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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Monges budistas e futebol. Quando o lado humano vence o espiritual.


Uma novidade nos Jogos. Aldeia Olímpica tem um centro religioso para prestar apoio espiritual aos atletas que o desejem
Quatro monges budistas caminhavam vagarosamente junto à entrada para a Aldeia Olímpica, onde desde o início dos Jogos está a funcionar um centro inter-religioso para receber atletas, treinadores ou voluntários que procurem apoio espiritual. Naquela terça-feira, estava também presente o mestre Nitiguen Takassaky, a quem os outros monges foram mostrar uma réplica de um dos quartos que estão disponíveis para os atletas nos 3604 apartamentos da Aldeia. A acompanhar o arcebispo seguem os monges Jyunsho, Eishin e... Roberto, nome que denuncia aquilo que já se percebera após a primeira troca de palavras. Todos eles são brasileiros, de origem japonesa.
A ligação familiar ao Japão remonta há 108 anos, quando o navio Kasato-maru aportou em Santos. Seguia a bordo a primeira vaga de emigrantes japoneses no Brasil e, entre eles, o monge Genju Ibaragui, considerado o divulgador do budismo primordial, linhagem que os monges da Aldeia Olímpica praticam. "A nossa função aqui é dar apoio espiritual aos atletas. Eles passam por muitas provas e ficam meses longe da família. Há a pressão do treinador, dos habitantes dos seus países, dos próprios Jogos, e no final só um é que vai poder ganhar. Mesmo com todo o treino físico e mental que possam fazer, nestas horas o sentimento dos atletas pode ser abalado, principalmente aqueles que estão aqui pela primeira vez. Por isso, conhecendo essa realidade, o Comité Olímpico Internacional (COI) criou este centro religioso para que possa ser prestado aos atletas, treinadores e até voluntários o apoio espiritual que precisem", conta ao DN Jyunsho Yoshikawa.
O budismo é uma das cinco religiões que estão no centro, juntamente com representantes cristãos (católicos e protestantes), muçulmanos, judeus e hindus. A seleção feita pelo COI foi baseada em estatística. Ficaram de fora, por exemplo, religiões de matiz africana, como o candomblé, com vários praticantes no Brasil. "Se for necessário atender a um outro credo existe uma lista de religiosos brasileiros a quem o centro recorre. Estão todos credenciados e prontos para vir para cá", garante Jyunsho Yoshikawa. O centro funciona das 07.00 às 22.00 e, fora desse horário, em regime de piquete, pois "nunca se sabe quando um atleta vai precisar de apoio espiritual".
Uma oração na hora
Os monges também não sabem quantas consultas já deram durante a sua estada na Aldeia Olímpica, mas dizem que muito do seu trabalho acaba por ser feito quando saem do centro inter-religioso e caminham pelos espaços destinados ao atletas. "Muitas vezes somos solicitados no meio da rua para darmos a nossa bênção, fazer uma oração. Por exemplo, hoje fomos abordados por uma saltadora mexicana [Yvone Trevino] e por um atleta dominicano de taekwondo [um dos dois representantes do país é Luisito Pie, o qual eliminou na quarta-feira o português Rui Bragança]. Por vezes, estão ali a treinar e pedem uma oração na hora", explica Jyunsho, acrescentando que não são apenas procurados por budistas: "Há também quem já tenha alguma informação sobre o que fazemos e que, aqui, quando não consegue encontrar o conforto mental que precisa, recorra a nós para experimentar algo diferente."
Como bons brasileiros, o futebol acaba por se juntar à conversa. "Eu ainda jogo futebol com os meus amigos. Sou adepto do São Paulo", apressa-se a dizer o arcebispo, de 56 anos. Os outros monges também revelam a sua preferência: há mais um adepto do São Paulo, outro do Palmeiras e um do Curitiba, a sua terra natal. "Ele é de Curitiba, mas também é são-paulino", atira o arcebispo. "Pode parar! Sou Curitiba mesmo. A minha equipa pode dar-me muitas tristezas, mas sou Curitiba até ao fim", responde Roberto Tadokoro. O futebol é um jogo de paixões, em que muitas vezes os ânimos se exaltam. E nem os monges escapam a esse sentimento. "É nesse momento que demonstramos o nosso lado humano em vez do espiritual", diz Roberto. O arcebispo junta mais lenha à fogueira e aponta para Jyunsho, o carioca que é adepto do Palmeiras: "Esse daí até chora. Copiosamente." Gargalhada geral.
Para já, o balanço que fazem da sua atividade no centro é francamente positivo. "Para nós é uma experiência nova e muito gratificante. É também um pouco pesada, porque temos de ter disponibilidade a toda a hora. Mas o mais compensador é conhecer pessoas do mundo inteiro, e isso permite-nos divulgar os nossos ensinamentos", lembra Nitiguen Takassaky.
A terminar, Jyunsho arrisca uma explicação para o sucesso da iniciativa na Aldeia Olímpica: "O ensinamento budista trabalha a alma e encaixa perfeitamente neste ambiente olímpico, em que todos os atletas são iguais. E alma não tem idade, sexo ou raça."

No Rio de Janeiro (DN – 19.Ago.2016)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Chance Glasco, o criador de Call of Duty, já só joga jogos vintage.


