ser injustos connosco mesmos, não resulta do medo e da coação, mas do sentimento de pertença e de dever. É um conflito tramado que a personagem do filho biológico, gay republicano que, com SIDA, trabalha convictamente com o governo que recusa investir no combate à doença. A vida está cheia de contradições.
Filomena existiu. E chama-se mesmo Filomena. E divide a sua história com milhares de outras mães que foram exploradas e roubadas na sua maternidade pela Igreja irlandesa. Mas o mais interessante desta história é a dificuldade que Filomena tem em culpar as freiras que foram as suas carrascas. E ainda mais a Igreja de que ela própria faz parte. Uma dificuldade incompreensível para o cínico, agnóstico e desiludido (ex-correspondente da BBC, ex- católico) Martin Sixsmit (autor do livro em que se baseia este filme).
Há, em Filomena, uma fronteira ténue entre a resignação e a capacidade de perdoar. Há, em Martin, uma fronteira ténue entre o sentido de justiça e a amargura. Martin não pode compreender Filomena. Ele não pertence a nada. Na realidade, ele não acredita em grande coisa. Filomena não pode compreender Martin. Afinal de contas, ela foi privada, desde muito cedo, da mais elementar noção de justiça.
No fim, lá as coisas equilíbram-se. Ele compreende a necessidade pessoal de perdoar, ela compreende a necessidade pessoal de denunciar. E, não sendo o filme da minha vida, a qualidade de "Filomena" é essa amenidade das personagens. A suavidade dos seus sofrimentos e julgamentos. Ele decide que não explorará de novo Filomena, não escrevendo sobre a história. Mas ela opta por uma justiça salomónica: perdoa as freiras (não poderia encontrar maior castigo contra quem apregoa o "perdão" sem nunca o ter experimentado), mas quer que a verdade se saiba. Tudo ao contrário de grande parte da história da Igreja Católica, no que toca aos seus pecados e aos dos outros. Ainda assim, um final absolutamente cristão. Que até o agnóstico Martin, de quem obviamente me sinto mais próximo, compreende.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Escritórios da Columbia TriStar Warner Filmes de Portugal vão encerrar.


É oficial, a distribuidora da Sony Pictures e da Warner vai fechar. Ainda não se sabe quem vai passar a distribuir os filmes dos dois estúdios americanos.
Os escritórios da Columbia TriStar Warner Filmes de Portugal (CTW) vão fechar no dia 31 de Março, revelou hoje a empresa em comunicado à imprensa. A CTW era a responsável pela distribuição dos filmes da Warner Bros. e da Sony Pictures Entertainment.
Uma fonte da empresa revelou ao PÚBLICO que, para a Columbia Pictures, a empresa portuguesa não apresentava níveis de rentabilidade satisfatórios devido à quebra que houve no mercado nacional. E segundo a agência Lusa o encerramento do escritório leva ao despedimento de 14 trabalhadores.
Os últimos filmes a ser lançados pela CTW vão ser o Winter’s Tale – Uma História de Amor, com estreia agendada para 13 de Fevereiro, o filme de animação Lego, a 27, e 300: O Início de um Império.
Assim, O Fantástico Homem-Aranha 2: O Poder de Electro, que vai estrear a 17 de Abril e que se espera venha a ser o grande lançamento da produtora para este ano, já não vai ser distribuído pela empresa portuguesa que era a segunda maior distribuidora a operar no mercado português.
A empresa, que em 2013 distribuiu 24 filmes, teve cerca de dois milhões de espetadores (uma quebra de 7,2 por cento em relação a 2012) e 11,8 milhões de euros de receita bruta de bilheteira (perdas de 6,5 por cento comparando com 2012) segundo dados recentes do Instituto do Cinema e Audiovisual, divulgados pela agência Lusa.
Sabe-se que a Sony Pictures tem vindo a reduzir o número de filmes lançados. Questionada sobre a possibilidade de a multinacional estar a atravessar uma crise, a mesma fonte da CTW revelou ao PÚBLICO que a Sony, onde está inserida a Sony Pictures, está à procura de optimizar soluções na gestão e irá despedir 5.000 trabalhadores, o que provavelmente também acabou por se reflectir em Portugal.