Cresceu indeciso entre ser astronauta, jogador de basebol ou designer de videojogos. Mas as mais de 90 milhões de cópias de videojogos vendidas em todo o mundo e os 3,6 mil milhões de euros em receitas parecem dar-lhe razão na escolha. O nome Chance Glasco pode não lhe dizer nada, mas se falarmos de Call of Duty, da empresa Infinity Ward, já compreenderá os números. Aos 22 anos, Glasco tornou-se o criador de um dos jogos de first-person shooter mais famosos de sempre, onde as missões de guerra decorrem sempre na primeira pessoa e a câmara nunca sai dos olhos do jogador. Actualmente a viver no Rio de Janeiro, o norte-americano Glasco, 35 anos, tem saltado de conferência em conferência, de país em país, e é em Lisboa que o encontramos, a convite da escola Restart. 
A inspiração para o Call of Duty chega-lhe da infância. Passou o tempo a construir fortes no meio do campo que lhe rodeava a casa nos Estados Unidos. Com três amigos que o acompanharam até à faculdade, desenvolveu personagens e histórias que inspiraram o jogo. Hoje, o co-fundador da Infinity Ward abandonou a empresa e já nem sequer joga o franchise que ajudou a criar. Os seus favoritos são os primeiros dois jogos, Call of Duty eCall of Duty 2, cuja história se inspira na Segunda Guerra Mundial, mas desde então a desilusão com a indústria dos videojogos é real e por isso, nos tempos livres, virou-se para os jogos vintage.
Quando joga online mantém-se anónimo, até porque “já não é tão bom como era”. Além disso, “o facto de alguém ser um engenheiro automóvel não o torna um bom piloto”, sublinha. Não assume nenhuma posição em particular, mas não gosta de jogar no lugar do atirador. Além disso, prefere jogar com amigos, porque considera que a comunicação durante o jogo torna-o “muito mais interessante”. Numa conversa sobre o passado, Chance vira-se para o futuro da indústria que, acredita, passará pela realidade virtual. Com essa certeza, apostou na criação de uma empresa que desenvolve simulações para plataformas de realidade virtual, a Doghead Simulations.
Com apenas 15 anos, arriscou aquela que foi a sua primeira tentativa de lançar um videojogo, mas sem sucesso. Call of Duty chegou sete anos depois e tornou-se um dos videojogos mais famosos do mundo, mas Chance não leva “demasiado a sério” nem as distinções nem as críticas dos fãs.
O trailer do novo jogo da saga, Call of Duty – Infinity Warfare, que saiu em Maio deste ano e já não foi feito por ele, é o segundo vídeo com mais “não gosto” no YouTube. São mais de três milhões que chumbam o vídeo contra as poucas mais de três mil dezenas que deram nota positiva ao que já se conhece sobre o novo jogo. Pior do que este trailer, só mesmo o videoclipe da música Baby de Justin Bieber. O que correu mal? “Nada. Quando algo se torna tão falado e famoso, há sempre alguém que vai odiar." O mesmo acontece quando lhe falam da distinção conquistada há dois anos, quando o Guiness World Records considerou Call of Duty a melhor série de jogos defirst person shooter de sempre, derrotando Grand Theft Auto,Pokémon ou Super Mário. “O que é que torna uma coisa a melhor do mundo? Ninguém vai discutir qual é a melhor cor”, desvaloriza.
Uma das perguntas que mais lhe fazem é como se sente por ser odiado por tantas mães, que vêem os filhos agarrados ao computador, horas a fio, empenhados “naquela” missão, a adiar o jantar ou as horas de estudo porque “não podem fazer uma pausa" na sua missão de "destruir o inimigo”. A resposta chega sem dar espaço para contra-argumentações. “Os pais têm de ser pais. Os jogos estão classificados como conteúdo para maiores de idade e existe uma razão para que essa classificação exista”, justifica. “Ninguém diz a um obeso que a doença irá ser tratada tornando a comida menos saborosa. E o mesmo se aplica aos jogos. O jogo foi pensado para adultos e foi desenvolvido para ser um jogo divertido." Não faz sentido diminuir a sua qualidade para se combaterem eventuais vícios, continua Glasco.
Quando deixou a Infinity Ward, a equipa estava a trabalhar numa versão espacial do jogo, mas Glasco, cuja varanda tinha vista para o Centro Espacial John F. Kennedy, na Florida, e apesar das suas antigas ambições de “homem do espaço”, chumbou a proposta. “Estava farto do jogo e por isso pensei: vamos ser ridículos. Vamos colocar dinossauros gigantes, pessoas a montarem dinossauros, armas de laser”, justifica. O criador de Call of Dutyconfessa que por esta altura já sabia que iria desistir da empresa, mas não o quis fazer “sem deixar a melhor ideia de sempre”, pelo menos para ele.
“Falta inovação na indústria de jogos Triple A”,diz referindo-se à classificação que distingue os jogos de elevada qualidade. “Passa-se o mesmo na indústria da música. Se lançares um álbum muito popular, se venderes três milhões de cópias o mais provável é que te peçam para fazer um álbum igual. E foi isso que aconteceu com o Call of Duty e todos os outros jogos Triple A”, conta. “A partir do momento em que há muito dinheiro investido, as probabilidades de os programadores criarem conteúdo inovador diminui porque o risco é maior.”



Para Glasco, Modern Warfare 2, lançado em Novembro de 2009, foi “o último jogo com cenários realistícos” da série Call of Duty, e o último que se lembra de ter jogado. Desde então, todas as versões lançadas parecem ser feitas pelo “Michael Bay [realizador de Transformers ] dos videojogos”, isto é: cheias de explosões e efeitos especiais e com dispendiosos orçamentos de produção. Desiludido com o rumo do jogo, Glasco decidiu sair da Infinity Ward da Activision e dedicou-se ao desenvolvimento de aplicações que têm por base cenários de realidade virtual.
Para já, o primeiro software em que está a trabalhar está a ser desenvolvido para ser utilizado por grandes empresas. Para Chance Glasco, a realidade virtual é o presente da comunicação. Se for necessário marcar uma reunião, em vez de se gastar dinheiro em deslocações pode “marcar-se esse encontro na realidade virtual”, sugere o antigo criador de videojogos. Fala naturalmente, como se a realidade virtual fosse uma conhecida e movimentada avenida na cidade, e defende que a realidade virtual deverá começar a ser adaptada de uma forma generalizada num curto período de tempo.
“O facto de vermos as nossas mãos personificadas no nosso avatar permite-nos expressarmo-nos de uma forma muito mais natural através da linguagem corporal." Acredita que esta maneira de comunicar é mais natural do que um encontro feito por Skype, por exemplo. “E isso é fundamental até mesmo para um ambiente mais saudável entre equipas de trabalho”, defende. “As pessoas tendem a pensar a realidade virtual como uma funcionalidade exclusiva dos videojogos”, o que é bastante limitado. “A realidade virtual permite-nos trabalhar com pessoas que estejam doentes, tratar traumas ou até mesmo apostar na melhoria de condições no ensino à distância”, exemplifica. 

Jornal Público - Julho 2016

terça-feira, 12 de julho de 2016

O texto que eu não queria escrever e que o Ronaldo me obrigou a escrever.


O que há mais a dizer sobre um homem do qual sabemos e já vimos tudo?

Nasceu pobre no Funchal, comeu apenas uma banana e um iogurte e uma sandes durante vários dias inteiros, jogou no Andorinhas e depois no Nacional e depois no Sporting, pôs pesos nos tornozelos, quis ter mais força nas pernas do que o André Cruz, partiu os rins ao John O'Shea e saiu do Sporting para o Manchester United, voltou a partir os rins ao John O'Shea nos treinos e em seguida a todos os outros que lhe aparecereram pela frente em Inglaterra, esculpiu um físico de nadador olímpico, deixou-se de fintas e passou a marcar golos, inventou um livre, ganhou uma Liga dos Campeões e a primeira Bola de Ouro, foi para o Real Madrid e teve 90 mil pessoas no estádio e o mundo inteiro a vê-lo pela TV a gritar “hala Madrid!”, rebentou com todos os recordes do Di Stéfano e do Hugo Sánchez e do Raúl no Real Madrid, conquistou outras duas Ligas dos Campeões e outras duas Bolas de Ouro, gritou “Siiiiii!” à frente do filho que entretanto teve, renovou contrato por valores astronómicos, esteve no Euro 2004, Mundial 2006, Euro 2008, Mundial 2010, Euro 2012, Mundial 2014 (e está no Euro 2016), ultrapassou o Figo e o Eusébio e o Pauleta – carregou tantas vezes Portugal e os seus clubes às costas com golos e exibições inacreditáveis que se torna dificil datar duas ou três delas, talvez aqueles três golos à Suécia que nos levou ao Mundial 2014 e aqueles dois golos à Arménia para este Euro 2016.
Depois disto tudo, tudo o que eu não queria era escrever sobre ele, porque já quase tudo foi dito, escrito, revisto, revisitado, inventado e reinventado, pisado e reinventado - e fico-me por aqui nos verbos que querem dizer praticamente a mesma coisa.
Convenhamos, há uma tendência generalizada para a redundância e navegação na maionese e repetição temática quando se escreve sobre Cristiano Ronaldo. É que já ouvimos muitas vezes uma história semelhante a esta, não é verdade?
A do homem que está em baixo, agarrado a um joelho ou a uma perna, que está cansado e maldisposto e rezingão, que não dá uma para a caixa e depois põe duas na gaveta algumas horas após um encontro imediato entre um microfone e um charco, que se vai abaixo outra vez quando falha com a baliza escancarada para enfim se levantar como Cristo, ao terceiro jogo, num pulo que o faz levitar e pairar e parar no tempo e o tempo como o Michael Jordan – e resolver todos os problemas que pareciam irresolúveis até à ressureição. E que ainda acrescenta um remate que resulta numa assistência para outro golo de um colega de equipa que corre para ele, todo contente, num abraço a dois que rapidamente passa a três, quatro, dez, onze, vinte e três e uns quantos mais, enfim, o peso de uma equipa e de uma Federação e de um país em cima do único tipo capaz de desimpedir um beco e criar uma estrada ao pontapé e à cabeçada.
Deem-lhe uma bola e um ponto de apoio e ele fará o que Arquimedes disse que faria: mover o mundo. Pode começar pela Europa.

(Expresso – Pedro Candeias – Julho 2016)

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Salgueiro Maia: A saga de um capitão de Abril.


http://expresso.sapo.pt/multimedia/2016-07-06-O-capitao-que-quase-enganou-a-tristeza
(video)