Ainda não foi revelado oficialmente quem vai passar a representar os estúdios da Warner Bros. e da Sony Pictures, no entanto, a mesma fonte garantiu que essa informação será revelada muito em breve.
O PÚBLICO tentou contactar a ZON Optimus, que se suspeita ser quem vai passar a distribuir os filmes que eram da responsabilidade CTW desde 1982, no entanto o grupo empresarial disse que não iria comentar o assunto.

Nota: Mais uma "machadada" no cinema e nos trabalhadores. O capital não pode perder...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Primeira tradução chinesa de Alberto Caeiro abre coleção dedicada a Pessoa na China.



A primeira tradução chinesa dos poemas e ensaios de Alberto Caeiro, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, vai ser lançada em Maio em Pequim, assinalando o início de uma colecção dedicada ao poeta português.
“Alberto Caeiro é a matriz dos outros heterónimos e a base dos fundamentos filosóficos de Fernando Pessoa”, realçou na quarta-feira à agência Lusa a tradutora, Min Xuefei.
O livro, com cerca de 300 páginas, é o primeiro volume de uma série intitulada “Obras de Fernando Pessoa”, que uma das mais conhecidas editoras chinesas, a Commercial Press, tem programado publicar ao longo dos próximos anos.
O segundo volume será preenchido com os poemas de Ricardo Reis, outro heterónimo de Pessoa, e a seguir sairá O Livro de Desassossego, adiantou Min Xuefei.
“Estou cheia de curiosidade para ver as reacções dos leitores chineses. Não serão iguais às dos ocidentais”, desabafou a tradutora. Min Xuefei considerou que Fernando Pessoa “é um autor universal” e sublinhou que “a filosofia” do poeta português “por vezes faz lembrar o taoismo e o budismo”.
“Já mostrei a tradução [dos poemas de Alberto Caeiro] a alguns poetas chineses e eles gostaram muito”, contou. (Jornal Público - 20.02.2013)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Biblioteca Digital.




A cidade de Bexar Country, no Texas, receberá a BiblioTech, a primeira biblioteca sem livros físicos. Todos os títulos estarão disponíveis apenas em versões digitais.
Funcionará assim: o indivíduo poderá ir ao local, pegar um e-reader e levá-lo para casa. Será possível ficar com o equipamento durante duas semanas – depois disso, será bloqueado. É claro que, para evitar furtos, cada um deverá deixar o seu endereço e uma série de informações pessoais. Na biblioteca ainda haverá computadores para uso.
A instituição foi idealizada pelo juiz Nelson Wolff, que tem mais de mil livros na sua casa. Segundo ele, o conceito foi inspirado pela biografia de Steve Jobs.
«Se quiser ter uma ideia de como se parecerá, vá à Apple Store», disse o idealizador ao jornal San Antonio Express.
Cada e-reader deverá custar 100 dólares ao governo. O acesso aos primeiros 10 mil livros deverá custar cerca de 250 mil dólares.
A ideia da BiblioTech não é substituir as bibliotecas comuns, mas sim funcionar como um complemento. Afinal de contas, segundo Wolff, haverá sempre procura pelos livros físicos.
Retirado de “Diário Digital”

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

“A Internet mudou a nossa percepção do tempo”