No momento em que se encontrava sozinho no Terreiro do Paço, frente a frente com as tropas de Cavalaria 7, leais ao governo, com argumentos de revolucionário e uma granada no bolso (como último e extremo recurso), Salgueiro Maia talvez não tivesse idéia do lugar que aquele “teatro de operações” ia lhe conferindo, ao longo daquele 25 de abril, dentro da História Contemporânea portuguesa.
A “Revolução dos Cravos” não foi obra de um único homem, mas sim de todo o povo português, civil ou militar. Da mesma forma, vários foram os militares envolvidos na sua concretização. No entanto, nenhum outro representa hoje o “espírito do 25 de abril” como ele. Talvez por ter sido ele o comandante direto da coluna que marchou de Santarém até Lisboa, no cerco que determinou a rendição de uma ditadura de mais de quatro décadas. Talvez ainda por ser ele dono de um caráter e personalidade íntegros, qualidades que em si já encerram os valores de um país que se ambicionava construir.
“Era uma pessoa de caráter forte e um grande poder de decisão. Mas também era dócil, muito alegre. Gostava de ajudar os outros e de reunir os amigos por qualquer motivo”, conta Natércia Maia. A viúva do capitão ainda vive e dá aulas em Santarém, cidade à 78 Km de Lisboa, local onde o conheceu, recém-chegado de Moçambique. Corria o ano de 1969 e a guerra colonial recrudescia. Um ano depois os dois se casam e ele começa a se preparar para uma nova incursão em continente africano, agora na Guiné.
            “Quando ele foi para Moçambique, havia aquele espírito de cavaleiro, de salvar a nação, e aquelas idéias incutidas pela nossa formação e, em especial, pela Academia Militar. Mas quando lá chegou, viu que realmente aqueles ideais não faziam sentido”, lembra Natércia.
            “Ele me contou que tinha entrado num café para tomar uma cerveja e que ouviu de um português daquele continente, que estava lá a dizer: Então já não há militares que cheguem para ir ao norte de Moçambique e é preciso também agora nossos filhos irem?”. 
             Quando Salgueiro Maia regressa da Guiné, em outubro de 1973, passa a integrar a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas (MFA) como um dos três delegados da Cavalaria. À ele foi dada a missão de comandar a coluna militar que, partindo de Santarém, se uniria à demais unidades em Lisboa. Além disso, também foi encarregado de preparar material e viaturas, e ainda organizar os quadros que participariam da marcha rumo à capital.
            A mensagem confirmando a data da operação chega. O capitão, de imediato, inicia os preparativos, que só terminam às três e vinte da madrugada de 25 de abril, quando as viaturas e os blindados Chaimite partem pela estrada escura.
            “Na véspera da revolução ele arranjou um saquinho com lenços (tinha sinusite) e cigarrilhas. Nós não dissemos nada, mas eu interpretei aquilo como uma certeza de vitória. Se tudo corresse bem ele, que normalmente não fumava, teria uma cigarrilha para festejar o acontecimento”, revela a viúva, atestando a confiança que o marido tinha no sucesso da operação. 
            Chegando ao Terreiro do Paço, em Lisboa, o comandante da coluna mantém-se frio em meio à tensão, provocada pela expectativa de combate com as tropas fiéis ao governo marcelista. Forças da GNR (Guarda Nacional Republicana) e da Cavalaria 7 seguiam para o local, enquanto que uma fragata, em manobras de intimidação nas águas do Tejo, ameaçava abrir fogo. Mas o problema acaba sendo contornado de uma maneira inesperada: os oficiais e sargentos do CC 7, muitos dos quais antigos colegas e ex-instruendos de Maia, passam para o lado dos revolucionários. O navio de guerra  também “deita as armas” com a intervenção de um oficial do MFA. 
            Não obstante a falta de informações, Salgueiro Maia acata ordens do comandante Otelo Saraiva de Carvalho e segue com uma parte da tropa para o Largo do Carmo, com o objetivo de cercar o quartel da Guarda Nacional, para onde se refugiara o chefe do governo, Marcelo Caetano.
Com um megafone, Maia dá um ultimato de rendição. Este pode ser considerado um dos momentos de maior tensão na história da operação. As horas iam passando e o silêncio dentro do quartel do Carmo desafiava a sagacidade do jovem capitão, na altura com menos de trinta anos.
Por volta das 17hs do dia 25, cansado de esperar, resolve entrar e falar, ele mesmo, com o comandante do quartel. Este por sua vez o leva até Marcelo Caetano que, visivelmente abatido (mas mantendo uma “postura de dignidade”, como gostava de lembrar Maia), aceita os termo da rendição, exigindo no entanto que o governo fosse entregue a um oficial superior. O general António de Spínola é então chamado e recebe o comando do governo provisório, a Junta da Salvação Nacional, cujo objetivo principal seria preparar a nação para a redemocratização e, como conseqüência futura, para as eleições livres.
            Em Santarém, depois de assistir a festa da população que saudava o regresso da coluna vitoriosa, o professor Luís Eugênio Martins Correia era convocado para tomar posse na primeira comissão administrativa da Câmara Municipal. Seu nome figurava entre outros sete de uma lista feita pelos capitães Maia e Correia Bernardo. São também dessa época as recordações que tem de Maia:
“Era um indivíduo cultíssimo, formado em História. Discutíamos muito sobre filosofia”, recorda o ex-vereador, hoje com 77 anos.
            “Em conversas, gostava de lembrar que na noite da revolução eu dormia e que, mesmo morando muito perto da estrada que conduz à Lisboa, não pude ouvir o barulho dos blindados e das viaturas passando. Costumo dizer que o Salgueiro Maia passou por meio do meu sono, e que quando regressou trazia a liberdade dentro dos carros.”


O homem antes do herói
            Fernando José Salgueiro Maia nasceu no dia 1 de julho de 1944, em Castelo de Vide (vila histórica da região do Alto Alentejo), onde viveu os primeiros anos de sua vida.
Filho de um ferroviário, Francisco da Luz Maia, Fernando José ficou órfão de mãe (D. Francisca Silvério Salgueiro) ainda muito novo. Devido a profissão do pai, várias foram as cidades nas quais morou: Tomar, Leiria, Pombal, Valença, Santarém... sem tempo suficiente para criar raízes em qualquer uma delas.
Concluído o 7º ano do Liceu, em Leiria, ingressou na Academia Militar em outubro de 1964. A guerra colonial, que havia começado em 1961, àquela altura já se estendia às regiões de Angola, Moçambique e Guiné. No final de 1966 apresenta-se na Escola Prática de Cavalaria, seguindo um tempo depois para sua primeira comissão em Moçambique.
“O curso da Academia tinha quatro anos, mas como havia falta de capitães o governo criou cursos intensivos de apenas três. Depois se fazia o estágio na própria guerra. Foi o que aconteceu com meu marido”, explica Natércia Maia. A partir daí, os caminhos da revolução começaram a ser trilhados. A História então se encarregaria do resto.
Mas apesar de sua devoção à causa, Salgueiro Maia passou a incomodar os quadros superiores de Exército, com seu espírito crítico e independente. Rejeitou cargos e privilégios dentro do governo que ajudou a instaurar. Desejava continuar apenas como um operacional, dentro da Escola Prática de Cavalaria, o que não veio a acontecer. Foi enviado para os Açores e posteriormente para outras unidades militares, desempenhando sempre tarefas burocráticas dentro de escritórios, às quais abominava. “Mesmo assim cumpriu com dedicação todas suas tarefas e missões”, orgulha-se Natércia.
“A pretexto do cumprimento de escalas, ele e muitos outros capitães foram designados para exercer funções, não menos honradas, mas de menor importância para militares que haviam operado uma revolução”, opina o general e ex-capitão do MFA Pezarat Correia, que conclui lacônico:
“A verdade é que os oficiais de alta patente das Forças Armadas, quando retomaram seus postos depois do 25 de abril, ficaram ressentidos com o fato de a revolução ter sido comandada por capitães, o que acontecia pela primeira vez na história dos golpes militares em Portugal.”
Fernando José Salgueiro Maia faleceu no dia 4 de abril de 1992, com 47 anos, abatido pelo câncer contra o qual vinha lutando desde 1989. O militar, que àquela altura ocupava o posto de tenente-coronel, deixou ainda dois filhos, Catarina e Filipe.

(retirado de: http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=RV2)

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Joel Neto, o "guardador da identidade da Terra Chã".


O Livro A Vida no Campo foi apresentado esta tarde em Lisboa. Fernando Alves, jornalista, leu uma carta aberta a Joel Neto em plena FNAC Chiado. E o autor comoveu-se, em Lisboa
A sala estava cheia e quente e ainda o trio sentado à mesa para onde todos os olhares convergiam não começara a falar. Hugo Gonçalves, da Marcador, começou a sessão de apresentação do livro A Vida no Campo, de Joel Neto - que junta um conjunto de textos publicados, diariamente, no Diário de Notícias: "Tal como Hemingway, [Joel Neto] consegue escrever com elegância sob pressão".
Hugo Gonçalves, que já fora camarada de redação de Joel Neto, agora no papel de editor destacou a literatura feita de pequenos nadas do açoriano que regressou às origens, na Ilha Terceira, há quatro anos: "O Joel só precisa de ver uma vaca a atravessar a estrada para escrever um romance". A plateia, mais-que-completa, riu-se. Joel também. Mal sabia o que viria a seguir.
O editor da Marcador seguia a sua "cábula eletrónica" e, quase a terminar, diria que Joel Neto encontrou, depois dos 30, "o amor e a paz de espírito e isso fez dele um escritor melhor."

O microfone - e o livro, estrategicamente colocado para as fotos e a transmissão vídeo em direto - mudou para a outra ponta da mesa. Fernando Alves, jornalista, contou-nos que "implorou a Joel Neto" para apresentar este livro, ainda ele não era livro, era um conjunto de textos publicados no Diário de Notícias. Que tinha "uma relação obsessiva" com aquelas crónicas do DN. "Ia aquela crónica como quem vai ao quarto dos pais", disse. "Ia às crónicas do Joel para me comover".
Depois Fernando Alves dirigiu-se, não à gorda plateia, mas ao autor, sentado à sua direita. E assim desfiou as folhas A4 em que trazia uma carta para Joel - que gostaria que também escutássemos.
O jornalista da TSF leu, então, uma espécie de metatexto do livro que ali se apresentava. Começou no início do livro, a dois dias do Equinócio, seguiu na peugada dos passos de Joel Neto, do cão Melville ("somos íntimos desse rafeiro dourado"), das gentes da Terra Chã: "Cada passagem é uma fajã".
Alves bebera as histórias de Joel com sofreguidão. Traz à salinha respirante e silenciosa o momento em que Joel Neto leva os seus leitores "para dentro de casa, para o único quarto sempre arrumado da casa, o quarto dos pais". Disse então Fernando Alves: "Não será este o único momento em que terei sido tomado por uma irresistível melancolia ou vontade de chorar". Lembrara-se do pai, no quarto dele em África, falar-lhe das constelações Cruzeiro do Sul ou o Sete Estrelo - que também está nas páginas de Joel.
Com estes textos diários (agora semanais, aos sábados) no DN e agora com o livro A Vida no Campo, Joel Neto transformou-se num guardião da memória. "Os teus textos são de alguém que não esquece" diria Alves a propósito do carteiro Emanuel, que citou Borges numa troca de piropos futebolísticos.
"Estás à escuta das palavras da tua ilha, esse magma primordial", disse-lhe o jornalista da rádio, que também quer escutar essas vozes. Alves confessou publicamente o desejo de seguir com o autor e o livro, Terra Chã fora, com o microfone a captar o som das vozes que pontuam o livro. Ouvir, por exemplo, o bombeiro que assistiu o avô de Joel quando este passou mal. Joel comove-se, com a discrição possível no centro dos olhares de uma sala cheia.
Joel, "guardador da identidade da Terra Chã", engoliu as lágrimas. Voltaria a olhar para Fernando e para a casa cheia. Mas o narrador voltaria às raízes das árvores e da família do autor (Joel Neto vive na casa que pertenceu ao avô). Às memórias em que se mexem a cada passeio ou na poda de árvores. Quando Fernando Alves se calou, Joel Neto não conseguia falar.
"É difícil explicar como tudo isto faz sentido". Tinha uma folha dobrada com agradecimentos que não conseguia fazer. Emocionou-se no coração de Lisboa - ele que se comove tanto nos Açores, como disse em entrevista ao DN.
Depois agradeceu à editora Marcador, à Booktailors, ao DN: "[o jornal] arriscou muito quando me pediu uma crónica, um exercício de estilo sobre o meu regresso insular."