Nicholas Carr, finalista do Pulitzer, tem sido um crítico dos efeitos da Internet no nosso cérebro. Diz que a velocidade e bombardeamento de informação constante está a fazer-nos perder a capacidade de concentração e a tornar-nos menos reflexivos.
O livro de Nicholas Carr The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains, foi finalista dos prémios Pulitzer de não-ficção. Como o título indica, centra-se no impacto da Internet no nosso cérebro e nos efeitos perversos do seu lado distractivo, errático e rápido.
Este é um tema a que se tem dedicado e que o levou a escrever um ensaio amplamente divulgado no meio, “Is Google making us stupid?” (pode ler-se na edição online da revista The Atlantic), onde relata a sua experiência de leitura pós Internet e os efeitos na memória e concentração. Autor ainda de The Big Switch: Rewiring the World, from Edison to Google (2008) e de Does IT Matter? (2004), tem debatido o seu ponto de vista em várias universidades pelo mundo.  
O que é que o surpreendeu mais no avanço da Internet desde que a começou a usar?
O mais surpreendente foi a transformação de um meio de informação para um meio de mensagens – particularmente nos últimos anos, as pessoas tendem a usar a tecnologia para trocar mensagens pessoais, mais do que para procurar informação.
Desde o princípio que o email foi uma parte importante da Internet, mas a web era mais usada para a visita a páginas, para encontrar informação e explorar assuntos. À medida que usamos mais as redes sociais, a Internet torna-se mais num meio para enviar e receber mensagens. Não esperava que o uso da tecnologia mudasse tão drasticamente.
E como é que esse aumento na troca de mensagens afecta a forma como interagimos e pensamos?
A forma como a Internet se desenvolveu tornou-a mais distractiva, exigindo às pessoas que retenham constantemente pequenas partes de informação e que monitorizem pequenas correntes de informação. Uma das grandes mudanças nos últimos anos, com o advento de novas redes como o Facebook e o Twitter, e isso combinado com o aparecimento dos smartphones e dos pequenos computadores, é que a forma como a Internet funciona mudou. Portanto, passámos do modelo de ir a uma página web ver o que tinha para oferecer para o modelo de informação que está a correr constantemente e que aparece de vários sítios: do sms, do email, das actualizações do Facebook e dos tweets. Isso encorajou as pessoas a aceitar interrupções constantes, a fazer várias coisas ao mesmo tempo. Perdemos a capacidade de afastar as distracções e de sermos pensadores atentos, de nos concentrarmos no nosso raciocínio, ou seja, a forma como a tecnologia evoluiu nos últimos anos tornou-se mais distractiva; encoraja uma forma de pensar que é a de passar os olhos pela informação e desencoraja um pensamento mais atento.
A geração que cresceu entre o mundo analógico e o digital está entre essas duas formas de pensar e agir, mas quem é “nativo digital” está já imerso nessa realidade multitasking [de tarefas múltiplas] e distractiva que descreve. Isto não é mais uma mudança do que propriamente uma perda na forma como essa geração pensa?
Não estou convencido de que exista essa separação clara e definida entre uma geração e outra, a dos “nativos digitais” e a dos “imigrantes digitais”. A tecnologia é usada por mais velhos e mais novos e os efeitos tendem a ser os mesmos para a maioria. A diferença é que quanto mais cedo se está imerso na tecnologia – e é verdade que a tecnologia está a ser usada por pessoas cada vez mais novas –, maiores serão os efeitos na forma como aprendem a pensar. Uma das coisas que se sabem é que as grandes mudanças no nosso cérebro acontecem quando somos novos. Portanto, se as crianças estão imersas numa tecnologia que encoraja o multitasking e o pensamento distractivo, vão adaptar-se a isso e infelizmente não vão ter a oportunidade ou o incentivo para desenvolver modos de pensar mais contemplativos e reflexivos. Há o mito de que os “nativos digitais” não sofrem os efeitos das novas tecnologias, porque se adaptam desde cedo. Acontece que isso é completamente errado, são bastante influenciados pelos aspectos positivos e negativos da tecnologia, porque ela marca a forma como pensam desde o princípio.

retirado do jornal "Público".
Artigo completo em: 
http://www.publico.pt/tecnologia/noticia/a-internet-mudou-a-nossa-percepcao-do-tempo-1573458?fb_action_ids=394441410635426&fb_action_types=og.recommends&fb_source=other_multiline&action_object_map={%22394441410635426%22%3A118946048266421}&action_type_map={%22394441410635426%22%3A%22og.recommends%22}&action_ref_map=[]