A sessão terminou com uma longa fila para autógrafos. No sábado, às 23.00, Fernando Alves passa no seu programa da TSFZona Franca todas as músicas de A Vida no Campo. Se já estiver na Terra Chã, Joel Neto escutará no Roberts, o rádio com wi-fi, o único objeto que comprou no regresso aos Açores. (DN – 25 Maio 2016)


sábado, 16 de abril de 2016

Professor atravessa rio a nado há 20 anos para dar aulas.


Um homem de 40 anos, professor, atravessa diariamente a nado um rio na Índia para poder dar aulas numa localidade vizinha, mas mal servida de transportes. O ritual repete-se há 20 anos.
Abdul Mallik começou a dar aulas em 1992 em Malappuram, no estado de Kerala, no sul da Índia. A escola em que foi colocado ficava numa localidade a 12 quilómetros, separada por um rio. No início da carreira, o professor primário recorria ao serviço de autocarros, mas este revelou-se sempre pouco eficaz.
Abdul tinha de se levantar de madrugada, apanhar vários autocarros até chegar à escola. O percurso demorava em média três horas e, segundo relata, muitas vezes não conseguia entrar nos transportes por estarem cheios ou por serem suprimidos.
Fez contas à vida e concluiu que de sua casa ao rio demorava dez minutos a pé. Depois, era atravessar o rio e mais um quilómetro a pé a andar até à sua escola. E acabou mesmo por colocar este plano em prática.

Com o auxílio de uma câmara de ar de um pneu de automóvel velho, a lancheira com o almoço e um saco com roupa para se trocar após a travessia do rio, por sinal bem poluído, Abdul Mallik começou esta rotina diária há 20 anos. Por dedicação aos seus alunos.

Em entrevista a uma televisão local, divulgada nas redes sociais esta sexta-feira, explica que a sua decisão de atravessar diariamente o rio a nado não foi tomada por uma questão de poupança, mas sim pelo facto de a Índia ser um país com graves problemas de abandono escolar. Abdul conta que com o seu exemplo "quer dar mais motivação" aos alunos da AMLP School para prosseguirem os seus estudos. (JN – 16.Abr.2016)

terça-feira, 12 de abril de 2016

Morreu o ator Francisco Nicholson.


O ator, dramaturgo e argumentista Francisco Nicholson morreu hoje, aos 77 anos, em casa.
Francisco António de Vasconcelos Nicholson começou a fazer teatro aos 14 anos, no antigo Liceu Camões, sob a direcção do encenador e poeta António Manuel Couto Viana, a convite do qual veio a pertencer ao Grupo da Mocidade, que integrou com Rui Mendes, Morais e Castro, Catarina Avelar e Mário Pereira, entre outros.
Foi autor e ator da primeira telenovela portuguesa Vila Faia, na qual contracenou ao lado de atores como Nicolau Breyner, recentemente falecido, Margarida Carpinteiro e Manuela Marle, entre outros.
Estudou em Paris, frequentando a Academia Charles Dullin, do Théatre Nacional Populaire, privando com grandes nomes do teatro francês, como Jean Vilar, Georges Wilson, Gerard Philipe.
"Ficará na história como um grande autor"
O humorista e ator Herman José manifestou hoje uma "profunda admiração" pelo trabalho realizado pelo seu "grande amigo" Francisco Nicholson.
"Era uma pessoa de quem gostava especialmente, tivemos um encontro mágico em 1978, numa peça dele com a Ivone Silva, e ficámos muito, muito amigos", lembrou à agência Lusa Herman José, contando que eram vizinhos em Azeitão.
"Há uma grande tristeza, mas ao mesmo tempo uma profunda admiração por ter conseguido tanto em quase oito décadas de vida", disse, convicto de que Francisco Nicholson "ficará na história como um grande autor, muito mais do que ator".
O humorista recordou também o "ótimo letrista de cantigas", que escreveu "imensos êxitos musicais ligeiros", que ainda permanecem na memória dos portugueses.
Uma das melhores memórias que guarda do seu amigo é quando fez recentemente o programa "Há tarde". "Já muito doente e com uma grande dificuldade de locomoção nunca disse que não a um convite. Esteve sempre presente quase como rindo-se das suas próprias incapacidades", lembrou.
Por outro lado, foi "um sobrevivente" na doença: "Como é que um duplo transplantado de fígado consegue viver até aos 77 anos? É uma coisa histórica".
"Um enorme lutador"
A direção da Casa do Artista lamentou hoje a morte do ator Francisco Nicholson, considerando que além de um grande homem do teatro, da televisão e das novelas era "um grande ser humano e um enorme lutador".
A assessora da direção da Casa do Artista lembrou que Francisco Nicholson foi um "dos fundadores" da instituição, juntamente com Armando Cortez, Manuela Maria, Raul Solnado.
Consternado pela morte do amigo "de há muitos anos", Conceição Carvalho lembrou que Francisco Nicholson foi "um enorme lutador e um homem de causas".
"O Francisco era um grande homem de teatro, de telenovelas, de televisão. Era um grande homem de cena", frisou.
Francisco Nicholson encontrava-se doente devido a complicações resultantes de um transplante hepático a que fora submetido há uns anos, referiu.
"Falei com ele há duas semanas e ele encontrava-se bastante cansado. Estava a entregar os pontos", disse.
O autor de Vila Faia
O ator e argumentista Tozé Martinho lembra que este "foi uma pessoa muito importante na história das telenovelas" em Portugal.
"Foi o autor da primeira novela (portuguesa) de grande impacto", disse à agência Lusa Tozé Martinho, aludindo à telenovela "Vila Faia", em que Francisco Nicholson, além de autor, desempenhou o papel de polícia, ao lado de atores como Nicolau Breyner, recentemente falecido, Margarida Carpinteiro e Manuela Marle, entre outros.
Tozé Martinho disse ser "com desgosto e pena" que vê partir Francisco Nicholson, "um grande amigo" e uma pessoa que "prezava muito".
"Um tipo fascinante"
O jornalista e escritor Mário Zambujal considera que se perdeu um homem do teatro que tinha uma capacidade "insubstituível".
"Era uma pessoa rara, de uma grande educação, de um talento enorme, com muito sentido de humor e muita graça", disse à Lusa Mário Zambujal.
Lamentando a morte do ator e argumentista de quem era amigo, Mário Zambujal lembrou que Francisco Nicholson era um homem "cheio de talento", que fez coisas "muito interessantes também no teatro musical" e que era "muito respeitado" por todos com quem trabalhou.
"Um homem multifacetado e de muitos talentos"
O ator e encenador Rui Mendes mostrou-se hoje consternado com a morte de Francisco Nicholson, um homem "multifacetado, com muitos talentos" e seu "grande amigo e companheiro de teatro" desde os bancos do Liceu Camões, em Lisboa.
"Era um homem multifacetado e tinha muitos talentos. Era um grande amigo, foi o meu companheiro de teatro, desde sempre, desde os bancos do liceu. Andamos no Liceu Camões, fomos companheiros de turma e foi aí que começamos a fazer teatro", disse Rui Mendes, à agência Lusa, acrescentando que ambos se estrearam no teatro profissional nos anos 50.
O ator explicou que Francisco Nicholson estava doente há "bastantes anos", mas que o seu estado de saúde se agravou nos últimos tempos.
"Considero que o Francisco Nicholson deve ter sido das pessoas que melhores telenovelas escreveram neste país durante uma certa época, pelo menos, as primeiras novelas", sublinhou Rui Mendes.
"Grande ator e escritor"
O cantor António Calvário lamentou hoje a morte de Francisco Nicholson, considerando-o um "grande ator e escritor" que se completava em tudo o que fazia.
"Por toda a convivência que tivemos, por tudo aquilo que foi como grande ator e escritor, quase que não tenho palavras para descrever uma pessoa tão completa", disse à agência Lusa o cantor, acrescentando que Francisco Nicholson era "um grande amigo" e "um belíssimo companheiro".
O cantor destacou também que Francisco Nicholson foi o autor da canção Oração que interpretou no primeiro festival da canção de 1964 e que obteve o primeiro lugar.
"Uma canção que atravessa todos estes tempos como um símbolo da primeira representação de Portugal na Eurovisão", afirmou. (DN – 12.Abr.2016)

quarta-feira, 30 de março de 2016

Tráfico humano: uma menina, a realidade de milhões.



Lakshmi tinha 13 anos quando foi levada da sua aldeia nos Himalaias, com a promessa de um bom trabalho na casa de uma família indiana. Ao chegar a Calcutá, o cenário que encontrou era tudo menos o que lhe foi prometido a si e à sua família: viu-se confinada às quatro paredes de um quarto da Hapinness House, um bordel onde foi brutalizada durante anos a fio sem escapatória possível. A história de Lakshmi não é real, mas representa em muito as histórias dos milhões de meninas que todos os anos são raptadas para tráfico sexual. “Sold” é o filme que lhes dá voz e que promete pôr o mundo a pensar sobre o drama do tráfico humano.
Já há uns meses escrevi aqui sobre a hedionda realidade das “Escravas do Poder”, revelada em livro pela escritora, ativista e investigadora mexicana, Lydia Cacho. As ligações tentaculares do tráfico humano parecem estender-se a um sem fim de indústrias, desde o turismo à pornografia, contrabando, venda de órgãos e terrorismo. Um tipo de crime que atravessa o mundo inteiro, totalmente impune, invisível aos cidadãos e ignorado por políticos que fingem não ver. Ou que dependem desta grande rede para manter a sua vida de ostentação. “Sold” conta tudo isso.
Falar deste tema é essencial. Ao contrário do que muitos pensam, a escravatura continua a ser um problema dos nossos tempos. Os números não mentem: mais de vinte milhões de pessoas sofrem atualmente nas malhas do tráfico de seres humanos, sendo que o trabalho forçado e a escravidão sexual são dois dos maiores destinos de quem é raptado. No segundo caso, mais de 2 milhões de crianças fazem parte do rol de vítimas. E em mais de 98% das situações de tráfico sexual, as meninas e as mulheres são os alvos escolhidos.
CERCA DE 500 DÓLARES POR CRIANÇA
Há quase um ano, aquando do terramoto que assolou o Nepal, as autoridades competentes lançaram um alerta global para a necessidade de ação célere para evitar raptos massivos de crianças no país. Estima-se que todos os anos cerca de 15 mil meninas e adolescentes sejam levadas, com destino aos bordéis indianos. No Nepal, por cada criança estima-se que um traficante receba cerca de quinhentos dólares. Um crime abominável transformado em negócio para muitos dos que vivem em países subdesenvolvidos.
Lakshmi não é uma menina real, mas a sua personagem e todas as suas vivências ao longo do filme foram criadas com a ajuda de ONG’s que se dedicam precisamente a esta área de trabalho. Os relatos das inúmeras vítimas resgatadas da teia do tráfico humano serviram de inspiração para o enredo, que conta ainda com a inclusão da história real de Lisa Kristine (interpretada por Gillian Anderson), uma famosa fotógrafa que tem dedicado a sua carreira a abordar temas fraturantes como a escravidão dos tempos modernos
Baseado no livro de Patricia McCormick com o mesmo nome, o filme é realizado por Jeffrey D. Brown e conta com nomes como Emma Thompson – eterna voz ativa na luta pelos direitos das mulheres - na produção. Parte das receitas vão ser direcionadas para organizações que se dedicam a resgatar, reabilitar e devolver à vida vítimas de tráfico humano na Índia e no Nepal.

Já com alguns grandes prémios na bagagem, “Sold” chega às salas de cinema em abril e é um daqueles filmes que todos nós deveríamos ver. Não pela bizarria da história, mas sim pelo alerta que ela transmite focando a realidade vivida por tantas crianças mundo fora. A forma como uma vida pode não ter valor algum e a simplicidade com que se ludibria alguém que vive na pobreza. Factor que – como diria Lydia Cacho - “é não só um campo fértil, como o motor de sementeira de escravas e escravos no mundo.”

Expresso.sapo.pt – 29.Mar.2016

terça-feira, 15 de março de 2016

Nicolau Breyner.


João Nicolau de Melo Breyner Lopes (* Serpa, 30 de julho de 1940 - † Lisboa, 14 de Março de 2016) foi um actor e realizador português.
Filho de Nicolau Moreira Lopes (1915 - 1965) e de Augusta Pereira da Silva de Melo Breyner Pereira (1920 - 23 de Maio de 2003), trineta do General Francisco José de Araújo de Lacerda Teixeira de Brito e 5.ª neta com duas bastardias do 3.º Senhor de Ficalho e da 1.ª Condessa de Ficalho.
É primo da escritora Sophia de Mello Breyner Andresen.
Foi casado primeira vez com Mafalda Maria de Alpoim Vieira Barbosa (12 de Dezembro de 1947), irmã de Carlos Barbosa, de quem se divorciou e de quem foi primeiro marido, sem geração.
Começou namoro com a atriz Sofia Sá da Bandeira em 1993, tendo sido casados entre 1996 e 2001, de quem foi segundo marido e de quem se divorciou, sem geração.
Viveu com Cláudia Fidalgo Ramos, filha do realizador e encenador Artur Ramos, mãe das suas duas filhas Mariana e Constança Fidalgo Ramos de Melo Breyner Lopes.
É casado, desde 24 de Junho de 2006, com Mafalda Gomes de Amorim Bessa, de quem é terceiro marido, sem geração.
Depois da infância em Serpa, no seio de uma família de proprietários agrícolas, mudou-se para Lisboa com os pais Sophie de Mello Breyner Estudou canto e integrou o coro da Juventude Musical Portuguesa, enquanto estudava no Liceu Camões. Depois, ingressou na Faculdade de Direito, com a ambição de se tornar diplomata. Depressa desistiu de Direito, optando por se diplomar no Conservatório Nacional, primeiro no curso de Canto e depois no de Teatro.
A sua estreia como ator dá-se quando ainda frequentava o Conservatório. Sob a direção de Ribeirinho, entra na peça Leonor Telles, de Marcelino Mesquita, levada à cena pelo Teatro Nacional Popular, que ocupava então o Teatro da Trindade. Seria no entanto pela interpretação de papéis cómicos, junto de Laura Alves, que se tornaria conhecido do grande público, revelando-se um dos mais bem sucedidos atores da sua geração. Em 2005 regressou ao teatro para interpretar o monólogo Esta Noite Choveu Prata, dePedro Bloch, produzido por Sérgio de Azevedo.
Após o 25 de abril de 1974 concebeu o seu primeiro programa televisivo, Nicolau no País das Maravilhas. Este programa tinha uma rábula chamada Senhor feliz e senhor contente, onde Nicolau lançaria um jovem alemão aspirante a humorista, Herman José. Em princípios da década de 1980 surge como ator e, simultaneamente, diretor de atores e co-autor do guião da primeira novela portuguesa, Vila Faia (1982). Segue-se a fundação da NBP Produções, hoje Plural Entertainment, a sua própria produtora de televisão, onde será administrador, produtor e realizador; atividades que fazem dele um verdadeiro precursor da indústria de ficção televisiva em Portugal.
Sem deixar a representação, concebeu as sitcoms Eu Show Nico e Euronico; e participou como ator noutras tantas (Gente Fina é Outra Coisa; Nico D'Obra; Reformado e Mal Pago; Santos da Casa; Aqui não Há Quem Viva); além de diversas séries (O Espelho dos Acácios; Verão Quente; Conde D'Abranhos; A Ferreirinha; João Semana; Quando os Lobos Uivam, Pedro e Inês, Equador, Morangos com Açúcar, Barcelona, Cidade Neutral, Família Açoreana) e novelas (Fúria de Viver, Vingança, Flor do Mar, Meu Amor, Louco Amor, Jardins Proibidos, O Beijo do Escorpião).
Ao longo da sua carreira somou quase 50 participações no cinema, em filmes de cineastas de diversas gerações, como Augusto Fraga, Perdigão Queiroga, Henrique Campos, José Ernesto de Souza, Herlander Peyroteo, Artur Semedo, Luís Galvão Teles,Fernando Lopes, Jorge Paixão da Costa, António Pedro Vasconcelos, Roberto Faenza, Joaquim Leitão, Leonel Vieira, Mário Barroso, João Botelho e Bille August. Uma das suas participações mais recentes é o filme Comboio Noturno Para Lisboa, adaptação do livro homónimo de Pascal Mercier, e que estreou em 2013. Pelas suas prestações no grande ecrã recebeu três Globos de Ouro para Melhor Ator, com Kiss Me (2004), O Milagre Segundo Salomé (2004) e Os Imortais (2003).

Morreu a 14 de Março de 2016 após ataque cardíaco.